O que os rankings de universidades significam?

Ao ler essa matéria eu fiquei me perguntando o que significa para uma universidade brasileira estar entre as 800 melhores do globo, se é que isso significa alguma coisa. Se olharmos para o top 10, bate aquela pontinha de inveja. No Facebook fiz uma comparação rasteira, mas que creio ilustrar um pouco a distância: é como se jogássemos na várzea do campeonato mundial das universidades, e o top 20 ou 30 fosse a Champions League. A comparação vale por um prognóstico: provavelmente jamais chegaremos lá. Isso pode ser desanimador por um lado ou um choque de realidade por outro. De qualquer forma, há algo aí sobre o qual deveríamos refletir: o que queremos da nossa universidade?

Toda universidade, pelo menos as brasileiras, está organizada em três eixos: a) ensino: formação de mão-de-obra de nível superior; b) pesquisa: inovação e criação de conhecimento; c) extensão: ações que façam com que a pesquisa chegue à comunidade, ou que façam com que a qualidade de vida, trabalho e produtividade nas comunidades melhore. Tendo em mente isso, é possível exercer essas três atividades no mesmo nível que Harvard ou MIT o fazem? No Brasil é impossível. Espera-se que os professores atuem nas três esferas, e na minha modesta opinião não dá pra fazer as três coisas com excelência. Portanto, as universidades deveriam concentrar atenção na sua vocação. Instituições com potencial para pesquisa deveriam ser centros formadores de pesquisadores; Instituições com estrutura e potencial para o ensino deveriam ser formadores de mão-de-obra. Na prática é isso o que acontece, mas elas são avaliadas pelos mesmos critérios.

Dois exemplos. Nas universidades brasileiras a tendência é termos sempre mais alunos de graduação do que de pós-graduação. Na Unicamp, havia 18.338 alunos matriculados em cursos de graduação, e 11.404 na pós. Na UFRGS é similar, eram 29.212 matriculados na graduação, e 10.885 na pós – contando apenas doutorandos e mestrandos; dados de 2013. No MIT, a situação é inversa. São 4.528 alunos de graduação, contra 6.773 alunos de pós. Na Universidade de Chicago, 11ª nesse ranking, a diferença é o dobro entre os dois níveis: 5.134 graduandos e 9.820 pós-graduandos. O que esses dados nos mostram? Mesmo instituições como a Unicamp, cuja missão é fazer pesquisa de ponta, concentram muita energia na formação de mão-de-obra (apesar de o número de pós-graduandos ser de pouco mais da metade dos graduandos).

De acordo com a matéria “A metodologia de pesquisa considera a reputação da universidade na visão dos estudantes e dos empregados; a estrutura da instituição, incluindo a média de estudantes por professor; as citações em trabalhos de pesquisa e a presença de alunos e colaboradores internacionais.” Se considerarmos o primeiro critério, ainda que se escute muito aluno reclamando do corpo docente e funcional da universidade, a gente se salva. Mas no restante tomamos de goleada (aproveitando a metáfora, risos). As turmas são sempre numerosas. Embora eu acredite que, tirando as universidades do top 20 e mesmo em alguns cursos delas, as outras devem ter turmas grandes em alguns cursos também como nas brasileiras. Nos outros quesitos é que a diferença se agrava. E por uma série de motivos.

Tomando o caso da linguística como exemplar. Primeiro, escrevemos em português. Com sorte, os colegas lusófonos do outro lado do atlântico nos lerão. Segundo, quantas teses de brasileiros viraram referência mundial na área ou no tema estudado? Melhor deixar quieto, né? Isso tem impacto em citações. Como a pesquisa que produzimos aqui não circula para fora (mal circula aqui dentro) ela não produz impacto. Logo, a nossa capacidade de atrair estrangeiros fica limitada. O que atrai alunos estrangeiros é a excelência em determinando campo e a presença de pesquisadores de peso. E só se vira um pesquisador de peso com tempo para pesquisa, orientação de projetos, publicação em periódicos importantes da área, e assim por diante. Quantos brasileiros possuem artigos publicados na Linguistics and Philosophy ou no Journal of Semantics, dois periódicos importantes de Semântica Formal? Quantos brasileiros possuem artigos publicados no Natural Language and Linguistic Theory ou no Linguistic Inquiry, dois periódicos importantes da área de linguística formal? Provavelmente não consigamos encher duas mãos com nomes de linguistas. Claro, a linguística é um caso à parte. Talvez na biologia ou na física as coisas sejam diferentes. Embora eu tema que não muito.

Fala-se em internacionalização das instituições nacionais. O que isso quer dizer exatamente? Intercâmbio com outras instituições? Divulgação no exterior dos nossos estudos? Atração de estudantes e pesquisadores estrangeiros? Acho louvável que se aspire a isso. Só não acredito que viveremos para ver.

Perde-se muito tempo com discussões bobas e burocracia. Temos problemas graves de infraestrutura. As verbas são extremamente limitadas e mal utilizadas. Áreas com práticas diferentes de pesquisa são avaliadas pelos mesmos critérios. E tanto um professor dador de aula quanto um pesquisador serão avaliados como iguais. Um professor de ensino superior deveria poder escolher entre ser um ‘professor’ integralmente ou ser um pesquisador integralmente e um professor de vez em quando. Mas não é isso o que acontece. Desvaloriza-se quem dá muitas aulas e não escreve, e sobrevalorizamos quem dá poucas aulas e escreve muito (excluindo da conta os que não fazem nem uma coisa nem outra). Aí é que volta a cena o problema da vocação das nossas universidades. É incompatível uma universidade gigantesca, com muitos alunos de graduação, com a atividade de pesquisa. A administração do cotidiano tira professores de sala de aula e sobrecarrega outros.

Nesse sentido, deveríamos ser comparados com outras universidades grandes do globo que tenham a mesma estrutura e vocação que as nossas, ou seja, instituições cuja missão principal seja a formação de mão-de-obra e secundariamente a pesquisa. A Universidade de Illinois tem 32.281 alunos de graduação e 12.239 alunos de pós e é a 63ª (A Unicamp é a 206ª, pra comparação). Note-se que agora a diferença já não é tão absurda. Portanto, não deveríamos nos comparar com Cambridge, Harvard ou a Sorbonne, e sim com outras instituições com objetivos e foco similares. Quem sabe assim não tomemos de 7×1.

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Escreva, Luisandro, escreva

Matei o outro blogue que eu havia criado, o “um conto por semana”. Fi-lo com o objetivo de disciplinar a minha escrita, pelo menos no sentido de escrever com regularidade, e se for diariamente, melhor.

Acabei de ler o “A preparação do romance, vol. II” de R. Barthes. Li, ainda o estou deglutindo, e provavelmente voltarei a ele em algum momento, porque não fiz anotações. Simplesmente fui “devorando” o livro. A ideia toda desse volume e do anterior é a proposta da escrita de um romance, e a partir disso Barthes se propõe a comentar o que os escritores dizem sobre essa tarefa. Muita gente quer escrever, mas poucos conseguem levar a cabo o trabalho. O que há de especial naqueles que conseguem. Eu diria que além de talento, é a disciplina. Como o jogador de futebol que se acha bom de bola e não treina. Talvez ele seja um best-seller (daqueles de encher estádio), mas não vai entrar pra história como gênio, certamente. Para o escritor, a disciplina envolve a dedicação, o pensamento focado, e por vezes a abnegação, deixar de lado as coisas mundanas (o trato com as coisas do cotidiano) a favor da literatura. Ele cita Kafka, Flaubert, Balzac, entre outros, que quando não estavam escrevendo, só sabiam pensar nisso, como uma espécie de obsessão. O que pra mim só revela esse mágica que há por detrás da escrita literária, o sujeito se apaixonar por um personagem e querer investigá-lo. Pelo menos é o que eu tenho em mente enquanto escrevo. Alguns querem imitar Joyce ou Guimarães Rosa. Eu prefiro imitar Machado, embora o texto, a palavra seja importante pra mim também, embora só depois que comecei a oficina do Assis Brasil eu tenha começado a ser mais cuidadoso com o texto.

Enfim, o fato é que consegui escrever uma novela de 137 páginas, e uma coletânea de contos de 90 em seis meses, e acho que vou juntar mais 100 páginas de contos até o final do ano, ao mesmo tempo em que estou planejando uma novela que pretendo escrever no mês de janeiro do próximo ano. Além disso, no primeiro semestre, traduzi umas 200 páginas. Cento e poucas delas do Science of Language, uma entrevista que o James McGilvray fez com Noam Chomsky sobre vários temas ligados a linguagem e neurociência, que vai sair pela editora da UNESP – a tradução é em conjunto com meus colegas de UFRGS, Gabriel Othero e Sérgio Menuzzi. Ou seja, acho que escrevi um bocado esse ano (até agora, pelo menos).

Chega de prestar concurso

Sei que o blogue ficou meio de lado no último mês e pretendo voltar à velha rotina durante o mês de julho. Muitas mudanças no mês passado, junho, mudança de casa, de cidade, de instituição, e as adaptações necessárias a essa nova realidade. Gosto de desafios, e se estou aqui hoje é porque sempre corri atrás dos meus objetivos. Não esperava estar em uma universidade federal antes dos 35 anos, o que felizmente aconteceu, faço 31 dia 16 de julho.

Prestar um concurso público é sempre complicado e para professor adjunto é ainda mais. São várias etapas que precisam ser cumpridas e é importante se sair bem em todas. Quem passa em 1. é sempre aquele que consegue se sair bem em todos os quesitos: prova teórica e didática, entrevista/defesa de projeto e/ou produção intelectual e currículo. Claro, o componente da sorte, ou do acaso, não é negligenciável. Sortear um ponto que você domina com mais segurança é fundamental, embora quem se arrisca a prestar um concurso desse nível (em geral requere-se  doutorado) deve estar preparado para escrever ou dar uma aula sobre qualquer um dos temas propostos pela banca.

Ao longo dos últimos três anos prestei uma série de concursos. Na Unioeste (Cascavel, PR) em 2009, fiquei em terceiro porque fui muito mal na prova didática, mesmo tendo ido bem na prova escrita, posteriormente percebi os erros que havia cometido na organização didática da aula; na FURG (Rio Grande, RS), também em 2009, não fui aprovado na prova escrita, não havia me preparado bem e os pontos eram na sua maioria sobre texto, área em que possuo apenas um conhecimento básico; ainda em 2009 prestei o concurso da UFFS (Chapecó, SC), universidade que estava sendo criada naquele momento. Havia um batalhão de inscritos e a prova foi objetiva, mal estudei pro concurso e por muito pouco não passei para a prova didática. Não entendi porque recebi uma nota tão baixa na dissertação, mesmo tendo ido bem na prova objetiva, mas enfim, vai ver que foi para o melhor.

Eu estava concluindo o meu doutorado naqueles idos de 2009, portanto não pude me dedicar como deveria aos concursos. O que é só uma justificativa para o meu despreparo e incompetência naquele momento. Prestei uma seleção naquele final de ano, para professor substituto na UFSC, fiquei em terceiro, o que novamente contribuiu para que tudo desse certo. Em fevereiro de 2010 prestei teste seletivo na FAFIUV, e fiquei em segundo, novamente um fato bom, já conto porque. Aconteceu que eu defendi minha tese no dia 1. de março de 2010, no mesmo dia a UFSC me liga oferecendo aulas como substituto, fruto daquela seleção em que eu havia ficado em terceiro (os dois primeiros colocados daquela seleção passaram no concurso da UFFS e foram chamados). Como eu estava preocupado com o meu futuro depois da defesa do doutorado eu pedi bolsa de pós-doutorado júnior no CNPq e na Fapesp, para passar um ano na USP. Consegui a bolsa pelo CNPq, mas abdiquei dela para lecionar, o que se revelou uma decisão acertada, já que a experiência foi fundamental depois. Durante o primeiro semestre desse ano fiquei na UFSC, lecionei Morfologia e Produção Textual. No começo de julho me ligam da FAFIUV me oferecendo aulas, em função daquela seleção de que participei em fevereiro. Fui, pois estaria na minha cidade, União da Vitória, perto da namorada, da família e dos amigos, além da certeza de que pelo menos nos próximos dois anos eu estaria empregado, poderia trabalhar no curso de letras e ainda havia a possibilidade da instituição abrir concurso. Ainda no primeiro semestre de 2010 eu prestei concurso na UFPR. Fui um concurso bastante cansativo e disputado. Fiz uma boa prova escrita, fui bem na entrevista, e não tive sorte na prova didática. Sorteei um ponto de fonologia, e essa é também uma área que domino apenas o básico. Dei uma aula nota 7 e uns trocos, e no final das contas fiquei em terceiro, porque empatei na média geral com uma candidata, que tinha ido melhor na prova escrita, e esse era o primeiro critério de desempate. Essa experiência foi importante, pois dali tirei lições que me ajudaram nos concursos seguintes, principalmente, estudar mais os temas que eu não dominava com profundidade, entre eles fonética e fonologia.

Sai o edital do concurso da FAFIUV em meados de agosto de 2010. Prestei o concurso e fui bem em todas as etapas, mesmo tendo pouca experiência de sala de aula, e fiquei em primeiro. Sorteei novamente fonologia na prova didática, e dessa vez eu fui bem. Foi uma sensação boa, e finalmente a segurança. Em junho de 2011 sai o edital convocando para os exames médicos. E a nomeação? Nada, já estávamos no final de 2011 e eu ainda não havia sido nomeado, ninguém que prestou aquele concurso havia. Surge o edital da UFRGS, e bastante específico, em sintaxe e semântica, minhas áreas de especialidade. Pensei bastante, eu estava feliz na FAFIUV, mas estava de saco cheio com o descaso do governo do Paraná com a faculdade, a falta de recursos, o eterno bla-bla-blá, do discurso do ‘já foi pior’, e a contra-gosto da minha esposa, nesse meio tempo eu casei no civil, em julho. Vai que você passa? Ela me dizia. E estranhamente eu sentia a sensação de que eu iria passar.

Quando surge o edital com a homologação das inscrições, dos 16 nomes inscritos vejo vários nomes de talentosos jovens linguistas da minha geração e isso me deixou preocupado. Será que valeria a pena despender tempo, dinheiro e esforço para prestar um concurso que seria certamente disputado e com pessoas que eu julgava que tinham mais chances que eu? Conversando com amigos todos me disseram que eu deveria prestar o concurso, pois eu tinha chance. Desta vez foquei nos temas em que eu pouco tinha familiaridade, comprei vários livros, li artigos, formulei textos para os pontos. Pouco ou quase nada li dos pontos da minha área, embora eu tenha preparado material para dar uma aula sobre o assunto, ou escrever um ensaio sobre qualquer tema que fosse. Aconteceu que dos 16 inscritos 10 apareceram, dos candidatos que eu conhecia e que julgava serem bons concorrentes  alguns não apareceram. Fui muito bem na prova escrita, fui bem também na apresentação do projeto e sorteei um tema para a prova didática que não era da minha especialidade, sintaxe funcional. No final das contas, ninguém sorteou o tema da sua especialidade, o que foi uma coisa boa. E esse tema foi justamente a área que eu mais tinha estudado. Na contagem das notas finais fiquei com a melhor média, embora na nota do currículo o meu era o 3, o que me deixou frustrado naquele instante, mas depois que as notas foram sendo abertas vi que a minha média era a mais alta. Ter sido o melhor na prova escrita foi fundamental. Acontece que justamente uma semana antes do concurso, que iria acontecer no dia 13 de março, é publicado o edital do estado nomeando os aprovados no concurso de 2010. Claro que assinei a nomeação. E assim estava eu, aprovado em dois concursos, nomeado em um. No final do concurso me disseram que provavelmente eu seria chamado para começar em agosto. Fui surpreendido com a nomeação no dia 31 de maio, em plena lua de mel. Eu havia casado no religioso no dia 28 de maio. Eu tinha 30 dias para tomar posse. E isso envolvia fazer uma série de exames, vir a Porto Alegre para passar pela junta médica e tomar posse, além de encerrar minhas atividades na FAFIUV, com o semestre andando, bem como assumir, por outro lado, turmas com o semestre já no seu final aqui na UFRGS. Foi um mês bem extenuante.

No próximo post volto a falar de linguagem, prometo.

Hiato na atualização do blogue

Oi, pessoal. O blogue andou meio paralisado nas últimas semanas porque eu estava me preparando para prestar um concurso público. O concurso ocorreu nessa semana e fui aprovado. Se tudo correr bem, devo ser contratado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul pela metade do ano pra começar a dar aulas no segundo semestre. Concursos públicos para professor adjunto sempre envolvem muitas etapas, a gente precisa estudar coisas que normalmente não estuda e que também normalmente não ensina. Tudo correu bem e, consideradas as quatro etapas, prova escrita, avaliação de títulos, defesa da produção intelectual e prova didática, fui o melhor classificado. Agora é um novo desafio que começa. Trabalhar em uma grande universidade foi um sonho recente. Quando se está na graduação, fazer um mestrado ou doutorado são sonhos longínquos, de tão distantes e irreais. De repente a gente se vê defendendo o mestrado, entrando para um doutorado, indo para o exterior fazer um estágio e quando vê está defendo uma tese. Não sei se sou um bom linguista (possivelmente apenas mediano), muito menos um bom professor (eu me esforço), mas a minha contribuição para os estudos sobre o português e em semântica de um modo geral é a comunidade acadêmica quem decide.