Dilma: craque ou perna-de-pau?

Um dos predicados da Dilma era não ser um político. Ao passo que sempre foi tida como boa administradora. Agora todos querem que ela faça política, lamba o saco de aliados, dê telefonemas pedindo desculpas ao Temer toda vez que ele ficar magoadinho por alguma coisa. Claro que adversários se apegarão a qualquer coisa para a criticarem. Seja sua dificuldade para falar em público de improviso ou sua falta de habilidade para lidar com o congresso e o senado. Ela não governa mais, dizem (quem diz tem autoridade para o dizer?). E em que sentido é esse “governar”? Fazer com que o congresso aprove tudo o que o planalto desejar? Sei não. De qualquer forma, se a comparação vale, pelo menos como ilustração: será que não contratamos um volante de contenção, enquanto o que se espera que ela faça é armar o time?

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Eu queria ter certeza

Acho que a vida seria muito mais prática e cômoda se eu fosse capaz de me mover nela guardando comigo um punhado de certezas. Durante algum tempo eu tive um punhado delas sempre prontas em caso de precisão. Eu era religioso, votava no PSDB, era machista, e acima de tudo não pensava em muita coisa além do problema fundamental quando se tem dezesseis anos: aonde iríamos beber no final de semana. Como era tão tímido quanto um magrelo desengonçado poderia ser, a probabilidade de eu conseguir ficar com uma garota naqueles tempos era tão pequena quanto Romário e Edmundo jogarem juntos no mesmo time (o Flamengo tentou em 1995, não deu certo). Mas esse tempo passou, e aprendi que muitas coisas nas quais eu acreditava não funcionavam exatamente daquele jeito. E acho que desde então tenho virado mais e mais cético. E isso é chato pra burro às vezes; às vezes é legal, minhas divergências sempre acabam gerando algum tumulto em jantares com amigos e almoços familiares.

Eu gostaria de ter certeza de que os americanos são os grandes vilões do mundo. É a CIA que está orquestrando um golpe apoiando a direita na Venezuela, cuja esquerda é uma pobre coitada que não consegue se defender disso e parece ficar alucinada gritando para o mundo, “ei, vejam o que esses malvados estão fazendo, por favor, digam para eles nos deixarem em paz!”, mas eu não tenho essas certezas. Talvez Maduro seja um cara bem intencionado que, infelizmente, não tem a mínima noção de como administrar um país; talvez a oposição (ou a direita fascista golpista) queira mesmo dar um golpe porque está de saco cheio de ver seu país administrado por uma política demagógica. Mas sei, lá, confesso que não entendo nada de Venezuela, e as coisas que leio só fazem jogar incenso num ou noutro lado. O mesmo vale para a Ucrânia, para a Síria (e para o Oriente Médio em geral). Alguém poderia fazer o favor de contar pra gente o que de fato está acontecendo lá? Imagina se o Obama vem a público e diz que não está nem aí pra Venezuela, e que por ele eles que se explodam? Claro que isso não vai acontecer, o que pode ser um indício de que os americanos talvez estejam mesmo por detrás das manifestações da oposição. Só que isso me leva a pensar o seguinte: olha só, dizer que os americanos estão manipulando a direita não é uma forma de menosprezar a oposição venezuelana? Uma forma de dizer: ei, olha, esses caras são tão imbecis que precisam que alguém lhes diga que bandeiras devem levantar. Os americanos não fazem nada sozinhos, e se eles usam republiquetas de banana como fantoches a culpa é de quem? Dos fantoches que se deixam usar ou dos agentes americanos que gostam de brincar com governos frágeis? Não sei, não tenho certeza.

Eu também gostaria de ter a certeza dos Black-Blocs, a paixão com que saem destruindo tudo que veem pela frente. Às vezes eu os entendo, porque em 2006 (ou 2007?) me meti em algumas manifestações em Florianópolis, uma contra a passagem de ônibus, e outra com o sindicato dos professores estaduais, e a sensação foi muito boa. Medo, por um lado, por ver policiais vestidos de preto, loucos para apertar o botão de início do caos (quando isso aconteceu eu fiquei longe do olho do furacão); e excitação, por outro, por estar, ilusoriamente, fazendo parte da história, fazendo parte da engrenagem que faz as coisas moverem-se adiante. Mas não tenho a certeza desses caras. Lutar contra a copa ou a favor do passe livre me parecem coisas irrealistas e bobas, soam apenas como escusas para que os jovens extravasem seus instintos rebeldes juvenis. Mas não tenho certeza disso também. Vai que eles estão certos, e que no final das contas nossos políticos percebam que não podem administrar o país à revelia dos seus cidadãos. Não foi a primeira vez que o Brasil tentou se candidatar pra sediar a copa, se não me engano, acho que tentamos outras vezes durantes os anos 90 (ou não?). Os clubes de futebol deveriam tomar a ocasião para modernizarem os seus estádios, mas o que a gente tem visto é o uso político do esporte (porra, Lula, que merda foi isso?). Na boa, me dê uma boa razão pra construir um estádio em Cuiabá e Manaus? Por que doze sedes e não oito ou dez? Mas sei lá, eu posso estar errado e a copa está sendo uma grande oportunidade para que os municípios sede façam obras de mobilidade urbana que de outra forma não teriam sido possíveis (as outras treze capitais que não vão receber jogos não terão investimentos federais em mobilidade?). E por falar nisso, quem é que compra esse papinho de ‘o gigante acordou’? Sério mesmo? Indígenas que lutam todos os dias para terem de volta as terras que lhes foram roubadas; trabalhadores sem terra que lutam para poderem trabalhar dignamente fora do esquema do grande latifúndio; moradores sem teto que não tem onde dormir; funcionários públicos que são obrigados a trabalhar em condições precárias; trabalhadores que são explorados por seus patrões; esse povo todo e muitos outros movimentos sociais nunca deixaram de lutar pelo que acreditam. Acho que quem estava dormindo era a classe média branca que assiste novela do Manoel Carlos. Eu acho, né, vai que no fundo a gente estava dormindo mesmo, e porque os policiais desceram o cacete num bando de jovens protestando contra o aumento das tarifas nas capitais a gente achou que isso era a gota d’água, e já que o mensalão virou símbolo do que há de errado com a política nacional, então estava na hora de dizermos que estávamos de saco cheio disso tudo. Mas o que eu entendo dessas coisas? Nada, não entendo lhufas, queria entender mais, mas é complicado, não tenho tido mais saco pra ler as análises de gente que acha que tudo é culpa do PT, ou daqueles que acham que é tudo culpa do PSDB e da mídia golpista.

Eu queria ter certeza de quem é o melhor Beatle: Paul, ou George, ou Lennon? Mas não tenho. Gosto muito do Lennon, mas sei que o Paul e o George eram melhores músicos que ele. Só que como é que alguém pode não gostar do Lennon, e do Paul, e do George, ou até mesmo do Ringo? Eu queria ter certeza de que Bob Dylan é o melhor letrista que já passou pela crosta terrestre, mas daí eu escuto David Bowie e Chico Buarque, e Caetano, e Noel Rosa e penso que todos esses caras eram muito fodas e eu não preciso escolher UM. Uma das poucas certezas que tenho é de que Fernando Pessoa foi o maior poeta que já viveu.

Eu queria ter certeza de que Deus existe, mas não tenho; nem tenho de que ele NÃO existe. Acho que deve ser fácil, quando surge algum problema, a pessoa rezar, conversar com o cara lá de cima, ou com o santo favorito dela, e ficar desejando que as coisas melhorem. Como eu não tenho certeza de que tem alguém lá em cima eu apenas torço para que as coisas melhorem e tento fazer o possível pra que isso aconteça. Acho que pelo menos me livro de gastar um tempinho que poderia ser mais bem usado com outras coisas. Mas vai que o juízo final existe mesmo; vai que quando eu morrer eu tenha que acertar as contas com alguém lá em cima, o que eu vou dizer? Mas sei lá, na dúvida eu prefiro ficar na dúvida, prefiro viver sem pensar muito nisso. Mas me diz como a gente vive sem pensar nisso, pelo menos de vez em quanto, depois de ter passado vinte anos pensando que a religião tinha todas as respostas? Pois é, não sei.

Eu queria ter certeza de que a Dilma é uma boa presidente, às vezes tenho, às vezes não; também cogito que uma mudança seria bom, pra dar uma oxigenada nesse sistema já meio enferrujado, só que daí eu olho para as opções e já não tenho mais certeza.

Tem dias que eu gosto de Heineken, tem dias que eu gosto de Stela, e tem dias que eu bebo Budweiser, só pra dali a pouco pensar “cara, que cerveja de merda, por que eu paguei R$2,50 por esse suco de sabugo?” Pois, é, não sei. Você deve estar pensando “putz, que mané sem personalidade!” e talvez você tenha razão, mas no fundo não sei por que é que a gente precisa de uma personalidade; e se essa for a minha personalidade? Também não sei.

Vai que…

Aqui do meu sofá vou fazer um exercício de futurologia. É uma posição cômoda e quentinha, claro. Mas nada me impede de fazer isso. O que é uma coisa boa… Vai que esse fuzuê cresça para além dos objetivos do Movimento Passe Livre (MPL)  e vire algo similar ao maio de 68 na França?

Temos objetivos para além desse descontentamento difuso, pra usar uma expressão que eu li por aí? Temos de sobra, dirão alguns. Outros dirão que tudo está errado: educação, saúde, corrupção, cristão de toda sorte querendo legislar de acordo com suas crenças, a máquina estatal colocando cimento em todo lugar (nas cidades para construir estradas, nas matas para construir barragens e expulsando indígenas de suas terras), o machismo, ______ (adicione aqui a sua reclamação). A quem devemos dirigir nossas reclamações? Vamos reclamar por reclamar, só de birra?

Mas tudo isso soa muito abstrato para mim. Por exemplo: o que quer quem protesta contra a corrupção? Quais são suas propostas? O que de prático o governo federal poderia para satisfazer as exigências desse pessoal? Um exemplo concreto é o MPL, cuja agenda de luta não deixa dúvidas do que o movimento almeja: transporte público gratuito. Vá lá, é meio utópico, embora seja legítimo. Pelo menos alguém se movimenta para reclamar quando a tarifa aumenta, organiza manifestações etc.

Existe um movimento contra a corrupção com propostas concretas, pelo menos debatíveis e com apelo popular? Não sei se tem apelo popular, mas existe um Movimento Brasil contra a Corrupção (mbcc.com.br). Há algumas propostas elencadas no site, mas há um aviso legal que impede que qualquer coisa do site seja reproduzida (mesmo que a fonte seja citada), o que é bem esquisito, acho. Mas tudo bem. Quem quiser saber o que eles defendem visitem o site. Uma das pautas é o 10% do PIB pra educação e outros 10% para a saúde. O que não é uma pauta só deles (vários deputados também defendem isso).

Mas será que temos condições para que diferentes pautas sejam reunidas em um movimento único? Acho que não. Primeiro, acredito que depois que os governos municipais resolverem o problema dos aumentos das tarifas de ônibus as manifestações irão arrefecer. Segundo, agendas da direita (combate à corrupção tem toda a cara de ser pauta da direita) e agendas da esquerda são mutuamente excludentes em pontos fundamentais (enquanto conservadores são contra o aborto e não veem problema em legislar de acordo com suas crenças, a esquerda se opõe frontalmente a isso; para a esquerda políticas sociais são primordiais, para um conservador é assistencialismo e populismo). Em maio de 68 na França a situação era muito diferente. O movimento dos estudantes que pediam reformas educacionais logo se transformou em um movimento que reclamava por transformações mais profundas na sociedade francesa como um todo (o estado era opressor, a família e a igreja eram extremamente conservadoras, os trabalhadores exigiam melhores condições de trabalho etc.). Duvido muito que o movimento consiga adesão popular mais geral de sindicatos e outros movimentos sociais. Agredir a imprensa e quem carrega bandeiras de partidos não ajuda nada nisso. Corre-se o risco de se perder a simpatia da imprensa (que mudou o discurso da água para o vinho) e de termos confrontos entre os próprios manifestantes (o que já tem acontecido em São Paulo).

A esquerda e os movimentos sociais sempre estiveram acordados. Talvez os movimentos sindicais e sociais (MST, CUT etc.) tenham se aquietado um pouco nos últimos anos, em função de pactos feitos com o PT. Mas basta dar uma olhada nas notícias dos últimos seis meses do ano para ver quantas manifestações ocorreram nesse período: marcha das vadias, contra o estatuto do nascituro, marchas de ciclistas pedindo mais ciclovias, marcha pela legalização da maconha, marcha pelos direitos dos animais… e por aí afora. Praticamente toda semana tem uma marcha qualquer.

Sou cético quando a isso tudo virar algo maior, seja parecido com maio de 68, ou com a primavera árabe. Sobre o primeiro apontei acima as razões, sobre a comparação com o segundo movimento, fica claro que não temos um governo opressor. Por mais que fique clara a sensação de que os governantes se refestelam com o dinheiro enquanto o povo passa fome, não é o povo que passa fome que está reclamando do governo, é justamente a parcela bem alimentada da população que grita #foradilma e ataca as instituições com paus, pedras e coquetéis molotov. Ainda tem o problema da confusão dos poderes. Muita gente nem sabe a quem reclamar e acha que tudo é culpa da Dilma e do PT. Confundem os poderes. Transporte público é obrigação dos municípios. A PEC37 é um projeto do legislativo. Logo, a sociedade civil interessada deveria dirigir suas manifestações ao deputado autor do projeto e à comissão da câmara que analisa a proposta.

Se virar algo maior, suprapartidário, e não apartidário, ótimo, é sempre bom uma arejada nos ânimos de quem esteve um bom tempo dormindo. Se de fato conseguir mudanças na mentalidade do brasileiro que achava que o povo era ‘acomodado’, melhor ainda.