Nada é tão urgente assim

Fiquei duas semanas sem postar. Foram as duas primeiras semanas de confinamento. Acho que ninguém esperava que ele chegaria em algum momento. Víamos as notícias da China, da Itália, da Espanha e elas nos pareciam mensagens distantes de outro planeta. Tá ligado? Era, pelo menos, como eu me sentia. O semestre tinha iniciado, eu levava minha filha para a escola todos os dias, escrevia, lia, fazia compras para a semana… eu nem me liguei de comprar álcool em gel no momento em que se cogitou parar as atividades.

A forma despreocupada com que nosso governo deixava as pessoas entrarem no Brasil vindas de países com contágio hoje me dá a impressão de que não fizemos nada para conter a entrada do vírus aqui. Basta ver que os primeiros casos são de pessoas que vieram da Europa, Estados Unidos e Oriente Médio. Adiantou por em quarentena aquele pessoal que foi trazido da China? Não adiantou nada e agora o boi fugiu com as cordas, se eu estou me lembrando direito do ditado.

Mas o confinamento veio e a vontade de se apegar à rotina foi tão grande que me peguei pensando em formas de manter contato com os alunos durante esses dias, embora eu soubesse cá comigo que ele não seria de apenas 15 dias. Eu já tinha visto os gráficos da evolução da doença por aí e os cenários projetados eram terríveis (afinal, não somos alemães ou coreanos). Por que, afinal, querer dar aulas online, fazer reuniões… que urgência é essa? Na burocracia universitária os prazos continuam correndo como se estivesse tudo normal, e os editais estão se fechando, projetos precisam ser avaliados, artigos publicados, relatórios de pesquisa enviados… só parou a aula mesmo, no final das contas.

A escola da Gabriela, minha filha mais velha, de 6 anos, se apressou em enviar pequenas lições diárias. É um engodo. Quem é o pai que está conseguindo fazer seu filho sentar toda tarde e estudar como se fosse uma aula normal? EU não consigo. Fazemos na medida que conseguimos, o que significa que ela já está atrasada uns 4 dias no cronograma. Mas vá lá, é uma forma de dar um senso de normalidade pras crianças.

Entendo um pouco essas tentativas de manter a rotina e a normalidade, precisamos delas. Todo mundo gosta de folga e descanso, mas ficar muito tempo parado, ainda por cima trancado dentro de casa, nos faz mal. Precisamos se movimentar, ver os amigos, gastar dinheiro, comer fora e fazer essas coisas todas que dão um pouco de urgência e necessidade. Mas não dá pra fazer agora, e o desespero de uns comerciantes e pessoas para que se abra o comércio é um pouco por isso, afora o problema comercial óbvio.

Mas como disse o Átila Iamarino no Roda Viva da última segunda-feira, aquele mundo de janeiro não existe mais. Os shoppings podem até abrir. Quem é que vai se sentir seguro pra ir lá agora? Pode até abrir o Madero, mas você vai lá? Eu é que não. Pode até abrir a Havan, mas a compra de lençóis e toalhas pode esperar.

 

 

 

Impressões de leitura: O romance luminoso

Mario Levrero. O romance luminoso. Tradução de Antônio Xerxenesky. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

Comecei a ler esse romance por indicação do Daniel Galera na sua newsletter, dentesguardados [6] – para ele um dos melhores livros da última década. Como consegui uma cópia digital, não atinei para a dimensão física da obras: 648 páginas. Só me dei conta desse detalhe quando olhei o sumário e percebi que ele estava separado por meses e dias (quase os 365!) de todo um ano. E que além desse diário ainda tinha uma segunda parte, o romance em si. Pensei cá comigo: cara, que saco! 500 páginas desse maluco reclamando que tem que escrever um livro mas não escreve, que está com uma dor aqui, que sonhou com não sei o que lá, que ficou a madrugada baixando fotos de mulher pelada na internet, que ficou lutando com alguma esquisitice da programação do Word… que livro chato!

Esse era o Luisandro ali por volta das primeiras 30 páginas…

Mas por algum motivo eu não conseguia largar o livro. Ele me prendeu. Talvez pela qualidade da prosa. Uma prosa simples, direta, sem floreios ou grandes divagações sobre a vida. E se tem um negócio gostoso de ler é uma prosa assim.

(Não que eu não goste de divagações sobre a vida. Adoro Henry Miller. E tá aí um escritor que do nada começa a viajar e passa 20 páginas descrevendo uma súbita iluminação que teve enquanto tomava a décima dose de uísque no boteco com um maluco que conheceu há duas horas).

O tal do “Romance Luminoso” que o autor quer escrever aparece como vontade, como um desejo, uma obrigação que paira sobre ele. Mas Levrero, ou o seu personagem-autor-narrador não é um Bartleby que diz “prefiro não fazer”. Ele me parece querer fazer sim, mas só que está deixando para depois. Antes, precisa comprar uma poltrona nova, fazer ioga, configurar seu computador adequadamente, procurar pelos histórias de detetive para completar sua coleção, passear com a namorada e com as amigas, atender os alunos da sua oficina de escrita criativa… viver a sua vida, em suma.

O porém é que ele ganhou uma bolsa para concluir um romance que tinha iniciado anos antes, mas em vários momentos se pergunta se será capaz de concluir o projeto. Ele não me soa arrependido de ter pedido/ganhado a bolsa, pois poderia simplesmente devolvê-la, dizendo “não quero mais, não dou conta, não vou conseguir entregar o que prometi”. Não. O “Romance Luminoso” está como meta. E talvez seja isso um pouco que nos prenda na leitura do diário. A gente quer saber que horas esse cara vai começar a escrever o tal do romance luminoso, e o que há de “luminoso” nessa narrativa.

Nesse aspecto Alejandro Zambra, cita Clarice Lispector para interpretar o romance de Levrero: “digo o que tenho que dizer sem fazer literatura”, disse ela no conto Onde estivestes de noite. E é essencialmente isso que acontece no “romance”. Temos nesse livro o diário de um escritor de 60 anos que escreve sobre seus dilemas cotidianos: sobre o que está lendo, sobre o tempo, sobre o comportamento dos pombos no telhado do prédio do outro lado da rua, sobre a interpretação dos seus sonhos… ou nas palavras de Zambra: “para fazer literatura de verdade é necessário recorrer, como ele [Levrero] disse, à literatura fraudulenta. Romance sem romance; literatura sem literatura.”

O resultado não poderia ser mais divertido e esteticamente prazeroso. Não dá para analisar uma obra dessas com as categorias tradicionais (personagens, narrador, trama etc.). E como, mesmo assim, é um livro bom? Não sei. Só sei que é.

Censura e leitura

Já falei algumas vezes (como aqui) sobre minha história de leitor e estudante. Acho que ela reflete um bom tanto a história do Brasil e da educação brasileira (em várias dimensões). O privilégio de ter estudado num colégio como o Túlio de França (em União da Vitória-PR), que tinha uma bela biblioteca, me ajudou enormemente a ser um leitor. Deve ter ajudado mais gente também, espero. Também lembro de algumas práticas felizes de alguns professores no ensino fundamental, como o Passaporte do Leitor. Infelizmente o incentivo à leitura no ensino médio foi nulo.

Trago o exemplo da minha escola pra dar destaque ao papel da liberdade. A liberdade para entrar na biblioteca e escolher a sua própria leitura. Claro, a bibliotecária nos dirigia para as prateleiras dos livros infanto-juvenis e depois para os livros destinados aos jovens do ensino médio. Mas na frente dos livros a gente lia o que estivesse com vontade. Fosse Paulo Coelho, fosse romances água-com-açúcar, fosse Sidney Sheldon, fosse Jorge Amado, Machado de Assis ou outro clássico.

Nessas eu descobri sozinho Júlio Verne, ao olhar para uma prateleira no lado que tinha livros em capa-dura e que era uma prateleira para onde ninguém olhava e ninguém mexia. Minto, eu já tinha lido de uma sentava Viagem ao centro da terra na 7a. série e naquela prateleira na 8a. eu me deparei com A Volta ao mundo em 80 dias e com 20.000 léguas submarinas. Devem ser bons, pensei, se são do mesmo autor. Eu tinha me dado conta de que em geral ler tudo do mesmo autor é algo bem divertido foi ao ler os livros da Maria José Dupré e do Marcos Rey na Série Vagalume.

Tinha algum tipo de censura aos livros na escola? Estávamos nos anos 1990. Tínhamos Paulo Coelho e Jorge Amado para ler, então eu acho que não.

Por que os livros são perigosos? Por que autoridades, pais e professores mais conversadores volta e meia julgam que precisam retirar das prateleiras obras que podem influenciar negativamente a nossa juventude. Por que certas discussões não cabem à escola? (ou não caberiam?)

Ao ler sobre sexo o jovem terá vontade de fazer sexo? Ao ler a história de pessoas que usam drogas os jovens se interessarão em experimentar? Duvido muito. A menos que o sujeito já seja influenciável, aí não é o livro (apenas) que vai fazer com que ele sinta vontade de fazer isso ou aquilo.

Tem o aspecto ideológico também. Mas se formos censurar qualquer livro que traga algum tipo de debate ou visão mais esquerdista, aí vai ter que jogar para fora das bibliotecas 90% da literatura mundial.

A educação sexual é um tema da moda, digamos assim, que veio de reboque nessa onda conservadora. Tive aulas de educação sexual na escola, vimos filmes bem fortes, eu diria, assistimos palestras sobre doenças sexualmente transmissíveis e gravidez na adolescência, o pacote todo – menos sobre orientação sexual, até onde me lembro. Mas era 1994, né!

Então, por que esse temos todo dos pais que seus filhos leiam sobre esses temas mais sensíveis? É ilusório acreditar que os pais discutirão com os filhos temas como drogas, sexo (e tudo que isso envolve). Tanto que está nos vários documentos oficiais desenvolvidos nos anos 1990 essa prerrogativa da escola.

Diz a Marisa Lajolo que lemos para entender o mundo e viver melhor e que os livros são fonte de prazer e sabedoria. Acrescento que eles nos dão acesso a vivências, experiências e universos distantes do nosso no tempo e no espaço; claro que isso é perigoso.

Como a personagem Moana, do filme homônimo, não podemos ter medo de enfrentar os recifes e ir descobrir o que tem além deles, com a escola nos ajudando a quebrar as ondas; mesmo que isso vá contra o que nossos pais desejam (por medo ou comodismo).

 

Objeto língua: algumas impressões

“Objeto Língua” é último livro publicado por Marcos Bagno. É uma coletânea de textos inéditos e alguns publicados em outros lugares, mas como ele esclarece na introdução, voltou a esses textos e fez algumas modificações neles.

Eu acho sempre ruim quando não se numeram os capítulos de livros, mas vá, lá, cada um com seus gostos. Isso é pra dizer que o livro tem 14 capítulos (sem contar a introdução e a conclusão) e o tamanho dos textos varia um pouco e o assunto deles também é diverso.

Os dois primeiros tratam da visão pessoal do Bagno sobre o tema da norma culta e seu ensino e discussão nas escolas. Minha impressão é que é mais bravata do que outra coisa o título do primeiro capítulo “A norma culta que se lasque!”, pois ele cita Carlos Alberto Faraco, cuja posição tem sido consistente e clara a esse respeito desde sempre: é preciso uma visão mais arejada sobre a norma padrão e seu ensino na escola, para que ela de fato se aproxime do uso culto das classes urbanas escolarizadas do país (estou citando de cabeça,  posso omitir ou suavizar algo). Creio que seja mais uma provocação, como faz Magda Soares no seu clássico “Linguagem e escola”: precisa aprender a norma culta? Aprender para quê? Só se for para lutar contra o sistema que oprime o pobre. (também cito de cabeça). Porque no final das contas é isso. Dizemos que o acesso aos bens culturais das classes mais altas é um requisito para se ascender socialmente. Bagno questiona essa premissa. Ele em parte tem razão, embora o domínio de outra variedade de língua certamente seja um ganho intelectual, mas só isso não garante nada.

É um tema espinhoso e eu gosto desse tipo de provocação, pois além de lutar pelos méritos da norma culta real, Bagno faz questão de escrever usando ELA (como eu também gosto de fazer, pelo menos aqui, onde escrevo como quero).

Os capítulos que eu mais gostei no livro são os que tratam de tradução. Num o autor resenha um estudo que comparou a tradução das tiras completas da Mafalda publicadas em Portugal e no Brasil, cotejando as traduções com os sistemas pronominais das duas variedades de português, especialmente nesse aspecto. Ele discute o conceito de “oralidade fingida”, mostrando que as traduções colocam na boca dos personagens palavras e estruturas que não são nem de perto representações da fala brasileira contemporânea.

Os capítulos em que ele discute o que é uma língua também são bons. Assim como ele faz na sua “Gramática de bolso do português brasileiro”, a discussão sobre o que é uma língua passa pela discussão de aspectos políticos e ideológicos que recobrem o tema. Certamente não é uma questão que possa ser resolvida objetivamente. Mas talvez como resguardo, tanto na gramática quanto no capítulo “Quando surge uma língua nova?” ele lista uma série de aspectos gramaticais (fonéticos e morfossintáticos, especialmente) para mostrar que há “evidências concretas” de que as línguas são diferentes no plano objetivo. Esse movimento me parece algo como: tá, mesmo que você não compre minha argumentação de que a questão é política, veja que temos argumentos objetivos também para afirmar que o português brasileiro É uma língua diferente do português falado em Portugal.

Claro, essa argumentação passa também por agredir e desmontar o ideário de que A língua portuguesa seja a variedade codificada nas gramáticas, a norma-padrão (que não é a língua materna de ninguém, e, portanto, não poderia ser considerada um dialeto ou uma variedade no sentido sociolinguístico).

Na introdução Bagno cita Saussure (“o ponto de vista cria o objeto”) para deixar claro que o que une os textos é que eles expressam sua visão da língua. Tenho a impressão às vezes que esse subjetivismo e, por que não, relativismo, são nocivos ou uma espécie de armadilha que a gente faz pra si mesmo sem perceber. Embora ele fale em “evidências concretas”, até que ponto existem “fatos” se de saída o pesquisador afirma que é o ponto de vista que cria o objeto? Eu não poderia, do meu ponto de vista, dizer que essas variações de pronúncia entre o português brasileiro e o europeu sejam coisas menores? Afinal, do meu ponto de vista, a língua é o codificado na escrita, onde vemos diferenças desprezíveis. Lemos Saramago, Gonçalo Tavares ou Valter Hugo Mãe tranquilamente, não? Embora eu tenha cá pra mim que se os portugueses forem ler um Daniel Galera (especialmente as primeiras edições dos primeiros livros), um Geovani Martins ou um Ferréz a dificuldade será maior para eles.

Se do seu ponto de vista a língua é a fala, mas do meu é a escrita, por que a sua posição é mais “objetiva” do que a minha?

Tem muito de ideológico nesse debate, claro. Tentar reduzir ele a uma questão meramente epistemológica seria reducionismo da minha parte e aqui nesse espaço não vou ter tempo nem paciência para aprofundar a discussão. Só pra tentar fazer uma espécie de conclusão, eu sinto que essa discussão do “ponto de vista cria o objeto” deixa de mostrar que as línguas possuem sim uma face objetiva que é descrita e apreendida pelo estudo linguístico. Se a diferença entre o fone e o fonema é o ponto de vista, não podemos negar que exista uma realidade objetiva nos fones (a gente capta a realidade física deles nos espectrogramas e oscilogramas, não?) e que, embora seja uma abstração, os fonemas são uma tentativa teórica de entender e explicar o que acontece com os sons dentro do sistema gramatical das línguas.

 

Compartilhando

Essa semana só vou compartilhar coisas.

– No vídeo abaixo, Eduardo Bueno (conhecido na república rio-grandense como ‘Peninha’), gremista e contador de causos, nos conta a história de João de Barros, importante gramático e historiador português.

– Sou fã do Viracasacas, e esse episódio sobre Pós-verdade e ciência está muito bom. Com a convidada especial Tatiana Roque (professora da UFRJ).

https://viracasacas.com/2020/02/18/152-pos-verdade-ciencias-e-acao-politica-com-tatiana-roque/

– Katyn. Drama histórico, dirigido por Andrej Wajda. Trata do massacre de Katyn, ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial. No episódio, por volta de 20mil poloneses (a maioria militares, mas também alguns civis) foram assassinados por soviéticos (mais um crime para a conta de Stalin). Algumas cenas são bem fortes. O filme tem como centro uma família que se esfacela durante o episódio, pois pai (professor universitário) e filho (oficial do exército) são presos e assassinados. A família fica sem notícias deles durante toda a guerra e só vai descobrir que estão mortos depois que ela acaba.

Um pequeno livro sobre linguagem e linguística

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Esse é o primeiro livro que leio do David Crystal. Ele é famoso por ser um prolífico divulgador da linguística. Em português temos algumas traduções de livros seus, como ‘A Linguística’ (1973) e ‘A revolução pela linguagem’ (Zahar, 2006) e ‘Dicionário de linguística e fonética’ (Zahar, 1988).

O livro de que falarei está traduzido como Pequeno tratado sobre a linguagem humana (Saraiva, 2012, trad. Gabriel Perissé), e não sei por que diabos eu fui começar minha incursão na obra do Crystal justamente por ele. Quer dizer, acho que sei. Na verdade, tenho me interessado (e tentado fazer, além de escrever só aqui) pela divulgação científica em linguística – portanto, nada como ler o mestre – e o título do livro me atraiu, confesso.

David Crystal é formado em Inglês pela University College London. Trabalhou por vários anos na University of Reading e no momento é professor honorário de linguística na University of Wales. Mais sobre ele e suas obras pode ser encontrado na sua página.

A Little book of language (UNSW Press, 2010, 261 págs.)  é uma coleção de 37 textos curtos, que cobrem tópicos bem variados.

Os sete primeiros capítulos tratam da aquisição da linguagem. Começando com o domínio dos sons, passando pela estrutura das palavras, pela oração e chegando na conversação. Em seguida ele entra no aprendizado da leitura e da escrita, discutindo alguns aspectos da ortografia no capítulo 10.

Em seguida o livro passa a discutir aspectos variáveis, como noções de dialeto, sotaque e bilinguismo. Esse tema volta posteriormente em capítulos como o 21 e 22, que tratam de mudança linguística e variação linguística, respectivamente.

Depois dessa primeira metade, que parece ter mais unidade, a segunda une uma série de temas como as origens da fala (cap. 15) e da escrita (cap. 16), línguas de sinais (cap. 18), a morte das línguas (cap. 20); um subgrupo de capítulos trata de questões lexicais: gírias (cap. 24), dicionários (cap. 25), etimologia (cap. 26) e nomes de lugares (cap. 27) e nomes de pessoas (cap. 28). Como é um livro de divulgação, não espere grandes profundidades no tratamento desses temas.

O mesmo acontece em outros capítulos em que discute alguns temas mais complexos, que, acho eu, por serem interessantes, poderiam receber um tratamento mais aprofundado. É um livro de divulgação, não esqueçamos. Portanto, não chega a ser um demérito a forma como ele discute a expressividade (cap. 33), o politicamente correto (cap. 34) e o uso da língua na literatura (cap 35).

Como os capítulos são curtos, cinco e sete páginas em média cada um, é de se esperar que os temas sejam tratados superficialmente. O estilo dele é envolvente. Não perde tempo com termos técnicos (só num caso ou outro) e suas explicações são bem claras. Pensando no meu background, o livro não trouxe grandes novidades, mas suponho que um leigo ou um aluno de letras ali nos primeiros semestres certamente achará livro informativo.

 

 

Oscar 2020

Por que a gente gosta tanto desse prêmio que na maioria das vezes se revela injusto? Não sei. Vai ver é o glamour, a emoção dos discursos, o show em si…

Pela primeira vez em muito tempo consegui ver a maioria dos principais filmes. Ainda não vi 1917 e Adoráveis Mulheres, que estão em cartaz. Ajudou muito dois dos indicados a várias categorias serem produções da Netflix (O Irlandês e História de um casamento). Fiquei com a impressão de que uma meia dúzia de filmes ter concentrado indicações em várias categorias (Parasita, O Irlandês, História de um casamento, Jojo Rabbit, Era uma vez em Hollywood…). Isso deve ter ajudado também.

Parasita. O povo tem elogiado muito o enredo. E certamente ele é uma das melhores coisas do filme, mas não é só isso. Me chamou muito a atenção a atuação dos atores. Os dois jovens da família pobre são ótimos personagens. Espertos, manipuladores, charmosos. Já devem ter dito que são estratagemas do pobre para lidar com a sua condição, mas não gosto dessas generalizações apressadas. A crítica do Omelete ressalta um aspecto metafórico do filme: as escadas. Elas estão por todo o lado: a família pobre mora num subsolo, a casa dos ricos tem várias escadas e numa das sequências mais marcantes do filme a família corre na chuva, descendo uma série de escadarias que levam até sua casa na periferia. É também um filme sobre o espaço, sobre a ocupação do espaço urbano.

Dor e Glória. Não é o 8 e meio do Almodóvar. Tem mais cara de ficção autobiográfica, ou algo do tipo. O filme me pareceu muito melancólico (talvez apenas nisso se pareça com o clássico do Fellini). O cineasta vivido por Antonio Banderas (excelente, diga-se de passagem, e teria tudo pra levar o prêmio, não fossem os concorrentes serem fortíssimos) é um cara solitário, com problemas de saúde e que não consegue fazer o que mais gosta: filmar. O texto é poético em alguns momentos, almodovariano no melhor sentido. E as cores e enquadramentos marcantes do diretor estão lá (como na cena da mãe e filho dormindo na estação; na cena do menino sendo desenhado pelo vizinho pedreiro, entre outras). Me soou em alguns momentos como um ajuste de contas: com o ator com quem brigou, com um amor da juventude, com a mãe… Apesar disso tudo, Banderas não tem um ar decrépito de quem está chegando ao fim da vida, como se fosse um octogenário. Antes, o personagem me parece apenas cansado e melancólico; até um tantinho resignado com sua condição física (quase um hipocondríaco).

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