Lendo sobre o relativismo linguístico

Não sei por que demorei tanto pra ler a tese do Rodrigo Gonçalves. É aquela história do “amanhã certeza” e o trabalho foi indo pro fim da fila. Como acabei entrando numas de ler sobre relativismo, principalmente por ter lido o Through the language glass (G. Deutscher) e do The language hoax (J. McWhorter), resolvi ler a tese, da qual eu retiro essa citação excelente, de Cole e Scribner (1974, p. 41), que criticam a versão forte do relativismo (enxergo o mundo pelas lentes da minha língua):

Formas extremas do relativismo e determinismo lingüístico teriam implicações
sérias, não somente para o estudo da humanidade de si mesmo, mas também para
seu estudo da natureza, porque elas fechariam a porta para o conhecimento
objetivo de uma vez por todas. Se as propriedades do ambiente são conhecidas
somente através dos mecanismos infinitamente variáveis e seletivos da
linguagem, o que percebemos e experienciamos é, de certo modo, arbitrário, e
não é necessariamente relacionado com o que está “lá fora”, mas somente com
como a nossa comunidade lingüística particular concordou em falar sobre o que
está “lá fora”. Nossa exploração do universo seria restrita às características
codificadas pela nossa língua, e o trânsito do conhecimento entre as culturas seria
limitado, se não impossível. 

COLE, M. & SCRIBNER, S. Culture & Thought.: A psychological introduction. New
York: John Wiley & Sons, 1974.

GONÇALVES, Rodrigo T. Perpétua prisão órfica ou Ênio tinha três corações: o relativismo linguístico e o aspecto criativo da linguagem. Tese (Doutorado em Letras). Curitiba/PR. UFPR, 2008. (p. 24)

No link abaixo um podcast com a Lera Boroditsky, uma das principais figuras do que tem sido chamado de neo-whorfianismo. Ela, e outros, estão tentando encontrar evidências experimentais de conexão entre língua e pensamento. No mesmo programa John McWhorter fala sobre seu novo livro, sobre mudança de significado. Podiam tê-lo convidado para contestar a Lera, já que ele escreveu um livro justamente para isso, o The language hoax.

https://www.npr.org/2018/07/12/628490776/watch-your-mouth

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A farsa sobre o vocabulário dos Esquimós

É bem provável que o leitor já tenha lido em algum lugar ou ouvido alguém dizer que os esquimós possuem uma dezena de palavras para designar o que em português seria rotulado simplesmente como neve. Essa é uma das falcatruas mais bem sucedidas no século XX. Como suspeita Geoffrey Pullum, no ensaio The great Eskimo vocabulary hoax, pegou muito provavelmente porque se adequava com outras características exóticas do povo inuíte: emprestar a mulher para aquecer o visitante na noite gelada, jogar os idosos para que os ursos polares os comam, comer carne de foca crua etc. Aliás, a palavra esquimó significa “comedor de carne crua” e o povo prefere ser chamado de inuíte.

No artigo, G. Pullum resenha um relatório elaborado pela antropóloga Laura Martin, que atribui a fonte do mito a uma comparação que Franz Boas faz na introdução do livro The Handbook of North American Languages (1911) e o uso desse exemplo por Benjamin Lee Whorf em um ensaio nos anos 1940, Science and linguistics. A partir daí, ela traça como vários livros de popularização da linguística passaram a exagerar a contagem. Boas compara o vocabulário inglês para as diferentes formas de água. Esta língua usa várias palavras formadas a partir de raízes diferentes, com o esquimó, que usa diferentes raízes também: aput é “neve no chão”; qana, “neve caindo”; piqsirpoq, “neve soprada pelo vento”; qimuqsuq, “um monte de neve”, embora pudesse ter se dado o oposto, como é o caso de snow em inglês, que precisa ser complementada com outras palavras se o falante quiser se referir a diferentes apresentações de neve. O que Whorf fez, num enunciado vago, foi aumentar para 7. O engodo chegou ao ponto em que o New York Times afirmou num editorial que o vocabulário inuíte para neve era de uma centena.

A questão toda envolveria um debate mais profundo sobre o conceito de palavra e sobre a comparação entre línguas sintéticas e analíticas (o vídeo linkado abaixo faz um pouco essa discussão). O negócio é que em inuíte a expressão neve derretida seria expressa com uma forma linguística que seria uma unidade linguística que chamaríamos de palavra e não duas como em português.

Pullum brinca que o relatório de Martin apresentado num congresso de antropologia em 1982 e as tentativas pessoais dele de esclarecer o público não foram suficientes. Ele faz uma comparação com o Alien (do filme de Ridley Scott): um monstro difícil de matar. Ele conta que num curso sobre administração universitária que fez ouviu dois palestrantes recontarem esse mito. Embora tenha ficado calado, ele pede que não façamos a mesma coisa e mostremos que os dicionários de inuíte trazem apenas duas palavras para neve: qanik “floco de neve” ou “neve caindo”; aput “neve no chão”.

Só que ainda repetem essa história. Não precisamos ir longe, uma matéria do G1 conta que pesquisadores encontraram mais de 400 palavras para neve em escocês. A pesquisadora entrevistada afirma que: “Acredita-se que os esquimós têm mais de 50 palavras para descrever a neve”. A matéria não cita muitas palavras escocesas, só 5: snaw “neve”; sneesl “quando começa a never”; skelf “floco de neve grande”; snaw-ghast “imagens que a neve forma”; snaw-pouther “neve fina”. Outra matéria da CNN, repercutindo o lançamento do dicionário do escocês, também traz a lenda das várias palavras para neve em inuíte. Mas fica a pergunta: será que o escocês tem mesmo 400 palavras para neve?  Será que esse pessoal não está exagerando um pouco? Por que algum povo precisaria de tantas palavras para designar diferentes tipos de neve? Claro, a resposta é: falar sobre o tempo é algo importante para os escoceses. – Para que povo não seria?

Um parêntese: Rodrigo T. Gonçalves lembra o jornalista Sérgio Augusto, para quem o português teria mais de 200 sinônimos para bunda. Brincadeira, claro, que mostraria como nós brasileiros nos preocupamos com outras coisas. – No artigo, Gonçalves traz o caso das palavras para neve dentro de uma discussão sobre relativismo linguístico. Podemos nos lembrar também da quantidade de termos que Guimarães Rosa usa em Grande Sertão para se referir ao Coisa Ruim. Por termos dezenas de palavras para bunda e para o diabo, isso mostraria algo fundamental sobre a nossa sociedade? Sou bem cético sobre essas especulações.

Contudo, assim como uma pesquisa online ainda nos mostra muita gente repetindo essa história, também há várias páginas por aí a desmentindo. Achei textos na Superinteressante e na Reader’s Digest de Portugal e em vários blogues. (Aqui tem um exemplo bom)

Googlando sobre o tema, achei também um canal no Youtube: Enchendo Linguística. O vídeo sobre o tema explica a história detalhes bem importantes, incluindo alguns aspectos morfológicos do inuíte e outras referências.

Referências

PULLUM, Geoffrey. The great Eskimo vocabulary hoax. Natural language and linguistic theory, n. 7, p. 275-281, 1989.

GONÇALVES, Rodrigo Tadeu. Relativismo linguístico e o ensino de língua estrangeira. Revista X, vol 1., p. 19-40, 2009.

Resenha: Os fundamentos da teoria linguística de Chomsky

GUIMARÃES, Maximiliano. Os fundamentos da teoria linguística de Chomsky. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017. 391 p.

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Como de praxe, farei uma resenha informal de um livro que li recentemente e de que gostei muito. Os fundamentos da teoria linguística de Chomsky foi escrito, julgo eu, pelo linguista brasileiro mais capacitado para tal tarefa. Maximiliano Guimaraes – graduado pela Universidade da Bahia, com doutorado na Universidade de Maryland, e hoje professor na Universidade Federal do Paraná – é um pesquisador que tem se mostrado interessado não apenas na técnica para análise dos dados, mas também em questões, digamos, mais teóricas e epistemológicas da abordagem, como revela sua produção. O livro demonstra que ele transita tranquilamente pelas várias facetas que o modelo gerativista adotou ao longo do tempo. O que nos dá a primeira qualidade do livro: é um passeio histórico pelas preocupações teóricas de Noam Chomsky e de outros pesquisadores engajados no empreendimento gerativo, que como o autor esclarece, não é obra de um homem só. O livro faz parte de uma coleção digna de todos os louvores. Gabriel Othero e Sérgio Menuzzi estão editando uma nova geração de clássicos na linguística brasileira.

O livro está organizado em 6 capítulos. O primeiro, na realidade, é uma introdução estendida e o último é a conclusão. O segundo é uma apresentação de uma série de noções fundamentais para o gerativismo: (a)gramaticalidade, competência e desempenho, Lingua-I e Língua-E etc. O terceiro capítulo, me pareceu, é quase uma história do modelo e serve para nos mostrar como as preocupações de Chomsky sempre foram as mesmas. O quarto capítulo trata de discutir uma crítica comum ao gerativismo: o sintaticocentrismo do modelo e a relação da sintaxe com os componentes sonoro e semântico da gramática. O capítulo que encerra o livro vai discutir alguns temas sobre aquisição da linguagem, como o argumento da pobreza de estímulo (o tema mais profundamente discutido no capítulo, também chamado de o problema de Platão) e o problema que ele chamou de problema de Borges (a partir do conto de Jorge Luis Borges, Funes, el memorioso, que narra o infortúnio de um indivíduo que é capaz de memorizar todos os detalhes do que experencia), tendo como pano de fundo a natureza da Gramática Universal. O problema de Borges serve como metáfora para ilustrar o desafio que uma criança teria se não fosse guiada por algum dispositivo cognitivo para a aquisição da linguagem como a Gramática Universal.

Uma das características do livro, para além do rigor na apresentação das noções e da vasta bibliografia que o autor cita, é o diálogo com os críticos. Principalmente nos capítulos iniciais e no capítulo final. Guimarães tem a preocupação clara de rebater algumas críticas, para ele infundadas, que são feitas por alguns linguistas brasileiros. Por exemplo, na seção 2.3 responde às críticas que Marcos Bagno de que o falante-ideal chomskyano é uma figura mítica sem correspondente na realidade, já que abstrai da língua todos os fatores extralinguísticos que a constituem, com citações do próprio Chomsky, em que ele justifica essa escolha pela idealização. Embora já existam livros com esse propósito – como o excelente Curso básico de linguística gerativa, de Eduardo Kenedy (Contexto, 2013) – esse segundo capítulo é uma baita introdução ao gerativismo.

Não se engane. O livro não é uma introdução. Como o próprio autor esclarece no primeiro capítulo, seu livro não é uma introdução técnica à sintaxe, é antes um complemento, que eu diria mais epistemológico a introduções técnicas, como o Novo Manual de Sintaxe (Mioto; Figueiredo-Silva; Lopes. Contexto). Citando Guimarães (p. 16)

Meu objetivo é ajudar o leitor a compreender Chomsky num sentido complementar
a saber manipular o aparato técnico-analítico aplicável a dados. Há vários modos de se fazer teoria e análise gramatical. Por que alguém deveria adotar ou rejeitar o modo chomskyano de fazê-lo? Para tomar partido, é preciso conhecer minimamente o objeto de estudo, os objetivos, os métodos, as premissas, e as bases empíricas e conceituais nas quais o paradigma chomskyano se sustenta.

Ou seja, a leitura do livro pressupõe pelo menos familiaridade com a análise sintática gerativista e uma introdução à linguística geral. Guimarães também tem o cuidado de dar crédito às ideias (o que muitas vezes fica obliterado em livros dessa natureza) e de oferecer leituras adicionais, a todo momento indicando ao leitor referências.

*Para o leitor interessado em uma resenha mais completa e detalhada, Alessandro B. Medeiros (UFRJ) escreveu uma na revista LinguiStica (UFRJ), v. 13 (2), 2017.

“A kind of blue”: um trecho de ‘A fraude linguística’

Como na semana passada postei um pequeno comentário sobre a palestra da Lera Boroditsky, uma das pesquisadoras neo-whorfianas com mais destaque, e no comentário mencionei o livro de John McWhorter, hoje posto um trecho do livro em que ele lança algumas dúvidas sobre o experimento que o grupo dela conduziu sobre as cores no russo, língua famosa por ter duas palavras para dois tons de azul. O título, imagino, deve remeter ao disco homônimo de Miles Davis.

O trecho abaixo é do capítulo 1, Estudos mostram. [se der tudo certo eu e o Renato Basso traduziremos o livro]. A explicação que ele dá do experimento me parece um pouco confusa. De qualquer forma, inseri a figura 1, de Winawer et alii (2007) [Russian blues reveals effects of language on color discrimination. PNAS 104(19), p. 7780-7785. https://doi.org/10.1073/pnas.0701644104]

John McWhorter. The language Hoax. Oxford University Press, 2014.

* * *

[…] esqueci por que eu sei que a palavra russa para “gay” é goluboj, mas acontece que o significado básico da palavra é “azul claro”. Não apenas azul, porque há outra palavra russa para a versão mais escura, marinha, prussiana de azul, siniy. Não há nenhuma palavra que signifique apenas azul: em russo, o céu e um mirtilo são de cores diferentes.

Um elegante experimento neo-whorfiano apresentou a falantes de russo vários tableaus com três quadrados em uma tela de computador: um no topo, os outros dois logo abaixo. Os quadrados eram de vários tons do que chamaríamos de azul, aparecendo em vinte gradações, indo do azul escuro ao azul claro. Em cada tableau, um dos quadrados embaixo era do mesmo matiz que aquele do topo, enquanto o outro debaixo era de um matiz diferente. Foi dada uma tarefa aos russos: apertar um botão quando identificassem qual quadrado debaixo tinha o mesmo tom que o de cima.

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Fonte: Winawer et alli (2007, p. 7781)

Deve ter sido bem chato fazer esse pequeno teste, mas os pesquisadores estavam tentando descobrir algo: se ter diferentes termos para azul escuro e azul claro teria qualquer efeito na percepção – isto é, a língua poderia moldar o pensamento? E eles descobriram que sim. Por exemplo, se o quadrado de cima era azul escuro e o quadrado debaixo de cor diferente era um tom ou três mais à frente na sequência de azul claro, então os russos apertavam o botão rapidamente, enquanto que se o quadrado alvo era apenas um tom diferente de azul escuro, o tempo médio para se apertar o botão era maior. O mesmo se dava ao contrário: se os quadrados compatíveis fossem azul claro, então os russos apertavam o botão sem hesitar se o alvo fosse um dos tons escuros, mas demoravam se esse não era o caso.

Os falantes de inglês, por sua vez, tiveram o mesmo tempo de resposta onde quer que o quadrado alvo caísse no espectro de azul: um quadrado alvo claro não os acelerava quando os quadrados compatíveis eram escuros, e um quadrado alvo escuro não os acelerava quando os quadrados compatíveis eram claros. Isso mostra, de um modo realmente engenhoso, que ter termos diferentes para azul claro e azul escuro faz com que as pessoas diferenciem essas cores mais rapidamente do que as pessoas cujas línguas possuem um único termo para azul – e mesmo quando ninguém pergunta a elas sobre as palavras em questão ou mesmo as usa.

No caso de alguém tentar encontrar, digamos, alguma razão cultural para os russos serem mais sensíveis à diferença entre azul escuro e azul claro do que nós, os pesquisadores fizeram outra versão do experimento, mostrando que a língua não é realmente o que direciona a diferença para os russos. No segundo experimento, os sujeitos tinham de não apenas distinguir o quadrado alvo, mas ao mesmo tempo deviam recitar uma sequência aleatória de números que eles há pouco tinham sido solicitados a memorizar. A energia mental necessária para fazer isso coloca um bloqueio temporário no processamento da linguagem, e nessa versão do experimento se o quadrado alvo era de outro tipo de azul não fazia mais diferença nos tempos de resposta. Assim, sem a linguagem, os russos não estavam mais sintonizados para a diferença entre o azul escuro e o azul claro do que alguém de Campinas.

Contudo, uma tendência atual defende que esse tipo de teste mostra que como sua língua é o faz ver o mundo de um modo particular. O lusófono, intrigado, imaginará como o mundo deve parecer aos olhos de alguém a quem azul claro e azul escuro são “mais diferentes” do que são para ele. A tentativa pode ser uma reminiscência de tentar imaginar uma quarta dimensão.

Mas há um problema. Não é que esse experimento de Jonathan Winawer, Nathan Witthoft, Michael Frank, Lisa Wu, Alex Wade, e Lera Boroditsky não seja extremamente inteligente, nem que ele não mostre que a língua afeta o pensamento; mas o fato é que batemos num obstáculo quando tentamos ir para além do experimento, abraçando a noção de que ele está nos dizendo algo sobre visões de mundo, ser humano e coisas do gênero. Especificamente, quando descrevi a diferença nos tempos de reação, usei termos vagos como rapidamente e demorar. Contudo, na realidade, para avaliar seriamente o que esse experimento significa além do mundo da pesquisa em psicologia, deve ficar claro qual era a diferença média de tempo de reação, dependendo para qual lado do espectro o quadrado alvo pendia. Era – Que rufem os tambores! – 124 milissegundos.

124 milissegundos! Quando os quadrados compatíveis eram mais escuros, se o quadrado alvo também estava no matiz escuro, então os russos apertavam o botão um décimo de segundo mais rapidamente do que se o quadrado alvo fosse do matiz claro. Eles não demoravam por meio minuto, ou mesmo um segundo inteiro, ou mesmo meio segundo. Na verdade, não podemos sequer chamar um décimo de segundo de demorar.

Agora, que há um efeito é ainda, por si só, um fato. Pense: entre os falantes de inglês, apenas por conta de uma diferença linguística, não houve nenhuma alteração nos tempos. Mas, baseados em que podemos tomar uma diferença de 124 milissegundos em tempo de reação como dizendo algo sobre a forma como os russos experienciam a vida? A língua afeta o pensamento? Aparentemente sim, mas, como tudo na vida, a questão é o grau. No estado corrente de nosso conhecimento, parece que goluboj é relevante para a alma russa mais vividamente em termos de preferências sexuais do que cores!

A intuição corresponde ao resultado de 124 milissegundos ao sugerir que não estamos lidando com nada parecido com lentes diferentes. Após aprender que o russo tem termos diferentes para azul escuro e azul claro, pareceria que estaríamos dispostos a se perguntar se isso significa que os russos veem o ovo de pintarroxo e um blazer azul marinho como mais distintos em cor do que os falantes de inglês. Contudo, para muitos falantes de inglês, ou, eu fortemente suspeito, mais gente ainda, a reação é uma certa perplexidade ver que uma língua faz uma distinção como essa. “Por que uma língua precisaria fazer isso?”, podemos nos perguntar. “Certamente sabemos que a cor por detrás das estrelas na bandeira americana é nitidamente diferente do azul bebê – mas nós não precisamos de palavras diferentes para essas cores!” Certamente foi como eu me senti quando aprendi russo pela primeira vez.

Nesse aspecto, há várias línguas que não fazem distinções de cores que um falante do inglês consideraria fundamental; nesse caso, para elas, o inglês parece tão desnecessariamente obcecado quanto o russo. O povo herero da Namíbia, na África, fala uma língua em que um termo se refere tanto a verde quanto a azul. Ao descobrir que outras línguas possuem palavras separadas para verde e azul, os hereros não se perguntam se os ocidentais veem um mundo diferente do deles. Ao contrário, eles estão bem conscientes da diferença entre a cor de uma folha e a cor do céu – vivendo na terra em que vivem pareceria muito difícil evitar notá-lo uma vez ou outra. Eles acharam a ideia de uma língua ter diferentes palavras para aquelas cores, quando aprenderam que essas línguas existiam, ligeiramente boba.

Alguns ainda poderiam estar abertos a uma ideia de que, em algum nível, há uma escala de sensibilidade a cores na qual os russos estariam mais altos, os falantes de inglês no meio, e os hereros lá embaixo. Essa escala soa desagradável a muitos de nós – e veremos quão frequentemente as implicações whorfianas nos levam a nos depararmos com proposições similarmente incômodas, quando não somos nós que os estudos retratam como fascinantemente sem graça. Parece dificilmente irrelevante que os hereros, em termos de vestuário e decoração, deem todos os indicativos de revelar as cores – incluindo os verdes e os azuis – tanto quanto os ocidentais. Apesar disso tudo, pode ser que um experimento mostrasse que a língua herero liga o cérebro de alguma forma que deixa seus falantes alguns milissegundos mais lentos na distinção entre um giz de cera azul esverdeado e um verde azulado do que uma pessoa comum nas ruas de Chicago ou Stuttgart (o alemão possui grün e blau). Mas nesse caso, nós nos distanciamos de qualquer discussão significativa das diferenças nas almas.

Porém, é a alma o que nos vem à mente como resposta para declarações do tipo: “Mesmo que soe estranho, nossa experiência de um quadro de Chagall na verdade depende em alguma medida de nossa língua ter uma palavra para azul”. Essa é uma das frases mais ressoantes no editorial baseado no livro de Deutscher, que atinge quase 5 mil ocorrências no Google no momento em que escrevo isto. Como tenho atestado, a mídia (incluindo os editores) tendem a encorajar os acadêmicos a colocarem as coisas daquela forma, numa busca interminável por “olhos” (contagem de cliques). Há tantos livros por aí; um tem que fazer um pouco de auê. Editorais – e contracapas – divulgando o livro sempre terão uma retórica entusiasmada que praticamente nenhum texto conseguiria de fato incorporar.

Contudo, frases como aquela sobre o Chagall possuem mais influência do que o próprio livro, especialmente considerando o inerente frisson da hipótese de Whorf, além de elas implicarem algo que os estudos simplesmente não fazem. A falta de uma palavra para azul realmente possui impacto na forma como alguém experiencia um Chagall, mais do que a educação, a experiência, ou mesmo a mera variação entre os indivíduos na receptividade da arte? O editorial diz apenas “em alguma medida”, mas, vamos ser sinceros: uma expressão como essa se perde no meio do apelo picante da afirmação básica. A questão real é “em que medida”? 124 milissegundos?

 

Sobre relativismo linguístico

Acabei de ver o vídeo da palestra da Lera Boroditsky (encaixado acima) e fiquei com sentimentos contraditórios: ela fala com clareza e é relativamente convincente; mas ao mesmo tempo não consegui acreditar nela, ela me pareceu listar uma série de curiosidades, e não conseguiu de fato mostrar nenhuma conexão real entre a linguagem e o pensamento.

Até que ponto a capacidade de reconhecer tons de azul com mais rapidez é de fato uma habilidade cognitiva “diferente” que os russos possuem? Até que ponto isso é uma visão de mundo diferente? Como se pergunta John McWhorter: o que 200milissegundos (é essa a medida em que os russos são mais rápidos do que falantes nativos de inglês no reconhecimento dos diferentes tons de azul) de fato mede?

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O livro de McWhorter, The language Hoax: why the world looks the same in any language (Oxford University Press, 2014) é um manifesto contra o que ele chama de linguajar publicitário. Livros como o de Guy Deutscher, Through the language glass, por exemplo, criam no público a impressão de que temos evidências de que existe uma conexão efetiva entre linguagem em pensamento. Claro, há também todo um apelo poético nessa visão de que cada língua representaria uma visão de mundo (o que é outra coisa).

Mas não se engane. É óbvio que existe uma conexão entre a linguagem e o pensamento. A questão mais profunda é: línguas que possuem vocabulário mais extenso para as cores permitem aos seus falantes uma percepção diferente da realidade? Ninguém até hoje conseguiu mostrar que sim.

O que há, principalmente no léxico, são diferentes recortes da realidade, por assim dizer. A lenda de que o inuíte (a língua dos esquimós ou inuítes) teria uma centena de palavras para o que chamamos simplesmente de neve faz parte desse imaginário. Não é difícil perceber a necessidade que um esquimó possui de nomear diferentes tipos de neve.

Um belo resumo desse imbróglio pode ser lido nesse breve texto disponível na página da Linguistic Society of America: https://www.linguisticsociety.org/sites/default/files/Does_Language_Influence.pdf

Recentemente esse debate voltou à pauta por conta do filme A Chegada. A personagem principal é uma linguista que ajuda a estabelecer diálogo com os alienígenas. E parece que no processo de aprender a língua deles ela ganha uma habilidade especial. É o relativismo levado ao seu extremo: aprender uma língua diferente me permite ter uma nova visão sobre a realidade.

https://epoca.globo.com/cultura/noticia/2016/12/o-filme-chegada-mostra-como-linguagem-influencia-nossos-pensamentos.html

 

Por que (ainda) estão falando sobre o acordo ortográfico?

Me fiz essa pergunta ao ler um texto do Rodrigo Gonçalves na Gazeta do Povo sobre o tema. Ele esclarece os equívocos comuns. Para quem entende um pouquinho sobre como uma língua funciona ele não apresenta novidades, mas é sempre válido quando alguém da academia escreve um texto para ajudar o público leigo a entender melhor as coisas. Por que a escola não faz isso eu não entendo. A ortografia de uma língua não é a língua; um idioma não se reduz às convenções para representá-lo por escrito. A premissa me parece simples.
Na página onde estava o texto do Rodrigo, aparecia o link para outro texto sobre o assunto. Diogo Fontana, escritor e editor, segundo a minibiografia ao pé do texto, exibe os clichês de quem acha que sabe do que está falando, mas que provavelmente não deu um Google antes para conferir a veracidade de suas afirmações.
Pra começo de conversa ele fala de oito acordos ortográficos. Oito! Mário Perini e Lúcia Fulgêncio (Gramática descritiva do português brasileiro, Vozes, 2016), por um lado, ou Rodolfo Ilari e Renato Basso (O português da gente, Contexto, 2009), por outro, só mencionam três: vamos dizer que a reforma proposta por Gonçalves Viana em 1911 conte como um primeiro acordo no séc. XX; daí vem o de 1945; e agora o de 1990. Talvez tenham ocorrido outros que a literatura não mencione…  vai que… Mas esse aí de 2009, que o Lula assinou em 2004, já estava homologado em 1990. Só faltava os países aceitarem (ou “acordarem” mesmo, até onde sei).
Um segundo ponto que me soa completamente equivocado é o seguinte, que ele desenvolve a partir dos “oito” acordos.
“Essa flutuação do idioma rompe o elo entre as gerações. Pais aprendem a escrever de um modo diferente dos seus filhos. Nunca, em lugar nenhum, ergueu-se uma grande cultura em alicerces assim movediços. A língua portuguesa muda tanto no Brasil, e tão rapidamente, que não tarda o dia em que o acesso aos clássicos estará obstruído para sempre, e os livros de um Cruz e Sousa, ou de um Machado de Assis, serão leitura para especialistas em Linguística e Filologia.”
“Flutuação do idioma”? Não sei como escrever veem ou vêem é capaz de fazer um idioma flutuar, mas tudo bem (acho que ele deveria ler o texto do Rodrigo, para não misturar a língua com a sua ortografia). Camões escrevia hum, naõ, ingrês, e se a gente for ler ele hoje, vai suar um pouco, mas lê de boa. Só que não precisa. As novas edições atualizam a ortografia. Nesse ponto o problema não é a atualização, é o fato de que iremos conviver ainda por um tempo com livros nas duas grafias. Assim como acontece quando pegamos livros dos anos 50, 40 ou 30… Pra um profissional da escrita ele me parece ter pouca convicção na reedição de livros.
Ele fala de anos de discussão nas universidades… não sei de onde tirou isso também. Muitos linguistas escreveram sobre o acordo. Até saiu uma edição especial de uma revista acadêmica, a Linguasagem (UFSCar) sobre o tema: http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/especial_ao/. Só que segundo Perini e Fulgêncio, não teve participação alguma da academia no acordo. Aliás, o tom de estudiosos como Mario Perini, Lúcia Fulgêncio, Carlos Alberto Faraco e Luiz Carlos Cagliari, em geral, é de crítica à reforma. Uma por que a simplificação alegada não ocorreu. Perini afirma que trocamos um sistema ruim por outro ruim, e dá seus motivos no seu texto. E outra porque a afirmação que a unificação da ortografia poderia beneficiar a indústria editorial brasileira e a promoção da língua portuguesa no exterior também não se seguem.
Por fim, tem a afirmação de que a ortografia é do Lula, “empurrada goela abaixo, na canetada de um presidente analfabeto”, uma declaração que só pode ser sacanagem, daquelas que um Augusto Nunes assinaria com gosto. Como tá na moda falar mal do Lula, qualquer bobagem que se atribua a ele a Gazeta do Povo publica sem receio.

Stoner falando de gramática

De Stoner, de John Williams (Rádio Londres, 2015, p. 146-147). Passagem em que o professor Stoner, um medievalista, comenta sobre o papel da gramática para o homem medieval.

É importante nos darmos conta de que essas artes da retórica, gramática e dialética tinham um significado para um homem do fim da Idade Média e do começo da renascença que nós, hoje, podemos intuir apenas vagamente sem um esforço de imaginação histórica. Para os estudiosos, a arte da gramática, por exemplo, não era meramente uma disposição mecânica das partes do discurso. Desde o fim da época helenística e ao longo da Idade Média, o estudo e a prática da gramática incluíam não só o ‘talento literário’ mencionado por Platão e Aristóteles, mas também, e isso se tornou muito importante , um estudo das técnicas poéticas, uma exegese da poesia tanto na forma quanto na substância, e da precisão estilística, na medida em que esta pode ser distinguida da retórica.

Sentiu que estava se apaixonando pelo assunto, e notou que vários dos alunos se haviam inclinado para a frente e parado de tomar notas. Ele continuou: “Além disso, se a nós do século XX perguntassem qual dessas três artes é a mais importante, poderíamos escolher a dialética, ou a retórica, mas seria muito improvável que escolhêssemos a gramática. No entanto, o acadêmico, e o poeta, romano e medieval quase com certeza consideraria a gramática a mais significativa.”

É por isso que ainda recentemente, gramáticas como a de Cunha e Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lexikon, 2008 [1. ed. 1985]), se auto-definem como “manuais de estilística”. Ou que uma gramática como a de Azeredo (Gramática Houaiss da Língua Portuguesa, Publifolha, 2014) sinta a necessidade de trazer um capítulo sobre estilística (com a boa e velha lista de exemplos de figuras de pensamento, de sintaxe etc.). A gramática, desde Dionísio Trácio (séc. II a.E.C.), é o “conhecimento empírico do comumente dito na obra dos poetas e prosadores”. Ou seja, a gramática é o estudo de uma variedade de língua para se tirar dela um ideal de expressão linguística. Logo, o critério para se decidir o que pode ou não pode é estético.

Claro, essa é uma dimensão do tema… há outros critérios: o histórico (a novidade é ruim), o social (menas é errado porque só pobre com pouca escolaridade fala assim), o escrito é molde para a fala etc.

Isso é só pra lembrar que muitos gramáticos e professores lidam com a questão do errado como se tivesse um valor inerente em certas formas linguísticas, quando não é assim na realidade.