O que universidade pública fez por mim

Pra começo de conversa, sou professor universitário e é claro que falo dessa posição. Mas também sou um servidor público, um cidadão e um pai de família. Também falo desse lugar. Talvez seja óbvio afirmar isso, mas creio que não (considerano a época em que estamos). Se ocupo alguns desses lugares hoje é porque a sociedade me permitiu que eu enfrentasse os obstáculos que minha condição social me impôs armado não apenas do meu esforço, mas de oportunidades. Posso me considerar um sujeito de sorte, como diz a canção do Belchior, pois consegui muitas coisas que colegas meus de escola e vizinhos da rua não conseguiram. Por isso tenho desconfiança da noção de meritocracia. É óbvio que o esforço individual é importante para se conseguir qualquer coisa na vida, mas ele de nada vale se a sociedade não dá oportunidades ao indivíduo.

Fiz todo meu ensino básico em escola pública e comecei a trabalhar cedo, aos 12 anos. Aos 16 já tinha carteira assinada e CPF. Como muitos adolescentes da minha escola, estudava pela manhã e tinha um emprego à tarde. Além de ser office boy, eu fazia de tudo um pouco numa tipografia do bairro. Eu gostava pra burro da profissão. E com o tempo eu dominava quase todos os processos dentro da gráfica: compor com tipos móveis, cortar papel, imprimir, acabamento etc. Se eu não tivesse entrado na faculdade, acho que teria seguido com essa profissão o resto da vida, como meu pai. E como tenho um tio que tem gráfica, então muita gente da família em algum momento da vida trabalhou pra ele. Quando minha família me pôs trabalhar com ele não era apenas uma questão de necessidade: eu estaria aprendendo uma profissão.

Em abril de 1998 eu mudei de emprego. A firma em que eu trabalhava estava quebrando e surgiu uma oportunidade em outra. Não pensei duas vezes. Só que o novo patrão queria que eu trabalhasse o dia inteiro, o que fiz a partir de julho, quando vieram as férias. Assim, eu terminaria o ensino médio estudando à noite. Só que numa segunda do início de setembro chegamos para trabalhar e a firma estava fechada. Esperamos uns instantes até que chegou alguém para nos avisar: o dono tinha fugido. Eu tinha mudado de turno por conta do serviço, e agora eu estava desempregado e não tinha recebido integralmente pelos quatro meses trabalhados.

Passei aqueles três meses finais do ano estudando durante o dia. Acho que foi só por isso que passei no vestibular. À noite, eles estavam um bimestre atrasados no conteúdo. Coisas que os professores estavam passando em setembro eu tinha visto em junho pela manhã. E o que eles ensinavam eu estava estudando sozinho.

Eu não tinha muita dimensão do que significava ter ingressado numa faculdade pública. Eu tinha 17 anos (faço aniversário em julho), lia tudo que me dava vontade, e como estava desempregado, podia passar o dia lendo. Pelo menos até meados de agosto, quando consegui um emprego numa gráfica e o tempo para ler ficou mais curto. No segundo ano eu prestei o serviço militar. No terceiro eu consegui um emprego como caixa numa rede de farmácias. Trabalhava de madrugada e dormia durante o dia. Felizmente, o gerente era gente boa e deixava eu ler durante o expediente. Afinal, não tinha muita coisa pra se fazer da 1h da madrugada até as 6h, período em que o movimento ficava bem fraco. Passei os dois últimos anos da faculdade nesse emprego e mais um ano depois de formado até passar no mestrado.

Deixava de dormir para fazer estágios e trabalhos. Dormia nas aulas às vezes (dormir durante o dia não é a mesma coisa) por puro cansaço. Uma coisa de que eu sempre gostei era a tal da aula: ler coisas e conversar sobre elas com pessoas inteligentes e interessadas foi a experiência mais legal da graduação. Tinha muita aula chata, tinha muito professor que só enrolava, mas quando as aulas eram legais, eu me engajava. Eu tinha fama de inteligente, mas eu não era um bom aluno. Não tirava notas muito altas, pois nas disciplinas que me interessavam pouco eu fazia só o essencial.

Nos dois últimos anos comecei a me interessar em participar de projetos, grupos de estudos… eu queria estudar mais do que eu via sala de aula. Mas não tinha nada disso lá, pois os professores a maioria dos professores não se dedicavam exclusivamente à faculdade. Na Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória (FAFIUV) não tinha bolsa para nada: iniciação científica, monitoria? A gente nem sabia o que era isso. Só fui descobrir que tinha gente que ganhava uma grana para fazer pesquisa num congresso de que participei no segundo ano. Congresso em que fiz um minicurso de Análise do Discurso e comecei a pensar mais a sério sobre me aprofundar em linguística. Alguns professores perceberam meu espírito científico e me incentivaram a buscar um mestrado. Pesquisei, pensei, e escolhi a Universidade Federal de Santa Catarina. Não passei na primeira vez. Na segunda tentativa passei em segundo lugar e consegui bolsa. Era o meu sonho. Eu ia finalmente passar o dia estudando e ainda iria ganhar um dinheiro para fazer isso. Se não fosse pela bolsa, eu jamais teria conseguido fazer o mestrado.

Às vezes faço um exercício de contrafactualidade: como teria sido minha vida se eu não tivesse cursado uma faculdade pública. Sempre gostei muito de estudar. Não sei se teria sido feliz num emprego no comércio ou no setor gráfico. Não sei. Talvez tivesse me acomodado, casado e seguido a vida, trabalhando para pagar as contas, sofrendo com desemprego em épocas de crise como a maioria dos brasileiros. Provavelmente eu teria feito uma faculdade qualquer paga, como muitos em naquela região do sul do Paraná e planalto norte catarinense (administração, contábeis?). Cheguei a fazer o concurso para a Escola de Sargentos das Armas (ESA) durante o período em que prestei o serviço militar. Acho que foi meio por inércia. Muitos colegas fizeram e arrisquei também. Não passei. A vida sabe o que faz com a gente, pois eu não nasci para aquela vida. Tenho profunda desconfiança do papel da autoridade e sou questionador. Não gosto de seguir regras. A burocracia e a papelada do dia a dia na universidade me causam um enfado pesadíssimo. Que outro destino teria um filho de trabalhadores de classe média baixa? Meu pai foi gráfico a maior parte da vida e se aposentou nessa profissão. Minha mãe trabalhou como doméstica por muitos anos até virar balconista no comércio, profissão que exerceu até morrer.

A pós-graduação foi uma experiência transformadora em vários aspectos. Ganhar um salário para estudar era inimaginável para quem apenas cinco anos atrás tinha entrado na faculdade. Em 2004 eu era um guri de 22 anos vindo do interior que ganhava um salário para estudar. Muito poucos eram como eu. A imensa maioria tinha feito iniciação científica ou pelo menos estudado na UFSC e conhecia de perto como funcionava a pesquisa na área, pois tiveram professores na graduação que eram pesquisadores, portanto sabiam dos seus projetos e interesses.

Minha meta era terminar o mestrado e voltar para o interior para trabalhar na faculdade onde eu tinha estudado. Era o máximo que eu poderia almejar, eu supunha. Agora eu estava no meio de um monte de gente muito inteligente e estudiosa. Eu não me destacava mais, eu era mais um. Embora a graduação tenha me fornecido conhecimentos para entrar no mestrado, eu sentia que sempre estava correndo atrás, buscando preencher lacunas na minha formação. E essa sensação era brutal quando eu ia para congressos e conhecia gente de outras instituições, como USP, Unicamp, UFPR, UFRJ, UFMG… aquelas pessoas eram muito (mas muito!) inteligentes. Fui um pouco sortudo, eu acho, por ter conhecido e feito amizade com tantos feras, gente que hoje ocupa lugares importantes em universidades no Brasil e até no exterior. Isso tudo foi estimulante.

Tive que aprender a abordagem teórica da minha pesquisa ao mesmo tempo em que a desenvolvia. Era a primeira vez que eu me via precisando estudar com afinco. Embora, hoje, eu perceba que poderia ter me dedicado muito mais. Aqueles 2 anos passaram muito rápido, minha orientadora me estimulou a prestar o doutorado. Passei em terceiro, mas as bolsas de doutorado eram escassas.

Naquele primeiro ano de doutorado trabalhei como professor na rede pública estadual em Florianópolis. 20h semanais. Eu tinha pouco tempo para estudar. Pensei em desistir do doutorado, prestar concurso para qualquer coisa que me desse um sustento, pois eu não conseguia me dedicar plenamente às disciplinas. Tive que abandonar uma disciplina na filosofia porque não conseguia assistir as aulas e fazer as leituras, que embora não fossem numerosas, exigiam tempo e releituras. Em poucas semanas eu já estava atrasado na leitura, não acompanhava mais as discussões e os exercícios ficaram incompreensíveis. Me senti um fracassado: comecei a questionar o meu talento para a linguística formal. Eu era burro demais para aquilo.

Eu nunca tinha sido excepcional na vida (mesmo tendo fama de inteligente na escola e na faculdade). Embora eu tivesse conseguido ter A em todas as disciplinas do mestrado, não escrevi uma dissertação fora de série. No doutorado as exigências eram mais altas, e eu começava a duvidar se eu seria capaz de fazer uma contribuição significativa para o campo, embora minha orientadora dissesse que meu projeto era promissor. Eu discutia questões semânticas de orações comparativas em português que eram pouco discutidas na literatura, usando uma abordagem do significado que o modela usando ferramentas da lógica. Poucas pessoas fazem isso no Brasil. Logo, a chance de eu conseguir dizer alguma coisa que ninguém ainda tinha dito era grande. Mesmo assim… fui levando, já que não sou muito bom em tomar decisões rapidamente. Se eu puder, adio ao máximo. O ano passou e em dezembro consegui bolsa para terminar o doutorado. Acho que teria desistido sem a bolsa. Pelo menos adiado ou tentado o doutorado em outro lugar.

Em 2008 consegui uma bolsa para fazer um ano do doutorado no exterior. Pude passar um ano em uma das dez melhores universidades do mundo, a Universidade de Chicago. Tive acesso a tudo que os alunos de lá tem: bibliotecas, aulas, professores, laboratórios. E o mais importante: um orientador que me dava atenção. São inúmeros os relatos de gente que faz esses programas e fica abandonado. Eu participei de grupos de estudo, de pesquisa, assisti aulas (embora não fizesse as avaliações), conversava quase semanalmente com meu orientador, conversava com gente interessada em linguística e conheci pessoalmente muitos pesquisadores importantes da minha área. Tinha acesso a qualquer texto de que eu precisasse. Praticamente tudo que eu queria ler a biblioteca tinha ou tinha os meios para conseguir (acesso a bases de dados de teses digitalizadas, por exemplo). Isso me deu outra visão sobre a vida universitária e a pós-graduação em particular. Na UFSC o trabalho era um pouco solitário e ali eu sentia uma visão de trabalho em conjunto, de colaboração. Escrevi metade da minha tese lá. Tínhamos um grupo de estudo em 2004, que capengou um tempo e esmoreceu. Quando eu voltei em 2009 ajudei a reanimar o grupo de estudos com minha orientadora (que conhecia gente na filosofia), o marido dela na época e os orientandos deles na graduação e na pós. O grupo está firme e forte até hoje.

Nesse segundo semestre terminei a minha tese, prestei alguns concursos (reprovei nos 3 que prestei), fiz estágio de docência, participei de congressos. No começo de 2010 defendi. Minha tese tinha vários probleminhas, mas foi aprovada. Não foi o melhor que eu poderia fazer, mas foi o que eu consegui fazer. Sempre tenho essa sensação em relação às coisas que eu faço: poderia ser melhor se eu tivesse me dedicado um tantinho mais. Só que os prazos e a vida atropelam a gente, sabe? (É uma desculpa esfarrapada, tô ligado.) Minha tese poderia ser bem melhor se eu tivesse conseguido ver algumas coisas que eu só vi dois anos depois. E que só vi porque eu consegui nesse período continuar pensando sobre o tema da minha tese. Mas se grandes referências da área não fizeram grandes contribuições nas suas teses, quem era eu pra fazer? E isso que fazer contribuição na minha área é oferecer uma denotação formal nova para uma expressão linguística. É algo aparentemente simples, mas não trivial.

Eu tinha 28 anos e era doutor. Eu já tinha conseguido uma bolsa de recém-doutor do CNPq para fazer pós-doutorado na USP. Eu deveria ter ido, mas por razões pessoais acabei ficando em Florianópolis e trabalhei como professor substituto na UFSC naquele primeiro semestre. Também por essa época prestei concurso na UFPR e passei em terceiro. Tinha duas vagas. Aquilo me animou. Meu desempenho nas provas foi muito próximo de gente mais experiente e só não fiquei melhor colocado porque era recém-doutor. Em agosto voltei para União da Vitória para trabalhar como substituto na FAFI, onde ficaria os próximos dois anos, até ser aprovado em concurso na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em março de 2012, onde estou até hoje.

Hoje sou funcionário público, professor universitário e linguista. Defender a universidade significa não apenas defender o meu ganha-pão. Me vejo como um trabalhador como outro qualquer. Claro, eu tenho alguns privilégios que outras profissões (e mesmo professores da educação básica) não têm: dois períodos de recesso por ano, 45 dias de férias, não preciso bater ponto, estabilidade no emprego. Ninguém hoje, consegue chegar a um lugar desses sem bolsa, sem incentivo público. Contando graduação, mestrado e doutorado, foram 10 anos da minha vida dedicados aos estudos.

Minha carreira começou quando eu tinha 28 anos (Apesar de eu já ter cinco anos de carteira assinada até entrar no mestrado). Muita gente nessa idade já está casada, com filhos e pagando o financiamento da casa própria. Escolher a carreira universitária significa abdicar de pelo menos uns 6 anos da vida profissional. Isso se o sujeito não passar ainda mais uns anos entre bolsas de recém-doutor e contratos precários de substituto que podem durar de 6 meses a 2 anos, até conseguir um emprego fixo passando num concurso. Ninguém vê isso. No exterior não é muito diferente. Em muitos lugares leva-se 5 anos para se fazer um doutorado e muitos passam ainda uns 2 ou 4 anos de bolsa de pós-doutorado em bolsa de pós-doutorado até conseguirem um emprego fixo.

Na letra fria dos números pode ter sido dinheiro que o governo jogou fora. Para que mais um doutor em linguística? Hoje eu faço parte de um conjunto de professores que formam outros professores e profissionais do texto e da palavra (professores de português e línguas estrangeiras, revisores, tradutores, editores etc.). A grana que a sociedade brasileira investiu em mim retorna para a sociedade todos os dias quando eu saio de casa para ir na universidade dar aula, orientar minhas bolsistas de iniciação científica ou desenvolver outras atividades necessárias para o andamento da universidade. Essa grana se reverte no conhecimento que eu produzo escrevendo, traduzindo e colaborando como parecerista na atividade de publicação de vários periódicos pelo país, na avaliação de teses de dissertações de outras universidades. Esse conhecimento faz diferença? Vai acabar com a fome no país? Vai melhorar os índices de leitura e escrita? Vai acabar com os problemas do sistema tributário? Talvez não acabe com problemas práticos. Talvez, se eu for um bom professor, eu seja capaz de formar bons professores, que irão formar cidadãos que serão profissionais melhores do que os pais deles foram. E mesmo que não sejam professores, talvez essas pessoas se tornem policiais ou burocratas mais humanos.

Em 1999, quando eu entrei na faculdade, eu tive apenas duas professoras que eram mestres. Todo o restante do corpo docente era especialista, e um ou outro ali se dedicava exclusivamente ao ensino superior. Quando eu retornei para lá em 2010, além de mim, tinha mais dois doutores formados e dois doutorandos. Todo o restante do corpo docente era mestre e tinha só duas especialistas. Creio que hoje a formação do corpo docente deve ter subido mais um pouco ainda. E, além disso, muitos lá podem agora se dedicar somente ensinar, pesquisar e a fazer extensão. Tenho certeza de que essa formação e o tempo de dedicação exclusiva contribuem para que eles formem profissionais melhores e estabeleçam projetos em parcerias com escolas, garantindo oportunidades de formação continuada para os professores da região.

Assim como o investimento público mudou a minha vida, ele muda a vida de cada um que passa pela universidade e consegue passar pelas peneiras que ela impõe. As universidades são ambientes extremamente competitivos e meritocráticos, não se enganem. Para progredir na carreira somos avaliados semestralmente pelos alunos e pelas atividades que exercemos (em pesquisa, ensino e extensão). Para ter bolsa de iniciação científica o professor precisa de produção escrita constante. Esse critério é mais duro ainda na pós-graduação. Para dar aulas no mestrado e doutorado, e eventualmente orientar mestrandos e doutorandos, é preciso publicar pelo menos 2 artigos por ano. Isso é o mínimo. Isso quer dizer que a cada 6 meses preciso de um texto novo saindo do forno e aprovado para publicação.

Por isso me assusta quando o ministro da educação fala que “temos doutores demais” ou que temos que formar engenheiros e veterinários. Claro que temos que formar engenheiros e veterinários, como temos que formar professores de todas as matérias e pedagogos. Deixar de investir na educação superior significa jogar fora anos de investimento na formação profissional dos brasileiros. Não sei se hoje podemos dizer que estamos bem abastecidos de doutores. Os concursos nas universidades estão cada vez mais concorridos, o que significa que estejamos num teto (embora eu creia que o sistema acabe absorvendo essas pessoas de uma forma ou outra). Mas cortar os investimentos significa acabar com o sonho de muitos talentos que desejam estudar e pesquisar, significa deixar de dar oportunidade para que a inovação aconteça, seja em que área for.

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Quem tem medo do português popular na literatura?

 (Ou: qual é o problema de começar uma frase com pronome oblíquo numa narrativa em primeira pessoa que usa um registro coloquial?)
Especialmente pra vocês que gostam de objetos, variação, revisão etc. Duas edições de “Até o dia em que o cão morreu”, do Daniel Galera.
“Não entendi no início. Me levantei e fui à sala”. (Livros do Mal, 2003, p. 13)
“Não entendi no início. Levantei e fui até a sala”. (Livros do Mal, 2003, p. 13)
“Dei um tapa na orelha dele, o levantei pelo couro, arrastei até a sala e meti seu focinho no mijo do cobertor, esfregando bem”. (Livros do Mal, 2003, p. 17)
“Dei um tapa na orelha dele, levantei-o pelo couro, arrastei-o até a sala e meti seu focinho no mijo do cobertor, esfregando bem”. (Companhia das Letras, 2007, p. 13)

Linguagem e linguística na web

Já comentei aqui que temos poucos lugares na web que tratam de linguagem e linguística de um ponto de vista científico. Por outro lado, se você quiser aprender a diferença entre emigrar e imigrar, vai achar sites e blogues aos montes te ensinando a diferença.

Abaixo compilei uma lista de alguns desses lugares, pelo menos daqueles que conheço e acesso frequentemente (ou pelo menos tento). Se vocês conhecem outros, por favor, me avisem nos comentários e aos poucos vou melhorando essa lista. [atualizado em 22/04/2019]

Blogues e sites

– Sírio Possenti (Unicamp) escreve com frequência para o site Rede Brasil Atual. https://www.redebrasilatual.com.br/blogs/dito-e-feito

– Blogs Unicamp: é uma iniciativa de divulgação científica da Universidade Estadual de Campinas. Tem textos de todas as áreas. Para encontrar os textos de Linguística é só clicar na nuvem de tags nos termos ‘linguística’ e ‘linguagem’. https://www.blogs.unicamp.br/

– Roseta: revista de divulgação científica em Linguística. É uma iniciativa recente da Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN). Está engatinhando. Espero que a comunidade de linguistas brasileiros abrace a ideia e mandem textos. http://www.roseta.org.br/pt/

– O programa linguisticalista:  https://oprogramalinguisticalista.wordpress.com/ (pouca frequência de atualização)

– Letronomia: http://letronomia.blogspot.com/ (pouca frequência de atualização)

Páginas no Facebook

https://www.facebook.com/letronomia/

https://www.facebook.com/linguisticadocotidiano/

 

Em inglês

Superlinguo: https://www.superlinguo.com/

Esse blogue postou recentemente uma lista parecida com a minha com fontes de sites, blogues e podcasts sobre linguagem e linguística em inglês.

Babel: https://babelzine.co.uk/

Revista de divulgação científica em linguística. É paga, mas tem um exemplar grátis para degustação no site.

Canais da Parábola: A Editora Parábola, uma das principais editoras da área de Linguística no país, possui um blogue e um canal no Youtube.

https://www.parabolablog.com.br/

https://www.youtube.com/channel/UCAEh1aERhPpBtM4MMnvPFGA

 

Canais no Youtube

Enchendo Linguística: https://www.youtube.com/channel/UCB-6vpF2TxHJE7gQ3fktzVw/featured (infelizmente eles fizeram poucos vídeos).

Planeta Língua: canal de Aldo Bizzocchi. (O canal tem sido atualizado com frequência)

https://www.youtube.com/channel/UCq4W_eaAREOOz0uvz4wIfZA

Jana Viscardi: https://www.youtube.com/channel/UC9h2vDtQXEiD0O4aVubsYYA

Academia Brasileira de Letras

https://www.youtube.com/channel/UCt5H6DFGPM5ZW3vZuOIhlTA

A grande maioria dos videos são palestras gravadas com convidados ou acadêmicos falando sobre literatura. Há algumas sobre língua e gramática, como a do José Carlos Azeredo e a do Ricardo Cavaliere (há duas) e uma com o Evanildo Bechara.

The Ling Space: https://www.youtube.com/user/thelingspace/featured (em inglês, sobre linguística em geral)

Sacha: https://www.youtube.com/user/sashyenkaUS/featured (em inglês, mas que trata de língua portuguesa)

Podcasts

Lingthusiasm: https://lingthusiasm.com/ (em inglês)

O Anticast fez um episódio tratando de palavrões: http://anticast.com.br/tag/linguistica/

Língua Livre: https://soundcloud.com/lingualivre (Primeira iniciativa de um podcast sobre linguagem e linguística. Só tem um episódio por enquanto.)

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A gramática no ensino de Língua Portuguesa

Desde o final dos anos 1970, uma série de artigos e livros produzidos por linguistas e professores universitários colocou em discussão o lugar do ensino de gramática nas escolas. Particularmente, se questionou o lugar que o ensino da metalinguagem e da análise sintática tradicional possuíam (entre outros problemas). Esses tópicos eram o conteúdo da aula de língua portuguesa, ao lado das atividades de leitura, interpretação e produção textual (esta balizada pelo ensino da norma padrão gramatical veiculada pelas gramáticas tradicionais, o famoso certo/errado). Creio que duas obras representam e/ou sintetizam bem esse ideário da academia: Por que (não) ensinar gramática na escola (1996), de Sírio Possenti, e A sombra do caos: ensino de língua x tradição gramatical (1997), de Luiz Percival Leme Brito.

Nasci em 1981, e a minha vida escolar toda se deu nesse tempo em que, mesmo que timidamente, as ideias da academia chegavam aos professores, seja via formação inicial, seja através dos cursos de atualização. Foi inevitável, então, que eu tivesse contato com dois tipos de professores. Os tradicionais, que só ensinavam gramática e escassamente forneciam atividades de leitura e produção textual; e os inovadores, que só forneciam atividades de leitura e produção textual, não sabendo muito bem o que fazer com a gramática.

Na quinta-série, me lembro claramente de termos aula de leitura nas sextas-feiras. A professora vinha para a sala com uma caixa de livros. Cada aluno um escolhia um, ia para sua carteira e passava a aula lendo o livro. Caso não acabasse durante a aula, você tinha que esperar até a próxima sexta-feira para poder dar continuidade na leitura. Um porre! Convenhamos. Nas outras quatro aulas da semana a gente só fazia uma coisa: análise sintática e morfológica. É só disso que me lembro. Infinitas listas de orações. Para cada uma delas a gente tinha que classificar as palavras (dizer se eram substantivos, verbos, adjetivos, preposições etc.) e depois fazer a análise sintática (achar sujeitos, predicados, objetos, adjuntos adnominais, adverbiais, complementos nominais etc.). É bem provável que as aulas não fossem só isso, mas é só isso de que me lembro. E foi a única vez na minha vida escolar que eu peguei recuperação: me lasquei na análise sintática. Será que a minha professora na Escola Básica Alberico Azevedo, lá em São Miguel do Oeste (uma cidadezinha do extremo oeste catarinense, a terra do sabonete Matacura, e que recebeu a caravana do Lula esse ano com pedras), podia imaginar que aquele magrelinho ali viria a ser professor de português? Imagino que não. Eu também não sonhava com isso. Sonhava em jogar bola.

Na sexta série lembro de que a escola abriu uma pequena biblioteca. Agora os livros da professora ficavam numa sala e a gente poderia ir lá escolher e ficar com eles em casa por uma semana. Me esbaldei. Lia como um condenado. Na sétima série minha família se mudou para União da Vitória (PR) e eu fui estudar no Colégio Estadual Túlio de França. A biblioteca era enorme – tá, a parte dos livros que de fato a gente podia escolher dava umas três prateleiras, o que pra mim era um bocado, já que lá no Alberico só tinha uma prateleira. Acho que ainda hoje é a melhor biblioteca escolar da cidade. O colégio tinha cursos técnicos de contabilidade e magistério, e é um dos colégios mais antigos do município. Não lembro de ter tido aulas de gramática. Sei que li muito. Nesse ano, a professora fez um passaporte do leitor. Anotávamos num caderninho as leituras que fazíamos: autor, nome do livro, data de início e fim da leitura, breve resumo do enredo. Eu lia uns 3 ou 4 livros por mês, às vezes mais. Não me lembro de ter aulas de gramática. A mesma coisa aconteceu na oitava série. Se tive aulas de gramática, não me lembro. Lembro de ter escrito muito. Me recordo também que essas professoras eram jovens. Deveriam ser recém-formadas. Eram anos anos 1994-1995. Suponho que já por aqueles anos as ideias do pessoal da Unicamp já tinham chegado na Fafiuv.

O ensino médio foi caótico. No primeiro ano a professora era mais tradicional e usava a gramática do Cegalla, a Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. Só lembro de ter estudado a formação do subjuntivo, coisa que não ficou por muito tempo na minha cabeça; e de ter lido tudo que eu consegui do Paulo Coelho (a escola tinha os livros e muitos tinham filas de espera bem longas). E só. No segundo ano lembro de ter estudado o romantismo, mas não lembro de termos lido poesia ou trechos de romances. Devo ter feito algum trabalho sobre Machado de Assis. Li pouco nesse ano.

No terceiro ano mudei de escola. O Colégio Lauro Müller Soares tinha uma biblioteca bem modesta, que vivia fechada. Não era um ambiente convidativo como a do Túlio de França, que possuía jornais, revistas e mesas para estudo e para jogar xadrez. Por conta da proximidade do vestibular, comecei a ler alguns dos clássicos românticos e realistas. Não me lembro de ter chegado às minhas mãos nada contemporâneo. Só ouvi falar de Drummond, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Graciliano Ramos, de Mário e Oswald de Andrade ou Clarice Lispector em apostilas preparatórias para o vestibular. Talvez os professores tenham falado em aula, não me recordo. Sei que escrevi bastante.

Foi isso que me levou a escolher Letras no vestibular, a leitura e a escrita. E o inglês. Eu queria aprender inglês. Continuei a ler vorazmente durante a graduação. Comecei a cometer versos e a colocar no papel o que me dava na telha. No segundo ano da graduação me apaixonei por linguística e cá estou eu.

Talvez seja a minha memória. Quem sabe alguns dos meus professores até tentaram fazer uma articulação mais sistemática entre a reflexão sobre o texto e a reflexão gramatical, tentando nos fazer pensar a língua a partir de textos cotidianos e sobre a nossa própria escrita. A professora que tive no terceiro ano fazia isso, mesmo timidamente, corrigindo as minhas redações, explicando os erros, sugerindo mudanças e pedindo para reescrever quantas vezes fosse necessário. Mas o fato de eu ter tido professores que oscilavam entre a gramática pura e apenas leitura, interpretação e produção de texto, revela esse “não-lugar” da gramática no currículo escolar. Mesmo os documentos oficiais, os parâmetros curriculares, não são claros sobre isso. É preciso ensinar classificação de palavras? Sim. É preciso ensinar análise sintática? Sim. O que não podia continuar era se ensinando isso ou se ensinar da forma tradicional, em detrimento das atividades de leitura e produção escrita. Essas coisas precisam estar conjugadas. E é esse o desafio pedagógico.

Graciliano e a oralidade na escrita

Um trechinho inicial de São Bernado, de Graciliano Ramos (Record, 1997, 67. ed.):

O narrador, Paulo Honório, começa o livro contando justamente os percalços na escrita do próprio romance que se põe a narrar. Homem simples, auto-didata, ele tem o desafio de lutar com a escrita e os próprios sentimentos, duas coisas, me parece, estranhas a um homem que só respondeu com brutalidade aos desafios da vida.

“O resultado foi um desastre. Quinze dias depois do nosso primeiro encontro, o redator do Cruzeiro apresentou-me dois capítulos datilografados, tão cheios de besteiras que me zanguei:

– Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma!

Azevedo Gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala.

– Não pode? perguntei com assombro. E por quê?

Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode.

– Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia.” (p. 7)

As definições de sujeito

Muita gente critica as definições das noções gramaticais usadas pelas nossas gramáticas tradicionais e repetidas por gramáticas escolares, livros didáticos e apostilas de concursos. Não dá muito trabalho perceber que as definições de sujeito e predicado apresentam problemas conceituais ou são definidas de maneira vaga, usando termos que não são definidos pelo gramático (ver Perini, Para uma nova gramática do Português; ou Azeredo, Gramática Houaiss da língua portuguesa).

Alguns exemplos:

Cunha e Cintra (: 137) “Sujeito é ser sobre o qual se faz uma declaração; o predicado é tudo aquilo que se diz do sujeito”.

Embora, posteriormente, eles identificam a estrutura da oração como a união de um SN e um SV.

Bechara (MGP: 409) “Chama-se sujeito à unidade ou sintagma nominal que estabelece uma relação predicativa com o núcleo verbal para constituir uma oração”.

Bechara propõe algumas estratégias de identificação: a) estabelece concordância com o verbo do predicado; b) normalmente aparece à esquerda do verbo; c) responde à pergunta: quem ou o que.

Azeredo (Gramática Houaiss: 150): “Palavras e sintagmas são as únicas espécies de unidades aptas a desempenhar uma função sintática. Para tanto, é necessário que estejam contidas numa construção maior a cuja base se anexam. Se esta construção é uma oração, sua base é o SV, que funciona como predicado (Este relógio pertenceu ao meu avô), e o SN anexo a esta base funciona como sujeito (Este relógio pertenceu ao meu avô).”

Nas escolares:

Savioli (Gramática em 44 lições: 7): “Sujeito é o termo da oração que funciona como suporte de uma afirmação feita através do predicado”.

“Predicado é o termo da oração que, através de um verbo, projeta alguma afirmação sobre o sujeito”.

Também sugere os critérios que Bechara usa para identificar o sujeito.

Bechara (Gramática Escolar da LP: 15): Não faz uma definição clara:

“Sem verbo não temos oração, já vimos isto. Cabe agora insistir em que a sua natureza semântica (de significado) e sintática (de relação gramatical) determinará se a predicação da oração é referida a um sujeito, ou não. Esta referência se chama predicado da oração e o termo referente dessa predicação se chama sujeito:”

Marlit              deu um livro ao neto.

Sujeito                         predicado

 

Faraco, Moura e Maruxo (Gramática: 388)

“Sujeito é o termo sobre o qual se declara algo. O verbo da oração concorda com o sujeito em pessoa e número.”

“Predicado é tudo aquilo que se declara a respeito do sujeito. Não existe oração em predicado.”

Mas afinal, precisamos dessas definições no ensino da língua portuguesa? Qual é a utilidade de se definir o que são sujeito e predicado? Seria possível uma compreensão intuitiva dessas funções? Não seria mais fácil identificá-las com as posições estruturais de SN e SV, como propõe Azeredo, e que, em outros termos, Bechara e Cunha e Cintra trazem também?

Claro, nem todo SN ligado semanticamente a um SV é seu sujeito, nem mesmo a relação de concordância, para Perini (Gramática do Português Brasileiro) é um critério seguro.

Então, o que seria? A combinação das três coisas: a) relação de significado: termo do qual se predica uma propriedade; b) relação de forma: concordância de número e pessoa.

Não sei… me parece que os alunos identificam a função de sujeito muito mais a partir da intuição do que pelo uso racional das noções. Claro, sem mencionar a exemplificação: nos exercícios só se oferecem exemplos que se encaixam nas definições.