A novela: cap. III

Aí vai o cap. III da história.

Antes de entrar na outra fase da aventura, Juliano calculou que seria melhor perguntar pra alguém onde é que podia pegar o ônibus que o Cristiano tinha indicado, o tal do 494. De certo que o segurança tinha jeito de quem entendia das coisas e foi lá perguntar pro homem se ele sabia.

Disse um bom dia e soltou a pergunta no embalo.

– Como é que é? – o segurança falou com cara de quem tinha dito o que disse.

– O 494, onde que eu pego ele, tchê? – Juliano repetiu a pergunta devagar, articulando palavra por palavra pro homem entender melhor o que ele tinha dito. Vai ver era aquela barulheira toda que dificultava a audição do rapaz.

– Pra onde é que tu tá indo?

– Jardim… Jardim Leopoldina, um negócio assim.

Antes de dar a resposta pra ele, o segurança gritou pra outro que passava por ali naquela hora, se certificando de que daria a informação correta. Sim, era na Júlio de Castilhos. O homem explicou que ele tinha que sair, pegar uma passarela e ir pro primeiro ponto de ônibus que tinha do lado esquerdo da rua, no sentido de quem vai daqui pra lá, mas que o ônibus vinha era de lá pra cá. E o segurança mostrou pra ele pra que lado ficava o bairro, “é longe afu, guri”, disse, enquanto indicava o caminho, “tu não vai te perder por aí, sozinho?”.

– Não vou. Sei me virar – Juliano respondeu.

Agradeceu e virou as costas.

Foi só começar a subida da passarela que notou uma gente estranha transitando por ali. Aquele povo errava com sacos de lixo, de ráfia e sacolas de mercado pendendo das mãos. Arrastavam sua carcaça de pele e ossos e catinga pela calçada, atacando quem passasse. Uma hora era um, dali a pouco surgia outro, multiplicados. Nunca tinha visto gente daquele tipo. Uns dormiam debaixo daquele caminho, estirados na grama mesmo, debaixo daquele sol amarelo que estava em meia altura, já se aproximava do meio do dia.

Como é que os polícia não vinha dá um passa-fora naquele povo? Isso era um negócio que ele não entendia. Será que ninguém oferecia pra eles um prato de comida, que eles parecia precisado. Um copo d’água, um banho, um lugar pra dormir? Lá na cidade dele essa gente preguiçosa não se criava. Que gente que crescia assim, meio largada na grama, tipo inço, a prefeitura já dava um jeito, mandava pra família cuidar ou trancava o caboclo num lugar que tinha lá no interior da cidade, que diziam que era pra lá que levavam os loucos da cidade. Na rua diziam que Juliano ia pra lá um dia, e ele ria, dizendo que ele é que não ia. E queria ver aquele pessoal falando dele agora, ele ali, todo galo, louco de faceiro andando em Porto Alegre, sozinho, indo pegar um ônibus e tudo. Um vereador dizia que tinha que pegar esse povo todo, que dormia nas rua, colocar numa Kombi, levar até a praia e largar por lá. Mas isso o Juliano achava que era maldade. Não precisava judiar deles. Era um pessoal que tinha dado errado na vida, só isso.

Saindo da passarela, atravessou a avenida. Tinha mentalizado os números, letras e nomes, T-qualquer coisa, Protásio, trezentos e alguma coisa. Logo apontou um daqueles Ts. Mas ficou meio assim, se na verdade o T não era um D. Era mesmo T que o Cristiano tinha falado ou era D? E agora? Enquanto ficava repetindo em sussurros o nome do ônibus que tinha que pegar, as pessoas, apressadas, iam subindo e o latão que vinha seguia o caminho dele. Não demorou pra aparecer um 494, que assim que pintou lá adiante na esquina, ele levantou o braço que nem viu o pessoal fazendo pra atacar o ônibus pro motorista parar.

Na roleta pediu pro cobrador avisar quando chegasse no destino. O cobrador resmungou uma resposta. Acanhado e com vergonha de dizer que não tinha entendido o que o cara disse, sentou ali perto, esperando que o rapaz lembrasse dele ao chegarem. Vai ver não pudesse falar com os passageiros, atrapalhava o serviço. Juliano se ocupou vendo os prédios e outros ônibus e veículos que zuniam os parafusos pelas vias, enquanto as pessoas ali dentro, sentadas ou de pé, balançando agarradas aos canos. O ônibus percorria uma rua construída sobre pilastras, que em certa altura se tornava em um túnel. O que esses caras não inventavam?

Então o veículo parou. Todos os passageiros continuaram olhando pra frente, como se nada tivesse acontecido. Juliano sentiu vontade de levantar e ir perguntar pro motorista o que estava atrasando a viagem. Iniciou o gesto, tirando a bunda do lugar, mas se conteve. Vai que fosse um acidente ou obra na pista? Não tinha que ir cheirar lá. Permaneceu sentado com as costas bem ajustadas no encosto do assento, ereto, a mochila sobre o colo e as duas mãos sobre ela, cuidava não atrapalhar seu vizinho de banco, que sentado na janela, escutava música nos fones de ouvido do celular e olhava pra fora, desacorçoado. Estavam na boca do túnel, e de cada lado da estrada elevada, um muro de prédios impedia a visão do horizonte. Mas tinha sua beleza, aquele labirinto visto meio de cima, como se desse pra ter uma visão do todo, mesmo que parcial, já que a cidade era tanta que faltava olho pra filmar.

Ele olhou pro banco do outro lado, onde uma menina estava quase caindo dele, pois um cara de tronco largo e coxas grossas estava de pernas abertas ocupando quase tudo o banco só ele. Esse murrinha devia era pagar duas passagens, só pra se espertar. Imagina só, um homão daquele ali, querendo o banco todo só pra ele. Que desse espaço pra menina também, coitada. Cara de doente, de tão magrinha, devia de tá indo pro hospital se consultar. Ou que o camarada me sentasse no banco pros idoso. Tinha dois ali, mas estavam ocupados por dois gurizão que falavam alto e riam tipos uns abobados, como se tivessem bebido alguma coisa. Mas Juliano achou que não podia ser, já que era muito cedo ainda pra alguém beber e que não deviam vender cachaça pra gurizada ali na cidade.

Um outro homem estava de pé, com a mochila nas costas e isso, Juliano achava, ia dar problema se alguém quisesse passar depois. Vai que enche até chegar lá do outro lado da cidade, né? Podia ter umas regras pras pessoas se comportarem direito dentro do ônibus, pensava. Ainda bem que não dá mais pra fumar. Juliano tinha fumado um cigarro antes de entrar, porque ele gostava de cigarro e não era daqueles viciados que fumavam a cada pouco. Não. Ele fumava porque era bom mesmo e mais pra passar o tempo. Sentiu uma vontade de fumar, então, só de pensar. Mas como não podia, pensou que era isso uma boa coisa, senão ia ficar uma fumaceira ali dentro que ninguém ia de suportar. Fora a fedentina. E por falar nisso, tinha uma que não dava pra saber de onde vinha, mas que alguém tava precisando de um banho ali, isso tava. Juliano até fez menção de conferir embaixo do sovaco como estava a situação, mas preferiu deixar quieto. Ele cheirou o ar e teve certeza que o fedor não vinha dele. Talvez era de alguém ali da frente. Naquele calorão de fevereiro, como é que um vivente me saía de casa sem passar um desodorante? Vai que o cara saiu correndo, meio apressado, com medo de perder o ônibus pra ir pro serviço? Por que ali era assim. Todo mundo morava bem longe. Não era só pegar uma bicicleta e sair correndo que ainda dava tempo. Ele se lembrava que o Cristiano, o primo, contava essas coisas, porque ele era desses que falava a pampa e ele confiava que o primo não tinha porque mentir numa coisa dessas. Cristiano contava que tinha que pegar dois, às vezes três ônibus, dependendo de onde arrumava serviço. Logo o ônibus deu um tranco, e passou a se mover. Virou aqui e ali e quando Cristiano percebeu, estavam dentro de uma canaleta.

– Osvaldo Aranha – anunciou o cobrador.

Juliano olhou pro lado, se coçou. Que lugar bonito. Esperou. Será que ia? O ônibus andou mais um pouco e parou de novo. Se levantou. Ia fazer uma aventura. Podia deixar pra outro dia, mas já estava ali. Era só descer e passear no parque um pouquinho. Já tinha passado quase meio-dia na rodoviária esperando. Ligava pro primo, vou dar uma volta, já chego aí. Ou podia deixar ele esperando também, só pra ver se ele ia ficar preocupado.

Desceu, logo ouvindo o homem anunciando atrás dele: – Só um passinho, mais um passinho.

O sol lhe deu um tapa na testa quando ele ergueu os olhos para olhar ao redor e se acostumar com a paisagem. Tinha um predião de três andares que devia de ter sido construído antes da vó dele nascer. Na fachada colunas gregas, grades de ferro nas janelas, rabiscos pichados nas paredes, carentes de uma demão de tinta. Como deixavam um prédio bonito nesse estado? Ao lado uma pequena praça, no centro da qual uma pilastra. No lado, uma árvore pingada, avulsa no gramado. Sob a sombra dela alguém dormia, enrolado nuns baixeiros. Do lado, um cachorro deitado em posição esfíngica. Sorriu para Juliano como se o conhecesse. Do outro lado da rua o parque.

Caminhou até o semáforo. Esperou que fechasse para os carros e acendesse para os pedestres. Olhou de novo para o cachorro, que o seguia com os olhos, como se quisesse avisar alguma coisa. Ia só dar uma passeada no parque, ia saber voltar, era só ir reto sempre. Depois virar as costas, e fazer o mesmo caminho.

Novela, parte II

Abaixo segue o capítulo que dá sequência para a narrativa que iniciei na penúltima postagem. O texto ficou um pouco extenso para o formato blog, eu acho, mas quem se aventurar a ler espero que vá até o final. 

Juliano sentou num banco da rodoviária pra esperar. Era o jeito. Fosse se enfiar nesse mundão de prédio e rua era capaz de se perder e não achar o caminho de volta. Tinha já no lombo o cansaço da viagem. A noite toda afundado na poltrona, era até bom ficar um pouco de pé pra desamassar a bunda. Deu até uma dormida, daquelas que guaipeca dá em sombra de árvore em tarde de mormaço, com a orelha abanando as moscas chatas que ficam zumbindo no ouvido e fazendo cócega.

Queria um café. Olhou em volta novamente pra ver se achava o Cristiano. Numa dessa já estava por ali por perto e ele é que não tinha visto. Não. As lanchonetes tinham vista pro lugar de desembarque do povo. Podia sentar num lugar que ficasse de vista. Caso ele aparecesse, Juliano veria.

Bebericava o café. Não tomasse rápido era bem capaz do dono da bodega pedir pra ele sair pra dar lugar pra outro sentar. Mas tinha pouca gente ali naquela hora. Mesmo assim, podia ser que pensassem que ele era vagabundo, que estava ali de olho em alguma coisa querendo achar um jeito de roubar, ou calculando malandragem. Melhor era tomar o café, sem ficar esquentando com essas ideias. Não era vagabundo, não. E se o Cristiano tivesse vindo na hora que ele tinha ido no banheiro? Foi rápido, justo pra que se ele tivesse vindo desse tempo dele voltar antes do primo resolver ir embora. Não. Não era isso que tinha sucedido. Ele não tinha vindo mesmo ainda. Devia ter acontecido alguma coisa. Ele tinha falado que estava tudo certo. Que ele podia ficar sossegado que ia buscar ele na rodoviária. Alguma tinha acontecido. Não era possível.

Tanta gente indo e vindo. Como ele tinha feito inda já hoje. Mas sem ficar por ali de alugação. Todo mundo que estava no ônibus que chegou a-recém foi descendo, pegando suas tralhas e logo o rumo que tinha que seguir. Povo por ali não tinha tempo pra ficar de bobeira, comendo mosca. Ninguém tinha tempo ali não pra ficar de conversê fiado. Ele tinha feito isso, mesmo desavisado, mas foi só sair do cercadinho onde o pessoal desembarcava que olhou pros lado e não achou o primo. Daqui a pouco ele vinha, claro, pensou na hora, não ia me deixar ele ali plantado no meio daquele povo todo, sem me saber pra onde ir, nem que ônibus pegar depois e essas coisas. E que era um negócio que… mas é que ela tinha se gavado todo, não vá me gastar teu dinheiro com táxi que eu vou lá te esperar e tudo… devia de ter pedido. Mais de cinquentão uma corrida até lá. Cinquentão é dinheiro.

Tinha um pessoal que era buscado, percebeu, olhando depois ali sentado ainda no bar, o café já gelado mas ainda gostosinho porque melado de tanto açúcar que ele botou. Naquela altura Cristiano já tava atrasado pra mais de hora. As famílias ficavam ali do lado de fora, ele foi observando. Ficavam ali, olhando no relógio, procurando o destino no letreiro dos ônibus que chegavam a cada pouco. E não demorava muito, mesmo quando o ônibus tava atrasadinho, o pessoal ia chegando e indo, chegando e indo, e aquilo ia dando nele uma coisa que era meio uma vontade de ficar de pé e sair logo caminhando dali. E a cada polaco de costas que ele via de cabelo curto e baixinho já ficava vermelhando a cara de alegre e logo que via que não era o Cristiano gelava de novo. Que ele já estava ali fazia um bom tempo mesmo. Sentia os olhos do garçom sobre ele, olhos de quem queria saber qual era a dele. Sorriu pro caboclo sem mostrar o dente, meio que tencionando um olha só, amigo, tô aqui na paz, não azede. O garçom pareceu interpretar corretamente a expressão de Juliano:

– O amigo quer mais alguma coisa?

– Obrigado, tchê! Só tô esperando, minha carona, acho que ele se atrasou.

O garçom fez positivo com a mão e foi limpar duas mesas que ficaram vazias e sujas dos ciscos que o pessoal que levantou deixou pra trás, um fareledo de torrada e casquinha de massa de pastel que começava já a juntar mosca.

Tinha voltado pro banco de fora. Não tirava os olhos da porta que trazia o pessoal da rua. Podia ligar. É. Bem que podia. Tá, mas daí ia me gastar um dinheiro que não precisava gastar. Já estava com fome também. Podia ir tomar mais um café. Mas é que se fosse, vai que o primo chegasse e não achasse ele ali, então o melhor era ficar ali mais um pouco. Vai que o primo tivesse errado o ônibus, ou o dia, ou tivesse esquecido dele? Não. Ele tinha ligado uns dois dia antes pra avisar, pra deixar tudo certo, que era o que o pai tinha falado pra ele, tu me liga antes que o teu primo deve de ter os compromisso lá dele com os filho e a mulher e as coisa dele lá, então tu me liga antes pra ele saber que tu tá indo e que é pra ele se organizar, e ver direito onde é que tu vai dormir e como ele vai fazer pra ir lá te pegar na rodoviária e tudo essas coisa, que você sabe que tem gente que não gosta que as pessoa chegue sem avisar. Então ele ligou. E ficou tudo certo e o primo ficou louco de faceiro que ele estava vindo mesmo, que ia levar ele junto pra jogar bola, que tinha até um serviço já esquematizado pra ele, que ele ia gostar e ia ganhar dinheiro e que até ia arrumar uma namorada na vila e não ia mais voltar pra terra deles. Merda. Estava tudo certo. Agora ele ia de ter que gastar dinheiro com cartão pra ligar pro celular do primo e ligar pra celular custava caro. Não era aquela coisa de comprar um cartão e ainda ter crédito depois de ligar. Era ligar e ver os créditos irem sumindo como se fosse uma contagem regressiva, menos, menos, menos até chegar ali no cinco e a pessoa ter que desligar correndo e matar o assunto antes de cair a ligação e não ter mais jeito. Tinha que acertar tudo naquela cronometragem, senão era dinheiro perdido. Um dia inda ia de comprar um celular pra ele. Lá na cidade dele não precisava, que ele conhecia todo mundo e sabia onde o pessoal estava, daí que não tinha precisão de ficar ligando. Um dia ia ter um treco daquele, pois que agora ele morava na capital e tinha que ser também meio metido à besta, deixar meio que pra trás esse jeitão dele chucro e tudo. Tinha que virar gente, pra que quando fosse lá visitar o pai e os irmão mostrar que em Porto Alegre as coisas eram diferente, era mais bonito, e ele tinha aprendido as novidade. Já não era mais um colono tongo do interior.

Ele ali metido nessas ideias de comprar um celular e já indo atrás de um cartão telefônico na banca de revistas quando um sujeito se aproximou. A pestilência da catinga machucava a respiração da gente. O caboclo parecia pedir alguma coisa. Juliano não ia dar uma de tosco e se fazer de desentendido. Podia até fazer uma dessa, se fazer de louco e de conta que nem tchuns. Mais aí já era tarde, e mesmo não entendendo necas do que ele disse, soltou um: – Se suma daqui catinguento!, como se espantasse uma criança que quisesse meter a fuça no que não era dela.

O homem encardido olhou pra ele com cara de opa meu qual é e seguiu seu caminho contrariado. Deu dois passos e atacou outro passante, que também se livrou dele dizendo qualquer coisa e deixando as costas como face pra um papo que não ia continuar. Juliano notou que um polícia ou segurança vinha na direção do vivente, que pareceu dizer que já pegava o caminho da rua e ia dar o fora dali. Tá, tinha sido meio grosso com o caboclo e… o cara era só um coitado atrás de uma moeda pra tomar uma cachaça, pelo jeito.

Esperou por mais uma hora e nada do parente. Sentou numa lanchonete para preencher o vazio do estômago e tirar a secura da boca. Se sair e o Cristiano chegar? E se ficar esperando à toa? Mandou pro bucho um pastel de carne e uma coca bem gelada. A fome que estava não era aquela fome de trabalhador depois de um meio-dia de enxada, era mais só um vazio seco, um oco na barriga. O almoço foi aquilo mesmo, só pra despistar. Não queria gastar com bobagem, calculou enquanto mastigava o pastelão que, olha, pensando bem, era bem capaz de alimentar umas duas crianças. No fim se obrigou a comprar um cartão telefônico pra ligar. Estava decidido. Devia de ter cartão ali naquela banca de revista do lado.

 

Cristiano atendeu e quando Juliano se identificou ele disse:

– Cara, e eu já aqui preocupado contigo. Por que não me ligou antes?

– Sabe, eu ia… pensei até em…

– Ligasse logo, vendo que eu não aparecia.

Mentiu, pra não dizer que estava com pouco dinheiro e não queria gastar com cartão:

– Fiquei esperando e o tempo passou, tchê.

Que ele viesse de ônibus, mil desculpas, sabe como é, as crianças, não tinha quem ficasse com elas. Era ele seguir o trajeto tal e tal, não tinha erro. Perguntasse ao cobrador aonde descia, qualquer coisa. E que ligasse, chegando no ponto final, daí iria buscá-lo. O trajeto levava uma hora e pouquinho. Um pouco mais talvez se tivesse movimentado o trânsito. Ele que seguisse as indicações que não tinha enrosco.

Juliano desligou se achando um burro porque não tinha ligado antes. E olhando pros dez créditos que ainda restavam no cartão, que era pelo menos um conforto caso precisasse ligar, pensando que se chegasse lá no bairro do Cristiano e não achasse a casa dele, por mais que ele tivesse explicado que era só uma rua de entrada que ele ia seguir reto e ir até o Bar do Galego e pegar às direita e que era a quarta casa e que qualquer coisa perguntasse na rua que todo mundo sabia quem ele era ali.

Quem decide se uma pronúncia existe?

Um dos negócios mais difíceis de colocar na cabeça das pessoas é que não tem um valor intrínseco nas formas linguísticas. Mortadela não é mais correto que mortandela como uma verdade absoluta inquestionável. Depende, essencialmente, do valor que o grupo de falantes da língua dá praquela forma.

“Uma variedade linguística “vale” o que “valem” na sociedade os seus falantes, isto é, vale como reflexo do poder e da autoridade que eles têm nas relações econômicas e sociais”. É o que disse o italiano Maurizzio Gnerre em um livrinho clássico chamado Linguagem, escrita e poder (Martins Fontes, 1985). Isso quer dizer que quando temos opções na língua, quando vemos grupos sociais utilizando formas distintas, é inevitável que se atribuam valores sociais àquelas formas. Assim, mortandela não é errada em si mesma, é errada porque um grupo de falantes usa essa forma, e esses falantes normalmente são pouco escolarizados. Mortadela é a forma correta porque é a forma registrada nos dicionários e está associada à escrita, pois é a forma que as classes escolarizadas utilizam.

Na semana passada um médico tentou tirar um sarro de uma paciente que falou peleumonia e raôxis (se você não sabe do que eu estou falando, clica aqui). Por que tem gente que acha engraçado o falar diferente? Por que Framengo, praca e adevogado são pronúncias engraçadas?

Já se falou em preconceito linguístico e preconceito social. Rio dessas formas porque não gosto da classe social que as utiliza, e a fala é uma forma de eu criticar ou manifestar meu desprezo. Posso desprezar outros produtos culturais de uma classe social, como a sua música, a sua dança, sua produção escrita, seu vestuário etc. Falar de sexo numa letra do AC/DC não tem problema, mas num funk tem.

Isso tudo fica um pouco mascarado porque tem toda uma complexa rede de instituições que atuam para criar o que se chama de Norma Padrão. Como qualquer língua humana é intrinsecamente variável, isto é, varia na pronúncia, na forma das palavras, na aplicação das regras, no vocabulário, historicamente se cultiva uma variedade que aos poucos vai se tornando limpa, digamos assim, de regionalismos. As instituições que atuam no cultivo dessa norma são a escola, os gramáticos, os dicionários, a imprensa, os intelectuais, ou seja, a própria sociedade. São esses atores que controlam o que é e o que não é português. E esse controle se baseia principalmente na associação à escrita (se a pronúncia é mais próxima da escrita é mais correta), ou no valor do grupo social que usa a forma. É o caipira que fala poRta (usando o erre retroflexo), ou o colono do interior da região sul que usa o erre fraco (o tepe) onde o resto do Brasil usa o erre forte (o vibrante), em palavras como rato, serra etc.

Assumir que mortandela e peleumonia existem seria o mesmo que dizer que a minha língua vale tanto quanto a dele. Isso quer dizer que já não sou mais tão especial assim, que minha língua não é mais expressiva e clara que a da minha empregada. E esse pensamento assusta algumas pessoas.

Uma novela

Esse texto nasceu como um conto. Era a história de um jovem que ia pra capital em busca de uma vida melhor, mas acabava se envolvendo com pessoas erradas e passava uma noite na rua. Aí resolvi fazer o texto crescer, fiz o personagem passar duas noites na rua, apanhar de valentão, apanhar de guardador de carro, passar fome, ser assaltado etc. Além disso, a linguagem é extremamente coloquial, tanto do narrador, quanto do personagem, e essas duas vozes se misturam em vários momentos.

O bafo do asfalto e do cimento o envolveram quando saltou do ônibus e pôs os pés na capital. Chegava naquele dia quente de fevereiro, trazendo, além dos seus dezenove anos, uma pequena bolsa preta de mão com poucas roupas. Juliano segurava o riso dentro da boca desde que tinha visto já longe a linha de prédios crescendo no horizonte e ficando cada vez mais maior, até que se viu no meio deles e dentro de uma estrada que não dava pra sair. Veio querendo ver de tudo, querendo gravar o nome das coisas, o que estava escrito nas placas, nos anúncios, a cabeça virando tipo cata-vento prum lado e pro outro no meio de um redemoinho de estimulação.

Quando é que ele tinha imaginado que ia sair daquele fim de mundo? A mãe que sempre brincava com ele dizendo que nunca é que ele ia de virar alguém na vida, que só dava desgosto, que ainda ia era achar ele caído numa valeta um dia com formiga na boca, feito cusco sem dono morto com balinha de naftalina. Não, ele é que não ia dar esse desgosto pra mãe. Ela que tinha falecido duma hora pra outra por conta de um troço que deu que não teve médico que soube explicar lá na cidade. Nem em …, pra onde um vereador arranjou de levar ela de ambulância pro Hospital das Clínicas, furando a fila de espera e tudo. Foi e voltou e não teve jeito. Ia ter que voltar pra fazer mais uns exames, mas acabou nem dando tempo do remédio fazer algum efeito, porque a mãe acabou falecendo dali dois dias depois que tinha voltado de viagem. O pai ficou o velório inteiro dizendo que tinha avisado que não era pra ela ter ido, que só cansou a coitada. Que se ia morrer mesmo que pelo menos morria descansada. A mana Eulália até quis dizer pro pai que a gente tinha que tentar alguma coisa, que não adiantava de deixar a mãe na cama daquele jeito, que os médicos lá da cidade não prestava, que nem olhavam pra cara da gente, e que era uma coisa boa que o Dr. Clóvis quis fazer, ele só queria ajudar, mas não sabia que tava atrapalhando. Ele ia sair pra prefeito logo, logo e que ajudar a mãe foi só uma ajuda que ele fez pra gente pra depois pedir voto, o pai emendava. Pois eu dava até dois votos pra ele se fosse o caso, porque ele ajudou a mãe naquela vez, deu um óculos novo pro pai numa outra e também me ajudou  a escapar do quartel. Imagina se ele fosse pro quartel em …? Não ia de dar certo, que a mãe já estava até com medo que os milico iam de judiar muito do filho dela. Que mesmo que fosse bom pra ele virar homem, virar gente, aprender alguma profissão, quem sabe virasse motorista ou mecânico, como o pai dela tinha virado quando foi pro quartel, era uma coisa, mas todo mundo dizia que o quartel era outro agora e que nem quarentena tinha mais, e que o soldado podia ir pra casa todo final de semana se quisesse. Era o que a mãe dizia. E ele ouvia e até se olhava no espelho pensando nele vestido de farda bem passada, aquele verde-oliva bonito, que a mãe não ia deixar o filho dela andando por aí de farda amassada. Mas imagina se ele é chamado? Mas deu que quando ele foi se apresentar no quartel, passou o dia respondendo umas perguntas, falando com cabo, com sargento, com tenente, até com major ele falou aquele dia. No final do dia o cabo chegou pra ele e disse que podia ir embora, que ele tava dispensado e deu os papéis na mão dele. Tava dispensado, Juliano perguntou, meio ressabiado, meio com medo de que fosse mentira, tava dispensado mesmo, perguntou de novo só pra ter certeza, e era verdade, podia ir embora, e ele foi, sabendo que a mãe ia ficar feliz com aquilo, e que, tá, talvez ele até queria ir pro quartel. Se imaginava chegando em casa na sexta de noite todo bonitão de farda lisinha, as botina brilhando, o boné cobrindo a testa e a mãe recebendo ele toda faceira e contando que tinha feito um cuque pra esperar ele e umas bolacha pra ele levar de lanche pra comer durante a semana.

Mas agora a mãe já tava morta. E ele ali na rodoviária. Com a bolsa na mão, procurando o primo que disse que ia ir pegar ele. Era uma gentarada indo pra lá e pra cá, carregando malas, caixas, embrulhos, se abraçando, se reconhecendo e os ônibus chegando, despejando aquele povo todo ali na boca da rodoviária e logo se indo embora de volta. Juliano olhou no entorno, sem ver cara conhecida: cadê o Cristiano?

Cristiano disse que a cidade era boa de morar, bastante serviço, que quem gostava de trabalhar não ficava sem nada pra fazer. Juliano que aparecesse, nem que fosse só pra conhecer a capital, fazer uma visita. Já com a dispensa do serviço militar, nem pro quartel ele serviu mesmo, pegou mala e cuia e embarcou num ônibus da Unesul que catingava uma mistura de produto químico com mijo velho de gente. Cadê o parente que tinha ficado de buscar ele, se perguntou já ficando meio zonzo com aquele fuzuê de buzina soando, pneu cantando, carro acelerando, gente falando, ônibus roncando, taxista gritando, gentarada falando, alto-falante avisando, e tudo o mais que acontecia em volta dele e ele não conseguia dar conta porque era muita coisa pra ouvir ao mesmo tempo.

Cadê o Cristiano?

Tchau, plural!

Como é que um plural morre? O Leandro Karnal afirmou no Roda Viva nessa segunda-feira que o plural vai desaparecer. Volta e meia algum gramático ou gramatiqueiro desavisado afirma a mesma lorota, pintada com tintas de erudição, como se fosse um profeta anunciando a chegada do desastre. Na verdade a pergunta poderia ser mais ampla: é possível uma língua perder uma categoria gramatical?

A pergunta geral é difícil de responder, mas o que a história das línguas nos mostra é que perder uma propriedade gramatical acarreta, normalmente, que a tarefa exercida por um elemento seja tomada por outro. Um exemplo. Tem pesquisador brasileiro afirmando que o enfraquecimento da concordância verbal está obrigando que pronunciemos o sujeito. Antes tínhamos uma forma verbal para cada pessoa gramatical (eu sou, tu és, ele é, nós somos, vós sois, eles são). Agora o quadro é outro (eu sou, tu/você/ele/a gente é, nós somos, eles são). Reparem que de seis formas o paradigma se reduziu a quatro, pelo menos no português brasileiro culto falado pela população urbana escolarizada*. Qualquer gramática brasileira honesta vai mostrar isso. A conclusão: como antes o verbo permitia identificar o sujeito gramatical, dava pra ocultá-lo, mas como agora não é mais possível, o jeito é expressar o sujeito lexicalmente.

Quando se fala que o plural está desaparecendo, eu acredito que o camarada tem em mente a regra padrão de formação do plural no sintagma nominal (cf. os meninos espertos) em contraste com o plural coloquial (cf. os menino esperto)**. Em um post de meses atrás eu comparei as duas regras como se fossem hipóteses sobre o funcionamento da expressão gramatical do plural no português do Brasil. Olhando para o fenômeno, é fácil perceber que o plural não está sumindo (nenhum linguista diria isso). A língua continua tendo disponível a expressão semântica do número plural, isto é, quero fazer referência a um conjunto de entidades no mundo e a cardinalidade desse conjunto é maior do que 1, ou é maior ou igual a dois (supondo que seja isso que o plural signifique, em termos simplistas). A diferença é que na variedade padrão o plural é marcado morficamente em todos os elementos do sintagma, isto é, em todos os elementos ligados estruturalmente ao substantivo eu vou ter um pedaço desse elemento que vai me dizer, ei, eu estou no plural (os meninos espertos), já na variedade coloquial basta que eu tenha o plural morfológico no primeiro elemento do sintagma, que nenhum falante vai interpretar que os menino esperto designa um e apenas um menino, que é o que o singular definido refere, cf. O menino esperto comeu o brigadeiro antes da gente cantar o parabéns.

Dizer que uma variedade é inexpressiva ou incapaz de sutilezas gramaticais que a outra é capaz (como os gramáticos normalmente afirmam, sem demonstrar, vocês estão ligados, né?) é de uma canalhice e desonestidade intelectual digna de banimento pra Sibéria. A categoria do número está ali, tanto numa variedade quanto na outra. As duas descrevem o mesmo estado de coisas no mundo, isto é, uma frase como Os meninos espertos comeram todos os brigadeiros expressa o mesmo, ou, é verdade exatamente na mesma situação em que Os menino esperto comero os brigadeiro tudo é. Claro, o fato de uma ser a correta e a outra errada tem a ver com fatores históricos, culturais e ideológicos, não linguísticos. Uma é a correta por que é usando ela que se escreveu os Lusíadas, o Viagens da Minha Terra, o Primo Basílio, o Quincas Borba, a Constituição da República, e assim por diante. Tem a ver com o valor que a sociedade dá praquela forma gramatical, não com a sua capacidade maior ou menor de expressar a noção gramatical de plural.

Isso qualquer gramático sabe (mas não conta). Mas isso seria admitir que mesmo variedades não-padrão também são aptas para a expressão cultural e intelectual, o que daí já é avacalhação, né? Dizer que dá pra fazer filosofia e literatura com português de pobre é um negócio que eles não concebem.

*Notem que com verbos regulares e em algumas classes sociais esse paradigma flexional pode se reduzir ainda mais: eu falo, tu/você/ele/a gente/nós/eles fala.

** Tá, o sociolinguista aí mais bem informado que eu pode estar dizendo “plural coloquial” não é a melhor forma de caracterizar o fenômeno. Tá, não é, mas fiquemos com essa denominação para os fins desse texto.

* * *

Nota final. O Karnal também prevê a morte do subjuntivo e da subordinação. A mesma coisa. Uma língua sem subjuntivo seria uma língua sem capacidade de expressar hipótese. Se a língua já tem essa capacidade, porque deixaria de ter? E, de modo geral, será que tem alguma língua humana por aí que fale apenas factualmente? Eu duvido.

Sobre a subordinação o Chomsky já mostrou pra gente que não existe língua humana sem algum tipo de subordinação (não dá pra ter função sintática sem subordinação) – tá, o D. Everett afirmou que o Pirahã seria uma língua sem subordinação, o que já foi contestado por um bocado de gente. Outra viagem na batata é acreditar que uma oração é mais complexa por ser subordinada em relação a outra coordenada.  Complexidade gramatical não indica complexidade cognitiva, ou seja, um pensamento não é mais complexo por ser expresso por uma coordenação, em relação ao mesmo pensamento expresso por uma sentença com subordinação interna. Claro que isso precisaria ser melhor explorado, mas vou parar por aqui, porque esse assunto daria outro texto.

Ah, e o fato de um sujeito inteligente como ele não saber isso só demonstra a incapacidade dos linguistas se fazerem ouvir pela sociedade. Ele desconhece o que seus colegas de universidade pensam e ensinam ali do outro lado da rua.

Como dizer adeus quando se está fugindo II

Esse conto é uma variação sobre o mesmo tema, o sujeito que está fugindo de casa. Foi uma imagem que me ocorreu. O camarada dentro do ônibus, está indo embora, e quando o ônibus está na estrada ele tem um ataque de riso. E aí resolvi fazer um exercício metalinguístico com o outro conto anterior, em que ele foge de casa por ter abusado da sobrinha. Agora ele rapa as economias da família.

Sérgio olhou a lista de destinos, como se pensasse melhor na escolha que tinha feito semanas atrás. Quanto é o preço da passagem pra São Paulo? Tá, era uma cidade grande e tudo, mas lá seria fácil se entocar também. Sim, ainda tinha lugar no ônibus que saía às nove horas, o rapaz atrás do vidro respondeu. Tinha vendido o carro, tirado o dinheiro da poupança e feito um acerto na firma para pegar o Fundo de Garantia também. Toda a grana que pode arrecadar estava ali dentro daquela malinha preta que ele levava, junto com algumas mudas de roupa.

Ia ter que ficar fazendo hora ali na rodoviária, mas tudo bem, já tinha escurecido. Rejane, a esposa, não ia se ligar logo não. Era uma mulher esperta, ô se era, mesmo que ainda não tivesse descoberto o que ele tinha me aprontado. Quando descobrisse, ele já ia de-estar longe. Resolveu ficar por ali, na lanchonete. Tomava um café, comia alguma coisa pra encher o panduio antes da viagem e matava o tempo até dar a hora.

Olhou pra fora, nenhuma face conhecida. Cada um que entrava, se perguntava se vinha de-atrás dele. Não. Não conhecia aquele povo que ia entregando passagem e bagagem pro motorista lá embaixo e vinha subindo, marca de saudade já no rosto, procurando o lugar e se abancando pra enfrentar a noite de viagem até São Paulo. Sérgio fechou a cortina e reclinou a poltrona. Não conhecia ninguém, felizmente, senão já iam vir pra cima dele cheios de pergunta.

Ele tentava, meu. Ele tentava ser gente. Ele tentou fazer o que era o certo. Não que não soubesse. Não que sua mãe não tivesse ensinado pra ele, dito milhões e milhões de vezes, meu filho, não faça tal e tal coisa, é assim e é assado que a vida funciona, escute a tua mãe que já sofreu muito na vida. Talvez tentando fazer dele um homem melhor do que o pai dele era ou do que o pai dela tinha sido, melhor do que todos os lazarentos que ela conheceu e que fizeram ela sofrer. E ali estava ele, fazendo uma mulher sofrer. A Rejane ia se tocar logo que ele tava indo pra São Paulo. Ele já tinha trabalhado lá de jardineiro por uns anos, sabia como conseguir serviço. Gente do sul conseguia emprego fácil. E agora ele já conhecia as agências.

E fora o piá dele, que era pequeno demais ainda pra entender tudo que ia acontecer, e um dia ia dizer de boca cheia pra todo mundo que o pai dele era um filho de uma puta. Numa dessa era até bom ele tá indo embora. Se bem que não era coisa boa uma raiva assim, uma coisa doída dessas por causa de um pai. Mas é que… puta merda… por que ele era assim?

Tá, talvez um dia, sei lá. Quantos anos Rejane ia precisar pra perdoar ele? Bem, porque não era uma coisa assim fácil, ele chegar e dizer pra ela, olha, desculpa e tal, te amo e tudo, sei que caguei no pau, sei lá o que me deu. O motorista acionou a ignição e o ônibus inteiro chacoalhou, passando a roncar baixinho. Era um negócio que eu precisava fazer sabe, eu precisava me dar aquela aventura. A gente tinha já conversado várias vezes sobre ir embora e você nunca tinha topado. Aí eu fui sozinho. A tua mãe, você dizia, o emprego bom.

Descia agora. Voltava correndo pra casa antes da Rejane perceber que ele teve longe: olha, amor, precisamos conversar. Porra! Ele já tinha pensando mil vezes nessa solução e cada vez que pensava nela o final era sempre a cara branca de polaca da Rejane ficando vermelha e vermelha conforme ia se explicando até que ela pegava a primeira coisa que tava ao alcance da mão e jogava na cabeça dele. E ele que não era bicho de sangue frio… ia ser uma confusão danada. Daí o filho ia abria a goela com a confusão, os vizinhos iam chamar a polícia… Essa sucessão de pensamentos foi pontuada por um soco no braço da poltrona. O soco foi forte o suficiente para que a senhora que estava sentada ao seu lado o olhasse, de soslaio. Ele abriu um sorriso que dizia, desculpa, não sei o que me aconteceu, está tudo bem, não vai se repetir. A porta se fechou e o ônibus começou a ser manobrado para fora da rodoviária, tomando as ruas de Porto União, União da Vitória e o caminho da BR476. Podia ter falado a verdade… Não podia.

Agora não dava mais. Agora estava decidido. Ela ia descobrir quando? Quando ele não chegasse em casa no dia seguinte? Ele já tinha dormido fora sem avisar várias vezes, e várias vezes tinham brigado e ela tinha aceitado ele de volta na cama depois de ficar uma semana braba. Ele era um imundícia mas ela gostava desse imundícia. Que ele podia ia fazer as festa dele, mas que se ele tivesse outra ela matava ele e ele nem ia saber como é que foi. O ônibus passou a ponte.

Podia ter se despedido do filho. Do pai. O pai era um merda de um cachaceiro, nem ia sentir falta dele. E talvez ele tivesse sendo mais corajoso que o pai dele. Talvez ele era mais homem, justo porque ele, Sérgio, estava fazendo o que o pai não teve a batata roxa pra fazer. E ele começou a sorrir com isso, um sorriso que se abriu assim que as luzes do ônibus foram apagadas, ao passarem pelo Hospital Regional. Rejane devia estar lá em cima agora, cuidando daqueles doentes todos. E ele com aquele dinheiro no bolso. E o sorriso virou uma risada, como se fosse uma golfada de ar que escapasse pela boca e nariz ao mesmo tempo, assustando de novo a senhora. Sérgio olhou pra cara dela. E ela sorriu, mostrando um brilhante dente de ouro, o que desencadeou a gargalhada. Ele não entendia por que, era uma vontade que vinha lá da barriga e crescia e quando ele viu estavam já no trevo e ele estava gargalhando alto e olhando praquela senhora com um dente de ouro. E ele agora estava gargalhando tão gostoso que era melhor se controlar antes que achassem que ele tinha ficado louco e deixassem ele na porta da clínica psiquiátrica que já iam passar. E o filho?

Mas e o piá? Não tinha pensado muito nisso… e o piá? Devia ter pensado nele antes de fazer a cagada. O piá… dali a pouco a Rejane arrumava outro caboclo, que o piá logo ia aprender a chamar de pai. Todo mundo dizia que o piá era a cara dele. Sérgio já não gargalhava mais. Exibia ainda um sorriso engessado, mais pelo esforço todo da gargalhada, enrijecendo os músculos da face, mas que ninguém via direito porque estava bem escuro dentro do ônibus. A cidade já tinha ficado para trás.

O piá ia pedir por ele por quanto tempo? Um mês, dois, dali a pouco Rejane ia dizer que o pai dele tinha morrido e que o caboclo novo era o pai dele agora e o menino ia aceitar aquele pai e ia esquecer dele. Porque era assim que as crianças eram, elas esqueciam logo dos adultos que sumiam.

Eu devia ter comido ela primeiro

Esse é um conto de 2012 (acho), que resgatei semana passada. Reli e gostei do potencial dele e do que eu queria com ele, testar uma linguagem mais adolescente e bem coloquial, já que o tema é um drama adolescente. Trabalhei nele na última semana. Claro que ele ainda precisa de retoques. Mas a proposta aqui é publicar work in progress mesmo, pra ver se alguém me dá um tipo de retorno . Às vezes alguém dá (Valeu, Cláudio!). Aí vai.

Era uma manhã de setembro em que a gente estava de bobeira pelo colégio, logo depois do intervalo, ali no pátio trocando ideia e tal, eu, o Alex, a Verônica e a Francine. Como o professor faltou, ficamos por ali, já que ir pra casa era a última coisa que eu queria naquela época.

O Alex e a Verônica saíram pra outro canto e nos deixaram sozinhos. Eu meio que entendi a intenção deles ao fazer isso, pensei lá comigo que se dane, que ela não era tão esquisita e que depois do meu primeiro beijo eu não tinha ficado com mais ninguém, já tinha mais de seis meses aquilo, e que, bom, a Fran era o tipo de menina pro meu bico, afinal de contas.

Ficamos ali um tempinho conversando, eu me acostumando com a ideia e tudo, até que percebi que ela foi se aproximando e dali a pouco pegou na minha mão. Olhei pra ela e nos beijamos. Foi esquisito pra burro. Ali no meio do colégio e tudo. Por mais que só a gente estivesse sentado no pátio naquela hora, ninguém estava vendo, o Alex a e Verônica estavam noutro canto e não viam a gente de lá. Ela era magrela e desengonçada como eu, só que baixinha, tampinha mesmo, quase um gravetinho que dava de pegar no colo de tão leve. Não que eu fosse lá muito diferente disso. Eu era mais alto e ela batia com a cabeça no meu peito. Mas a gente sentado isso não fazia muita diferença. E olhando assim bem de perto, ela tinha os seus encantos, se o cara olhasse bem, como aquelas mulheres que você vai se afeiçoando aos poucos, de repente uma beleza inédita aparece e a atração nasce. Naquele momento eu não pensei muito e beijei ela porque eu queria fazer isso, mesmo nunca tendo pensado seriamente naquilo. Ela não me dava tesão, pra te falar bem a verdade.

Engraçado isso. Naquele ano não me apaixonei por ninguém, eu andava numa totalmente diferente, sei lá. Meio que me conformei com minha situação de bocó. Não tinha a mínima condição de me achar capaz de despertar sentimentos em alguma menina. Daí que parei de pensar nisso. Eu era um cabaço e ia ficar assim por um bom tempo, pelo jeito. O beijo foi estranho, sem saliva, sabe? Meu primeiro beijo tinha sido molhadinho, com muita língua, gostoso pra burro e tudo, e o que tinha acontecido ali era outra coisa. Eu não entendia aquilo. Como podia não ser bom? Por que o beijo da Fran era diferente? Eu não sentia desejo naqueles lábios, como eu tinha sentido com a primeira menina que eu beijei – e como eu viria a sentir em outras mulheres depois – aquela coisa de o beijo ser tão bom que você não quer parar nunca mais de beijar, tá ligado? É massa quando isso acontece. Mesmo assim, dei mais algumas chances praquela boca, pra ver se a gente se entendia na sequência. Dali a pouco o Alex e a Verônica voltaram. E o beijo não melhorava, como se ela não quisesse pisar no acelerador.

– Hummmm! – Verônica murmurou isso daquele jeitinho engraçadinho e fofo dela, com aquele risinho pequeno e tudo, que quase não sai de dentro da boca, vendo que estávamos de mãos dadas.

– Vamos lá pra casa. Querem vir junto? Comprei o CD novo do Legião – O Alex propôs.

O Alex morava no quarto andar de um prédio ali no centro da cidade, uns quinze minutos do colégio, numa rua tranquila. Não tinha perigo de cruzar com ninguém conhecido que fosse perguntar o que eu estava fazendo fora da escola. Não fomos de mãos dadas pela rua. Não me sentia com vontade de fazer aquilo, já que a gente não era nem namorado nem nada. E não tinha chance disso acontecer. Alex e Verônica também não estavam de mãos dadas. Estávamos contentes. Era uma manhã que tinha começada coberta de serração e que depois das dez horas tinha se aberto com um grande sol amarelo que espantou as últimas nuvens de névoa.

Sentamos na sala. Eu e a Fran num sofá de dois lugares, o Alex e a Verônica no outro de três.

– Vamos tomar alguma coisa? Cuba?

– Pode ser – eu disse.

– Tem cigarro aí, Luís?

– Tenho! – gritei. Ele já tinha ido pra cozinha. – Quer um?

– Não! Imagina, perguntei só pra saber mesmo. Estou fazendo uma pesquisa pro IBGE.

Nós rimos. Ele voltava com o copo. Entreguei o cigarro pra ele.

Dei uma bicadinha só, não podia chegar em casa com bafo de cachaça em pleno meio dia de uma quarta-feira. Ia ser uma merda enorme se meu pai sequer cogitasse que eu tinha bebido.

– O CD! Deixa eu pôr o CD do Legião pra gente ouvir. É meio depressivo e tal, porque ele já andava bem doente. Mas é muito massa.

Ele me passa o encarte do disco pra eu ver com a Fran e senta ao lado da Verônica que cochicha alguma coisa no ouvido dele.

– Moçada, fiquem à vontade aí. Cara, se quiser fazer mais um preparado você sabe onde tem vodka e Coca. Você é de casa.

A primeira música acaba. Ele deu um gole longo no copo e o passou pra mim. Alex pegou Verônica pela mão, foram pro quarto e trancaram a porta. Ofereci pra Fran, que balançou a cabeça negando. Dei outra bicada e o depositei na mesa de centro. Perguntei se ela não bebia. Ela respondeu que não. A religião dela não permitia. Não era brincadeira, né? Não, foi a resposta. Era a primeira vez que eu conhecia alguém da minha idade que levava a sério o que a sua religião dizia. Talvez fosse só uma desculpa dela também.

Ficamos ali de mão dada e tudo ouvindo a música. Eu estudando aquela mão pequena, tão menor que a minha, que dava pra abracar. Era maciazinha, os dedos finos e curtos. Ela não tinha as unhas pintadas, nem compridas, como daquelas meninas metidas a adultas. Fiquei nessa, porque eu não sabia o que conversar com ela. A gente conversava todo dia sobre essas coisas do colégio, os livros que a gente lia, sobre Legião, sobre os filmes e programas na tevê… e agora a gente estava ali um segurando a mão do outro e sem nada pra dizer. Vai ver a gente só conseguia conversar quando tivesse gente por perto pra puxar assunto.

– Bonita essa música – comentei.

– Qual é o nome mesmo?

Eu olhei no encarte.

– “Via Láctea”.

– Bonita mesmo.

Concordei. A gente se beijou pelo tempo de outra música. Não melhorava. Era como se nossas bocas não fossem do mesmo tipo, como se fossemos peças erradas de um quebra-cabeça, que forçosamente uma criança tenta unir por teimosia, por não saber pensar em outra solução.

– Gostei dessa também. Mais rock, mais rápida, mais agitada, dançante.

– Sei lá, gostei mais das românticas – ela disse.

– “Dezesseis”.

– O quê que tem?

– “Dezesseis”, é o nome da música. Irônico, não?

– Por quê?

– Eu tenho dezesseis anos e você?

– Eu já tenho dezessete…

– Ah tá… eu não sabia, pensei que você tinha dezesseis também.

– Eu reprovei na sexta-série.

– Onde você estudou no primeiro grau?

– No Pedro Stelmachuk.

– Hummm.

– É perto de casa.

– Por que veio fazer o segundo grau no Túlio de França?

– Todo mundo diz que o ensino é melhor.

Eu ri.

– Por que tá rindo? – Ela parecia mesmo intrigada.

– Tá na cara que não é, né?

– Como assim?

– A gente mal teve aula esse ano, só matação. Hoje, por exemplo, o professor de matemática não veio. Quantas vezes ele já faltou esse ano?

– Verdade.

Ela parecia estar se dando conta daquilo só agora.

– Olha que linda essa música – ela mudou de assunto.

– Bonita também. – Olhei no encarte. – “Mil pedaços”.

– Vou comprar no um e noventa e nove a fita.

Fiquei quieto ouvindo a música.

– Não é tão triste como ele disse, tem umas músicas bem boas. Olha essa batidinha que massa.

Agora tocava “1 de julho”.

– É boa mesmo. Que música linda.

Não penso em me vingar/eu não sou assim/a tua insegurança era por mim

– Cara, é MUITO boa essa música. – eu tinha gostado demais dela.

Ela concordou. Aquele era um baita dum disco.

Tocava “O livro dos dias” quando eles saíram do quarto. O Alex com os cabelos bagunçados, as maçãs do rosto vermelhas. A Verônica foi direto para o banheiro. Senti alguma coisa esquisita no ar. Ele estava desconfortável. O sujeito mais cheio de si que eu conhecia estava sem jeito. Isso era novo. Ela saiu do banheiro. Também com as bochechas rosadas e meio sem jeito, sorrindo de nervosa.

– Moçada, preciso ir nessa – falei, já era quase meio-dia.

– Beleza. Daqui a pouco meu pai e minha mãe chegam.

O Alex nos levou até lá embaixo. Deu um beijinho no rosto da Verônica e um abraço.

– Falou, maluco. A gente se fala – me estendeu a mão e nos abraçamos. Ele agora estava apenas sério.

Na esquina dei um beijinho no rosto da Fran a Verônica fez a mesma coisa, ela ia pra outro lado. Eu e a Verônica íamos pra mesma direção até um pedaço. Fomos caminhando em silêncio. Eu pensava no ano passado. No quanto aquela menina tinha povoado meus pensamentos, meus sonhos, meus desejos, minhas punhetas, no quanto a gente tinha se aproximado e no quanto aquilo tudo tinha se esvaziado no último ano. A figura dela já não aparecia mais na minha mente antes de eu dormir. Não pensava mais nela quando ouvia November Rain. Nem era mais alguém com quem eu queria falar por horas e horas. Era esquisito aquilo tudo, porque agora ela recém tinha transado com o Alex e eu não me sentia incomodado com aquilo, não sentia ciúmes, nem nada. Eu deveria sentir alguma coisa, na verdade?

Não sei o que eu deveria sentir. Raiva? Ciúme? Inveja? Não sei. Não conseguia sentir nada. Porque esse desconhecimento das sensações, me fez seguir ali do lado pela, quieto. Quieto porque sentia que tinha acontecido alguma coisa. Mas não tinha coragem de perguntar e intuía que ela não ia me dizer mesmo. Eu olhava de lado de vez em quando, me rindo por dentro porque o cabelo dela estava esquisito, repassando o gosto do beijo da Fran na minha boca, e era uma coisa que eu ainda não sabia também como lidar, pois eu ia chegar no outro dia no colégio e olhar pra ela, sabendo que a gente tinha se beijado e isso ficaria pra sempre entre a gente. E no fundo, acho que ela sabia também que não tinha sido bom. Mas a Verônica estava ali do meu lado caminhando apressada e com os olhos prestes a explodir em lágrima e eu não tinha nada pra dizer pra ela.

Eu ia pensando nessas coisas todas quando chegamos na esquina em que cada um ia pro seu lado. A gente se beijou no rosto. “Tchau!”, “Tchau! Até amanhã”. E cada um foi pra sua rua. Dei mais uma olhada pra bundinha dela que rebolava rua abaixo.

Porra! Por que é que eu não tinha falado pra ela o que eu sentia um ano atrás? Eu podia ter perdido o meu cabaço com ela.