Sobre relativismo linguístico

Acabei de ver o vídeo da palestra da Lera Boroditsky (encaixado acima) e fiquei com sentimentos contraditórios: ela fala com clareza e é relativamente convincente; mas ao mesmo tempo não consegui acreditar nela, ela me pareceu listar uma série de curiosidades, e não conseguiu de fato mostrar nenhuma conexão real entre a linguagem e o pensamento.

Até que ponto a capacidade de reconhecer tons de azul com mais rapidez é de fato uma habilidade cognitiva “diferente” que os russos possuem? Até que ponto isso é uma visão de mundo diferente? Como se pergunta John McWhorter: o que 200milissegundos (é essa a medida em que os russos são mais rápidos do que falantes nativos de inglês no reconhecimento dos diferentes tons de azul) de fato mede?

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O livro de McWhorter, The language Hoax: why the world looks the same in any language (Oxford University Press, 2014) é um manifesto contra o que ele chama de linguajar publicitário. Livros como o de Guy Deutscher, Through the language glass, por exemplo, criam no público a impressão de que temos evidências de que existe uma conexão efetiva entre linguagem em pensamento. Claro, há também todo um apelo poético nessa visão de que cada língua representaria uma visão de mundo (o que é outra coisa).

Mas não se engane. É óbvio que existe uma conexão entre a linguagem e o pensamento. A questão mais profunda é: línguas que possuem vocabulário mais extenso para as cores permitem aos seus falantes uma percepção diferente da realidade? Ninguém até hoje conseguiu mostrar que sim.

O que há, principalmente no léxico, são diferentes recortes da realidade, por assim dizer. A lenda de que o inuíte (a língua dos esquimós ou inuítes) teria uma centena de palavras para o que chamamos simplesmente de neve faz parte desse imaginário. Não é difícil perceber a necessidade que um esquimó possui de nomear diferentes tipos de neve.

Um belo resumo desse imbróglio pode ser lido nesse breve texto disponível na página da Linguistic Society of America: https://www.linguisticsociety.org/sites/default/files/Does_Language_Influence.pdf

Recentemente esse debate voltou à pauta por conta do filme A Chegada. A personagem principal é uma linguista que ajuda a estabelecer diálogo com os alienígenas. E parece que no processo de aprender a língua deles ela ganha uma habilidade especial. É o relativismo levado ao seu extremo: aprender uma língua diferente me permite ter uma nova visão sobre a realidade.

https://epoca.globo.com/cultura/noticia/2016/12/o-filme-chegada-mostra-como-linguagem-influencia-nossos-pensamentos.html

 

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Stoner falando de gramática

De Stoner, de John Williams (Rádio Londres, 2015, p. 146-147). Passagem em que o professor Stoner, um medievalista, comenta sobre o papel da gramática para o homem medieval.

É importante nos darmos conta de que essas artes da retórica, gramática e dialética tinham um significado para um homem do fim da Idade Média e do começo da renascença que nós, hoje, podemos intuir apenas vagamente sem um esforço de imaginação histórica. Para os estudiosos, a arte da gramática, por exemplo, não era meramente uma disposição mecânica das partes do discurso. Desde o fim da época helenística e ao longo da Idade Média, o estudo e a prática da gramática incluíam não só o ‘talento literário’ mencionado por Platão e Aristóteles, mas também, e isso se tornou muito importante , um estudo das técnicas poéticas, uma exegese da poesia tanto na forma quanto na substância, e da precisão estilística, na medida em que esta pode ser distinguida da retórica.

Sentiu que estava se apaixonando pelo assunto, e notou que vários dos alunos se haviam inclinado para a frente e parado de tomar notas. Ele continuou: “Além disso, se a nós do século XX perguntassem qual dessas três artes é a mais importante, poderíamos escolher a dialética, ou a retórica, mas seria muito improvável que escolhêssemos a gramática. No entanto, o acadêmico, e o poeta, romano e medieval quase com certeza consideraria a gramática a mais significativa.”

É por isso que ainda recentemente, gramáticas como a de Cunha e Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lexikon, 2008 [1. ed. 1985]), se auto-definem como “manuais de estilística”. Ou que uma gramática como a de Azeredo (Gramática Houaiss da Língua Portuguesa, Publifolha, 2014) sinta a necessidade de trazer um capítulo sobre estilística (com a boa e velha lista de exemplos de figuras de pensamento, de sintaxe etc.). A gramática, desde Dionísio Trácio (séc. II a.E.C.), é o “conhecimento empírico do comumente dito na obra dos poetas e prosadores”. Ou seja, a gramática é o estudo de uma variedade de língua para se tirar dela um ideal de expressão linguística. Logo, o critério para se decidir o que pode ou não pode é estético.

Claro, essa é uma dimensão do tema… há outros critérios: o histórico (a novidade é ruim), o social (menas é errado porque só pobre com pouca escolaridade fala assim), o escrito é molde para a fala etc.

Isso é só pra lembrar que muitos gramáticos e professores lidam com a questão do errado como se tivesse um valor inerente em certas formas linguísticas, quando não é assim na realidade.

Linguística para quem?

A gente lê por alguns motivos: para aprender com o texto, para tirar dele uma informação e por passatempo, prazer. O livro do Gabriel de Ávila Othero, ‘Mitos de Linguagem’ (Parábola, 2017) devia ser lido por prazer. Mas, a minha experiência me diz que os capítulos do livro serão copiados, lidos e discutidos nos cursos de Letras (talvez em outros, quem sabe) por esse país afora. É muito pouco para um livro dessa natureza, ele deveria pular os muros da universidade e ser lido nas escolas e por curiosos em geral.

Tem altos debates em congressos e publicações especializadas querendo entender por que os linguistas são tão pouco ouvidos ou consultados em debates sobre linguagem na sociedade. A razão, na minha modesta opinião, é que só se escreve introdução à linguística para servir de manual para aluno de Letras (é uma produção bibliográfica pra auto-consumo). Ninguém escreve pra ser lido por professores ou leigos em geral. (Tem poucos, muito poucos na academia que tentam fazer isso). Claro, sempre tem que vá dizer: peraí, meu, quem é que tá interessado em saber sobre pressuposição a não ser aqueles que estudam pressuposição? O problema não é escrever linguística para consumo próprio (apenas para alimentar a indústria do livro que só circula na universidade), o problema é escrever só com esse objetivo.

Voltando ao livro, o barato dele é tocar em temas que a gente não encontra facilmente em outras publicações introdutórias por aí. O livro está organizado em torno de 10 mitos, isto é, concepções equivocadas que os leigos possuem sobre a linguagem. O primeiro capítulo discute o mito “as mulheres falam demais”.

Esse mito é interessante, pois se conecta com o momento em que vivemos em que se discute tanto o papel da mulher e as violências que sofrem. A interrupção (já me peguei fazendo isso), a explicação (masplaining), ou dar mais atenção ao que os meninos falam (como professor num curso em que a maioria é mulher, é difícil diagnosticar isso, mas pode ser que aconteça). Esse tipo de discussão é importante por mostrar atitudes que temos que (nós homens) somos incapazes de perceber que são violências dissimuladas – a ministra do supremo Carmen Lúcia reclamou disso semanas atrás.

Tem outros mitos legais debatidos: ‘a gramática do português não tem lógica’; ‘ninguém fala o português correto’; ‘a língua portuguesa é uma das mais difíceis do mundo’; ‘a ortografia do português é cheia de exceções’; ‘todo mundo tem sotaque, menos eu’. Esses capítulos tratam especificamente de questões relacionadas com a nossa língua. Eu gostei particularmente do capítulo que envolve a lógica (ou a falta dela) da gramática. Os exemplos de definições problemáticas são bem ilustrativos dessa percepção. Um dos problemas é que a gramática escolar ainda se vale de uma metalinguagem que nos foi legada por gregos e romanos. Todos estamos de acordo que coisas como ‘pronomes’ existem em nossa língua. A questão é que definir a classe como ‘a palavra que substitui o nome’ talvez não seja a melhor definição; e que talvez nem tudo que esteja dentro da classe seja pronome.

Como disse o Mattoso Câmara Jr., as línguas humanas tem uma lógica diversa da lógica ordinária. E é tarefa do linguista descobrir essa lógica. Claro, vai ver a gente ainda não descobriu a lógica do funcionamento de algumas regras do português, e tem outras, claro, que são pura invencionice de gramático, como a discussão sobre os porquês, no capítulo que trata da ortografia.

O capítulo é muito bom, discutindo dois aspectos que explicam porque falamos as palavras de um jeito e escrevemos de outro: a fonologia e a etimologia. Nossa escrita é uma tentativa de representar os sons, e ao mesmo tempo quer preservar a herança lexical latina. Não dá pra respeitar 100% as duas coisas. Claro, ele ainda podia ter citado o fato de que no caso português, o Vocabulário Ortográfico elaborado pela Academia Brasileira de Letras é um guia para a grafia das palavras, e que o Acordo tem mais de político que de linguístico. Logo, tem um baita grau de arbitrariedade na decisão sobre a grafia de uma palavra.

Um segundo grupo de textos debate mitos relacionados com conhecimento linguístico geral: ‘a língua dos índios é rudimentar’; por que é difícil aprender uma língua estrangeira depois de adulto; a comunicação animal; a eficácia de tradutores automáticos. Gabriel mostra com detalhes como o mito envolvendo as línguas indígenas é infundado. Não vou entrar nos outros capítulos para não me alongar muito. Acho que os assuntos deles já mostram que são interessantes.

Carlos Alberto Faraco, na conferência de abertura do Congresso da Abralin em março deste ano na UFF, em Niterói, falou justamente da relação entre o conhecimento acadêmico e o conhecimento popular. O papel da ciência é de esclarecer o debate público e político (na medida em que decisões políticas baseadas em argumentos racionais trazem melhorias para a sociedade como um todo). No caso da linguística, livros como os do Gabriel cumprem um papel importante nesse diálogo. Ele é escrito para apresentar de maneira didática questões e resultados de pesquisas que dificilmente estariam acessíveis para um público mais amplo, mesmo para estudantes de Letras.

 

Falando de língua nos tempos do Youtube

Me impressiona que depois de tudo que a gente aprendeu sobre o texto/discurso e o funcionamento da língua na sociedade ainda surgem canais que utilizam as novas tecnologias de relação pessoal ou entretenimento (Youtube, Facebook, Twitter, Instagram) para falar de língua usando a caduca forma da gramática tradicional: a unidade de análise é sempre a palavra, a explicação auto contida (é assim porque é assim), e os fenômenos não ultrapassam os limites do certo/errado e aspectos tradicionais: ortografia, pontuação, regência, concordância, colocação de pronomes etc.

Além disso, por que ainda se fala dessas coisas? Por que alguém que passou 12, 13 anos na escola ainda precisa que alguém explique para ele a diferença entre mais/mas? Nessa altura da vida eu acho que um estudante já devia estar cansado de ouvir falar disso. Ontem, no Fantástico, vários professores falaram sobre a redação do ENEM. As dicas eram as tradicionais. Os critérios de avaliação mudaram, mas a cabeça do professor não. As dicas se resumiam em: cuidado com a gramática (entendida como aquela lista do final do primeiro parágrafo).

Supondo que as pessoas que se dedicam a esse trabalho são bem intencionadas, aprenderam na universidade que a língua vai além da palavra e da oração, que precisamos superar o velho ensino normativista com outras estratégias de ensino de gramática, que os usos linguísticos não podem ser avaliados pela régua do certo/errado etc. (perdoem essa subordinada gigantesca), tenho duas teorias pra explicar esse fenômeno: i) é o que dá pra fazer nesses recursos; b) é o mais fácil.

Se quero dar dicas para as pessoas escreverem melhor e divulgar isso através das redes sociais, posso gravar um vídeo curto (vídeos longos são chatos e acabam virando aulas), ou produzir um meme (uma imagem com texto). O que é mais prático de discutir numa foto para colocar no Instagram, a diferença entre os porquês ou a estrutura da relativa introduzida por preposição? Falar da diferença entre mas/mais ou de problemas de paralelismo semântico/sintático?

Falar de problemas textuais demanda tempo e espaço. Eu diria que é impossível mesmo falar disso numa imagem ou num vídeo de 30seg.

É mais fácil falar da palavra, embora eu creia que é uma facilidade enganadora. Explicar que mas é substituível por porém, e é conjunção adversativa, enquanto o mais é substituível por menos e é advérbio de comparação é uma explicação rápida e adequada. Mas seria efetiva? Isto é, depois de ouvir essa explicação o sujeito que a aprendeu (supondo que tenha aprendido) vai saber utilizá-la para avaliar a sua própria escrita? Eu acho que não, se ao longo da vida escolar o indivíduo não entendeu a escrita como um processo de organização de ideias, que precisa passar por vários estágios de formulação, reformulação e reescrita. Entendo que no vestibular ou num concurso público ele vai ter tempo para fazer apenas uma versão, reler, melhorar o que der pra melhorar nesse curto espaço de tempo, e passar a limpo a versão final.

Se ele foi apresentado a estratégias de autocorreção, de reescrita, de reformulação, de leitura do próprio texto, de estratégias argumentativas, de organização do parágrafo e do texto, e assim por diante, esse processo vai ser simples e indolor. Escrever, para esse estudante, não é preencher as 20 linhas o mais rápido possível para se livrar logo da tarefa, cuidando para não confundir o mas/mais ou errar a grafia do porquê.

Esse tipo de pedagogia da escrita, de culto ao “não erre mais”, “evite isso ou aquilo”, não vê o uso da língua do ponto de vista do seu papel interacional. O uso da língua escrita é só uma tarefa burocrática que o aluno precisa cumprir para chegar em algum lugar: na próxima série, na universidade, no emprego público etc. Não escrevo porque tenho algo a dizer, escrevo para me livrar da tarefa. Assim, a visão que se cria da escrita fica confinada à higienização do texto. Escrever bem é colocar pontos, vírgulas e acentos no lugar, não confundir o por que com o porque ou assento com acento etc. Não é “de varde” que estudar português  é um saco mesmo.

Um exemplo de dicas que supõe que a redação é encher linguiça: https://www.youtube.com/watch?v=rdf2AZ2Ss2c

Um exemplo, do mesmo canal, que dá dicas boas, embora as textuais de fato sejam poucas (como o uso dos textos motivadores; evitar generalizações, evitar clichês e ditados populares etc.): https://www.youtube.com/watch?v=Md5ymGUwZ2s

Estrutura argumental e discurso

O número de complementos de um verbo e os papéis temáticos que esse verbo atribui a esses participantes é um tema que pode ser tratado de diferentes perspectivas. Posso olhar para isso considerando o papel do léxico, o papel da sintaxe, ou o papel que essas propriedades possuem para a situação descrita e/ou seu papel composicional. Comparando (1) e (2),

(1) João abriu a porta com a chave.

(2) A porta abriu com a chave.

vemos que do ponto de vista lexical abrir é um verbo que descreve uma situação que pede pelo menos dois participantes, quem abre e o que é aberto. Do ponto de vista sintático abrir é um verbo transitivo direto, que toma como sujeito e objeto sintagmas nominais e atribui a eles um papel temático qualquer.

Na voz ativa, se o verbo possui dois argumentos, um paciente e outro agente, em 99,9% dos casos o português vai transformar o agente em sujeito e o paciente em objeto. Do ponto de vista composicional, (1) expressa que existiu uma situação de abrir em que João foi o agente, a porta o paciente, e a chave foi o instrumento usado na situação. Claro, a explicação para (2) pode ser o trabalho de um semanticista-lexicólogo quanto de um sintaticista. Afinal, o que permite que o verbo abrir construa uma estrutura com um sujeito paciente? É o fato de ele pertencer a uma classe lexical, ao que tudo indica, ou isso não interessa, temos verbos no português que permitem um uso intransitivo, e informações semânticas são secundárias?

O fato é que os verbos possuem uma estrutura que pode ser maleável. Com isso quero dizer que com um verbo como abrir eu posso criar com ele diferentes estruturas sintáticas para descrever a mesma situação:

(3) A porta foi aberta (por João).

(4) A chave abriu a porta.

(5) A abertura da porta (pelo João) (com a chave)

Veja que há construções em que posso omitir o agente, como (2), a forma ergativa,  (3), a passiva, (4), o instrumento foi alçado a sujeito, e (5), uma nominalização. A função referencial dessas estruturas é relativamente a mesma, mas a função textual/discursiva não.

Isso nos mostra que o falante possui à sua disposição, com alguns verbos, uma gama de opções linguísticas para descrever os acontecimentos que pretende comunicar. E a escolha por uma dessas alternativas pode ser regida por vários fatores discursivos: o tópico do discurso (do que estou falando), relevância comunicativa (às vezes não interessa quem foi o agente ou não se sabe) ou motivações socioideológicas (cf. A gasolina aumenta amanhã é um manchete que oculta o fato de que há um agente público, o governo federal, que realizou o aumento; e me parece que expressar ou ocultar agente públicos em notícias depende da simpatia do grupo de mídia).

Segundo reportagens, parece que armas podem disparar sozinhas. Por isso é comum vermos manchetes como:

(6) Arma dispara sozinha e acerta policial em Porto Alegre. (R7, 08/12/2010)

(7) Arma dispara e mata trabalhador autônomo em Campos. (Notícia Urbana, 21/07/2016)

Nos dois casos as armas estavam na cintura dos indivíduos atingidos. Mas temos casos em que alguém disparou a arma, tem um agente na ação, mas o redator escolhe não expressá-lo por não querer imputar culpa a esse agente, mesmo que na matéria se leia depois: “Segundo a Polícia Civil, o disparo foi feito por um amigo dele, da mesma idade”.

(8) Arma dispara e mata amigo de 12 anos. (VGNews, 21/08/2016)

Veja que isso nos dá outras estratégias de indeterminação do sujeito, além da tradicional apontada pela gramática escolar com o verbo na terceira pessoa do plural ou com pronome de indeterminação se. Quero dizer com isso que no caso de verbos como abrir ou disparar posso tranquilamente ocultar o agente da ação utilizando um recurso que o verbo me disponibiliza pela sua estrutura sintática, isto é, posso alçar o paciente a sujeito.

(9) Assaltaram a farmácia da esquina.

(10) Bandidos assaltam farmácia.

(11) Farmácia foi assaltada.

Note agora que em (10) temos um sujeito linguístico, bandidos, mas que é uma expressão que se refere a um grupo indefinido. Normalmente essas manchetes não trazem os nomes dos envolvidos porque não é relevante, mesmo que depois eles sejam presos. Uma manchete como João da Silva e Marcos Moreira assaltam farmácia só é relevante se os personagens são conhecidos do público leitor do jornal. Assim, é mais comum vermos ao invés de (10) a manchete em (11).

Eu ando meio desleixado com o blogue. Andei escrevendo mais no Medium, minhas ficções, por isso não postei mais nada aqui. Vou publicar só por lá minhas aventuras na prosa, e vou deixar o blogue só pra falar de linguística ou outras coisas que me deem na veneta. medium.com/@luisandromendes

Quem decide se uma pronúncia existe?

Um dos negócios mais difíceis de colocar na cabeça das pessoas é que não tem um valor intrínseco nas formas linguísticas. Mortadela não é mais correto que mortandela como uma verdade absoluta inquestionável. Depende, essencialmente, do valor que o grupo de falantes da língua dá praquela forma.

“Uma variedade linguística “vale” o que “valem” na sociedade os seus falantes, isto é, vale como reflexo do poder e da autoridade que eles têm nas relações econômicas e sociais”. É o que disse o italiano Maurizzio Gnerre em um livrinho clássico chamado Linguagem, escrita e poder (Martins Fontes, 1985). Isso quer dizer que quando temos opções na língua, quando vemos grupos sociais utilizando formas distintas, é inevitável que se atribuam valores sociais àquelas formas. Assim, mortandela não é errada em si mesma, é errada porque um grupo de falantes usa essa forma, e esses falantes normalmente são pouco escolarizados. Mortadela é a forma correta porque é a forma registrada nos dicionários e está associada à escrita, pois é a forma que as classes escolarizadas utilizam.

Na semana passada um médico tentou tirar um sarro de uma paciente que falou peleumonia e raôxis (se você não sabe do que eu estou falando, clica aqui). Por que tem gente que acha engraçado o falar diferente? Por que Framengo, praca e adevogado são pronúncias engraçadas?

Já se falou em preconceito linguístico e preconceito social. Rio dessas formas porque não gosto da classe social que as utiliza, e a fala é uma forma de eu criticar ou manifestar meu desprezo. Posso desprezar outros produtos culturais de uma classe social, como a sua música, a sua dança, sua produção escrita, seu vestuário etc. Falar de sexo numa letra do AC/DC não tem problema, mas num funk tem.

Isso tudo fica um pouco mascarado porque tem toda uma complexa rede de instituições que atuam para criar o que se chama de Norma Padrão. Como qualquer língua humana é intrinsecamente variável, isto é, varia na pronúncia, na forma das palavras, na aplicação das regras, no vocabulário, historicamente se cultiva uma variedade que aos poucos vai se tornando limpa, digamos assim, de regionalismos. As instituições que atuam no cultivo dessa norma são a escola, os gramáticos, os dicionários, a imprensa, os intelectuais, ou seja, a própria sociedade. São esses atores que controlam o que é e o que não é português. E esse controle se baseia principalmente na associação à escrita (se a pronúncia é mais próxima da escrita é mais correta), ou no valor do grupo social que usa a forma. É o caipira que fala poRta (usando o erre retroflexo), ou o colono do interior da região sul que usa o erre fraco (o tepe) onde o resto do Brasil usa o erre forte (o vibrante), em palavras como rato, serra etc.

Assumir que mortandela e peleumonia existem seria o mesmo que dizer que a minha língua vale tanto quanto a dele. Isso quer dizer que já não sou mais tão especial assim, que minha língua não é mais expressiva e clara que a da minha empregada. E esse pensamento assusta algumas pessoas.

Tchau, plural!

Como é que um plural morre? O Leandro Karnal afirmou no Roda Viva nessa segunda-feira que o plural vai desaparecer. Volta e meia algum gramático ou gramatiqueiro desavisado afirma a mesma lorota, pintada com tintas de erudição, como se fosse um profeta anunciando a chegada do desastre. Na verdade a pergunta poderia ser mais ampla: é possível uma língua perder uma categoria gramatical?

A pergunta geral é difícil de responder, mas o que a história das línguas nos mostra é que perder uma propriedade gramatical acarreta, normalmente, que a tarefa exercida por um elemento seja tomada por outro. Um exemplo. Tem pesquisador brasileiro afirmando que o enfraquecimento da concordância verbal está obrigando que pronunciemos o sujeito. Antes tínhamos uma forma verbal para cada pessoa gramatical (eu sou, tu és, ele é, nós somos, vós sois, eles são). Agora o quadro é outro (eu sou, tu/você/ele/a gente é, nós somos, eles são). Reparem que de seis formas o paradigma se reduziu a quatro, pelo menos no português brasileiro culto falado pela população urbana escolarizada*. Qualquer gramática brasileira honesta vai mostrar isso. A conclusão: como antes o verbo permitia identificar o sujeito gramatical, dava pra ocultá-lo, mas como agora não é mais possível, o jeito é expressar o sujeito lexicalmente.

Quando se fala que o plural está desaparecendo, eu acredito que o camarada tem em mente a regra padrão de formação do plural no sintagma nominal (cf. os meninos espertos) em contraste com o plural coloquial (cf. os menino esperto)**. Em um post de meses atrás eu comparei as duas regras como se fossem hipóteses sobre o funcionamento da expressão gramatical do plural no português do Brasil. Olhando para o fenômeno, é fácil perceber que o plural não está sumindo (nenhum linguista diria isso). A língua continua tendo disponível a expressão semântica do número plural, isto é, quero fazer referência a um conjunto de entidades no mundo e a cardinalidade desse conjunto é maior do que 1, ou é maior ou igual a dois (supondo que seja isso que o plural signifique, em termos simplistas). A diferença é que na variedade padrão o plural é marcado morficamente em todos os elementos do sintagma, isto é, em todos os elementos ligados estruturalmente ao substantivo eu vou ter um pedaço desse elemento que vai me dizer, ei, eu estou no plural (os meninos espertos), já na variedade coloquial basta que eu tenha o plural morfológico no primeiro elemento do sintagma, que nenhum falante vai interpretar que os menino esperto designa um e apenas um menino, que é o que o singular definido refere, cf. O menino esperto comeu o brigadeiro antes da gente cantar o parabéns.

Dizer que uma variedade é inexpressiva ou incapaz de sutilezas gramaticais que a outra é capaz (como os gramáticos normalmente afirmam, sem demonstrar, vocês estão ligados, né?) é de uma canalhice e desonestidade intelectual digna de banimento pra Sibéria. A categoria do número está ali, tanto numa variedade quanto na outra. As duas descrevem o mesmo estado de coisas no mundo, isto é, uma frase como Os meninos espertos comeram todos os brigadeiros expressa o mesmo, ou, é verdade exatamente na mesma situação em que Os menino esperto comero os brigadeiro tudo é. Claro, o fato de uma ser a correta e a outra errada tem a ver com fatores históricos, culturais e ideológicos, não linguísticos. Uma é a correta por que é usando ela que se escreveu os Lusíadas, o Viagens da Minha Terra, o Primo Basílio, o Quincas Borba, a Constituição da República, e assim por diante. Tem a ver com o valor que a sociedade dá praquela forma gramatical, não com a sua capacidade maior ou menor de expressar a noção gramatical de plural.

Isso qualquer gramático sabe (mas não conta). Mas isso seria admitir que mesmo variedades não-padrão também são aptas para a expressão cultural e intelectual, o que daí já é avacalhação, né? Dizer que dá pra fazer filosofia e literatura com português de pobre é um negócio que eles não concebem.

*Notem que com verbos regulares e em algumas classes sociais esse paradigma flexional pode se reduzir ainda mais: eu falo, tu/você/ele/a gente/nós/eles fala.

** Tá, o sociolinguista aí mais bem informado que eu pode estar dizendo “plural coloquial” não é a melhor forma de caracterizar o fenômeno. Tá, não é, mas fiquemos com essa denominação para os fins desse texto.

* * *

Nota final. O Karnal também prevê a morte do subjuntivo e da subordinação. A mesma coisa. Uma língua sem subjuntivo seria uma língua sem capacidade de expressar hipótese. Se a língua já tem essa capacidade, porque deixaria de ter? E, de modo geral, será que tem alguma língua humana por aí que fale apenas factualmente? Eu duvido.

Sobre a subordinação o Chomsky já mostrou pra gente que não existe língua humana sem algum tipo de subordinação (não dá pra ter função sintática sem subordinação) – tá, o D. Everett afirmou que o Pirahã seria uma língua sem subordinação, o que já foi contestado por um bocado de gente. Outra viagem na batata é acreditar que uma oração é mais complexa por ser subordinada em relação a outra coordenada.  Complexidade gramatical não indica complexidade cognitiva, ou seja, um pensamento não é mais complexo por ser expresso por uma coordenação, em relação ao mesmo pensamento expresso por uma sentença com subordinação interna. Claro que isso precisaria ser melhor explorado, mas vou parar por aqui, porque esse assunto daria outro texto.

Ah, e o fato de um sujeito inteligente como ele não saber isso só demonstra a incapacidade dos linguistas se fazerem ouvir pela sociedade. Ele desconhece o que seus colegas de universidade pensam e ensinam ali do outro lado da rua.