A farsa sobre o vocabulário dos Esquimós

É bem provável que o leitor já tenha lido em algum lugar ou ouvido alguém dizer que os esquimós possuem uma dezena de palavras para designar o que em português seria rotulado simplesmente como neve. Essa é uma das falcatruas mais bem sucedidas no século XX. Como suspeita Geoffrey Pullum, no ensaio The great Eskimo vocabulary hoax, pegou muito provavelmente porque se adequava com outras características exóticas do povo inuíte: emprestar a mulher para aquecer o visitante na noite gelada, jogar os idosos para que os ursos polares os comam, comer carne de foca crua etc. Aliás, a palavra esquimó significa “comedor de carne crua” e o povo prefere ser chamado de inuíte.

No artigo, G. Pullum resenha um relatório elaborado pela antropóloga Laura Martin, que atribui a fonte do mito a uma comparação que Franz Boas faz na introdução do livro The Handbook of North American Languages (1911) e o uso desse exemplo por Benjamin Lee Whorf em um ensaio nos anos 1940, Science and linguistics. A partir daí, ela traça como vários livros de popularização da linguística passaram a exagerar a contagem. Boas compara o vocabulário inglês para as diferentes formas de água. Esta língua usa várias palavras formadas a partir de raízes diferentes, com o esquimó, que usa diferentes raízes também: aput é “neve no chão”; qana, “neve caindo”; piqsirpoq, “neve soprada pelo vento”; qimuqsuq, “um monte de neve”, embora pudesse ter se dado o oposto, como é o caso de snow em inglês, que precisa ser complementada com outras palavras se o falante quiser se referir a diferentes apresentações de neve. O que Whorf fez, num enunciado vago, foi aumentar para 7. O engodo chegou ao ponto em que o New York Times afirmou num editorial que o vocabulário inuíte para neve era de uma centena.

A questão toda envolveria um debate mais profundo sobre o conceito de palavra e sobre a comparação entre línguas sintéticas e analíticas (o vídeo linkado abaixo faz um pouco essa discussão). O negócio é que em inuíte a expressão neve derretida seria expressa com uma forma linguística que seria uma unidade linguística que chamaríamos de palavra e não duas como em português.

Pullum brinca que o relatório de Martin apresentado num congresso de antropologia em 1982 e as tentativas pessoais dele de esclarecer o público não foram suficientes. Ele faz uma comparação com o Alien (do filme de Ridley Scott): um monstro difícil de matar. Ele conta que num curso sobre administração universitária que fez ouviu dois palestrantes recontarem esse mito. Embora tenha ficado calado, ele pede que não façamos a mesma coisa e mostremos que os dicionários de inuíte trazem apenas duas palavras para neve: qanik “floco de neve” ou “neve caindo”; aput “neve no chão”.

Só que ainda repetem essa história. Não precisamos ir longe, uma matéria do G1 conta que pesquisadores encontraram mais de 400 palavras para neve em escocês. A pesquisadora entrevistada afirma que: “Acredita-se que os esquimós têm mais de 50 palavras para descrever a neve”. A matéria não cita muitas palavras escocesas, só 5: snaw “neve”; sneesl “quando começa a never”; skelf “floco de neve grande”; snaw-ghast “imagens que a neve forma”; snaw-pouther “neve fina”. Outra matéria da CNN, repercutindo o lançamento do dicionário do escocês, também traz a lenda das várias palavras para neve em inuíte. Mas fica a pergunta: será que o escocês tem mesmo 400 palavras para neve?  Será que esse pessoal não está exagerando um pouco? Por que algum povo precisaria de tantas palavras para designar diferentes tipos de neve? Claro, a resposta é: falar sobre o tempo é algo importante para os escoceses. – Para que povo não seria?

Um parêntese: Rodrigo T. Gonçalves lembra o jornalista Sérgio Augusto, para quem o português teria mais de 200 sinônimos para bunda. Brincadeira, claro, que mostraria como nós brasileiros nos preocupamos com outras coisas. – No artigo, Gonçalves traz o caso das palavras para neve dentro de uma discussão sobre relativismo linguístico. Podemos nos lembrar também da quantidade de termos que Guimarães Rosa usa em Grande Sertão para se referir ao Coisa Ruim. Por termos dezenas de palavras para bunda e para o diabo, isso mostraria algo fundamental sobre a nossa sociedade? Sou bem cético sobre essas especulações.

Contudo, assim como uma pesquisa online ainda nos mostra muita gente repetindo essa história, também há várias páginas por aí a desmentindo. Achei textos na Superinteressante e na Reader’s Digest de Portugal e em vários blogues. (Aqui tem um exemplo bom)

Googlando sobre o tema, achei também um canal no Youtube: Enchendo Linguística. O vídeo sobre o tema explica a história detalhes bem importantes, incluindo alguns aspectos morfológicos do inuíte e outras referências.

Referências

PULLUM, Geoffrey. The great Eskimo vocabulary hoax. Natural language and linguistic theory, n. 7, p. 275-281, 1989.

GONÇALVES, Rodrigo Tadeu. Relativismo linguístico e o ensino de língua estrangeira. Revista X, vol 1., p. 19-40, 2009.

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“A kind of blue”: um trecho de ‘A fraude linguística’

Como na semana passada postei um pequeno comentário sobre a palestra da Lera Boroditsky, uma das pesquisadoras neo-whorfianas com mais destaque, e no comentário mencionei o livro de John McWhorter, hoje posto um trecho do livro em que ele lança algumas dúvidas sobre o experimento que o grupo dela conduziu sobre as cores no russo, língua famosa por ter duas palavras para dois tons de azul. O título, imagino, deve remeter ao disco homônimo de Miles Davis.

O trecho abaixo é do capítulo 1, Estudos mostram. [se der tudo certo eu e o Renato Basso traduziremos o livro]. A explicação que ele dá do experimento me parece um pouco confusa. De qualquer forma, inseri a figura 1, de Winawer et alii (2007) [Russian blues reveals effects of language on color discrimination. PNAS 104(19), p. 7780-7785. https://doi.org/10.1073/pnas.0701644104]

John McWhorter. The language Hoax. Oxford University Press, 2014.

* * *

[…] esqueci por que eu sei que a palavra russa para “gay” é goluboj, mas acontece que o significado básico da palavra é “azul claro”. Não apenas azul, porque há outra palavra russa para a versão mais escura, marinha, prussiana de azul, siniy. Não há nenhuma palavra que signifique apenas azul: em russo, o céu e um mirtilo são de cores diferentes.

Um elegante experimento neo-whorfiano apresentou a falantes de russo vários tableaus com três quadrados em uma tela de computador: um no topo, os outros dois logo abaixo. Os quadrados eram de vários tons do que chamaríamos de azul, aparecendo em vinte gradações, indo do azul escuro ao azul claro. Em cada tableau, um dos quadrados embaixo era do mesmo matiz que aquele do topo, enquanto o outro debaixo era de um matiz diferente. Foi dada uma tarefa aos russos: apertar um botão quando identificassem qual quadrado debaixo tinha o mesmo tom que o de cima.

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Fonte: Winawer et alli (2007, p. 7781)

Deve ter sido bem chato fazer esse pequeno teste, mas os pesquisadores estavam tentando descobrir algo: se ter diferentes termos para azul escuro e azul claro teria qualquer efeito na percepção – isto é, a língua poderia moldar o pensamento? E eles descobriram que sim. Por exemplo, se o quadrado de cima era azul escuro e o quadrado debaixo de cor diferente era um tom ou três mais à frente na sequência de azul claro, então os russos apertavam o botão rapidamente, enquanto que se o quadrado alvo era apenas um tom diferente de azul escuro, o tempo médio para se apertar o botão era maior. O mesmo se dava ao contrário: se os quadrados compatíveis fossem azul claro, então os russos apertavam o botão sem hesitar se o alvo fosse um dos tons escuros, mas demoravam se esse não era o caso.

Os falantes de inglês, por sua vez, tiveram o mesmo tempo de resposta onde quer que o quadrado alvo caísse no espectro de azul: um quadrado alvo claro não os acelerava quando os quadrados compatíveis eram escuros, e um quadrado alvo escuro não os acelerava quando os quadrados compatíveis eram claros. Isso mostra, de um modo realmente engenhoso, que ter termos diferentes para azul claro e azul escuro faz com que as pessoas diferenciem essas cores mais rapidamente do que as pessoas cujas línguas possuem um único termo para azul – e mesmo quando ninguém pergunta a elas sobre as palavras em questão ou mesmo as usa.

No caso de alguém tentar encontrar, digamos, alguma razão cultural para os russos serem mais sensíveis à diferença entre azul escuro e azul claro do que nós, os pesquisadores fizeram outra versão do experimento, mostrando que a língua não é realmente o que direciona a diferença para os russos. No segundo experimento, os sujeitos tinham de não apenas distinguir o quadrado alvo, mas ao mesmo tempo deviam recitar uma sequência aleatória de números que eles há pouco tinham sido solicitados a memorizar. A energia mental necessária para fazer isso coloca um bloqueio temporário no processamento da linguagem, e nessa versão do experimento se o quadrado alvo era de outro tipo de azul não fazia mais diferença nos tempos de resposta. Assim, sem a linguagem, os russos não estavam mais sintonizados para a diferença entre o azul escuro e o azul claro do que alguém de Campinas.

Contudo, uma tendência atual defende que esse tipo de teste mostra que como sua língua é o faz ver o mundo de um modo particular. O lusófono, intrigado, imaginará como o mundo deve parecer aos olhos de alguém a quem azul claro e azul escuro são “mais diferentes” do que são para ele. A tentativa pode ser uma reminiscência de tentar imaginar uma quarta dimensão.

Mas há um problema. Não é que esse experimento de Jonathan Winawer, Nathan Witthoft, Michael Frank, Lisa Wu, Alex Wade, e Lera Boroditsky não seja extremamente inteligente, nem que ele não mostre que a língua afeta o pensamento; mas o fato é que batemos num obstáculo quando tentamos ir para além do experimento, abraçando a noção de que ele está nos dizendo algo sobre visões de mundo, ser humano e coisas do gênero. Especificamente, quando descrevi a diferença nos tempos de reação, usei termos vagos como rapidamente e demorar. Contudo, na realidade, para avaliar seriamente o que esse experimento significa além do mundo da pesquisa em psicologia, deve ficar claro qual era a diferença média de tempo de reação, dependendo para qual lado do espectro o quadrado alvo pendia. Era – Que rufem os tambores! – 124 milissegundos.

124 milissegundos! Quando os quadrados compatíveis eram mais escuros, se o quadrado alvo também estava no matiz escuro, então os russos apertavam o botão um décimo de segundo mais rapidamente do que se o quadrado alvo fosse do matiz claro. Eles não demoravam por meio minuto, ou mesmo um segundo inteiro, ou mesmo meio segundo. Na verdade, não podemos sequer chamar um décimo de segundo de demorar.

Agora, que há um efeito é ainda, por si só, um fato. Pense: entre os falantes de inglês, apenas por conta de uma diferença linguística, não houve nenhuma alteração nos tempos. Mas, baseados em que podemos tomar uma diferença de 124 milissegundos em tempo de reação como dizendo algo sobre a forma como os russos experienciam a vida? A língua afeta o pensamento? Aparentemente sim, mas, como tudo na vida, a questão é o grau. No estado corrente de nosso conhecimento, parece que goluboj é relevante para a alma russa mais vividamente em termos de preferências sexuais do que cores!

A intuição corresponde ao resultado de 124 milissegundos ao sugerir que não estamos lidando com nada parecido com lentes diferentes. Após aprender que o russo tem termos diferentes para azul escuro e azul claro, pareceria que estaríamos dispostos a se perguntar se isso significa que os russos veem o ovo de pintarroxo e um blazer azul marinho como mais distintos em cor do que os falantes de inglês. Contudo, para muitos falantes de inglês, ou, eu fortemente suspeito, mais gente ainda, a reação é uma certa perplexidade ver que uma língua faz uma distinção como essa. “Por que uma língua precisaria fazer isso?”, podemos nos perguntar. “Certamente sabemos que a cor por detrás das estrelas na bandeira americana é nitidamente diferente do azul bebê – mas nós não precisamos de palavras diferentes para essas cores!” Certamente foi como eu me senti quando aprendi russo pela primeira vez.

Nesse aspecto, há várias línguas que não fazem distinções de cores que um falante do inglês consideraria fundamental; nesse caso, para elas, o inglês parece tão desnecessariamente obcecado quanto o russo. O povo herero da Namíbia, na África, fala uma língua em que um termo se refere tanto a verde quanto a azul. Ao descobrir que outras línguas possuem palavras separadas para verde e azul, os hereros não se perguntam se os ocidentais veem um mundo diferente do deles. Ao contrário, eles estão bem conscientes da diferença entre a cor de uma folha e a cor do céu – vivendo na terra em que vivem pareceria muito difícil evitar notá-lo uma vez ou outra. Eles acharam a ideia de uma língua ter diferentes palavras para aquelas cores, quando aprenderam que essas línguas existiam, ligeiramente boba.

Alguns ainda poderiam estar abertos a uma ideia de que, em algum nível, há uma escala de sensibilidade a cores na qual os russos estariam mais altos, os falantes de inglês no meio, e os hereros lá embaixo. Essa escala soa desagradável a muitos de nós – e veremos quão frequentemente as implicações whorfianas nos levam a nos depararmos com proposições similarmente incômodas, quando não somos nós que os estudos retratam como fascinantemente sem graça. Parece dificilmente irrelevante que os hereros, em termos de vestuário e decoração, deem todos os indicativos de revelar as cores – incluindo os verdes e os azuis – tanto quanto os ocidentais. Apesar disso tudo, pode ser que um experimento mostrasse que a língua herero liga o cérebro de alguma forma que deixa seus falantes alguns milissegundos mais lentos na distinção entre um giz de cera azul esverdeado e um verde azulado do que uma pessoa comum nas ruas de Chicago ou Stuttgart (o alemão possui grün e blau). Mas nesse caso, nós nos distanciamos de qualquer discussão significativa das diferenças nas almas.

Porém, é a alma o que nos vem à mente como resposta para declarações do tipo: “Mesmo que soe estranho, nossa experiência de um quadro de Chagall na verdade depende em alguma medida de nossa língua ter uma palavra para azul”. Essa é uma das frases mais ressoantes no editorial baseado no livro de Deutscher, que atinge quase 5 mil ocorrências no Google no momento em que escrevo isto. Como tenho atestado, a mídia (incluindo os editores) tendem a encorajar os acadêmicos a colocarem as coisas daquela forma, numa busca interminável por “olhos” (contagem de cliques). Há tantos livros por aí; um tem que fazer um pouco de auê. Editorais – e contracapas – divulgando o livro sempre terão uma retórica entusiasmada que praticamente nenhum texto conseguiria de fato incorporar.

Contudo, frases como aquela sobre o Chagall possuem mais influência do que o próprio livro, especialmente considerando o inerente frisson da hipótese de Whorf, além de elas implicarem algo que os estudos simplesmente não fazem. A falta de uma palavra para azul realmente possui impacto na forma como alguém experiencia um Chagall, mais do que a educação, a experiência, ou mesmo a mera variação entre os indivíduos na receptividade da arte? O editorial diz apenas “em alguma medida”, mas, vamos ser sinceros: uma expressão como essa se perde no meio do apelo picante da afirmação básica. A questão real é “em que medida”? 124 milissegundos?

 

Sobre relativismo linguístico

Acabei de ver o vídeo da palestra da Lera Boroditsky (encaixado acima) e fiquei com sentimentos contraditórios: ela fala com clareza e é relativamente convincente; mas ao mesmo tempo não consegui acreditar nela, ela me pareceu listar uma série de curiosidades, e não conseguiu de fato mostrar nenhuma conexão real entre a linguagem e o pensamento.

Até que ponto a capacidade de reconhecer tons de azul com mais rapidez é de fato uma habilidade cognitiva “diferente” que os russos possuem? Até que ponto isso é uma visão de mundo diferente? Como se pergunta John McWhorter: o que 200milissegundos (é essa a medida em que os russos são mais rápidos do que falantes nativos de inglês no reconhecimento dos diferentes tons de azul) de fato mede?

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O livro de McWhorter, The language Hoax: why the world looks the same in any language (Oxford University Press, 2014) é um manifesto contra o que ele chama de linguajar publicitário. Livros como o de Guy Deutscher, Through the language glass, por exemplo, criam no público a impressão de que temos evidências de que existe uma conexão efetiva entre linguagem em pensamento. Claro, há também todo um apelo poético nessa visão de que cada língua representaria uma visão de mundo (o que é outra coisa).

Mas não se engane. É óbvio que existe uma conexão entre a linguagem e o pensamento. A questão mais profunda é: línguas que possuem vocabulário mais extenso para as cores permitem aos seus falantes uma percepção diferente da realidade? Ninguém até hoje conseguiu mostrar que sim.

O que há, principalmente no léxico, são diferentes recortes da realidade, por assim dizer. A lenda de que o inuíte (a língua dos esquimós ou inuítes) teria uma centena de palavras para o que chamamos simplesmente de neve faz parte desse imaginário. Não é difícil perceber a necessidade que um esquimó possui de nomear diferentes tipos de neve.

Um belo resumo desse imbróglio pode ser lido nesse breve texto disponível na página da Linguistic Society of America: https://www.linguisticsociety.org/sites/default/files/Does_Language_Influence.pdf

Recentemente esse debate voltou à pauta por conta do filme A Chegada. A personagem principal é uma linguista que ajuda a estabelecer diálogo com os alienígenas. E parece que no processo de aprender a língua deles ela ganha uma habilidade especial. É o relativismo levado ao seu extremo: aprender uma língua diferente me permite ter uma nova visão sobre a realidade.

https://epoca.globo.com/cultura/noticia/2016/12/o-filme-chegada-mostra-como-linguagem-influencia-nossos-pensamentos.html

 

Por que (ainda) estão falando sobre o acordo ortográfico?

Me fiz essa pergunta ao ler um texto do Rodrigo Gonçalves na Gazeta do Povo sobre o tema. Ele esclarece os equívocos comuns. Para quem entende um pouquinho sobre como uma língua funciona ele não apresenta novidades, mas é sempre válido quando alguém da academia escreve um texto para ajudar o público leigo a entender melhor as coisas. Por que a escola não faz isso eu não entendo. A ortografia de uma língua não é a língua; um idioma não se reduz às convenções para representá-lo por escrito. A premissa me parece simples.
Na página onde estava o texto do Rodrigo, aparecia o link para outro texto sobre o assunto. Diogo Fontana, escritor e editor, segundo a minibiografia ao pé do texto, exibe os clichês de quem acha que sabe do que está falando, mas que provavelmente não deu um Google antes para conferir a veracidade de suas afirmações.
Pra começo de conversa ele fala de oito acordos ortográficos. Oito! Mário Perini e Lúcia Fulgêncio (Gramática descritiva do português brasileiro, Vozes, 2016), por um lado, ou Rodolfo Ilari e Renato Basso (O português da gente, Contexto, 2009), por outro, só mencionam três: vamos dizer que a reforma proposta por Gonçalves Viana em 1911 conte como um primeiro acordo no séc. XX; daí vem o de 1945; e agora o de 1990. Talvez tenham ocorrido outros que a literatura não mencione…  vai que… Mas esse aí de 2009, que o Lula assinou em 2004, já estava homologado em 1990. Só faltava os países aceitarem (ou “acordarem” mesmo, até onde sei).
Um segundo ponto que me soa completamente equivocado é o seguinte, que ele desenvolve a partir dos “oito” acordos.
“Essa flutuação do idioma rompe o elo entre as gerações. Pais aprendem a escrever de um modo diferente dos seus filhos. Nunca, em lugar nenhum, ergueu-se uma grande cultura em alicerces assim movediços. A língua portuguesa muda tanto no Brasil, e tão rapidamente, que não tarda o dia em que o acesso aos clássicos estará obstruído para sempre, e os livros de um Cruz e Sousa, ou de um Machado de Assis, serão leitura para especialistas em Linguística e Filologia.”
“Flutuação do idioma”? Não sei como escrever veem ou vêem é capaz de fazer um idioma flutuar, mas tudo bem (acho que ele deveria ler o texto do Rodrigo, para não misturar a língua com a sua ortografia). Camões escrevia hum, naõ, ingrês, e se a gente for ler ele hoje, vai suar um pouco, mas lê de boa. Só que não precisa. As novas edições atualizam a ortografia. Nesse ponto o problema não é a atualização, é o fato de que iremos conviver ainda por um tempo com livros nas duas grafias. Assim como acontece quando pegamos livros dos anos 50, 40 ou 30… Pra um profissional da escrita ele me parece ter pouca convicção na reedição de livros.
Ele fala de anos de discussão nas universidades… não sei de onde tirou isso também. Muitos linguistas escreveram sobre o acordo. Até saiu uma edição especial de uma revista acadêmica, a Linguasagem (UFSCar) sobre o tema: http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/especial_ao/. Só que segundo Perini e Fulgêncio, não teve participação alguma da academia no acordo. Aliás, o tom de estudiosos como Mario Perini, Lúcia Fulgêncio, Carlos Alberto Faraco e Luiz Carlos Cagliari, em geral, é de crítica à reforma. Uma por que a simplificação alegada não ocorreu. Perini afirma que trocamos um sistema ruim por outro ruim, e dá seus motivos no seu texto. E outra porque a afirmação que a unificação da ortografia poderia beneficiar a indústria editorial brasileira e a promoção da língua portuguesa no exterior também não se seguem.
Por fim, tem a afirmação de que a ortografia é do Lula, “empurrada goela abaixo, na canetada de um presidente analfabeto”, uma declaração que só pode ser sacanagem, daquelas que um Augusto Nunes assinaria com gosto. Como tá na moda falar mal do Lula, qualquer bobagem que se atribua a ele a Gazeta do Povo publica sem receio.

Atualizando

Faz algum tempo que não escrevo aqui. Mais de seis meses. Muita coisa aconteceu nesse meio tempo. Finalizei meu estágio de pós-doutorado na UFPR, escrevi alguns artigos. E em abril passado nasceu minha segunda filha, a Sofia. Desanimei um pouco também, eu acho.

Dá um baita trabalhão escrever, toma tempo e eu precisava me concentrar em publicar. Não consegui ter em média dois artigos por ano no último triênio e a Pós-graduação não renovou meu credenciamento. Vou ficar na geladeira por um ano pelo menos. Minha meta é perseguir essa publicação de dois artigos por ano. Esse ano consegui. Vamos ver se a média se mantém para o próximo.

Claro, é um trabalhão gostoso. Senão eu não estaria nessa vida, apesar das cacetadas que a gente toma dos pareceristas. Mas elas me fizeram perceber meus erros, limitações etc.

De qualquer forma, tenho outro texto já rascunhado sobre fake news. Devia tê-lo postado por aqui já. Quem sabe na próxima semana.

Fui convidado pra participar de um projeto de divulgação em linguística capitaneado pela ABRALIN (Associação Brasileira de Linguística), o Roseta. É um projeto promissor e novo. E tudo porque a coordenadora da iniciativa já tinha lido meu blogue. (Sempre me surpreendo quando alguém diz que leu meu blogue, hehe, afinal o número de visitas nunca chega nos três dígitos). Creio que exista o interesse sobre questões de linguagem pela população leiga. A academia é que ainda não sabe escrever pra esse público. Meu blogue tinha esse norte, com as óbvias limitações de alcance que minha dedicação a ele geram. Um blogue de sucesso e alcance não envolve só atualização constante, envolve também divulgação, um trabalho para o qual não tenho vocação.

Enfim… vamos ver se eu consigo escrever aqui com mais frequência.

Por que “fake news” funciona: a linguística da mentira

Se eu batesse na sua porta, tarde da noite e dissesse: “Me esconda, por favor! Estou sendo perseguido por agentes da KGB.” Você pensaria que eu enlouqueci. Mas como você chegaria a essa conclusão? Se eu sou seu amigo, confiei em você para me esconder, por que você não acreditaria em mim?

Se você é bem informado, deve saber que a KGB (o serviço secreto soviético) não existe mais e que a probabilidade de eu, Luisandro Mendes de Souza, um mero pai de família de classe média, professor universitário e flamenguista ser um espião também é nula. Ou seja, você se baseou nos fatos, ou melhor, nas relações que a afirmação “Estou sendo perseguido por agentes da KGB” tem com o mundo. Para que essa frase fosse verdadeira seria preciso que eu fosse um espião (ou algo parecido) e que a KGB ainda existisse. Como nenhuma dessas condições é preenchida (talvez tenha outras), você conclui que eu devo ter enlouquecido.

Mas agora, veja as afirmações seguintes:

(1) O Lula é dono da Friboi.

(2) A Dilma é dona de uma fazenda gigantesca no Mato Grosso com milhares de cabeças de gado.

(3) Jesus Cristo caminhou sobre as águas.

Considere (1). Por que tanta gente acredita nela (vai saber, né? Ou acreditou por tanto tempo), mesmo não existindo nenhuma prova material de que é esse o caso? O que nos leva a tomar como verdadeiras afirmações que carecem de base factual? O mesmo vale para (2) e (3). (3) é um dogma religioso. Por que acreditamos nesse milagre, mesmo sabendo que ele nos foi contado por alguém que escreveu essa história há quase dois mil anos, e que provavelmente não testemunhou o milagre, alguém contou a ele. Literalmente é uma fofoca: alguém contou para ele e ele está contando para a gente. Por que não tomamos (3) como ficção ou mito?

O filósofo Paul Grice (1913-1988) propôs que existe o que ele chamou de Princípio de Cooperação, uma espécie de acordo tácito entre os falantes de uma língua, que diz que todos fazemos afirmações que contribuem para os propósitos da conversa em que estamos envolvidos. Claro que esse princípio é uma idealização, mas tem um poder explicativo muito poderoso. Ele inclui ainda algumas máximas e a que nos interessa é a da Qualidade. A Máxima da Qualidade especifica que i) não afirme o que acredita/sabe ser falso e ii) não afirme algo para o qual você não possa fornecer evidências. Seria o paraíso se todos se comportassem assim.

A mentira funciona justamente porque temos uma tendência muito forte a obedecer o princípio da cooperação e acreditar que a pessoa com quem estou conversando está seguindo as máximas, principalmente a da qualidade. As conversas seriam muito complicadas e cansativas se a cada afirmação que meu interlocutor fizesse eu duvidasse da veracidade delas. Claro, talvez possam existir situações em que estamos dispostos a violar essas regras. Por exemplo, um pai pedindo explicações a um filho por algo que ele tenha feito de errado. O pai supõe que a probabilidade de o filho falar uma mentira é alta, principalmente se o filho já fez isso antes e teme alguma punição. Ou um investigador de polícia interrogando um suspeito de um crime.

É possível que outros fatores estejam envolvidos, como ideologia. Acredito em afirmações que carecem de base factual porque elas se encaixam na minha visão de mundo. Em função de toda a ajuda que o governo federal deu à JBS, alguém supôs que ela pertencesse a Lula, ou alguém mentiu mesmo só para ver se a mentira colava (e colou). Mas caras como Trump, ou Dória, ou Bolsonaro, sabem que podem afirmar o que quiserem, verdade ou não, que ninguém vai se importar. A menos, claro, que seja algo muito estúpido, tipo, “A terra é plana”, ou “Vacinas causam autismo” (uma tese menos estúpida, mas que carece de evidência, afinal, autismo não se adquire depois do nascimento).

Essa onda de se criar notícias falsas recebeu até um nome bonito “pós-verdade”. Um nome que me passa a conotação de que a era da verdade acabou, como se fosse datada. É coisa velha falar a verdade. Não deveria ser assim. Estamos, perigosamente, caminhando para a era da “não-verdade”, ou da mentira deslavada.

A mentira sempre existiu no debate político. Isso é um fato. Quando Regina Duarte afirmou que tinha medo que Lula ganhasse a eleição numa propaganda do PSDB muita gente acreditou. Um pouco em função da imagem que Lula tinha construído para si nos anos 1980-1990, a de um sindicalista radical que ia decretar a moratória da divida externa e acabar com a propriedade privada (risos). Personalidades públicas dão um ar de credibilidade ao que afirmam. Se a Fátima Bernardes diz que os produtos Seara são de boa qualidade, por que eu duvidaria, se ela todos os dias entra nos lares das pessoas falando sobre muitos assuntos?

Da mesma forma, por que eu duvidaria de uma afirmação de Bolsonaro, que eu sei que está do meu lado e não mentiria para mim (se eu estivesse do lado dele, o que não é o caso deste que vos fala)? Por que eu duvidaria de uma afirmação do Lula, que eu sei que também não mentiria para seus eleitores? Simplesmente não me dou ao trabalho de duvidar do que os políticos e jornais afirmam porque é mais fácil acreditar em afirmações que se enquadram na minha visão de mundo.

As redes sociais são pulverizadoras de mentiras. Deveríamos combater isso. Muitos grupos na nossa sociedade não estão interessados na verdade ou no bem comum. No debate político o objetivo principal é um só: o poder. É óbvio que de posse do poder grupos políticos diferentes irão tomar decisões baseadas em programas políticos, ou declarações que fizeram na campanha eleitoral. Ficar de olho no que eles afirmam deveria ser a regra. Não deveríamos aceitar generalizações, que também são falsas, como “Todos mentem”, ou “Todos são iguais”, que só ajudam os mentirosos e os canalhas.

Outro fato que me assusta: por que as pessoas acreditam que há um programa nacional de doutrinação comunista nas escolas e que isso precisa ser combatido? Por que se acredita nessa tese, vindo ela de pessoas que acreditam em afirmações como: “Jesus andou sobre as águas”, “O PT quer instalar o comunismo no Brasil”, “Os homossexuais estão destruindo a família”, “Reduzir a maioridade penal traz mais segurança”? Ora, talvez porque eu já acredite em todas estas, porque eu não acreditaria naquela também?

Disciplina

Como a maioria das crianças nesse país eu queria ser jogador de futebol. Mas não que eu tivesse algum talento pro troço. Nunca tive. Era sempre um dos últimos a ser escolhido pra um dos times na aula de educação física. Então, por que eu sonhava que podia um dia entrar num Maracanã lotado e ouvir as pessoas gritando o meu nome? Até hoje eu não sei o que se passava na cabeça do guri de 10 anos que eu era quando tive essa ideia.

Daí que a melhor iniciativa que eu tive foi aos 11 anos entrar numa recém inaugurada ‘sala com livros’ (chamar de biblioteca aquela sala com meia dúzia de prateleiras de livros seria um exagero) da Escola Básica Alberico Azevedo pra pegar um livro emprestado. Também lembro de na 6a. série ter feito algumas pesquisas sobre peixes e anfíbios, o que me levou a uma peregrinação pelas melhores bibliotecas da cidade, duas, a do Colégio São Miguel e a biblioteca municipal de São Miguel do Oeste (elas tinham enciclopédias, a ‘biblioteca’ da minha escola não). Não sei que influência isso teve em mim. Só sei que eu sou uma pessoa que gosta de bibliotecas e que é curiosa. (Vai ver naquele dia de aula vaga, ao invés de ficar vendo os colegas jogar bola, porque ninguém tinha me escolhido pro time, eu tenha resolvido ir na biblioteca da escola ver o que tinha lá pra fazer).

Vai ver foi por isso também que virei linguista. Aliei duas qualidades que eu tenho: a curiosidade e o gosto pela leitura (talvez dê pra colocar ainda nesse balaio o meu ceticismo). Não sei se são qualidades “naturais”, minha personalidade, ou se foram características que eu adquiri ao longo da vida. Nenhum dos meus irmãos é assim, embora tenhamos tido relativamente a mesma criação e estudado nas mesmas escolas. (Será que eu me tornaria um acadêmico em qualquer área que eu tivesse escolhido pra estudar?).

Apesar disso eu acho que tenho um defeito que me atazana: tenho dificuldade pra terminar as coisas, pra perseverar. É como se algumas coisas me dessem um cansaço e de repente o negócio me enche o saco. Quem vê meu currículo acadêmico dirá que eu estou mentindo. Como assim, se você fez dois TCCs, uma monografia de especialização, um mestrado, um doutorado, escreveu artigos, capítulos de livros, relatórios e projetos de pesquisa? É que em algum momento eu desisti daqueles textos. Tenho certeza de que eles seriam bem melhores se eu tivesse me dedicado um tantinho mais a eles. E é esse “tantinho” que separa a excelência do normal (sendo bem, mas bem gentil comigo mesmo). Vai ver ninguém me incentivou a buscar a excelência.

Aí eu me pergunto. Por que eu não consegui desenvolver uma disciplina mais rígida de estudos, supondo que esse seja o remédio que teria possibilitado eu me dedicar com mais afinco aos meus textos? A excelência está nos detalhes. A organização do pensamento que a escrita proporciona pode produzir coisas maravilhosas. Se minha memória não falha, as melhores ideias que tive surgiram após longos momentos de trato com o texto. Claro que algumas surgiram num insight antes de dormir, outras numa caminhada ao final da tarde, mas a maioria (e olha que não dá uma mão, eu acho, se é que eu tive alguma boa ideia nessa minha curta carreira de linguista e escritor) foram em momentos em que eu estava tentando colocar no papel o que estava na minha cabeça (e nas anotações em cadernos e bloquinhos que carrego comigo desde os 17 anos). Ou seja, as melhores ideias me surgiram enquanto eu estava escrevendo. Logo, trabalhar no texto não apenas faz o texto surgir, mas também possibilita que a gente descubra e entenda coisas que não entenderia se apenas ficasse sentado na frente do computador em estado de contemplação esperando os insights surgirem como se ditados por um espírito superior.

Hoje eu acho que estou mais disciplinado do que eu era há dez anos. Se eu tivesse aos 20 a disciplina que tenho hoje para escrever tenho certeza que teria escrito coisas mais interessantes e terminado algum livro de ficção antes dos 30 (eu não sabia como terminar as histórias, muitas delas, por isso as abandonava; vai ver eu achava que tinha “talento”, que não precisava estudar como se faz literatura). Na escrita acadêmica é mais fácil chegar em algum lugar, mesmo que esse lugar seja provisório.

E de novo o questionamento: por que eu sou assim? Por que o prazer do estudo, da leitura, a curiosidade, características que me fizeram ser relativamente bem sucedido no que faço, não contribuíram para que eu fosse mais disciplinado para escrever? Veja, o meu ponto não é a escrita primeira, o jorro, a necessidade de se expressar… Isso nunca me faltou (graças às musas!). Nem pra fazer linguística, nem pra escrever ficção. Nunca me faltou assunto (o que é um problema também, porque me disperso).

Vai ver alguém me disse que eu tinha “talento”, e por algum traço de malandragem do meu caráter (como o Manoel de Barros, também tenho cacoete pra vadio), eu achei que o talento fosse o suficiente. Bastava ele, e eu chegaria em algum lugar. Voltando à metáfora do futebol, provavelmente o Romário é um “natural”, assim como Clarice Lispector era (olha a idade que ela tinha quando escreveu Perto do coração selvagem!, que na minha modesta opinião é um livro muito bom). Eles não precisavam “treinar”, pra eles bastava entrar em campo. Clarice com certeza era alguém que podia dizer de boca cheia “toca pra mim, que eu resolvo”, e até os 45min. do segundo tempo ela resolveria o jogo. Claro, com isso não quero dizer que ela não trabalhasse seus textos com a necessária dedicação que o fazer literário exige. (Olhando, quantitativamente, a produção dela, a gente pode concluir com certeza que ela treinava pra burro). Pondo isso de outra forma: um nó cego pode reescrever um conto seu umas vinte vezes que jamais vai estar no nível de uma Clarice Lispector. Ou, um Leandro Damião nunca será um Romário, mesmo que treine 8 horas por dia, 7 dias por semana.

Talvez um Faraco, um Ilari, sejam capazes de escrever de primeira versão com a clareza e a fluidez que só eles têm (o que eu duvido muito). Mas a maioria de nós, eu inclusive, precisamos domar as nossas ideias, dominá-las como uma bola lançada pelo zagueiro, que a gente sabe que provavelmente será difícil matar no peito do pé, com a elegância que o Neymar e o Messi tem… que provavelmente mataremos na canela, que ela vai espanar e que teremos que sair correndo de-atrás antes que ela se perca.

Porque, no final das contas, a escrita acadêmica, profissional ou literária é uma luta solitária. Talvez “luta” não seja a melhor expressão (desculpa aí, Drummond). Talvez a escrita seja um jogo de um cara só, em que o adversário não é a televisão, o rádio, a internet, os filhos (ou qualquer outra distração), é a tua vontade de levantar dali, o teu próprio julgamento: está bom porque eu acho que está bom, ou está bom porque eu cansei de trabalhar nisso? Poderia ficar melhor? (Alguns escritores falam que desistem do texto quando percebem que nada do que fizerem poderá melhorar o texto). Hemingway dizia que todo escritor precisa ter uma espécie de detector de bobagem. Acho que eu não fui capaz de desenvolver um. Quem sabe um dia eu consiga. Afinal, também é preciso achar um meio termo, algum tipo de parâmetro entre o texto que te deixa feliz (legal, consegui escrever) e o que te decepciona (puta merda, como eu escrevi esse bostaço!?). Vai ver eu me satisfaça com pouco, e esse seja o problema também.

Alguns escritores e gurus da escrita criativa sugerem que a gente deixe o texto descansar uns dias. Outros falam da importância de um leitor particular, alguém que posse dar pitacos pra além de comentários vagos como gostei, ou tá muito bom. Já achei um leitor pros meus textos acadêmicos, me falta um, ou dois, pra minha literatura.

Armado de um detector de bobagem, mais a disciplina necessária para escrever, quem sabe um dia eu consiga escrever alguma coisa que preste. Felizmente, diferentemente do futebol, pra escrever não precisa de preparo físico. O Luís A. Fischer usa o conto do Kafka, Um artista da Fome, como uma metáfora pra isso que eu quero dizer: escrever como aquele cara jejuava.

“Talvez o texto ideal, no sentido dessa pequena filosofia, seja como o jejum do personagem do conto “Um artista da fome”, de Franz Kafka: escrever como aquele cara precisava jejuar, com aquela gana, se possível sem jamais parar (mas ao mesmo tempo sabendo que há um limite para o jejum, a morte). Jejuar, escrever, não para agradar, mas para atingir o ponto máximo de sua verdade pessoal, mesmo que ao custo da vida, isso é um ideal que vale a pena” (Fischer, ler e escrever. In: Filosofia mínima. Arquipélago, 2011).

Só que pra atingir aquele nível de excelência no jejum é preciso mais que o impulso, mais que vontade. Vai ver seja preciso um algo mais (a gana?) que poucos de nós temos. E todo dia eu me pergunto isso: se eu me dedicasse um tantinho mais, seria um linguista melhor? Poderia ser um escritor melhor? Não sei. Só sei que o que me move é a crença de que posso melhorar (mesmo que eu não venha a ser um Romário ou um Suarez).

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Por mais que eu tenha categorizado esse post como ‘crônica’ no fundo tá com cara de ensaio montagueano. Não me preocupei muito com estrutura, fui mais pro depoimento pessoal mesmo, usando um registro coloquial.