O Retorno de Jedi

Apesar do título, o post não vai falar de Guerra nas Estrelas. É só pra comentar alguns fatos ocorridos recentemente:

– Ataliba Teixeira de Castilho foi entrevistado por uma TV universitária, da UNIVESP. O vídeo está ali em cima.

– Antônio Gois, que pesquisou, apresenta dados de pesquisas que mostram que “Mesmo falantes cultos não seguem a norma padrão

No site do MEC, há um conjunto de artigos de vários autores, alguns já linkados aqui, mas felizmente reunidos agora no portal do ministério.

– O CQC de ontem cometeu a estupidez de falar do assunto e o que conseguiu foi apenas repetir as mesmas idiotices, Felipe Andreoli entrevistou Juca Kfouri, pego meio de surpresa (isso quer dizer que Felipe estava em Higienópolis, área nobre de São Paulo, e provavelmente em uma escola de elite, claro), ele deveria ter recomendado ao Felipe o que ele mesmo fez, entrevistar o Sírio Possenti, ou mesmo dar um pulo até a USP e falar com quem entende do assunto;

Reinaldo Azevedo, o iluminista, com sua elegância e humor sutil, se recusa a admitir que está errado, pelo contrário, continua atacando o livro, o governo, Marcos Bagno e o MEC. Normal, arrogantes nunca admitem tal coisa;

– Tô meio cansado dessa história toda, que parece só mais um ardil dos conservadores para atacarem o governo. Não que ele não deva ser criticado, só que pelo erros que de fato comete, não pelas coisas positivas.

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Não tem nada de errado com os livros

Sabe aquele ditado: de médico e louco, todo mundo tem um pouco? Pois devia ser: “de linguista e louco, todo mundo tem um pouco.” Qualquer jornalista se arroga o direito de falar sobre língua como se entendesse do riscado. É como se um engenheiro quisesse dizer a um físico como funciona a matéria. Teoria das cordas? Rá, isso é balela, o mundo funciona muito bem sem essa teoria há séculos. E daí vem o Bechara e diz que uma coisa é a pesquisa na universidade e outra é o ensino. Como é que é? Então devemos esconder da sociedade o que a universidade vem descobrindo em termos de língua? Tipo: olha, todo falante do português comete um ‘deslize’ na concordância, mas não contem pra eles, errar a concordância com sujeito posposto não é tão feio quanto errar com o sujeito anteposto ou entre os membros do sintagma nominal… Parece que em termos de língua a pesquisa tem que ficar confinada na universidade, enquanto em outras áreas não. O professor precisa ser um vigarista, por esconder a verdade: o grau não é flexão, mas continua entre as flexões por imposição da NGB (Nomeclatura Gramatical Brasileira), que não é atualizada há 50 anos. Sabe aquele outro ditado “concordo com você em gênero, número e grau”? Desculpe te informar, mas não dá pra concordar comigo em ‘grau’ porque o grau não estabelece relação de concordância. Sabe por que é difícil falar de língua para os leigos? Porque a escola não cumpre seu papel. Daí quando ela tenta mudar o modo como apresenta os fatos da língua, acontece o que aconteceu. Mas daí, parece que todos os jornalistas só leram uma página do livro, procuraram especialistas e tudo que preocupa a Fátima Bernardes é se as provas continuarão a cobrar o português padrão. Ela não entendeu nada do que o jornalista tentou explicar ou o que o livro está tentando ensinar. Se é que eles se preocuparam em ir ler o livro ou os parâmetros curriculares.

Vejamos as manchetes:

Folha/UOL: Livro distribuído pelo MEC defende errar

Jornal da Tarde: Livro didático do MEC tem erro de português

Jornal do Brasil: MEC distribui livro didático que defende erro de concordância

Esse chega a ser vergonhoso, dizendo que o livro “defende a escrita sem concordância de expressões orais populares”. Meu, ela está falando sobre a FALA, não sobre a escrita. É tão complicado ver que são coisas diferentes? Será que o jornalista que transcreve as falas que grava dos seus entrevistados não percebe que escrever e falar são coisas diferentes?

Blog do Reinaldo Azevedo (colunista da Veja): Livro didático faz apologia do erro: exponho a essência da picaretagem teórica e da malvadeza dessa gente

Essa gente, que defende que se ensine as diferenças entre as variedades coloquiais e formais do português brasileiro são: Maria Marta Pereira Scherre (Doa-se lindos filhotes de poodle), Luiz Carlos Cagliari (Gramática e Interação), Maria Helena de Moura Neves (vários títulos), Magda Soares, Stela Maris Bortoni-Ricardo (Nós cheguemu na escola, e agora? e Educação em língua materna), Ataliba Teixeira de Castilho, entre muitos, muitos outros (nem cito o Marcos Bagno na lista). Essa gente defende isso há pelo menos 30 anos, bem antes de Lula, de Dilma, de Haddad e o que os parâmetros defendem são recomendações elaboradas em 1999-2000, durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Sinto muito, Reinaldo e seus fãs, isso não é novidade alguma, e nem é estratégia do PT para que todo mundo fale como o Lula. Aliás, nem precisa se ensinar isso, todo mundo usa algum tipo de concordância não-padrão, talvez o Bechara não, ele ainda deve usar o ‘vós’ como pronome de segunda pessoa do plural, já que pra ele o ‘você’ e a sua variação flexional no plural não existem (sério, confira lá a lista dos pronomes pessoais na Moderna Gramática Portuguesa, página 164, edição de 2009).

Jornal Nacional: MEC defende que aluno não precisa seguir algumas regras da gramática para falar de forma correta

Esses caras deveriam ser processados, tal a desonestidade. O livro diz justamente o oposto. É sim preciso seguir algumas regras para se falar conforme a norma padrão, só que são regras diferentes daquelas que são usadas na fala coloquial. Fátima enfatiza no final que “a norma culta da língua portuguesa será sempre a exigida nas provas e avaliações”. Ufa, ainda bem, né? Vai que a prova peça para o aluno escrever na variedade popular a frase “Bonner e Fátima são ótimos jornalistas.”

Blog do Noblat (colunista de O Globo): MEC lava as mãos no caso dos livros com erros

Que saco isso: por que ninguém entrevista um linguista? O que um escritor entende de pedagogia da língua, e aquela senhora, professora da faculdade de educação da UERJ, só fez a gente passar vergonha. Quem dá aulas para formar professores nos cursos de letras pelo país afora? Parece que são gramáticos como o Bechara (que de fato lecionou nas universidades do Rio de Janeiro, mas isso provavelmente quando a linguística nem fazia parte do currículo), escritores, e professores das faculdades de educação. Os linguistas não existem. Aliás, acho que o único linguista que existe é o Noam Chomsky, e a única coisa que ele pesquisa é a gramática universal. Imagino o que a mídia diria se lesse os trabalhos da Marta Scherre sobre a variação na concordâncias em textos escritos na mídia, ficariam chocados: ela está mentindo, nós não erramos a concordância.

Os Livro mais interessante estão emprestado (não devia ser ‘os livro mais interessante tão emprestado’?)

Nesse blogue vi esses dois textos. O segundo é de um ódio e um rancor ferozes. A culpa mais uma vez é de Lula e do PT, claro (de quem mais seria: Do Labov, que mesmo falares substandard do inglês possuem regras e que trouxe a estatística como ferramenta? Do Saussure que inventou que a explicação para a o funcionamento da língua deve estar no sistema e não no gosto do gramático? Da linguística geral que diz que todas as línguas são igualmente complexas? Do grupo de estudiosos que fez parte da comissão que desenvolvou os parâmetros curriculares? Capaz, é tudo culpa do Lula) Diz o senhor Augusto Nunes: “A menção a leituras informa que a frase reproduzida no título do post não foi pinçada de alguma discurseira de Lula. Mas os autores do livro didático “Por uma vida melhor” decerto se inspiraram na oratória indigente do Exterminador do Plural para a escolha de exemplos que ajudem a ensinar aos alunos do curso fundamental que o s no fim das palavras é tão dispensável quanto um apêndice supurado.” Nem precisa ler o resto para ver que o sujeito não entende lhufas do que se propõe a discutir, ele quer mesmo é criticar o governo. E segue ainda “Escrever errado está certo e é correto falar errado, sustenta a obra aprovada pelo MEC.” Novamente, esse sujeito deveria ser processado, o livro não diz isso. Os livros dizerem que se deve estudar e respeitar as diferentes formas de falar a língua portuguesa brasileira é como se dissessem que vale tudo e que o certo é falar errado. Relativizar, perceber que mudamos nossa forma de falar ou escrever quando mudamos de situação comunicativa. Capaz! Isso não existe. As plantas se movem para procurar o sol? Isso também não existe, foi o vento que moveu elas. É só isso que os jornalistas conseguem ler, eles não conseguem ler que lá no mesmo documento que diz que se deve respeitar a língua que a criança traz de casa, também se diz que é missão da escola ensinar o português dito padrão ou culto. Qual é o problema em fazer isso? Diz Augusto: “merece 10 em redação quem escrever “Nós pega o peixe”.” Fica difícil conversar com alguém que não consegue compreender que falar e escrever são coisas diferentes. Mas a desonestidade do sujeito é tão grande, que ele não consegue perceber que o objetivo de se mostrar a variedade popular e discutí-la é justamente fazer com que os alunos cheguem à norma, ou ao “correto”.

Todos são rasos e infelizes. Nenhum livro de língua portuguesa jamais ensinaria algo que o aluno já sabe. As gramáticas ensinam o padrão justamente porque não falamos o padrão. Temos que aprender a efetuar a concordância justamente porque não fazemos ela. Falar e escrever são coisas diferentes, que envolvem recursos de linguagem diferentes. O problema todo é que o que normalmente chamamos de ‘erro’ não é mais visto como erro há pelo menos 100 anos. Quão difícil é entender isso? Como bem aponta Steven Pinker no seu ‘Instinto da Linguagem’: quando corrigimos a fala de outros é como se estivéssemos dizendo, olhe, o peixe está nadando errado, o pombo voa torto, o canto desse passarinho me dói o ouvido, que passarinho burro… “Os padrões de correção são relativos” (John Lyons). Quando Galileu disse que era a terra que girava em torno do sol, e não o contrário, suponho que ele deve ter causado um certo furor também.

Acredito que o problema todo está na dificuldade que a linguística possui em se comunicar com a sociedade. Isso se deve em função da escola não ensinar os alunos a pensar sobre a língua, que é justamente, pelo menos me parece, o que a autora do livro propõe. O segundo problema é apontado por Mario Perini (Gramática do Português Brasileiro): “relativamente pouca gente espera estudar gramática como parte de sua formação científica.” O português é o mesmo desde que João de Barros escreveu a primeira gramática do português em 1540 e tudo que sabemos sobre ele também não mudou. Parece que é isso que a imprensa toda quer e o Bechara também. A pesquisa é a pesquisa, o ensino tem que ser pelas gramáticas que ele (Bechara) escreveu. Devemos continuar a omitir os fatos, negar que existem as variações regionais, que o ‘você’ é o pronome da segunda pessoa do singular (mesmo nas variedades cultas), que o ‘vocês’ é o pronome pessoal de segunda pessoa do plural, vamos continuar dizendo que ‘aluga-se casas’ está errado e que ‘casas’ é sujeito por isso tem que ser ‘alugam-se casas’ quando o sujeito é o ‘se’ (índice de indeterminação do sujeito, logo ‘casas’ é objeto). Devemos falar como se escreve, devemos todos falar como os atores da Globo falam, escrever como o Machado, o José de Alencar (que era criticado por seu português escrito), eles sim são os moldes.

Os linguistas não existem, apesar de a reportagem da globo entrevistar uma linguista da UnB, tudo que ela disse foi que é missão da escola ensinar o padrão e que sim, os padrões de correção são relativos e noções como ‘adequado’ e ‘inadequado’ deveriam substituir o ‘certo’ e o ‘errado’. Quando lançou a sua gramática, no ano passado, Ataliba de Castilho, deu várias entrevistas falando sobre isso. Por que não teve repercussão a mostra “menas” ano passado no Museu da Língua Portuguesa? Por que o que os jornalistas veem é somente o pitoresco e não o papel da mostra que era justamente mostrar que os padrões de correção são relativos e que mesmo o que se chama de erro é regrado? Por que não teve repercussão quando Ataliba deu essa entrevista para a Época, justamente defendendo o que o livro didático faz? Aqui tem outra entrevista para a revista Língua Portuguesa, e ele defende isso há mais de 30 anos. Aqui tem uma reportagem que saiu na Galileu ano passado, também por ocasião do lançamento da Gramática do prof. Ataliba. Também acho a reportagem meio desonesta, já que duvido que Ataliba defenda que “siscreve como sifala”. O quão complicado é perceber que uma gramática da fala tem que trazer escritos registros da fala e que tais registros da fala são diferentes do padrão escrito? Tenho a impressão de que os jornalistas não se leem. Os jornalistas globais não leram o que a Galileu e a Época publicaram quando do lançamento da gramática do Ataliba, isso quer dizer que nenhum se deu ao trabalho de pesquisar sobre o tema da reportagem ou simplesmente repercutiu o que saiu na primeira matéria original.

No final das contas, os jornalistas parecem aquelas pessoas com pouca instrução. Elas vão ao médico, ouvem o diagnóstico. Mas chegam na farmácia e perguntam ao farmacêutico se o remédio é para aquilo mesmo algumas até usam o remédio, mas não até o fim, ou voltam pra casa e vão na benzedeira e tomam algum chá para a mazela que eventualmente tenham.

ps.: o ‘ter’ no lugar do ‘haver’ no título é intencional; também tem alguns pronomes retos onde deveriam ter alguns oblíquos.