Literatura e vaidade

O Orígenes Lessa mandando a real na voz de uma personagem simplona.

Maria Rosa, mulher de Campos Lara, o poeta protagonista de O feijão e o sonho, não entende porque o marido não possui pretensões monetárias com a sua poesia. E o acusa de escrever e publicar só por vaidade:

“- Sim, você e sua rodinha não passam de uns convencidos, de uns pretensiosos. Nem todos levam a vaidade para a roupa, mas nem por isso são menos vaidosos do que qualquer mulherzinha. Eu já compreendi bem os  tais artistas que você traz aqui. Todos são uns portentos. Cada qual é mais ilustre. Não passam cinco minutos sem que se elogiem da maneira mais ridícula. ‘Que gênio! Que grande poeta você é!’ ‘Não, gênio é você, poeta é você.’ E o pior é que todos acreditam. Dia em que ninguém te elogia você até emagrece.” (Cap. 26)

Lara fica desnorteado com as palavras da mulher. Talvez porque lá no fundo ele saiba que ela está falando a verdade. Ele só pensa em escrever. Por isso sua vida financeira é um desastre, pois ele é absurdamente irresponsável com suas obrigações profissionais como professor, ou mesmo nas outras profissões que tenta exercer. Não acho que ele tenha a ilusão de viver só da escrita. É outra coisa. É como se as obrigações cotidianas fossem irrelevantes e pequenas diante da obrigação da literatura. Flaubert tinha um pouco disso, de achar a vida cotidiana um saco, e só se sentir feliz e completo escrevendo. Kafka também. Kafka não era vaidoso, acho, visto que publicou tão pouco em vida (mas, sei lá, né… vai que é o oposto?).

Lara é um sonhador, mas um sonhador ingênuo, de um Brasil ainda rural, analfabeto e provinciano, com uma população que consumia filosofia e literatura nos jornais e nos almanaques. Livro era luxo. Sua família passava necessidade, mas ele tinha livros em casa. No fundo ele é um retrato do país em que vive, e de sua classe. Não sabemos nada de suas origens familiares, mas ele é incapaz de perceber que ser um professor de merda é o que faz com que a sua realidade seja o que é: miserável e tosca. Claro, ele não a produz, mas nada faz para que ela mude.

O romance atinge o clímax quando começa a circular na cidade o boato que Lara ofendeu o vigário da paróquia. O padre já tinha fama de pedófilo e tudo que Lara fez foi perguntar durante a conversa no bar por que ninguém fazia nada. Indignado com a calúnia, ele confronta os frequentadores do bar, particularmente um advogado, Matraca, famoso por ser linguarudo. O padre chega naquele momento e tudo se acerta. Lara não baixa a cabeça e intima Matraca a assumir o que disse, mas ele se cala.

Lara e a família voltam pra São Paulo. Além disso, ele também deixa a poesia de lado e investe na prosa. Aos poucos vai ganhando notoriedade e até algum dinheiro. Sua vida melhora um pouco, pois consegue trabalho em um jornal e seus filhos ganham bolsa em uma escola privada. Nesse ponto da narrativa parece que tudo se encaminha para um final tranquilo, como se a vida fosse aquilo ali mesmo.

Aí chegamos num ponto de virada. Vem a Segunda Guerra Mundial e também uma espécie de virada estética. Os jovens veem Lara como o representante do status quo e passam a atacar a sua literatura. Mesmo amigos que antes o elogiavam, agora o desacreditam. Então ele se dá conta que passou a vida inteira lutando por prestígio, por reconhecimento, pra construir uma obra que se desmanchava diante dos seus olhos. E o preço disso tudo foi ter deixado sua família passar necessidades. Seus filhos eram agora adolescentes e ele mal os conhecia.

Na superfície é um romance sobre o dilema do sujeito que quer se dedicar à arte num país como o nosso, e num Brasil pré-industrial ainda, sem uma classe média urbana consumidora de literatura.  Mas é também um romance sobre vaidade, sobre o preço do sucesso, e como esse sucesso é fugaz e ilusório.

Rocha Lima e as qualidades da boa prosa

No capítulo XXXI de sua Gramática Normativa, Rocha Lima nos presenteia com dicas de escrita, listando as “qualidades da boa prosa”: correção, concisão, clareza, precisão, naturalidade, originalidade, nobreza e harmonia. Pois é, nada que a falta de uma boa teoria de texto/discurso não pudesse ser preenchida com o saber empírico e assistemático.

Antes de falar de correção, ele dá uma cutucada nos modernistas: “É vezo moderno – moderno e elegante – pregar o desamor da tradição gramatical. Dilapidada metodicamente por certa corrente literária deste inquieto século XX, vai a língua portuguesa decaindo, em algaravia bárbara, ao nível de caçanje miserável.” (p. 501)

(É irônico esse ‘moderno e elegante’ entre travessões, como se o adjetivo ‘elegante’ qualificasse uma moda, e como todas as modas, passageira?)

Ao entrar no tema da correção, que foi o que me chamou a atenção, lemos o seguinte, no trecho em que ele discute como as qualidades podem entrar em conflito. Neste caso, para ele, a precisão (a busca pela palavra exata) não pode colidir com a nobreza: “[…] se estivermos, por exemplo, procurando reproduzir, num romance, um diálogo entre personagens ignorantes, não nos será lícito, por amor da nobreza, fazê-las falar sem o pitoresco expressivo da sua linguagem inculta. Isto sem descer, é claro, a torpezas verbais indignas de fixação escrita. Seria confundir ‘linguagem inculta’ com o baixo ‘calão’ dos homens vis.”

Isso dizia o Rocha Lima já lá em 1962. Reforço: ‘torpezas verbais indignas de fixação escrita’. Ele deve ter tido um troço ao ler Macunaíma.

Somos também conservadores

É comum que gente por aí acuse os linguistas de serem libertários no quesito Norma Padrão e de pregarem o vale-tudo: não existe mais certo ou errado. Tem quem nos acuse também de negar o lugar da literatura brasileira na escola. O Sírio Possenti vive reclamando disso (nesse post ele contra-argumenta Ferreira Gullar), pois quem acusa os linguistas desse tipo de posição nunca cita um autor para dar credibilidade ao que está dizendo (se cita, como aquele arrogante da Veja que lê os linguistas do jeito que quer, menciona, não cita textualmente, justamente porque sabe que está mentindo, e que o que está atacando não são as ideias, e sim o fato de o linguista x ou y ser de esquerda). Na verdade, se os linguistas que tratam de ensino de gramática fossem lidos com cuidado, se perceberia que o que eles defendem é justamente o ensino da Norma Padrão.

Coletei rapidamente algumas citações para mostrar isso:

Sírio Possenti (Por que (não) ensinar gramática na escola, 1996: 17): “Talvez deva repetir que o adoto sem qualquer dúvida o princípio (quase evidente) de que o objetivo da escola é ensinar o português padrão, ou, talvez mais exatamente, o de criar condições para que ele seja aprendido. Qualquer outra hipótese é um equívoco político e pedagógico.”

Um pouco mais adiante o autor menciona o papel da leitura de diferentes tipos de textos no ensino fundamental e “com muito destaque” de literatura. E no ensino médio, os alunos deveriam entrar em contato com a literatura contemporânea, os clássicos da língua, e os clássicos universais (mesmo que em versões adaptadas).

Carlos Alberto Faraco (Norma culta brasileira, 2006: 157):

“A crítica à gramatiquice e ao normativismo não significa, como pensam alguns desavisados, os abandono da reflexão gramatical e do ensino da norma culta/comum/standard. Refletir sobre a estrutura da língua e sobre seu funcionamento social é atividade auxiliar indispensável para o domínio fluente da fala e da escrita. E conhecer a norma culta/comum/standard é parte integrante do amadurecimento das nossas competências linguístico-culturais, em especial as que estão relacionadas à cultura escrita.”

E sobre o papel dos textos literários (: 161): “[…] a leitura de textos literários é fundamental no universo de quem pretende dominar essa norma – neles, talvez mais do que em qualquer outro tipo de texto, é visível a diferença das linguagens e dos pontos de vista que ampliam nossos horizontes.”

Marcos Bagno (texto online): “nenhum linguista está propondo a substituição das formas tradicionais pelas formas inovadoras. Nem querendo impor formas linguísticas de uma região específica ou de uma classe social específica ao resto da população brasileira. Nem desejando eliminar as inevitáveis diferenças que existem entre as modalidades linguísticas formais e informais, espontâneas e monitoradas, urbanas e rurais etc.
Tudo o que desejamos é, repito, que as formas não-normativas características do português brasileiro e há muito tempo incorporadas na atividade linguística de todos os brasileiros, inclusive dos mais letrados (inclusive dos grandes escritores!), sejam consideradas igualmente válidas e aceitáveis, para que possamos nos comunicar um pouco mais livremente, sem a patrulha gramatiqueira que pesa sobre nossas consciências o tempo todo e não nos deixa usar nossa língua materna em paz.”

Irandé Antunes (Muito além da gramática, 2007: 101) “Vale a pena insistir numa questão central: a de providenciar para o aluno oportunidades de acesso ao padrão valorizado da língua […] Longe de qualquer teoria linguística a orientação de negar a todos os falantes esse aceso. O problema é discernir sobre o que faz parte desse padrão e adotar uma visão não purista, de flexibilidade, de abertura, para incorporar as alterações que vão surgindo […]”

Magda Soares (Linguagem e escola, 1987:78) : “Um ensino da língua materna comprometido com a luta contra as desigualdades sociais e econômicas reconhece, no quadro dessas relações entre a escola e a sociedade, o direito que têm as camadas populares de apropriar-se do dialeto de prestígio, e fixa-se como objetivo levar os alunos pertencentes a essas camadas dominá-lo, não para que se adaptem às exigências de uma sociedade  que divide e discrimina, mas para que adquiram um instrumento fundamental para a participação política e a luta contra as desigualdades sociais.” (O tiozinho da Veja deve se coçar todo quando lê coisas desse tipo)

Considerando tudo isso, eu me pergunto, contra quem Ricardo Cavaliere (A gramática no Brasil, 2014: 92) argumenta, ao afirmar que: “[…] uma semelhante linha de conduta acadêmica vem atribuindo ao texto literário, nos dias atuais, um certo teor de incompatibilidade com o ensino da língua, tendo em vista as naturais peculiaridades que o espírito de literariedade lhe conferem […] (ver também a conferência aqui)

Aliás, o texto todo em que Cavaliere critica os críticos é eivado de afirmações vagas do tipo “semelhante linha de conduta acadêmica”. Como assim, nobre acadêmico? Por que não citar quem faz afirmações dessa natureza? Talvez seja porque ninguém faz.

Paulo Coimbra Guedes em ‘A formação do professor de português: que língua vamos ensinar’ (2006), advoga justamente o papel da literatura brasileira no ensino de língua materna: “É a literatura brasileira que nos ensina que dominar a língua escrita não implica escrever só o que já foi escrito nem escrever só como já se escreveu.”

Sei lá, às vezes acho que é um pouco de preguiça, outro acho que é mau caráter mesmo, pois as pessoas que fazem essas acusações não são ignorantes, sabem do que estão falando (acredito, mas talvez eu esteja sendo ingênuo e elas sejam imbecis mesmo), e sabem também que estão lutando contra um espantalho da proposta (não a proposta real). No fundo, parece aquele medo reacionário frente à diversidade sexual, interpretada pelas pessoas de alma pequena como ‘agora todo mundo tem que virar gay’.

Só Augusto dos Anjos salva

A IDÉIA

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica…

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!

Sherlock Holmes e Watson discutem verossimilhança

Do conto ‘Um caso de identidade’ (Conan Doyle, Sherlock Holmes: obra completa, vol. 1, Nova Fronteira, 2014)

“- Meu caro amigo – disse Sherlock Holmes, quando estávamos sentados diante da lareira em seus aposentos na Baker Street -, a vida é infinitamente mais estranha do que qualquer fantasia concebida pelo homem. Não ousaríamos imaginar coisas que são meros lugares-comuns da existência. Se pudéssemos voar por aquela janela de mãos dadas, pairar sobre esta grande cidade, remover delicadamente os telhados e espiar as coisas esquisitas que estão acontecendo, as estranhas coincidências, os planos, os objetivos contrários, as maravilhosas cadeias de acontecimentos agindo através de gerações e levando aos resultados mais absurdos, isso tornaria toda a ficção, com suas convenções e conclusões óbvias, corriqueira e desinteressante.

-Não estou convencido de que isso seja verdade – respondi. – Os casos relatados nos jornais são, em geral, vulgares e desprovidos de imaginação. Nos relatórios da polícia o realismo chega a um limite extremo, mas o resultado não é, deve-se dizer, nem fascinante, nem artístico.” (p. 294)

E trago aqui Davi Arrigucci Jr. (Teoria da narrativa: posições do narrador. Jornal de Psicanálise, 31(57), 1998) só para o leitor cotejar com o que normalmente se entende por verossimilhança:

“A regra da verossimilhança é: sempre procure o impossível plausível, não o possível incrível. Isso quer dizer que uma coisa muito singular que só acontece comigo não dá boa literatura. Posso pensar: minha vida daria um romance. Não dá! O que dá um romance é uma construção das coisas que podem ser, e não necessariamente das que foram mas não têm poder de convencimento. As coisas que podem ser com tanta dificuldade pela sua singularidade são dificilmente aceitáveis como verossímeis. E a questão da literatura é o que pode ser.” (p. 37)

 

Cadê a nossa boa e velha crônica?

Lendo João do Rio, me pego pensando nessa coisa gostosa que é a crônica, esse texto que tá ali entre o conto e a poesia, entre a realidade e a ficção, entre a hipótese e a certeza. Tivemos Rubem Braga, Sérgio Porto (ou Stanislaw Ponte Preta), Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues (esse lazarento que escrevia de tudo e fazia tudo muito bem), Luis Fernando Veríssimo (o últimos dos grandes cronistas?); sem contar um outro time que atacava de cronista também pra pagar as contas: Drummond, Clarice, Cecília Meireles…

Devo andar lendo as pessoas erradas…

Ou vai ver que o mundo em que a gente vive seja tão maluco ao ponto de a imaginação não ter mais graça, e a graça toda esteja em inventar distopias, fantasias medievais, super-heróis com poderes inusitados e por aí afora. Ou a gente ficou careta? Vai ver que a tragédia grega que Nelson Rodrigues enxergava na violência cotidiana não comove mais ninguém.

* * *

João do Rio (um desses iluminados que sabiam colher da vida a sua graça), numa crônica sobre as tabuletas dos estabelecimentos comerciais do Rio:

“…encarregado de fazer as letras de uma casa de móveis, já pintara ‘vendem-se móveis’ quando o negociante veio a ele:

– Você está maluco ou a mangar comigo!

– Por quê?

– Que plural é esse? Vendem-se, vendem-se… Quem vende sou eu e sem sócios, ouviu? Corte o m, ande!” (A alma encantadora das ruas, p. 101).

A sabedoria popular que os gramáticos tendem em não ouvir…

Ando lendo

João do Rio (A alma encantadora das ruas, Companhia das Letras, 2008) entendia das coisas.

” A obscuridade da gramática e da lei! Os dicionários só são considerados fontes fáceis de completo saber pelos que nunca os folhearam.” (p. 29)

“A rua é a transformadora das línguas. Os Cândido de Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas para enclausurar expressões; os prosadores bradam contra os Cândido. A rua continua, matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros.” (p. 29)

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Lobo Antunes (via E. Vila-Matas, O mal de Montano, Cosac Naif, 2005) sobre escrever:

“…é como se drogar, começa-se por puro prazer, e acaba-se organizando a vida como os drogados, em torno do vício. E esta é a minha vida. Até quando sofro o vivo como um desdobramento: o homem está sofrendo, e o escritor está pensando em como aproveitar este sofrimento para seu trabalho”. (p. 199)

Estou bêbado desse livro.