Linguística para quem?

A gente lê por alguns motivos: para aprender com o texto, para tirar dele uma informação e por passatempo, prazer. O livro do Gabriel de Ávila Othero, ‘Mitos de Linguagem’ (Parábola, 2017) devia ser lido por prazer. Mas, a minha experiência me diz que os capítulos do livro serão copiados, lidos e discutidos nos cursos de Letras (talvez em outros, quem sabe) por esse país afora. É muito pouco para um livro dessa natureza, ele deveria pular os muros da universidade e ser lido nas escolas e por curiosos em geral.

Tem altos debates em congressos e publicações especializadas querendo entender por que os linguistas são tão pouco ouvidos ou consultados em debates sobre linguagem na sociedade. A razão, na minha modesta opinião, é que só se escreve introdução à linguística para servir de manual para aluno de Letras (é uma produção bibliográfica pra auto-consumo). Ninguém escreve pra ser lido por professores ou leigos em geral. (Tem poucos, muito poucos na academia que tentam fazer isso). Claro, sempre tem que vá dizer: peraí, meu, quem é que tá interessado em saber sobre pressuposição a não ser aqueles que estudam pressuposição? O problema não é escrever linguística para consumo próprio (apenas para alimentar a indústria do livro que só circula na universidade), o problema é escrever só com esse objetivo.

Voltando ao livro, o barato dele é tocar em temas que a gente não encontra facilmente em outras publicações introdutórias por aí. O livro está organizado em torno de 10 mitos, isto é, concepções equivocadas que os leigos possuem sobre a linguagem. O primeiro capítulo discute o mito “as mulheres falam demais”.

Esse mito é interessante, pois se conecta com o momento em que vivemos em que se discute tanto o papel da mulher e as violências que sofrem. A interrupção (já me peguei fazendo isso), a explicação (masplaining), ou dar mais atenção ao que os meninos falam (como professor num curso em que a maioria é mulher, é difícil diagnosticar isso, mas pode ser que aconteça). Esse tipo de discussão é importante por mostrar atitudes que temos que (nós homens) somos incapazes de perceber que são violências dissimuladas – a ministra do supremo Carmen Lúcia reclamou disso semanas atrás.

Tem outros mitos legais debatidos: ‘a gramática do português não tem lógica’; ‘ninguém fala o português correto’; ‘a língua portuguesa é uma das mais difíceis do mundo’; ‘a ortografia do português é cheia de exceções’; ‘todo mundo tem sotaque, menos eu’. Esses capítulos tratam especificamente de questões relacionadas com a nossa língua. Eu gostei particularmente do capítulo que envolve a lógica (ou a falta dela) da gramática. Os exemplos de definições problemáticas são bem ilustrativos dessa percepção. Um dos problemas é que a gramática escolar ainda se vale de uma metalinguagem que nos foi legada por gregos e romanos. Todos estamos de acordo que coisas como ‘pronomes’ existem em nossa língua. A questão é que definir a classe como ‘a palavra que substitui o nome’ talvez não seja a melhor definição; e que talvez nem tudo que esteja dentro da classe seja pronome.

Como disse o Mattoso Câmara Jr., as línguas humanas tem uma lógica diversa da lógica ordinária. E é tarefa do linguista descobrir essa lógica. Claro, vai ver a gente ainda não descobriu a lógica do funcionamento de algumas regras do português, e tem outras, claro, que são pura invencionice de gramático, como a discussão sobre os porquês, no capítulo que trata da ortografia.

O capítulo é muito bom, discutindo dois aspectos que explicam porque falamos as palavras de um jeito e escrevemos de outro: a fonologia e a etimologia. Nossa escrita é uma tentativa de representar os sons, e ao mesmo tempo quer preservar a herança lexical latina. Não dá pra respeitar 100% as duas coisas. Claro, ele ainda podia ter citado o fato de que no caso português, o Vocabulário Ortográfico elaborado pela Academia Brasileira de Letras é um guia para a grafia das palavras, e que o Acordo tem mais de político que de linguístico. Logo, tem um baita grau de arbitrariedade na decisão sobre a grafia de uma palavra.

Um segundo grupo de textos debate mitos relacionados com conhecimento linguístico geral: ‘a língua dos índios é rudimentar’; por que é difícil aprender uma língua estrangeira depois de adulto; a comunicação animal; a eficácia de tradutores automáticos. Gabriel mostra com detalhes como o mito envolvendo as línguas indígenas é infundado. Não vou entrar nos outros capítulos para não me alongar muito. Acho que os assuntos deles já mostram que são interessantes.

Carlos Alberto Faraco, na conferência de abertura do Congresso da Abralin em março deste ano na UFF, em Niterói, falou justamente da relação entre o conhecimento acadêmico e o conhecimento popular. O papel da ciência é de esclarecer o debate público e político (na medida em que decisões políticas baseadas em argumentos racionais trazem melhorias para a sociedade como um todo). No caso da linguística, livros como os do Gabriel cumprem um papel importante nesse diálogo. Ele é escrito para apresentar de maneira didática questões e resultados de pesquisas que dificilmente estariam acessíveis para um público mais amplo, mesmo para estudantes de Letras.

 

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Lendo Conan Doyle

Não sei por que demorei trinta anos pra ler as histórias do Sherlock Holmes. Talvez algum preconceito bobo, talvez alguma outra urgência de leitura, sei lá. Talvez tenha sido melhor assim. Acho que a gente tem que estar na idade adequada pra ler certos livros. De que me adiantaria ter lido Madame Bovary aos 18? (Li aos 28). Vai ver eu li na adolescência e não me lembro. Por isso eu tinha a sensação de que devia pra mim mesmo a leitura das aventuras da dupla saída da mente de Arthur Conan Doyle. O que segue abaixo são notas de leitura, antes de qualquer coisa (se é que posso chamar disso as frases soltas abaixo).

O narrador é sempre o Watson. Apenas em Histórias de Sherlock Holmes (1927) há duas histórias narradas por Sherlock. Isso cria efeitos interessantes, pois Watson possui uma óbvia admiração pelos talentos de Holmes e a maioria dos contos começa com o narrador dizendo que aquele é um dos casos mais esquisitos, bizarros ou interessantes/curiosos que o detetive já tinha enfrentado. A minha impressão é que Watson é sempre acessório nas histórias. Algumas poucas vezes ele é usado como instrumento ou como isca. Acho que apenas em O cão dos Baskerville o seu papel na história é mais decisivo. Na maioria delas, se Watson não estivesse lá, não faria diferença. De qualquer modo, Doyle criou um dos personagens mais cativantes da literatura universal e o fato de gostarmos dele (tá, acho que gostamos do Watson também) ainda hoje diz alguma coisa sobre a qualidade da sua literatura (embora os méritos narrativos sejam discutíveis: é sempre a mesma estrutura, clichês, Watson e Holmes não possuem grandes dilemas morais etc.).

Digamos que seja o espírito do tempo. Mas a arrogância e superioridade de Holmes e Watson é algo marcante em muitas histórias. Principalmente se dela possuem papel decisivo negros, sulamericanos ou indianos. Invariavelmente são retratados em comparação a animais, são chamados de selvagens, intempestivos e pouco racionais. Tirando as mulheres (geralmente muito bonitas e jovens), os homens são feios e grotescos.

Falando em mulheres, Watson se casa num dos primeiros livros (O sinal dos quatro? Ou Um estudo em vermelho?) e depois sua mulher raramente é mencionada. Watson destaca em vários momentos que Holmes não gosta de mulheres (os motivos são variados: pouco confiáveis, passionais, imprevisíveis, não racionais etc.). Já Watson parece se impressionar facilmente com a beleza das mulheres que cruzam o caminho deles.

Mas talvez seja impressão minha. Holmes casar só lhe traria problemas, eu acho. Como primeiro super-herói da literatura, ter que lidar com os afazeres de uma vida familiar só complicaria sua vida (por isso os super-heróis não casam). Seus inimigos poderiam usar sua mulher e filhos como alvo, por exemplo.

Há também uma série de traços que tornam Holmes pitoresco. Nos primeiros livros ele ainda usa cocaína. Depois isso desaparece. Talvez seja a influência de Watson, que reprovava o costume, ou a mudança de valor social no uso da droga. Outra coisa que notei, a famosa frase, “elementar, meu caro Watson” nunca aparece nos livros. Ela aparece uma vez, e sem o “caro Watson”. Na verdade, segundo pesquisei, ela foi criação de Edith Meiser, que escreveu The New Adventures of Sherlock Holmes entre 1939 e 1947 para um programa de rádio da BBC. O último livro que Conan Doyle publicou coligindo as histórias de Watson e Holmes foi publicado em 1927. O autor faleceu em 1930.

Não há grandes reflexões filosóficas. O narrador de Watson é objetivo e sabe criar a aura de mistério que uma boa história policial precisa. Embora, o narrador claramente narra coisas que testemunhou e cujo desfecho lhe é conhecido. Apesar disso, há trechos legais, como esse, em que falam de um homem que foi procurar Holmes, na última história de Histórias de Sherlock Holmes (1927):

“- Uma criatura patética, inútil e alquebrada.

– Exatamente, Watson. Patética e inútil. Mas a vida não é toda ela patética e inútil? A história dele não é um microcosmo do todo? Nós estendemos a mão. Nós agarramos. E, no final, o que é que fica em nossas mãos? Uma sombra. Ou pior do que uma sombra, a miséria.” (p. 405.)

Cordilheira (Daniel Galera)

Eu acho que tenho um problema com sinopses, porque elas me contam do que trata o livro, mas sempre parecem me enganar, pois vou ler o livro e não encontro o que a sinopse me diz. Como nessa de Cordilheira, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 2008): “Recém-saída de um relacionamento amoroso e ainda sob impacto do suicídio de uma amiga, uma escritora resolve aproveitar o lançamento da tradução argentina de seu romance, considerado pelo público e pela crítica uma das melhores surpresas da nova literatura brasileira, para passar uma temporada em Buenos Aires.” (do site da Companhia das Letras). “Impacto” lendo o romance não senti impacto algum. Na verdade, Anita, a personagem principal, não parece se impactar com muita coisa.

Depois de ter lido o ensaio sobre a personagem de ficção de Autran Dourado (no Poética do Romance), não leio mais querendo que os personagens sejam “reais” ou “verossímeis”, me basta que sejam coerentes com aquele universo criado pelo autor. Anita me parece um personagem assim, embora por vezes decidida, como na obstinação de se tornar mãe, ela se deixa levar por algumas situações, como quando transa pela primeira vez com Holden. E é esse o fio condutor da narrativa, o desejo de Anita de ser tornar mãe, algo que parece insensato aos olhos das amigas. Passar uma temporada em Buenos Aires me pareceu uma espécie de escape de tudo que ela vinha vivendo, do relacionamento chato, das amigas intrometidas mas tão confusas quanto ela.

Em Buenos Aires Anita conhece Holden. Ela aos poucos vai descobrindo que todos os amigos de Holden possuem personalidades construídas a partir de livros que eles mesmos escreveram ou que outras pessoas escreveram. Cada um tem o seu livro e precisa cumprir o destino do seu personagem, seja cometer assassinato ou suicídio. E essa talvez seja a discussão mais interessante dentro do livro, apesar de todo esse papo de “transformação” que a orelha do livro nos vende. Não vejo Anita crescendo em nenhum momento, vejo apenas uma mulher obstinada em engravidar, só; que renega o próprio livro e não parece muito preocupada com o que vai fazer depois que conseguir engravidar e o filho nascer. Ela é uma mulher do presente. Em várias cenas Holden e os amigos discutem essa relação entre a vida e a literatura. Anita, como autora, pensa que autor e personagens criados não possuem relação alguma. Já Holden e seus amigos acreditam que a literatura só faz sentido quando é vivida. E eles vivem em função disso, em função dos personagens que criaram para si mesmos ou que escolheram. Claro, podemos também nos perguntar até que ponto Anita é a Magnólia do seu livro, ou se de alguma forma inconsciente ela vai se transformando na protagonista do livro que foi para Buenos Aires lançar, ou pelo menos adquirindo os seus dramas e conflitos, que é isso que parece interessar a Holden, a personagem criada por Anita, não a mulher em si. O próprio nome ‘Holden’ aí ganha dimensões interessantes, icônicas, pois é inevitável a ligação com o herói do Apanhador no Campo de Centeio, já que Holden briga por bobagens e é descrito como ‘infantil’ algumas vezes (embora o Galera diga aqui que não há relação).

Por outro lado, tem a questão do espaço, que é fundamental também para o romance fazer sentido. Que outro lugar senão Buenos Aires para abrigar um culto secreto de leitores que levam seus personagens às últimas consequências? Há uma cena em que Anita conversa com o grupo sobre autores argentinos, ela cita os clássicos Borges, Cortázar, Casares, Piglia, e para alguém do grupo eles são mentirosos, escondem a realidade. Os bons autores seriam de fato os medianos, aqueles que, justamente por serem ruins, não conseguem disfarçar a realidade. Somos levados por cafés, ruas, parques, praças, lugares em que todo mundo parece estar lendo o tempo todo. Parece que apenas algumas poucas ações íntimas ocorrem na casa de Holden. Grande parte da ação acontece nas ruas e nos cafés.

Após o capítulo semifinal, em que Holden e os amigos vão até a Terra do Fogo para que ele possa levar a cabo seu destino de personagem, vemos Anita de volta ao Brasil e com o filho perdido. Esse capítulo final me pareceu narrado pela primeira pessoa de Danilo, o ex-namorado, que abriga Anita quando ela volta. E o fecho é bonito pois ele de repente se pega pensando nela justamente da forma que ela desejava, como aquela jovem, cuja história ela tinha lido, que admirava a cordilheira dos Andes da janela de sua casa, e essa parecia ser a sua principal característica, pelos olhos do marido e narrador da história. É a literatura cumprindo seu destino, virar realidade, mas não sabemos se Anita sabe disso.

A Carpintaria de Autran Dourado

Eu não lembro quando comprei o “Uma poética do romance/Matéria de carpintaria” do Autran Dourado (Difel, 1976). Provavelmente há uns cinco anos atrás. Acho que foi o Caio quem me falou do livro, e do quanto ele gosta de ler poetas e prosadores falando do seu ofício.

Ser um comprador compulsivo de livros tem dessas coisas, de a gente comprar o livro e só ler algum tempo depois. Tem alguns que eu leio logo. Outros precisam esperar pacientes na estante. Já tentei ler duas vezes o Em Busca do Tempo Perdido do Proust, naquela coleção linda de clássicos que a Abril lançou ano passado. Acho que não estou ainda preparado para ler o livro. Com o livro do Autran o mesmo aconteceu. Já tinha tentado ler o livro umas duas vezes, e ele não tinha me pegado. Acontece que comecei a lê-lo faz umas duas semanas e entrei no dito cujo. Essas coisas sempre que dão a sensação de que há livros para os quais precisamos estar prontos para eles, não adianta forçar a barra.

Por vezes penso que perdi uns dez anos da minha vida pensando ser poeta, quando ramblando (rambling) pelos arquivos do computador reparei que nesses dez anos eu sempre escrevi muita prosa também, ao lado dos poemas que eu anotava em cadernos.  Mudei de apartamento na semana passada e encontrei um velho caderno de 2006. Lá me deparei com uma anotação: “O velho emudece após uma ameaça de derrame. Passa cinco anos sem falar. Quando está pela boa abre a boca e diz que fica tudo pra Jandira, a empregada.” Ri sozinho ao ler isso. Por que eu nunca escrevi esse conto?

Por que eu não sabia escrever, esse era o problema. Depois de ter lido o “Da redação à produção textual” do Paulo Guedes, que me abriu os olhos para um bocado de coisas, como a concretude, o mostrar e não contar (o que ele chama de objetividade), e o questionamento: todo texto precisa ser uma espécie de resposta a uma questão, que não precisa estar necessariamente explícita no texto. O exemplo clássico é o Missa do Galo, do Machado de Assis, que começa fabulosamente: “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos…” E daí por diante o conto todo é o narrador tentando entender isso. Genial, claro. Ou como a Terceira margem do rio, do Guimarães Rosa, o problema todo surge quando o pai do narrador resolve construir uma canoa, se enfia nela e passa a viver lá no meio do rio ancorado.

Voltando ao livro Autran. O principal problema dele é que pra entender o livro o cara tem que ter lido os livros do autor, senão não dá pra entender bulhufas do que ele diz. Eu não li nada dele, então… (já comprei o Risco do Bordado, que é analisado no capítulo ‘Planta baixa de um livro’, mas ainda não li). Assim, os ensaios de que mais gostei foram o ‘Personagem, composição, estrutura’, onde ele reclama que os críticos parecem não entender nada de personagem, exceção feita a Antônio Cândido, segundo ele o único que parece entender que o personagem na ficção não é e nem tem que ser de carne e osso, o requisito básico é ser coerente com a narrativa, já que a ficção não tem pretensão de ser análise antropológica ou sociológica, segundo ele. ‘Um depoimento pessoal’ também pode ser lido tranquilamente. No texto ele faz uma espécie de análise da sua trajetória literária e o que envolve a criação. O texto começa com uma reflexão entre ser o que ele chama de ‘um bom prosador’ e ser ‘escritor de romances’. O risco todo que se corre é o desejo ou audácia de se querer escrever bem, enquanto ainda o sujeito é incapaz de escrever um romance. Para ele Jorge Amado era um grande romancista, mas não era um bom prosador. Isso me lembrou de algo que o Assis Brasil comentou em uma das aulas: o problema de quem escreve é querer fazer literatura. E é nisso que tenho pensado ultimamente, muito mais em conseguir deixar de pé uma história, com personagens e enredo envolventes do que fazer floreios com a linguagem. Não dá pra querer ser um Picasso se o cara não consegue nem pintar uma paisagem direito, né?

A segunda parte do livro, o Matéria de Carpintaria, envolve uma séria de aulas de ele deu na PUC-RJ como escritor residente em 1974. As aulas todas versam sobre a feitura dos seus livros. O interessante é que ele relaciona as obras com a mitologia grega e principalmente nos conta como bolava o nome dos personagens pensando em significados míticos associados a esses nomes. Batizar um personagem de ‘Maria’, para ele, nunca é algo sem significado. Como disse, não li os seus livros, portanto essa parte do livro só serviu para despertar em mim o desejo de os ler, bem como me deu uma ideia bem interessante de como pensar os nomes dos personagens. Aliás, no Apêndice há um texto chamado ‘O personagem como metáfora’ e outro, que eu achei bastante bom também em que ele discute a questão da língua portuguesa e do problema todo de tomarmos o nosso padrão culto lá no século XIX tendo como base o padrão culto português (não lembro de a literatura linguística citar esse texto).

Provavelmente terei que ler a obra do Autran para poder voltar ao livro e saboreá-lo e apreciá-lo devidamente, mas isso vai demorar um pouco. Outro ponto negativo que vejo no livro é a pouca reflexão sobre a construção dos enredos, algo que eu esperava encontrar, embora todas as referências à mitologia e ao teatro clássicos sejam uma pista nesse sentido. A profusão de dramas humanos que a mitologia grega encerra é uma fonte inesgotável de temas e situações (Nelson Rodrigues que o diga).

Como ensinar matemática

Krantz, Steven. How to teach mathematics. 2. ed. Providence, Rhode Island: American Mathematical Society, 1999.

O leitor poderá achar estranho um linguista e professor de português resenhando um livro sobre como ensinar matemática. Logo, logo, vocês verão que não há estranheza alguma nisso, e o que esse livro traz de interessante vale para qualquer campo do conhecimento. Steven Krantz é PhD em matemática pela Princeton University (1974) e atualmente leciona na Washington University, campus de St. Louis. É autor de inúmeros artigos e livros tanto técnicos quanto destinados a um público maior.

“Como ensinar matemática” tem um título, que eu diria, enganoso. O livro é mais sobre didática do ensino superior do que propriamente sobre o ensino de matemática nesse nível (e nos níveis inferiores, como o fundamental e o médio). Apesar de a realidade dele ser bem diferente da nossa, algumas boas lições podem ser tiradas dali. O livro se divide em 4 capítulos principais, um de conclusão e alguns apêndices (esses são escritos de outros professores e pesquisadores da área da matemática sobre assuntos mais específicos, de pouco interesse ao leitor comum).

O primeiro capítulo, ‘Guiding Principles’ estabelece um pano de fundo no qual a discussão do livro ocorrerá. Esse pano de fundo é a reforma do sistema educacional americano e o funcionamento do ensino superior nas universidades americanas. A sensação de que os alunos estão chegando cada vez mais fracos para a universidade não é apenas brasileira, é americana também e isso lá nos anos 90 (imagine agora?). Veremos no capítulo 4 que isso não é desculpa para o professor dar uma aula meia-boca ou subestimar os seus estudantes. Esse capítulo vai tratar de alguns temas que para muitos pouco significam, mas para quem passa pelo crivo de bancas toda vez que enfrenta um concurso saberá do que eu estou falando.  Preparar a aula, ser claro, usar o quadro organizadamente, fazer e responder questões, o uso do tempo etc., são aspectos básicos de uma aula (em qualquer nível) que ninguém nos ensina (mas deveriam, principalmente nos cursos de licenciatura). E aí está o primeiro mérito do livro, como se no ensino superior não fosse importante manter o quadro organizado, ter uma letra compreensível e/ou ter uma aula com começo, meio e fim (aos meus alunos que irão ler isso: acreditem, eu tento ser organizado, mas nem sempre consigo). Claro que isso é importante, e faz parte do sucesso da aprendizagem. Uma frase que ele usa muito é: “qual a mensagem que você está passando aos alunos?” Se você não está preocupado com o aprendizado deles, não espere que eles estejam preocupados com a sua disciplina. Muitos estudantes chegam do ensino médio e demoram um tempo até se inserirem na dinâmica do ensino superior. Para ele há diferença entre o ensino superior e o ensino médio. Faz parte do trabalho do professor universitário mostrar essa diferença e ajudá-los a fazer essa transição. Vejo muitos colegas simplesmente questionando a dificuldade dos alunos em se adequarem ao funcionamento da faculdade, isso porque supõem que o aluno deva ter um conhecimento que ele não tem. A faculdade não é um ensino médio reforçado ou um ensino técnico (por mais que às vezes eu tenha a impressão de que é isso que a gente faz ali todo dia, estamos formando técnicos).

O segundo capítulo trata de Assuntos Práticos “Practical Matters”. O autor discute temas como a organização da aula, fazer contato visual, dar lição para casa, como organizar a disciplina ao longo do semestre, como formular avaliações, escolher um livro-texto, diferenças entre dar aula para uma turma pequena e uma turma grande e outras questões de organização básica de uma disciplina acadêmica.

O capítulo “spiritual matters” discute questões filosóficas mais amplas sobre o ensino. Para o autor, um professor padrão passa a matéria no quadro e vai pra casa. Um professor dinâmico “interage com os estudantes, excita a curiosidade intelectual deles, e os ajuda a descobrir ideias sozinhos.” (p. 87) Essencialmente, grande parte do sucesso está no professor, em suas atitudes, na mensagem que ele está passando aos estudantes. E a principal, a meu ver, é que ele está preocupado com a aprendizagem dos alunos. Por isso é importante saber como a aprendizagem ocorre, quem são aquelas pessoas que passarão um semestre (ou um ano todo, no caso dos regimes anuais) ouvindo você falar. Paralelamente, é preciso ter em mente o objetivo do ensino superior. Como eu disse anteriormente, penso que muitas vezes agimos como se o objetivo do ensino superior fosse apenas treinar os indivíduos em alguma área específica, dar-lhes uma profissão. Claro que esse é um objetivo básico, mas não pode ficar nisso. Para Krantz, é parte fundamental do ensino superior também desenvolver habilidades de pensamento crítico e conhecimento e experiência com o discurso (‘discurso’ é entendido na linguística como toda e qualquer manifestação de linguagem, seja oral ou escrita, um bilhete é um discurso, assim como um artigo acadêmico também, suponho que seja isso que ele tenha em mente). É extremamente feliz esse tipo de afirmação, porque ingenuamente o leigo imagina que matemática pouco ou nada tem a ver com escrever e falar com clareza ou mesmo com raciocínio crítico, quando na verdade um bom matemático depende dessas habilidades tanto quando um linguista ou um historiador. Isso decorre de uma visão política sua. Pessoas que têm oportunidade de cursar o ensino superior possuem a responsabilidade social de assumirem posições de liderança e produzirem ideias, não apenas de consumi-las. E é trabalho do professor universitário passar isso aos seus alunos. Mas de nada adianta passar a mensagem e não lhes dar as ferramentas para tanto.

O quarto capítulo trata das dificuldades do trabalho docente. Professores experientes viveram situações dos mais diversos tipos, desde estudantes colando, entregando trabalhos atrasados até erros próprios. O que ele oferece nessa parte do livro são alguns caminhos para se lidar com essas dificuldades com bom senso, já que um problema pequeno pode se tornar uma grande dor de cabeça. Para ele não se deve aceitar trabalhos atrasados, porque isso tende a virar uma bola de neve, daqui a pouco a regra vira exceção. A cola é um problema grave, porque desmotiva aqueles que estudam e não deixa de ser uma prática desonesta. Para ele a solução é ser firme e ter uma política para lidar com esse tipo de comportamento. Eu sei que alguns alunos possuem dificuldades de aprendizagem e se esse aluno atinge uma nota que ele costumeiramente não atinge, então ele copiou deliberadamente o exercício do colega e depois colou na prova também. Alguns se livram desse problema dando provas com consulta, eu tento evitar isso ao máximo, embora em alguns momentos essa é a única saída quando o conteúdo é extenso e gravar as informações não é o mais importante e sim saber buscá-las. O autor também discute questões como frustração (‘os estudantes parece que esquecem tudo que viram em disciplinas anteriores’) e disciplina (‘sempre tem aqueles que vem pra aula pra bater-papo’). Ele conta o caso do William James, que deitava no chão da sala toda vez que os alunos paravam de cooperar ou estavam conversando demais. A sugestão de Krantz é que você deve encontrar uma forma própria de lidar com essas situações.

O livro se encerra com alguns pensamentos finais. Para o autor é importante que o professor (e isso vale não só para o professor de ensino superior) busque sempre formas de aprimorar suas técnicas de ensino e não jogue a culpa sempre nos estudantes (‘eles não aprendem porque tiveram uma base ruim’). Ensinar é algo prazeroso, gratificante e divertido. Só que é preciso ter consciência dos perigos, como ele diz. Evitar os perigos é um primeiro passo para se dar bem. E a mensagem final é que ele não espera que os matemáticos fiquem debatendo ideias geradas por especialistas em educação, mas que os matemáticos deveriam eles mesmos criar e discutir suas próprias ideias. É mais ou menos isso que o campo da linguística aplicada tem feito no Brasil, emesmo linguistas teóricos de alto gabarito. Afinal, a responsabilidade do linguista não é apenas com a pesquisa linguística, mas também com o ensino superior e a formação de futuros professores de línguas (seja portuguesa ou estrangeira).

O livro foi uma grata surpresa pra mim, porque ao mesmo tempo em que reafirmou algumas das convicções que eu já tinha me ajudou a perceber outras facetas do ensino superior para as quais eu ainda não tinha olhos. E isso é extremamente importante, porque evita que todo o prazer do trabalho se perca lidando com problemas, à primeira vista pequenos, mas que podem se tornar incontornáveis no futuro.

Norma Culta Brasileira

A recente polêmica envolvendo os livros didáticos que supostamente ensinavam errado mostrou o profundo fosso que há entre a academia e a sociedade. O livro de Carlos Alberto Faraco, Norma Culta Brasileira: desatando alguns nós (Parábola, 2008), tenta analisar algumas questões extremamente interessantes. A principal delas é esclarecer a diferença que há entre o que ele chama de Norma Culta/comum/standard e o que chamou de Norma Curta. Bem como, tenta entender porque tem um razoável espaço de diferença entre elas. Faraco lecionou na UFPR, onde também foi reitor, e atualmente está aposentado. É autor de inúmeros livros, entre eles Oficina de Texto, com Cristóvão Tezza, e Estrangeirismos: guerras em torno da língua, coletânea de artigos de vários linguistas brasileiros sobre o projeto de lei de autoria do deputado Aldo Rebelo, que queria regular o uso de estrangeirismos no país.

O livro é dividido em quatro capítulos. O primeiro busca caracterizar as noções de ‘norma’, e como deveríamos entender esses conceitos para que algumas coisas fiquem mais claras, quando da discussão do problema. Em seguida, Faraco busca as origens da nossa norma curta, revisitando uma polêmica que envolveu José de Alencar e outros intelectuais brasileiros no século XIX. O terceiro capítulo reconta a história da gramática no ocidente e mostra como esse tipo de pensamento é vivo ainda em nosso ensino. Por fim, o quarto capítulo propõe uma pedagogia da variação linguística, não muita distanciada do trabalho que autores como Marcos Bagno e Stela Maris Bortoni-Ricardo já vêm propondo.

A primeira questão não é tão simples, embora a maestria argumentativa de Faraco torne o tema muito mais claro para o leitor. O sentido de ‘norma’ é entendido de duas formas: o que é normal e o que é normativo. Dessa forma, ele procura distinguir a norma culta/comum/standard do que vai chamar de norma curta. A primeira é o registro do uso linguístico de fato atestado pela análise da fala e da escrita dos nossos falantes/escritores cultos, isto é, indivíduos com terceiro grau e residentes em centros urbanos. A segunda é a norma como imposta pelas nossas gramáticas. O autor dá inúmeros exemplos que mostram que em grandes áreas da nossa gramática temos duas possibilidades de se realizar uma construção linguística. Tem uma mais valorizada pela tradição e outra que é utilizada livremente. O que acontece é que os defensores da norma curta frequentemente tomam para si o dever de regular a língua e condenar formas plenamente aceitáveis e correntes no uso dos falantes cultos. O que torna a língua idealizada pela norma curta algo inalcançável, dado que mesmo os usuários cultos da língua não a utilizam.

As raízes dessa posição conservadora são resgatadas do séc. XIX, quando da redação do código civil e da polêmica envolvendo José de Alencar, frequentemente criticado por gramáticos, por usar construções do português coloquial da época. Na construção do nosso ideal de nação, da nossa identidade linguística, a nossa elite voltou os olhos para os escritores portugueses, não para a língua de fato usada pelos nossos intelectuais. A partir do momento em que nosso molde de língua passa a ser a intelectualidade portuguesa, é natural que se passe a criticar Alencar, e todos aqueles que estavam incorporando na sua escrita marcas da oralidade do português usado pelos brasileiros. Tanto é assim, que ainda hoje muitas gramáticas se recusam a listar o ‘você’ como pronome pessoal, apesar dele ser usado tanto aqui quanto em Portugal.

No terceiro capítulo, o autor conta a história do pensamento gramatical ocidental, desde o nascimento das gramáticas gregas até o surgimento das gramáticas das línguas europeias. Na raiz dessas gramáticas, estava o ideal de escrita que os usuários comuns deveriam aspirar, isto é, escrever como os bons escritores de algum período áureo da nossa história literária. As línguas, dizem os gramáticos, estão marchando para a decadência, e deveríamos nos espelhar nos bons escritores do nosso período clássico para escrevermos e falarmos melhor. Homero era o ideal dos gregos, Virgílio dos romanos, Camões, Padre Antônio Vieira e os portugueses do romantismo são os nossos. Daí a busca de exemplos nos escritores. Essa busca não é ingênua, os gramáticos tendem a buscar exemplos que ilustrem a regra que procuram defender, não o uso efetivo. Assim, eles veem o que querem ver, não o que está lá. Nisso também reside uma redução grosseira: anula-se as diferenças entre o português brasileiro e o português europeu. Se na escrita essa diferença é pequena (tanto é que lemos Saramago sem problema algum), o mesmo não acontece com a fala. E outro equívoco nasce aí, não falamos como escrevemos, e nem a escrita deve ser o guia para a pronúncia. A escrita é uma convenção. Veja o caso do acento na sílaba tônica. Apenas algumas palavras recebem acento nessa sílaba (as proparoxítonas, algumas oxítonas e algumas paroxítonas, por ex.: saúde). As palavras ‘assim’ e ‘aço’ possuem o mesmo som /s/, mas são escritas de forma diferente. A crise do ensino de língua portuguesa é diagnosticada como consequência do novo contingente de alunos que a escola pública brasileira começou a receber com a democratização do acesso à educação e do processo histórico de desvalorização do trabalho docente. Se a política pública do ensino de língua portuguesa mudou ao longo do tempo, não podemos afirmar que os conteúdos tenham mudado, tampouco a forma como eles são ensinados. O currículo é praticamente o mesmo desde o início do século XX, baseado no currículo montado para o Colégio Pedro II, que abrigou como seus professores grandes nomes da nossa tradição gramatical.

O capítulo que encerra o livro propõe que a escola discuta a variação, de modo que o aluno que chega na escola falando uma variedade do português diferente da norma culta/comum/standard seja capaz de dominá-la e usá-la com proficiência nas diferentes situações de comunicação que a sociedade demanda. Se comunicar com propriedade, modernamente, não tem sido encarado apenas como estar de acordo com a norma culta, mas também estar de acordo com a situação de comunicação. O domínio da gramática e de sua metalinguagem são condições necessárias, mas não suficientes. O problema passa também pelo fato dos nossos manuais de ensino ainda não terem incorporado os avanços da descrição do português que a linguística tem proporcionado. A incorporação desses estudos ainda é bastante limitada, quando não escolhida a dedo. Basta ver as referências das gramáticas atuais, como a de Faraco, Moura e Maruxo (Gramática, Ática) ou a do Bechara (Moderna Gramática Portuguesa, Lucerna/Nova Fronteira). Se se usam referências de trabalhos de linguistas, por que uns e não outros? E por que essas referências se encontram em notas de rodapé?

O livro possui uma série de méritos, e destaco aqui os dois primeiros capítulos como contribuição fundamental. Poucos autores discutiram o problema da norma com tanta clareza e objetividade. A coletânea de artigos organizada por Bagno, Linguística da Norma (Loyola, 2003) já foi um grande passo nesse sentido. E o livro de Faraco vem engrossar esse conjunto de estudos que procura entender porque ainda é tão forte na nossa sociedade essa crença mitológica de que os falares que não estão de acordo com a norma curta são estropiados ou errados, quando mesmo os usuários cultos da língua não a seguem. A polêmica toda em torno do livro didático fortalece ainda mais os argumentos de autores como Kanavillil Rajagopalan (Por uma linguística crítica, Parábola, 2003), que defendem que a linguística se aproxime mais da sociedade. Cada vez mais percebo que escrever livros e artigos em jornais de grande circulação não parece ser mais o suficiente. A gramática, como muitos já afirmaram, está ao lado das religiões. Tem uma verdade que ela nos traz e que é incontestável, mesmo por cientistas. A sociedade não consegue perceber que grande parte das regras ali impostas são arbitrárias, e que basta consultar duas ou três fontes para perceber que podemos encontrar facilmente divergências, principalmente em relação à regência verbal.

Nesse contexto, entendo como fundamental o papel do linguista na universidade. É ele quem forma professores. Assim, a educação linguística da sociedade passará necessariamente pela chancela dos professores que as universidades formam. Se queremos que a sociedade nos compreenda e respeite, precisamos formar professores que eduquem melhor a sociedade, que proporcionem uma educação do respeito linguístico e do uso efetivo das diferentes instâncias de uso da linguagem na sociedade. Ensinar a metalinguagem pode (e muitos diriam que deve) também ser tarefa básica. Se temos professores saindo dos nossos cursos de letras que não sabem a diferença entre ensinar a língua e ensinar sobre a língua, aí temos um problema que dificilmente será solucionado com livros de divulgação e artigos em defesa da diversidade.

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Na revista Piauí desse mês, n. 75, Clara Becker entrevistou Evanildo Bechara. Na página 50 ela escreve o seguinte: “Mas a disciplina que mais gostava era a matemática.”

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Sírio Possenti disse o seguinte na sua coluna do dia 09 de junho:

“Tem-se lido, nas últimas semanas, que a escola não deve ensinar lingüística, mas português (ou gramática). Ora, tanto as diversas teorias lingüísticas quanto as diversas gramáticas têm duas faces: adotam uma teoria sobre a linguagem e desenvolvem ou seguem métodos de descrição e explicação dos dados. As gramáticas não só ensinam como se deve falar e escrever, mas também ensinam (empurram goela abaixo) que há passivas sintéticas, sujeitos ocultos, objetos diretos pleonásticos, que os substantivos designam seres e os adjetivos, qualidades etc. (sem análise de dados, sem nenhum argumento convincente). A lingüística faz a mesma coisa: cada teoria tem sua “filosofia” da linguagem e sua abordagem descritiva e explicativa (acho que argumenta melhor). Se se pode ensinar gramática (descritiva), por que não ensinar linguística? Para sonegar conhecimento?”

Dá até pra imaginar um contra-argumento de um gramático…