Colocação pronominal

Por que é que mesmo depois de tanto tempo de escola e leitura as pessoas não usam o português padrão? Isto é, por que é que mesmo depois de aprender as regras do escrever ‘certo’, continuam a escrever o ‘errado’? Essa é uma pergunta que muita gente já se fez, e que está por detrás de um pouco do insucesso do ensino de língua na escola. Se as pessoas saíssem de lá escrevendo com clareza, coesão etc., alguns pronomes mal colocados seria o de menos (mas em geral, os problemas aparecem em blocos cf. Pécora, Problemas de redação).

Vamos partir do melhor dos mundos. Em algum momento na vida de estudante, o aluno foi apresentado a uma regra do tipo: não se usa pronome do caso reto na posição de objeto direto. Ou, talvez o aluno tenha sido apresentado a uma Gramática, como a de Faraco, Moura e Maruxo (Ática, 2012), que traz exemplos de escritores do séc. XX que usam formas retas no lugar das oblíquas.

(1) Se esse homem me ferir ou me matar podem deixar ele ir embora em paz. (Érico Veríssimo).

Os autores da gramática notam que esse uso é uma infração à Norma Padrão, mas que ele está incorporado à literatura. Creio que para afirmarmos que ele está incorporado à literatura precisaríamos de um suporte estatístico. Um gramático mais conservador diria que esses exemplos são poucos, esparsos, e que na maioria dos casos os escritores usam a forma padrão. E isso ainda precisaria ser melhor especificado: estamos falando da representação da fala de um personagem ou da voz do narrador, e esse narrador é uma primeira ou terceira pessoa, e de que origem social?

Mas voltemos à pergunta inicial. Uma das respostas, suponho, é a diferença entre a Norma Culta e a Norma Padrão. Explico: a língua que os usuários cultos utilizam é diferente da língua que esses mesmos usuários cultos professam como ideal. A colocação de pronomes é só apenas uma dessas diferenças.

Vejamos alguns exemplos de oscilação entre o uso das formas tônicas (retas) e das formas átonas (oblíquas) do pronome de terceira pessoa.

O trecho abaixo foi retirado daqui, um conto de Gustavo Machado. O autor

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“Armo uma arapuca pra prender ele. […] O ratão deve estar acostumado a fuçar no lixo dali, fica zanzando sem medo e cai de primeira. Guardo-o num saco de pano. Então, passo a montar a arapuca regularmente e, sempre que consigo apanhá-lo…”

Tenho uma filha de dois anos. E como ela anda viciada em Peppa, tenho visto pelo menos uma hora desse desenho todos os dias. Na maioria dos episódios os objetos diretos pronominais são preenchidos por pronomes tônicos (por todos os personagens). Mas em alguns os pronomes escolhidos são as formas átonas. Pra um ouvido menos atento creio que isso não cause ruído algum. Só que convenhamos, soa bem estranho uma criança de cinco anos (estou supondo que seja essa a idade da Peppa) diga algo como: Vou pegá-la para você. Como comparação, a tradução de Peanuts, na edição completa da L&PM, optou por traduzir sistematicamente os pronomes pelas formas retas. Todos os personagens são crianças (menos o Snoopy e o Woodstock, claro). Logo, soaria bem estranho que essas crianças falassem um português que nem as pessoas adultas falam.

Tá. Admito que a literatura, ou pelo menos alguns autores, talvez ainda tenham um sentimento de ‘preservação do patrimônio linguístico’ (ou algo parecido). Por isso a preocupação em seguir com o ideal de expressão ditado pela gramática tradicional (autores jovens são mais permissivos ao coloquial). Os exemplos de variação nos mostram que os usuários contemporâneos são inseguros nesse uso. Nesse caso específico, a Norma Culta (o uso linguístico dos falantes com ensino superior completo) autoriza o uso de forma tônicas de terceira pessoa como objeto direto; enquanto a Norma Padrão repudia esse uso, privilegiando as formas átonas.

O fato é que o vernáculo dos falantes de português tem uma norma, enquanto o que aprenderam na escola e o que leem nos textos formais é outra norma. Não sei se o que afirmam os autores da Gramática é totalmente correto. Ainda tenho a impressão que o uso das formas padrão é mais frequente que o uso das formas não-padrão na literatura brasileira contemporânea (ou mesmo no jornalismo e na escrita técnica). O que só nos mostra que os usuários da língua não veem esse uso como erro, a menos que estejam com os ouvidos e olhos atentos a ele.

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Colocação pronominal: caso 1

Nesta semana falei de colocação pronominal na aula de sintaxe. Pelas leituras que fiz e por estar com o assunto na cabeça, acabei ficando com os olhos e ouvidos atentos a isso. Foi assim que encontrei o caso abaixo (tem outro, que vai ficar pra um próximo post).

Apareceu na minha timeline no Twitter a seguinte frase, uma resposta da Claro Brasil a um consumidor reclamando do serviço. “Conta pra gente por DM o que está acontecendo, ok?! Queremos lhe ajudar!” Há algumas coisas interessantes no segmento todo, mas vou focalizar apenas no pronome. Talvez ele passe despercebido para a maioria dos falantes. Mas ele é um típico caso de uso inadequado do pronome lhe (pelo menos se levarmos à risca os gramáticos normativos). Essa forma oblíqua do pronome de terceira pessoa deveria ocorrer apenas para substituir objetos indiretos. Paguei a dívida ao João/Paguei-lhe a dívida (exemplo de Cegalla, 1985). A forma que o pronome de terceira pessoa assume como objeto direto é o (e suas variantes no/lo e respectivas flexões de gênero e número – nunca entendi porque se listam as variações flexionais). O problema é que tal forma do pronome de terceira pessoa já não existe mais no português vernacular, isto é, não é português brasileiro coloquial, e isso em todas as classes sociais e rincões pelo menos é a minha impressão. Talvez lá nos corredores da ABL ainda se escute um o bem empregado. Pra aprendermos o uso de o temos que ir pra escola.

Antenor Nascentes (Letras, v. 11, 1960, clica aqui) já nos anos 60 comentava o que chamou de lheismo: a tendência de se regularizar o sistema de pronomes oblíquos com o lhe tomando o lugar de o. Notem as outras pessoas, primeira e segunda, possuem apenas uma forma para o acusativo e para o dativo: me e te. Segundo ele, essa tendência se manifestou no espanhol e não era novidade na sua época. Escritores do séc. XVI usavam alguns verbos com dupla colocação. Podia-se ler no Camões Este que socorrer-lhe não queria (Lusíadas), ou em Camilo Já tinha poucos amigos que o socorressem (Serões…). No início do séc. XIX, Francisco de Morais, em ‘Epítome da gramática portuguesa’, apontava como erro as colocações eu lhe amo, eu lhe adoro, no lugar de eu o amo, eu o adoro. Se o leitor se interessar por mais exemplos, leia o texto todo. Ele tem exemplos de Machado de Assis a Guimarães Rosa.

Vejam que a explicação para o uso de lhe no lugar de o vinha de uma analogia com o aconteceu no espanhol. Talvez ele não tenha se dado conta que o que também poderia estar interferindo era a baixa frequência do uso da forma acusativa do pronome. Com o seu desaparecimento, imagino, aí já sou eu hipotetizando (e como sempre digo, alguém mais esperto já deve ter dito isso antes e melhor que eu em algum lugar), que o lhe vem conferir formalidade a uma estrutura que normalmente seria preenchida por um pronome reto: ele (e suas variantes). Como a polícia gramatical está sempre em cima desse uso (não se usa pronome do caso reto na posição de objeto), o preenchimento por lhe é o que soa mais ‘certo’ para aqueles que não dominam o uso da forma acusativa o.

Tem gente que fica irritada com esse uso (clica aqui). O autor (ou autora) do texto atribui a disseminação do lhe pelo fato de ele ser característica de fala de uma personagem nordestina da novela das oito na época, Senhora do Destino (interpretada por Suzana Vieira). Não há motivo para destempero.

Eu jogo no time do Antenor Nascentes: “Até hoje os nossos gramáticos se tem recusado a admitir êste fato da língua. A quem conhece a mentalidade retrógrada e ultraconservadora dos gramáticos o fato não parece estranho. Os que, respeitando embora os ditames razoáveis da gramática, olham para a evolução natural da língua e aceitam os fatos consumados contra os quais é inútil lutar, pensam de outro modo e admitem lhe como objeto direto. Eu pertenço a êste número”.

Pois é, Antenor, mais de 50 anos depois e ainda nossos gramáticos ainda dizem que isso é errado. Mas é só explicar pra moçada o que está acontecendo que tá tudo certo. Erar é umano. Ainda mais quando há uma lacuna considerável entre o que falamos e o que devemos utilizar em situações monitoradas (principalmente de escrita).

N.B.: Dos gramáticos que consultei, Cegalla, Cunha & Cintra, Faraco, Moura e Maruxo, nenhum faz menção ao uso de lhe como objeto direto (pelo menos se os li corretamente ou procurei nos lugares certos).

O tal ‘erro de português’

São famosas as reportagens da Veja sobre os deslizes que os usuários do português brasileiro cometem (se presidentes da república, FHC que o diga, e candidatos a altos cargos tropeçam na própria língua, quem dirá o povo, coitado). Há também uma infinidade de reportagens e textos em blogues e sites dando dicas para evitar as ‘armadilhas’ da língua. Durante o programa Agora é Tarde, apresentado por Danilo Gentili, Neto afirmou que ‘fala errado’, inclusive citou que já falou ‘mais maior’ ao vivo e Danilo também expressou sua insegurança com o idioma, embora não tenha citado nenhuma ‘gafe’. Fotos de placas com grafia errada viraram virais (felizmente não recebo mais essas coisas), e se o leitor estiver curioso, o site Kibeloco frequentemente publica uma seleção dessas fotos (clique aqui).  Não é pra rir dessas coisas (tá, tem umas bem engraçadas), deveríamos ter duas reações: pena, porque a pessoa não teve as oportunidades que muitos de nós tivemos e se ela vende caipira na praia ou corta cabelo e pinto não é porque ela prefere isso a estar no seu lugar sentadão ali na cadeira de praia; segunda, vergonha, pois um sujeito escrever as palavras de forma incorreta revela que sua intimidade com a palavra escrita é pequena, e que ele não se deu ao trabalho de ir ao dicionário, o que fica pior se a pessoa não perceber que escreveu errado (numa sociedade como a nossa pouco íntima com os livros isso é comum).
Há duas modalidades de erros bastante perseguidas, e em geral os metidos a gramáticos pela internet afora os confundem e são mais realistas que o rei, isto é, se metem a legislar o idioma, ou simplesmente copiam as dicas de outros gramatiqueiros. Carlos Alberto Faraco, em seu livro “Norma Culta Brasileira” chamou esse fenômeno de ‘norma curta’. Que modalidades são essas? A escrita e a fala. A visão estreita dos fatos da língua dirá que fala e escrita se opõem, quando na verdade essas duas modalidades de uso da língua estão num contínuo gradativo. Há usos da escrita que estão próximos da fala (bilhetes, cartas pessoais, bate-papos online) assim como há usos da fala que estão próximos do escrito, ou se baseiam no escrito (peças de teatro, novelas de televisão, conferências, palestras…). Essa é uma primeira distinção que precisamos fazer quando falamos de ‘erro de português’. Feito isso, vou tentar definir melhor cada um dos dois.

O erro de português na escrita. Podemos aqui fazer duas divisões bem gerais. Há erros de convenção (ortografia e pontuação) e erros que são reflexos da fala (escrever ‘poriso’ ou ‘agente’, por exemplo). Os erros de convenção são os mais comuns e que se resolvem facilmente com uma busca ao dicionário, já aprender pontuação é algo bem mais complexo, porque pontuar corretamente envolve compreender rudimentarmente noções da estrutura da oração (sujeito, predicado, aposto, vocativo, adjunto…), afinal de contas, se o vocativo, precisa vir separado por vírgula, de nada adianta você saber isso se não sabe o que é um vocativo, nem consegue reconhecer um quando o encontra, né, amigo? A escrita é uma convenção e como tal é natural que existam palavras que por um motivo ou outro não se escrevem como se falam, uma característica que não é só do português, e sim de todas as línguas. Há casos que poderiam ser resolvidos, como os quatro ‘porquês’, que é coisa de gramático, invenção, não precisa ser assim; da mesma forma o acento grave ‘`’, que marca crase (um fenômeno fonológico, não um acento), se ele fosse abolido, ninguém sentiria falta (talvez os gramatiqueiros, que perderiam mais um tema bizarro pra vender livros). Desnecessário dizer que todo mundo que usa a escrita como ferramenta de trabalho (advogados, publicitários, funcionários públicos, etc.) precisa saber escrever com correção. Fazer um cursinho de redação resolve? Na boa, não jogue dinheiro fora. Compre um bom dicionário (Houaiss e Aurélio ainda são os melhores) e uma boa gramática (Bechara ou Cunha & Cintra) na dúvida consulte-os ou pesquise na internet, pelo menos em dois lugares e jamais confie em blogues cujos autores não são professores reconhecidos, vá em sites maiores como o UOL Educação ou a Revista Nova Escola.
O erro de português na fala. Aqui as coisas se complicam. Primeiro porque tem muita coisa em jogo, preconceitos principalmente. Antes de entrarmos nas teorias vamos aos fatos (‘fato’ aqui é no sentido científico, uma tsunami é um fato, se isso é a ira de zeus castingando pecadores, ou resultado de tremores de terra sub-oceânicos (com ou sem hífen?), já estamos no reino das teorias). Fato 1: não se fala como se escreve (em língua nenhuma); fato 2: as línguas variam (isto é, não são faladas uniformemente por todos os falantes). A grande sensação geral de desconforto com a própria fala que o brasileiro sofre (vide Neto e Gentili) se deve a uma tradição que remonta ao século XIX, do professor de português tentar “corrigir” a fala do aluno, e de basear essa correção no padrão escrito (durante o século XX grande parte da evasão escolar foi fruto dessa pedagogia equivocada, a escola nunca aceitou o diferente, sempre o repeliu). Essa correção acontecia, e se duvidar ainda acontece, porque as línguas mudam e variam. A variação, a existência de duas formas na gramática da língua que cumprem a mesma função (estou sendo grotesco aqui, claro), nem sempre indica mudança, porque para a mudança ocorrer outros fatores entram em jogo, como a adoção da nova forma pelos falantes da língua (como a substituição do ‘tu’ pelo ‘você’ em 90% do território brasileiro). Veja que ninguém corrige outra pessoa caso o fulano diga ‘o agente de saúde esteve aqui’ ou ‘a gente somos inútil’ (como na música do Ultraje). Repare que se pronuncia as duas expressões igualmente ‘a gente’ e ‘agente’, enquanto um acompanha artigo ‘O agente especial Fox Mulder’, não faria sentido dizer ou escrever ‘o/a gente vamos jogar bola.’, tanto não faz sentido que ninguém faz isso. Esse exemplo é interessante, pois ilustra um caso de variação no português. Tem duas opções aqui: ‘a gente somos’ ou ‘a gente é’. O ingênuo pergunta: qual é o correto? Alguém com bom senso, e que teve um bom professor de português, perguntaria: quando se usa um e quando se usa outro? ‘a gente’ está na boca do povo e veio pra ficar, os gramáticos gostando ou não. A variação pode indicar que esse termo ainda está em processo de acomodação no sistema, daí a possibilidade da dupla concordância, pois mesmo sendo singular, é ‘A gente’, não ‘as gentes’ como se lê em textos antigos, esse termo está substituindo o ‘nós’, pronome de primeira pessoa do plural, daí que a ocorrência de ‘a gente somos’ pode estar relacionada ao fato do termo denotar ‘mais de um’ e não reflete ignorância do usuário. Ao lado disso, concorre um enfraquecimento geral do sistema morfológico de desinências de pessoa e número na língua falada, repare nos gaúchos e cariocas falando, os brasileiros que ainda usam o ‘tu’, até na novela os personagens já falam ‘tu tá’. Errado? Não, esse é o português brasileiro atual, se conformem. Tudo bem falar ‘a gente fomos’, então? Infelizmente, não. Daí é que entra o preconceito e as regras de bom comportamento nos salões do reino. Espera-se que pessoas educadas e finas não falem coisas como ‘a gente somos’, afinal isso é língua de caipira, doméstica e pobre (sério, tinha gramático que falava essas coisas). Quando os linguistas afirmam que não existe ‘erro de português’ é no sentido científico, porque os linguistas veem a língua como um fenômeno natural (assim, como andamos sobre duas pernas, temos dois braços, aprendemos a falar naturalmente, sem instrução, se tudo correr bem no nosso crescimento biológico). Acontece que a língua é também um fenômeno cultural, é o que nos define como humanos, é o que possibilita a organização social, a troca de experiências e conhecimento. Assim, não é de se espantar que a sociedade valorize aquela variedade da língua que usam os doutos e letrados. A pedagogia do ensino de língua portuguesa no século XXI busca justamente fazer com que o aluno que chega na escola falando a ‘gente somos’ aprenda que existem outras formas de se dizer a mesma coisa, como ‘a gente é’ ou ‘nós somos’. A escolha entre uma forma e outra tem a ver com a modalidade, se escrita ou se falada (fica melhor num texto formal ‘nós somos’, enquanto fica melhor num bilhete, numa conversa de boteco ‘a gente é/somos’), com as intenções daquele que fala. Ou vai dizer que músicas como Comida dos Titãs (‘a gente não quer só comida…”) ou Inútil do Ultraje (“Inútil, a gente somos inútil”) teriam a graça que tem se tivessem sido escritas como “nós não queremos só comida” e “nós somos inúteis”? A celeuma em torno do livro que ‘ensina errado’ só aconteceu porque imprensa e ‘intelectuais’ possuem um olhar estreito sobre os fatos da língua.
Vou deixar o tema dos legisladores de plantão pra próxima semana. Mas se o tema interessar, leia “norma culta brasileira” de Carlos Alberto Faraco, vai ser no mínimo esclarecedor. Ou espere até sexta-que-vem.

Norma Culta Brasileira

A recente polêmica envolvendo os livros didáticos que supostamente ensinavam errado mostrou o profundo fosso que há entre a academia e a sociedade. O livro de Carlos Alberto Faraco, Norma Culta Brasileira: desatando alguns nós (Parábola, 2008), tenta analisar algumas questões extremamente interessantes. A principal delas é esclarecer a diferença que há entre o que ele chama de Norma Culta/comum/standard e o que chamou de Norma Curta. Bem como, tenta entender porque tem um razoável espaço de diferença entre elas. Faraco lecionou na UFPR, onde também foi reitor, e atualmente está aposentado. É autor de inúmeros livros, entre eles Oficina de Texto, com Cristóvão Tezza, e Estrangeirismos: guerras em torno da língua, coletânea de artigos de vários linguistas brasileiros sobre o projeto de lei de autoria do deputado Aldo Rebelo, que queria regular o uso de estrangeirismos no país.

O livro é dividido em quatro capítulos. O primeiro busca caracterizar as noções de ‘norma’, e como deveríamos entender esses conceitos para que algumas coisas fiquem mais claras, quando da discussão do problema. Em seguida, Faraco busca as origens da nossa norma curta, revisitando uma polêmica que envolveu José de Alencar e outros intelectuais brasileiros no século XIX. O terceiro capítulo reconta a história da gramática no ocidente e mostra como esse tipo de pensamento é vivo ainda em nosso ensino. Por fim, o quarto capítulo propõe uma pedagogia da variação linguística, não muita distanciada do trabalho que autores como Marcos Bagno e Stela Maris Bortoni-Ricardo já vêm propondo.

A primeira questão não é tão simples, embora a maestria argumentativa de Faraco torne o tema muito mais claro para o leitor. O sentido de ‘norma’ é entendido de duas formas: o que é normal e o que é normativo. Dessa forma, ele procura distinguir a norma culta/comum/standard do que vai chamar de norma curta. A primeira é o registro do uso linguístico de fato atestado pela análise da fala e da escrita dos nossos falantes/escritores cultos, isto é, indivíduos com terceiro grau e residentes em centros urbanos. A segunda é a norma como imposta pelas nossas gramáticas. O autor dá inúmeros exemplos que mostram que em grandes áreas da nossa gramática temos duas possibilidades de se realizar uma construção linguística. Tem uma mais valorizada pela tradição e outra que é utilizada livremente. O que acontece é que os defensores da norma curta frequentemente tomam para si o dever de regular a língua e condenar formas plenamente aceitáveis e correntes no uso dos falantes cultos. O que torna a língua idealizada pela norma curta algo inalcançável, dado que mesmo os usuários cultos da língua não a utilizam.

As raízes dessa posição conservadora são resgatadas do séc. XIX, quando da redação do código civil e da polêmica envolvendo José de Alencar, frequentemente criticado por gramáticos, por usar construções do português coloquial da época. Na construção do nosso ideal de nação, da nossa identidade linguística, a nossa elite voltou os olhos para os escritores portugueses, não para a língua de fato usada pelos nossos intelectuais. A partir do momento em que nosso molde de língua passa a ser a intelectualidade portuguesa, é natural que se passe a criticar Alencar, e todos aqueles que estavam incorporando na sua escrita marcas da oralidade do português usado pelos brasileiros. Tanto é assim, que ainda hoje muitas gramáticas se recusam a listar o ‘você’ como pronome pessoal, apesar dele ser usado tanto aqui quanto em Portugal.

No terceiro capítulo, o autor conta a história do pensamento gramatical ocidental, desde o nascimento das gramáticas gregas até o surgimento das gramáticas das línguas europeias. Na raiz dessas gramáticas, estava o ideal de escrita que os usuários comuns deveriam aspirar, isto é, escrever como os bons escritores de algum período áureo da nossa história literária. As línguas, dizem os gramáticos, estão marchando para a decadência, e deveríamos nos espelhar nos bons escritores do nosso período clássico para escrevermos e falarmos melhor. Homero era o ideal dos gregos, Virgílio dos romanos, Camões, Padre Antônio Vieira e os portugueses do romantismo são os nossos. Daí a busca de exemplos nos escritores. Essa busca não é ingênua, os gramáticos tendem a buscar exemplos que ilustrem a regra que procuram defender, não o uso efetivo. Assim, eles veem o que querem ver, não o que está lá. Nisso também reside uma redução grosseira: anula-se as diferenças entre o português brasileiro e o português europeu. Se na escrita essa diferença é pequena (tanto é que lemos Saramago sem problema algum), o mesmo não acontece com a fala. E outro equívoco nasce aí, não falamos como escrevemos, e nem a escrita deve ser o guia para a pronúncia. A escrita é uma convenção. Veja o caso do acento na sílaba tônica. Apenas algumas palavras recebem acento nessa sílaba (as proparoxítonas, algumas oxítonas e algumas paroxítonas, por ex.: saúde). As palavras ‘assim’ e ‘aço’ possuem o mesmo som /s/, mas são escritas de forma diferente. A crise do ensino de língua portuguesa é diagnosticada como consequência do novo contingente de alunos que a escola pública brasileira começou a receber com a democratização do acesso à educação e do processo histórico de desvalorização do trabalho docente. Se a política pública do ensino de língua portuguesa mudou ao longo do tempo, não podemos afirmar que os conteúdos tenham mudado, tampouco a forma como eles são ensinados. O currículo é praticamente o mesmo desde o início do século XX, baseado no currículo montado para o Colégio Pedro II, que abrigou como seus professores grandes nomes da nossa tradição gramatical.

O capítulo que encerra o livro propõe que a escola discuta a variação, de modo que o aluno que chega na escola falando uma variedade do português diferente da norma culta/comum/standard seja capaz de dominá-la e usá-la com proficiência nas diferentes situações de comunicação que a sociedade demanda. Se comunicar com propriedade, modernamente, não tem sido encarado apenas como estar de acordo com a norma culta, mas também estar de acordo com a situação de comunicação. O domínio da gramática e de sua metalinguagem são condições necessárias, mas não suficientes. O problema passa também pelo fato dos nossos manuais de ensino ainda não terem incorporado os avanços da descrição do português que a linguística tem proporcionado. A incorporação desses estudos ainda é bastante limitada, quando não escolhida a dedo. Basta ver as referências das gramáticas atuais, como a de Faraco, Moura e Maruxo (Gramática, Ática) ou a do Bechara (Moderna Gramática Portuguesa, Lucerna/Nova Fronteira). Se se usam referências de trabalhos de linguistas, por que uns e não outros? E por que essas referências se encontram em notas de rodapé?

O livro possui uma série de méritos, e destaco aqui os dois primeiros capítulos como contribuição fundamental. Poucos autores discutiram o problema da norma com tanta clareza e objetividade. A coletânea de artigos organizada por Bagno, Linguística da Norma (Loyola, 2003) já foi um grande passo nesse sentido. E o livro de Faraco vem engrossar esse conjunto de estudos que procura entender porque ainda é tão forte na nossa sociedade essa crença mitológica de que os falares que não estão de acordo com a norma curta são estropiados ou errados, quando mesmo os usuários cultos da língua não a seguem. A polêmica toda em torno do livro didático fortalece ainda mais os argumentos de autores como Kanavillil Rajagopalan (Por uma linguística crítica, Parábola, 2003), que defendem que a linguística se aproxime mais da sociedade. Cada vez mais percebo que escrever livros e artigos em jornais de grande circulação não parece ser mais o suficiente. A gramática, como muitos já afirmaram, está ao lado das religiões. Tem uma verdade que ela nos traz e que é incontestável, mesmo por cientistas. A sociedade não consegue perceber que grande parte das regras ali impostas são arbitrárias, e que basta consultar duas ou três fontes para perceber que podemos encontrar facilmente divergências, principalmente em relação à regência verbal.

Nesse contexto, entendo como fundamental o papel do linguista na universidade. É ele quem forma professores. Assim, a educação linguística da sociedade passará necessariamente pela chancela dos professores que as universidades formam. Se queremos que a sociedade nos compreenda e respeite, precisamos formar professores que eduquem melhor a sociedade, que proporcionem uma educação do respeito linguístico e do uso efetivo das diferentes instâncias de uso da linguagem na sociedade. Ensinar a metalinguagem pode (e muitos diriam que deve) também ser tarefa básica. Se temos professores saindo dos nossos cursos de letras que não sabem a diferença entre ensinar a língua e ensinar sobre a língua, aí temos um problema que dificilmente será solucionado com livros de divulgação e artigos em defesa da diversidade.

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Na revista Piauí desse mês, n. 75, Clara Becker entrevistou Evanildo Bechara. Na página 50 ela escreve o seguinte: “Mas a disciplina que mais gostava era a matemática.”

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Sírio Possenti disse o seguinte na sua coluna do dia 09 de junho:

“Tem-se lido, nas últimas semanas, que a escola não deve ensinar lingüística, mas português (ou gramática). Ora, tanto as diversas teorias lingüísticas quanto as diversas gramáticas têm duas faces: adotam uma teoria sobre a linguagem e desenvolvem ou seguem métodos de descrição e explicação dos dados. As gramáticas não só ensinam como se deve falar e escrever, mas também ensinam (empurram goela abaixo) que há passivas sintéticas, sujeitos ocultos, objetos diretos pleonásticos, que os substantivos designam seres e os adjetivos, qualidades etc. (sem análise de dados, sem nenhum argumento convincente). A lingüística faz a mesma coisa: cada teoria tem sua “filosofia” da linguagem e sua abordagem descritiva e explicativa (acho que argumenta melhor). Se se pode ensinar gramática (descritiva), por que não ensinar linguística? Para sonegar conhecimento?”

Dá até pra imaginar um contra-argumento de um gramático…