Duas dimensões do significado

Um episódio recente, que me deixou bem chateado, por sinal, me fez pensar que talvez não tenhamos tanto controle assim sobre aquilo que dizemos e o que é mais grave ainda, sobre como as pessoas irão interpretar aquilo que dizemos. Tradicionalmente, aprendemos nas aulas de semântica que o significado possui duas dimensões, o significado denotativo e o significado pragmático ou do falante. Essa dimensão implica que há um significado que se mantém independentemente da situação em que uma palavra ou sentença é usada, assim como há um significado que precisa ser inferido pelo ouvinte, já que o seu conteúdo não está expresso literalmente. Exemplificando, quando dizemos de uma mulher que ela é simpática, principalmente se dito por um homem, o comum é interpretarmos isso como ‘ela não é bonita, e talvez seja feia’, embora nenhuma palavra em “fulana é simpática” me autorize a fazer esse raciocínio. É um aspecto que está relacionado com a cultura e conhecimento de mundo, por mais que seja difícil separar essas duas coisas.

Pois bem, acontece que eu escrevi a seguinte frase no twitter, na semana que passou: “Graduandos de letras não devem ficar chateados qdo o prof d lgtca desenhar a explicação no quadro.” Alguns acadêmicos não receberam bem isso, e inclusive se sentiram ofendidos. Dois deles vieram me contar isso, embora eu ainda não saiba exatamente o que eles entenderam. Daí parei para pensar um pouco sobre essa frase e o que eu tinha em mente quando a escrevi. Parece aquelas coisas do tipo ‘se você precisa explicar a piada, ela não teve graça’. Como professor eu uso muito o quadro, pois apesar de todos os avanços tecnológicos, é ainda a melhor ferramenta já inventada para o ensino. No núcleo duro da linguística, há pouco espaço para metafísica ou digressões muito profundas, já que o objetivo do curso de letras não é formar filósofos, mas professores de línguas que pelo menos dominem rudimentos da análise científica de uma língua qualquer, ou seja, eles devem saber minimamente como as línguas humanas funcionam. Pelo menos é nisso que eu acredito, embora tenha quem acredite que basta o sujeito passar a graduação toda só lendo coisas sobre como ensinar uma língua sem sequer saber como ela funciona. Então, o que eu quis dizer com a frase foi que se o aluno perguntar alguma coisa, às vezes é um recurso de explicação usar o quadro para fazer diagramas e esquemas para tentar deixar as coisas mais claras, nada além disso. Ficar só falando pode entrar por um ouvido e sair pelo outro e o aluno continuar com a dúvida. Acredito que o problema tenha sido a expressão ‘desenhar’, ligada via memória discursiva à outra ‘entendeu ou quer que eu desenhe?’. Sim, conscientemente escolhi essa expressão justamente pelo fato de que às vezes temos que desenhar para compreendermos melhor as coisas, principalmente em áreas abstratas da linguística (os semanticistas sabem do que eu estou falando, principalmente quem trabalha com ou já estudou modalidade), as árvores e a teoria dos conjuntos não existem à toa. Eles são importantes recursos e nos ajudam a clarificar e estabelecer relações que não são óbvias a olho nú. Só que a tal memória discursiva (um conceito da Análise do Discurso), opera no nível da ideologia. Quando estamos nesse nível as coisas são mais sutis e é esse tipo de dispositivo que vai interferir no modo como os ouvintes interpretam os dizeres. Como sou professor, os alunos que se sentiram ofendidos me tomaram como interlocutor, e intepretaram o que eu escrevi como uma indireta, chamando-os de imbecis. Se essa foi a interpretação deles é porque eles pensam que eu os considero como tal. Se algum deles pensa isso é porque eu tenha dado motivo para tal, apesar de eu acreditar que todo mundo é capaz de aprender qualquer coisa, por mais que nem todos um dia se tornem bons professores ou linguistas, ou simplesmente deletem tudo da cabeça depois que passar a prova. Se meu raciocínio estiver correto, o equívoco na interpretação surgiu desses dois fatores: a) o aluno que achou eu estava sendo irônico e mandando uma mensagem aos alunos com dificuldades de aprendizagem, o que eu não estava fazendo, só pra constar; b) a imagem que o aluno tem de mim, crendo que eu subestimo sua capacidade de aprender, de novo, não faço isso. Claro, pode ter ocorrido também que alguém simplesmente não gosta de mim, leu o que escrevi e resolveu usar isso como arma para me atacar de alguma forma. Mas aqui já estou no terreno das suposições e mesmo que seja o caso, foi ingenuidade minha pensar que ninguém iria se incomodar com isso. Se se chatearam, apesar de estar escrito o pedido de não se chatear, é provável que eu tenha falado algo que não devia. Mas veja que há uma grande diferença entre o que eu disse e uma frase do tipo ‘não se ofenda, mas você é um canalha.’ Ou não? Sei lá, né, vai ver eu sou um semanticista incompetente e não sei direito o que as palavras significam, o que é provável que tenha acontecido. Minha mulher vive reclamando da forma como eu uso as palavras, e vai ver ela tem razão, vai que tem alguma coisa errada com o componente pragmático da minha gramática?

Por isso, bloqueei o meu twitter para os alunos e os posts do facebook agora são sensurados, só tornei públicos aqueles que eu assim desejar. Entre parar de escrever e escolher os leitores, prefiro a segunda opção, já que aparentemente, as palavras podem significar o que o leitor quiser.

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Parecer de artigo e produção escrita na academia

Na semana passada recebi um e-mail de uma revista científica da área de letras me pedindo para dar um parecer em um artigo. É o segundo artigo que avalio como parecerista ad hoc (aquele que não faz parte do comitê editorial, e que é convidado por ser especilista no tema que o artigo discute). Já recebi ‘não’ em artigo que submeti e sei que não é legal. As críticas sempre são de fato reais, o que revela que pelo menos alguém leu o seu trabalho com cuidado e isso faz a gente crescer academicamente.

Por vezes, quando estava no mestrado ou no doutorado, tive a impressão de estar escrevendo coisas boas, mas que depois se revelaram simples; ou eventualmente fui descobrir que alguém já tinha chegado àquela conclusão ou discutido aquele problema. Sabe quando você lê uma tese e tem a impressão que o cara resolveu todos os problemas e que talvez seja melhor procurar outro objeto de pesquisa? Pois é, acontece muito, mas com o tempo aprendemos a lidar com isso. Voltarmos à tese do sujeito e procurar por problemas. Isso é formação fundamental do cientista: aprender a colocar questões.

Pois bem, voltemos ao artigo. Não sei quem o escreveu, mas me pareceu trabalho de aluno de graduação. Estava relativamente bem escrito, só que mal organizado, ou mal orientado eu diria. Talvez o sujeito que escreveu o artigo acreditou que seu trabalho estava bom, quando de fato parece que ninguém com experiência acadêmica leu seu artigo antes. Ou se leu, não leu com cuidado. Talvez eu tenha sido rigoroso, mas se não dá para contar a história da linguística no século XX em 20 páginas, é melhor não se propor a fazer isso.

Outro problema são as referências. Não dá pra ler tudo o que foi escrito sobre um tema, a menos que você esteja escrevendo uma tese. Um artigo supõe capacidade de síntese, organização e argumentação. No final o que percebi era que o artigo era uma revisão bibliográfica, feita a partir de outras revisões bibliográficas. Se o objetivo do artigo fosse revelar o estado atual de uma disciplina, o que não era o caso, isso seria compreensível. Se a revista fosse uma revista para publicação de artigos de alunos de graduação, a qualidade do artigo também seria compreensível, e eu tenderia a baixar minhas exigências, assim como baixo para alunos do 1° semestre de Letras e tendo a exigir mais dos alunos de 3° ano, por exemplo ou de quem está no último e escrevendo um trabalho final.

No final das contas é o problema que eu enfrentei quando entrei no mestrado e que vejo os alunos nos 3° e 4° anos de Letras: não se ensina a escrever academicamente. Ou se ensina isso de forma inadequada. A UFSC inseriu recentemente na grade curricular de vários cursos a disciplina de “Produção textual acadêmica”, objetivando ensinar os alunos a dominar os gêneros acadêmicos: artigo, resenha, fichamento, resumo. Cobra-se do aluno um conhecimento que ele não domina. É provável que isso seja fruto de currículos mal planejados ou disciplinas mal administradas.

Não é incomum vermos em livros de resumos de congressos resumos mal escritos, em que o mínimo que se espera deles (que apresentem tema, problema, objetivos, conclusões, etc.) não está lá. Isso indica que quem está ensinando a escrever possivelmente também escreva mal. Não que eu me julgue um bom escritor, pelo contrário. Tenho muita dificuldade em relação a isso, embora ache que melhorei bastante nos últimos três anos. Pelo menos sei mais ou menos como avaliar, e a partir de que critérios avaliar uma produção acadêmica, o que já é alguma coisa. Mas me preocupa ver que os alunos em geral não sabem nem por onde começar. Me preocupa também que eles irão justamente estar ensinando crianças a escrever num futuro próximo.

Claro, esse problema é particular na área de Letras, mas também é sério em outras áreas. Se o sujeito não consegue expressar suas idéias com clareza e organização, como irá ser capaz de divulgar seus trabalhos, produzir relatórios, pedir financiamento para projetos, e talvez ministrar aulas? A escrita é parte indissociável da vida acadêmica, e acho que ainda não nos demos conta de como ensinar ela melhor.