Disciplina

Como a maioria das crianças nesse país eu queria ser jogador de futebol. Mas não que eu tivesse algum talento pro troço. Nunca tive. Era sempre um dos últimos a ser escolhido pra um dos times na aula de educação física. Então, por que eu sonhava que podia um dia entrar num Maracanã lotado e ouvir as pessoas gritando o meu nome? Até hoje eu não sei o que se passava na cabeça do guri de 10 anos que eu era quando tive essa ideia.

Daí que a melhor iniciativa que eu tive foi aos 11 anos entrar numa recém inaugurada ‘sala com livros’ (chamar de biblioteca aquela sala com meia dúzia de prateleiras de livros seria um exagero) da Escola Básica Alberico Azevedo pra pegar um livro emprestado. Também lembro de na 6a. série ter feito algumas pesquisas sobre peixes e anfíbios, o que me levou a uma peregrinação pelas melhores bibliotecas da cidade, duas, a do Colégio São Miguel e a biblioteca municipal de São Miguel do Oeste (elas tinham enciclopédias, a ‘biblioteca’ da minha escola não). Não sei que influência isso teve em mim. Só sei que eu sou uma pessoa que gosta de bibliotecas e que é curiosa. (Vai ver naquele dia de aula vaga, ao invés de ficar vendo os colegas jogar bola, porque ninguém tinha me escolhido pro time, eu tenha resolvido ir na biblioteca da escola ver o que tinha lá pra fazer).

Vai ver foi por isso também que virei linguista. Aliei duas qualidades que eu tenho: a curiosidade e o gosto pela leitura (talvez dê pra colocar ainda nesse balaio o meu ceticismo). Não sei se são qualidades “naturais”, minha personalidade, ou se foram características que eu adquiri ao longo da vida. Nenhum dos meus irmãos é assim, embora tenhamos tido relativamente a mesma criação e estudado nas mesmas escolas. (Será que eu me tornaria um acadêmico em qualquer área que eu tivesse escolhido pra estudar?).

Apesar disso eu acho que tenho um defeito que me atazana: tenho dificuldade pra terminar as coisas, pra perseverar. É como se algumas coisas me dessem um cansaço e de repente o negócio me enche o saco. Quem vê meu currículo acadêmico dirá que eu estou mentindo. Como assim, se você fez dois TCCs, uma monografia de especialização, um mestrado, um doutorado, escreveu artigos, capítulos de livros, relatórios e projetos de pesquisa? É que em algum momento eu desisti daqueles textos. Tenho certeza de que eles seriam bem melhores se eu tivesse me dedicado um tantinho mais a eles. E é esse “tantinho” que separa a excelência do normal (sendo bem, mas bem gentil comigo mesmo). Vai ver ninguém me incentivou a buscar a excelência.

Aí eu me pergunto. Por que eu não consegui desenvolver uma disciplina mais rígida de estudos, supondo que esse seja o remédio que teria possibilitado eu me dedicar com mais afinco aos meus textos? A excelência está nos detalhes. A organização do pensamento que a escrita proporciona pode produzir coisas maravilhosas. Se minha memória não falha, as melhores ideias que tive surgiram após longos momentos de trato com o texto. Claro que algumas surgiram num insight antes de dormir, outras numa caminhada ao final da tarde, mas a maioria (e olha que não dá uma mão, eu acho, se é que eu tive alguma boa ideia nessa minha curta carreira de linguista e escritor) foram em momentos em que eu estava tentando colocar no papel o que estava na minha cabeça (e nas anotações em cadernos e bloquinhos que carrego comigo desde os 17 anos). Ou seja, as melhores ideias me surgiram enquanto eu estava escrevendo. Logo, trabalhar no texto não apenas faz o texto surgir, mas também possibilita que a gente descubra e entenda coisas que não entenderia se apenas ficasse sentado na frente do computador em estado de contemplação esperando os insights surgirem como se ditados por um espírito superior.

Hoje eu acho que estou mais disciplinado do que eu era há dez anos. Se eu tivesse aos 20 a disciplina que tenho hoje para escrever tenho certeza que teria escrito coisas mais interessantes e terminado algum livro de ficção antes dos 30 (eu não sabia como terminar as histórias, muitas delas, por isso as abandonava; vai ver eu achava que tinha “talento”, que não precisava estudar como se faz literatura). Na escrita acadêmica é mais fácil chegar em algum lugar, mesmo que esse lugar seja provisório.

E de novo o questionamento: por que eu sou assim? Por que o prazer do estudo, da leitura, a curiosidade, características que me fizeram ser relativamente bem sucedido no que faço, não contribuíram para que eu fosse mais disciplinado para escrever? Veja, o meu ponto não é a escrita primeira, o jorro, a necessidade de se expressar… Isso nunca me faltou (graças às musas!). Nem pra fazer linguística, nem pra escrever ficção. Nunca me faltou assunto (o que é um problema também, porque me disperso).

Vai ver alguém me disse que eu tinha “talento”, e por algum traço de malandragem do meu caráter (como o Manoel de Barros, também tenho cacoete pra vadio), eu achei que o talento fosse o suficiente. Bastava ele, e eu chegaria em algum lugar. Voltando à metáfora do futebol, provavelmente o Romário é um “natural”, assim como Clarice Lispector era (olha a idade que ela tinha quando escreveu Perto do coração selvagem!, que na minha modesta opinião é um livro muito bom). Eles não precisavam “treinar”, pra eles bastava entrar em campo. Clarice com certeza era alguém que podia dizer de boca cheia “toca pra mim, que eu resolvo”, e até os 45min. do segundo tempo ela resolveria o jogo. Claro, com isso não quero dizer que ela não trabalhasse seus textos com a necessária dedicação que o fazer literário exige. (Olhando, quantitativamente, a produção dela, a gente pode concluir com certeza que ela treinava pra burro). Pondo isso de outra forma: um nó cego pode reescrever um conto seu umas vinte vezes que jamais vai estar no nível de uma Clarice Lispector. Ou, um Leandro Damião nunca será um Romário, mesmo que treine 8 horas por dia, 7 dias por semana.

Talvez um Faraco, um Ilari, sejam capazes de escrever de primeira versão com a clareza e a fluidez que só eles têm (o que eu duvido muito). Mas a maioria de nós, eu inclusive, precisamos domar as nossas ideias, dominá-las como uma bola lançada pelo zagueiro, que a gente sabe que provavelmente será difícil matar no peito do pé, com a elegância que o Neymar e o Messi tem… que provavelmente mataremos na canela, que ela vai espanar e que teremos que sair correndo de-atrás antes que ela se perca.

Porque, no final das contas, a escrita acadêmica, profissional ou literária é uma luta solitária. Talvez “luta” não seja a melhor expressão (desculpa aí, Drummond). Talvez a escrita seja um jogo de um cara só, em que o adversário não é a televisão, o rádio, a internet, os filhos (ou qualquer outra distração), é a tua vontade de levantar dali, o teu próprio julgamento: está bom porque eu acho que está bom, ou está bom porque eu cansei de trabalhar nisso? Poderia ficar melhor? (Alguns escritores falam que desistem do texto quando percebem que nada do que fizerem poderá melhorar o texto). Hemingway dizia que todo escritor precisa ter uma espécie de detector de bobagem. Acho que eu não fui capaz de desenvolver um. Quem sabe um dia eu consiga. Afinal, também é preciso achar um meio termo, algum tipo de parâmetro entre o texto que te deixa feliz (legal, consegui escrever) e o que te decepciona (puta merda, como eu escrevi esse bostaço!?). Vai ver eu me satisfaça com pouco, e esse seja o problema também.

Alguns escritores e gurus da escrita criativa sugerem que a gente deixe o texto descansar uns dias. Outros falam da importância de um leitor particular, alguém que posse dar pitacos pra além de comentários vagos como gostei, ou tá muito bom. Já achei um leitor pros meus textos acadêmicos, me falta um, ou dois, pra minha literatura.

Armado de um detector de bobagem, mais a disciplina necessária para escrever, quem sabe um dia eu consiga escrever alguma coisa que preste. Felizmente, diferentemente do futebol, pra escrever não precisa de preparo físico. O Luís A. Fischer usa o conto do Kafka, Um artista da Fome, como uma metáfora pra isso que eu quero dizer: escrever como aquele cara jejuava.

“Talvez o texto ideal, no sentido dessa pequena filosofia, seja como o jejum do personagem do conto “Um artista da fome”, de Franz Kafka: escrever como aquele cara precisava jejuar, com aquela gana, se possível sem jamais parar (mas ao mesmo tempo sabendo que há um limite para o jejum, a morte). Jejuar, escrever, não para agradar, mas para atingir o ponto máximo de sua verdade pessoal, mesmo que ao custo da vida, isso é um ideal que vale a pena” (Fischer, ler e escrever. In: Filosofia mínima. Arquipélago, 2011).

Só que pra atingir aquele nível de excelência no jejum é preciso mais que o impulso, mais que vontade. Vai ver seja preciso um algo mais (a gana?) que poucos de nós temos. E todo dia eu me pergunto isso: se eu me dedicasse um tantinho mais, seria um linguista melhor? Poderia ser um escritor melhor? Não sei. Só sei que o que me move é a crença de que posso melhorar (mesmo que eu não venha a ser um Romário ou um Suarez).

* * *

Por mais que eu tenha categorizado esse post como ‘crônica’ no fundo tá com cara de ensaio montagueano. Não me preocupei muito com estrutura, fui mais pro depoimento pessoal mesmo, usando um registro coloquial.

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Abrandamento de palavrões

Uma das coisas que me apaixonam em Seinfeld é o tratamento dado à linguagem. Em vários episódios situações hilárias são criadas em função de mal-entendidos (S1, Ep1: Jerry hospeda uma mulher, e ele não consegue descobrir se ela quer algo a mais ou não) ou de frases ambíguas (S6, Ep8, ‘The mom and pop store’: Jerry fica em dúvida se foi convidado para uma festa).

No episódio ‘a aposta’ (S4, ep11), os quatro amigos (Jerry, Kramer, George e Elaine) apostam para ver quem aguentaria mais tempo sem se masturbar (tudo começa porque o George foi flagrado pela mãe se masturbando com um catálogo de roupas femininas). Um dos aspectos geniais do episódio é que eles nunca usam a palavra “masturbação”, o ato é sempre referido com o uso de eufemismos.

Na Escolinha do Professor Raimundo, a personagem Dona Bela sempre via alguma conotação sexual nas perguntas que o professor lhe fazia. E concluía sua participação com a frase: Ele só pensa naquilo!

O eufemismo é uma figura de linguagem bastante conhecida. É uma estratégia linguística que torna mais amena uma afirmação que poderia soar rude ou grosseira. Assim, tirar a água do joelho, esvaziar a bexiga, se aliviar, fazer o número 1, são formas mais brandas de se referir a urinar, mijar ou fazer xixi. O campo dos excrementos é uma fonte particular de palavras tabu, e como consequência de expressões eufemísticas.

A morte também é um tipo de tabu. Assim, preferimos passou dessa pra melhor, descansou, abotoou o paletó de madeira, foi pro céu, foi para as trevas ao invés das expressões mais frias, morrer, falecer, perecer. Resumindo, o eufemismo é um recurso linguístico que visa obter a mesma descrição de um estado de coisas, mas sem os aspectos conotativos que possam ser ofensivos ao ouvinte.

Com os palavrões algo parecido ocorre. Ao invés de usarmos o palavrão, podemos usar estratégias para contornar seu valor ofensivo, e ainda assim conseguir alguns dos seus efeitos discursivos (surpresa, admiração, raiva etc.), embora, com o abrandamento de seus aspectos ofensivos ou obscenos.

Antônio Sandman escreveu um pequeno texto (Revista Letras, n. 41-42, 1992-3), em que discute estratégias linguísticas de abrandamento dos palavrões. Essas estratégias envolvem diferentes recursos linguísticos, através dos quais, essencialmente, operamos sobre a forma da expressão. Mandar alguém pra puta que pariu é diferente de mandar alguém pra PQP. Nas palavras dele, o abrandamento é uma de “dizer, não dizendo” ou de “não dizer, dizendo”.

Vamos a elas:

– abreviação I (uso de uma ou várias letras iniciais da expressão): estar numa m, PQP, estar pê da vida, CDF, VSF;

– abreviação II (pronúncia apenas das sílabas iniciais da palavra): mi fu, a fu (a fuder), si fu, paca (cf. pra caralho/cacete), aspone (assessor de porra nenhuma), demo, pô (porra, suponho);

– modificação de fonemas (um ou mais de um): degraçada/desgracida/desgramado/desgranido, poxa/puxa/porra, caralho/caraca.

– Substituição de algum termo da expressão: filho da mãe/filho da puta, vá tomar banho/vá tomar no cu;

– Substituição por pronomes: mandar para aquele lugar, tomar naquele lugar, só pensar naquilo.

– Paráfrase ou circunlóquio: tirar a água do joelho, as partes de baixo.

Do ponto de vista pragmático, os palavrões podem estar em diferentes Atos de Fala. No caso da ofensa, tenho minhas dúvidas se um ato de fala ofensivo cumpriria seu efeito perlocutório (o ouvinte se ofender), se ao invés da expressão ofensiva o falante escolher um abrandamento. Seu M! não me soa tão ofensiva quanto Seu merda!, nem Vá tomar naquele lugar em comparação com Vá tomar no cu.

Sobre esse aspecto, Sandman nota que em algumas situações sociais o palavrão não cumpre a sua função, o que ele considerou um ‘jogo de faz de conta’. Ele cita a situação do encontro entre dois amigos, em que um, ao avistar o outro, grita do outro lado da rua: “Ô baixinho filho da puta!”. Tem quem diga que quanto mais ofensiva for a forma como dois homens se xingam, maior é a intimidade entre eles.

Um dos aspectos importantes do palavrão é que seu valor ofensivo é subjetivo. Minha mulher acha muito grosseiro dizer mijar, por ex. Tem quem se ofenda por ouvir um merda. O abrandamento, então, me parece, no caso da ofensa, que visa o mesmo efeito (ofender o outro de alguma forma), mas sem apelar para a ofensividade do palavrão.

Tchau, plural!

Como é que um plural morre? O Leandro Karnal afirmou no Roda Viva nessa segunda-feira que o plural vai desaparecer. Volta e meia algum gramático ou gramatiqueiro desavisado afirma a mesma lorota, pintada com tintas de erudição, como se fosse um profeta anunciando a chegada do desastre. Na verdade a pergunta poderia ser mais ampla: é possível uma língua perder uma categoria gramatical?

A pergunta geral é difícil de responder, mas o que a história das línguas nos mostra é que perder uma propriedade gramatical acarreta, normalmente, que a tarefa exercida por um elemento seja tomada por outro. Um exemplo. Tem pesquisador brasileiro afirmando que o enfraquecimento da concordância verbal está obrigando que pronunciemos o sujeito. Antes tínhamos uma forma verbal para cada pessoa gramatical (eu sou, tu és, ele é, nós somos, vós sois, eles são). Agora o quadro é outro (eu sou, tu/você/ele/a gente é, nós somos, eles são). Reparem que de seis formas o paradigma se reduziu a quatro, pelo menos no português brasileiro culto falado pela população urbana escolarizada*. Qualquer gramática brasileira honesta vai mostrar isso. A conclusão: como antes o verbo permitia identificar o sujeito gramatical, dava pra ocultá-lo, mas como agora não é mais possível, o jeito é expressar o sujeito lexicalmente.

Quando se fala que o plural está desaparecendo, eu acredito que o camarada tem em mente a regra padrão de formação do plural no sintagma nominal (cf. os meninos espertos) em contraste com o plural coloquial (cf. os menino esperto)**. Em um post de meses atrás eu comparei as duas regras como se fossem hipóteses sobre o funcionamento da expressão gramatical do plural no português do Brasil. Olhando para o fenômeno, é fácil perceber que o plural não está sumindo (nenhum linguista diria isso). A língua continua tendo disponível a expressão semântica do número plural, isto é, quero fazer referência a um conjunto de entidades no mundo e a cardinalidade desse conjunto é maior do que 1, ou é maior ou igual a dois (supondo que seja isso que o plural signifique, em termos simplistas). A diferença é que na variedade padrão o plural é marcado morficamente em todos os elementos do sintagma, isto é, em todos os elementos ligados estruturalmente ao substantivo eu vou ter um pedaço desse elemento que vai me dizer, ei, eu estou no plural (os meninos espertos), já na variedade coloquial basta que eu tenha o plural morfológico no primeiro elemento do sintagma, que nenhum falante vai interpretar que os menino esperto designa um e apenas um menino, que é o que o singular definido refere, cf. O menino esperto comeu o brigadeiro antes da gente cantar o parabéns.

Dizer que uma variedade é inexpressiva ou incapaz de sutilezas gramaticais que a outra é capaz (como os gramáticos normalmente afirmam, sem demonstrar, vocês estão ligados, né?) é de uma canalhice e desonestidade intelectual digna de banimento pra Sibéria. A categoria do número está ali, tanto numa variedade quanto na outra. As duas descrevem o mesmo estado de coisas no mundo, isto é, uma frase como Os meninos espertos comeram todos os brigadeiros expressa o mesmo, ou, é verdade exatamente na mesma situação em que Os menino esperto comero os brigadeiro tudo é. Claro, o fato de uma ser a correta e a outra errada tem a ver com fatores históricos, culturais e ideológicos, não linguísticos. Uma é a correta por que é usando ela que se escreveu os Lusíadas, o Viagens da Minha Terra, o Primo Basílio, o Quincas Borba, a Constituição da República, e assim por diante. Tem a ver com o valor que a sociedade dá praquela forma gramatical, não com a sua capacidade maior ou menor de expressar a noção gramatical de plural.

Isso qualquer gramático sabe (mas não conta). Mas isso seria admitir que mesmo variedades não-padrão também são aptas para a expressão cultural e intelectual, o que daí já é avacalhação, né? Dizer que dá pra fazer filosofia e literatura com português de pobre é um negócio que eles não concebem.

*Notem que com verbos regulares e em algumas classes sociais esse paradigma flexional pode se reduzir ainda mais: eu falo, tu/você/ele/a gente/nós/eles fala.

** Tá, o sociolinguista aí mais bem informado que eu pode estar dizendo “plural coloquial” não é a melhor forma de caracterizar o fenômeno. Tá, não é, mas fiquemos com essa denominação para os fins desse texto.

* * *

Nota final. O Karnal também prevê a morte do subjuntivo e da subordinação. A mesma coisa. Uma língua sem subjuntivo seria uma língua sem capacidade de expressar hipótese. Se a língua já tem essa capacidade, porque deixaria de ter? E, de modo geral, será que tem alguma língua humana por aí que fale apenas factualmente? Eu duvido.

Sobre a subordinação o Chomsky já mostrou pra gente que não existe língua humana sem algum tipo de subordinação (não dá pra ter função sintática sem subordinação) – tá, o D. Everett afirmou que o Pirahã seria uma língua sem subordinação, o que já foi contestado por um bocado de gente. Outra viagem na batata é acreditar que uma oração é mais complexa por ser subordinada em relação a outra coordenada.  Complexidade gramatical não indica complexidade cognitiva, ou seja, um pensamento não é mais complexo por ser expresso por uma coordenação, em relação ao mesmo pensamento expresso por uma sentença com subordinação interna. Claro que isso precisaria ser melhor explorado, mas vou parar por aqui, porque esse assunto daria outro texto.

Ah, e o fato de um sujeito inteligente como ele não saber isso só demonstra a incapacidade dos linguistas se fazerem ouvir pela sociedade. Ele desconhece o que seus colegas de universidade pensam e ensinam ali do outro lado da rua.

1×0

O conto seria sobre um menino, um menino desses que, cabeça no travesseiro, enquanto espera o sono, pensaria sobre o jogo da final do campeonato interssalas da escola na manhã seguinte.

O menino teria treze, catorze anos e estaria na sétima série. Ele teria reprovado no quarto ano, mesmo passando no exame final, pois a professora convenceu a mãe de que ele ainda estava fraco no português: ele não acertava as concordâncias nominais. O pai, ao saber da notícia, ralhou com ele: que parasse de discordar da professora, que levasse o estudo a sério, que pobre sem estudo só sofria na vida e que de burro na família chegava ele. O menino não se abalaria por essas reprimendas. Elas o tornariam ainda mais determinado: burro ou não, ia virar jogador de futebol.

O menino teria levado o time nas costas até a final. Tá, ele admitiria, naquele momento, que o Bolacha tinha salvo o time também fazendo defesas incríveis. Não era à toa que ele era o goleiro do time da escola. Mas o nosso menino ainda era reserva do time e ia mostrar para o professor que era melhor que o Márcio da sétima B.

E ele mostraria amanhã. O pai já tinha desligado a televisão. Na casa de tábuas de madeira todos dormiam. Lá fora, os cachorros latiam para o caminhão do lixo, que passava. E o menino estaria acordado, mirando o fundo da cama de cima, na qual o irmão mais velho já roncava (ele pega cedo no serviço). O jogo da manhã seguinte, a final, seria contra a oitava série A. Eles são maiores, mas o menino, mais rápido, dribla melhor também. Ele teria que ser tão rápido quanto o Paulo Nunes, dando um drible seco no zagueiro, que ele nem ia ver por onde o nosso menino artilheiro tinha passado. Mas o menino, fosse o caso, não teria só essa jogada. Ele saberia dar elástico, lençol, drible da vaca, rolinho, o que precisasse. E o chute do menino é forte e preciso, como o do Edmundo, o Animal.

O menino visualizava o ginásio da escola atopetado, muita gente mesmo, ele iria contar depois em casa, professores e tudo. O jogo seria complicado, decisões nunca são jogos fáceis. Muitas faltas, chutes na canela, ombradas e os nervos à flor da pele. Os dois melhores goleiros da escola e os dois melhores atacantes frente a frente. Sim, porque o menino sabia que era bom, e o outro menino, o da sétima B, também era bom, isso ele não podia negar (o piá tinha feito um gol de bicicleta na semifinal). Mas o menino não quer fazer gol de firula. O nosso menino quer fazer um gol que dê o campeonato para a sala dele. Ele quer fazer um gol simples e bonito como os gols do Paulo Nunes. Um gol em que ele dá um come no zagueiro, o ângulo fica limpo para ele armar o chute de perna direita, e o chute é forte, e a bola termina sua trajetória na bochecha da rede, balançando o barbante. E o menino sai correndo para abraçar os colegas de time, enquanto Sílvio Luiz narra na sua cabeça: ééé, foi-foi-foi, foi ele, o craque da camisa número 9.

Minha copa favorita

A primeira copa de que me lembro é a de 1990, na Itália. Recordo vagamente da eliminação, do gol do Caniggia e dos copos de plástico da Pepsi. Eu tinha 9 anos, me interessava muito pouco ainda por futebol, embora já tivesse certeza, desde os 8 que eu era Flamengo. Como é que um gurizinho de São Miguel do Oeste (SC) morando a quilômetros de distância do seu time de coração tinha essa convicção? Não sei.

Eu comecei a acompanhar futebol em 1992, vendo os jogos do São Paulo na libertadores. Aquele time tinha Raí, Cafu, Zetti, Muller, Palhinha, Ronaldão, entre outros, caras que eram presença certa na seleção. O Flamengo foi campeão brasileiro nesse ano pela quinta vez (ou pela quarta, dependendo do ponto de vista). Não me perguntem a escalação. Só lembro do Júnior, que já veterano e em sua última temporada, se não me engano, e de Gilmar (reserva do Taffarel na seleção) e Zinho (também sempre convocado). O jogo da final do campeonato foi num 16 de julho, dia do meu aniversário. A grade de uma arquibancada do Maracanã cedeu e várias pessoas caíram lá de cima. Três faleceram. O jogo continuou mesmo assim. Mais um exemplo de que pra CBF o torcedor é secundário, o importante é a programação da Globo.

Em 1993 o Brasil jogava as eliminatórias da Copa. A seleção era massacrada no noticiário esportivo. Principalmente depois daquela derrota por dois a zero pra Bolívia em La Paz com o Taffarel tomando um frango histórico. Perder pra Bolívia foi humilhante. O técnico era contestado, o goleiro titular era criticado, o time todo era pouco confiável. Mas tinha um tal de Romário que diziam estar jogando o fino da bola no Barcelona. Eu não via os campeonatos europeus, nunca tinha ouvido falar dele. Até que atendendo ao coro, Parreira o convocou, e ele fez aquele estrago no jogo decisivo das eliminatórias contra o Uruguai no Maracanã. Estávamos na copa.

Mesmo assim, ninguém ainda confiava no time. Mas o legal mesmo era que não tinha aula no dia dos jogos e todo mundo sentava na frente da televisão de casa pra torcer. Meu pai nunca foi de futebol. Domingo ele só via o SBT. A mãe também, não sabia o nome dos jogadores, mas brigava com eles do mesmo jeito. Eu tinha 13 anos, meu irmão mais novo 10, e minha irmã mais velha 15. Meus outros dois irmãos mais velhos, já não moravam mais conosco. A gente torcia calado, pois lá em casa não se podia conversar com a televisão ligada, pelo menos não as crianças.

Foram jogos sofridos. Muito sofridos. Ganhamos os dois primeiros com relativa facilidade. Dois a zero contra a Rússia e três a zero contra Camarões. No último jogo, já classificados, enfrentamos a Suécia, que saiu na frente, e de novo era aquele fantasma rondando o time. Babas como a Rússia e Camarões eram fáceis, a Suécia tinha um time bem organizado e deu trabalho, e a seleção parecia não conseguir sair da marcação.

Na segunda fase, a partida contra os donos da casa foi épica, nada menos que isso. O jogo era num 4 de julho, dia da independência americana. Por mais que o time deles não fosse lá grandes coisa, eles tinham o apoio da torcida e iam dar o seu melhor em campo. O Brasil estava nervoso, e Leonardo deu uma cotovelada estúpida no seu marcador americano. Foi expulso do jogo e da copa. Isso ainda no primeiro tempo. Ricardo Rocha conta que eles entraram no intervalo no vestiário e o encontraram chorando debaixo do chuveiro. Ele sabia que tinha feito bobagem e poderia por tudo a perder. Alguém o consolou, e lhe prometeu que o jogo seria ganho. E o segundo tempo continuou naquela levada, bola pra cá, bola pra lá, sem espaço, as poucas oportunidades que surgiam iam pra fora. Até que aos trinta e poucos do segundo tempo Romário viu Bebeto entrando por trás dos zagueiros e rolou para ele. Qualquer atacante meia-boca teria isolado aquela bola ou chutado em cima do goleiro, mas Bebeto não. Bebeto teve tranquilidade e pontaria para converter a única oportunidade clara de gol do jogo todo. Foi a partida mais tensa e emocionante que eu já tinha visto na minha vida. Até ali.

E veio a Holanda nas quartas. Parecia fácil. Abrimos dois a zero com Romário e Bebeto, teve até a coreografia deste embalando o bebê Mas a Holanda tinha um time bom e empatou em dois lances de cochilo da defesa. O jogo que estava fácil ficou dramático. Será que bateríamos na trave outra vez? Até que surgiu uma falta. Não era tão perto da área, precisava ser cobrada por alguém com força no chute. Branco pegou a bola. Ele era o reserva do Leonardo, estava no final da carreira, vinha lutando contra lesões. Ele tomou distância e chutou. A bola foi voando, lenta, pesada, como se jamais fosse alcançar o alvo, Romário encolheu a bunda e ela foi morrer no cantinho da rede, como se esse fosse seu único destino possível. Fantástico! Branco saiu correndo feito um alucinado e foi abraçar Nocaute, massagista do time, que o tinha ajudado na recuperação das lesões. Ufa! Passamos mais uma fase.

Na semifinal encaramos a Suécia novamente, e depois de várias oportunidades perdidas, num jogo chato e sem muita emoção, Romário se agigantou, subiu mais alto que os zagueiros e testou a bola para o fundo das redes, aos oitenta minutos do segundo tempo. De novo no sufoco. Romário vinha sendo fundamental, com gols e passes. Vinte e quatro anos depois estávamos na final da copa novamente.

E de novo um Brasil e Itália. O estádio de Los Angeles entupido. Domingo ensolarado. Logo no começo do jogo Jorginho se machuca e entra Cafu no lugar dele. Bola pra cá, bola pra lá. E os dois tempos passaram. Poucas chances de gol. Os times se estudaram demais e não se compreendiam, se respeitavam demais, e não ousavam uma agressão mais ousada. Romário quase colocou uma pra dentro, mas parecia que o destino daquele jogo era realmente o inevitável. Viola entrou no lugar de Zinho (Isso mesmo, Viola, o folclórico atacante do Corinthians) no começo da prorrogação, que passou sem os goleiros serem vazados. Tinha um dentucinho magrelo no banco chamado Ronaldo. Tinha despontado no Cruzeiro, feito cinco gols num jogo só, era a revelação, 18 anos. Se Parreira soubesse no que ele faria depois da copa, o teria posto pra jogar naquela prorrogação? Mas o técnico não tinha bola de cristal, e por mais fanfarrão que o Viola fosse, ele tinha faro de gol, mas não deu sorte.

E veio a disputa de pênaltis. Baresi errou a primeira cobrança. Márcio Santos também, bateu mal, fraco, Pagliuca pegou com facilidade. Romário e Branco converteram os seus chutes, seguros. Dois a dois. Galvão Bueno querendo ensinar Taffarel a defender pênaltis, reclamando que ele tentava adivinhar o canto, enquanto devia esperar o jogador bater antes de pular. Massaro bateu mal e Taffarel pulou para defender. Dunga bateu firme e a bola balançou o barbante. Até que veio Baggio, na pressão de ser obrigado a converter. Tomou muita distância e chutou. Taffarel caído viu a bola subir, subir e passar logo acima do travessão, e aquela bola deve ter continuado a subir, subir e deve ter caído fora do estádio. É tetra, é tetra! Gritava Galvão Bueno alucinado abraçando Pelé, que estava comentando a copa na Globo e Arnaldo César Coelho, o comentarista de arbitragem. Soltaram a Marcha da Vitória, a música que tocava quando Senna cruzava a linha em primeiro. Nocaute entrou em campo pulando e dando cambalhotas. Em casa, todos pularam felizes. Nos abraçamos, ríamos. Fogos estalavam no céu do começo da noite de União da Vitória. Os jogadores estenderam uma faixa homenageando Airton, falecido em primeiro de maio naquele ano. O país todo tinha ficado consternado. Era o maior ídolo nacional naquele momento, um dos momentos políticos e econômicos mais difíceis da história (inflação, recessão, desemprego etc.).

Ter visto aquele time de desacreditados ganhar a copa foi um alento. Estávamos todos na merda, mas havia um Brasil que dava certo, que era vencedor. Senna tinha morrido, e parecia que a alegria de todos tinha se ido com ele. Ter ganho o mundial, daquele jeito foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Estávamos na merda sim, mas pelo menos éramos ainda bons de bola.

Outras copas vieram. Não sei por que não me marcaram tanto. Vi a geração de Ronaldo ir do desastre (1998) ao triunfo (2002) em quatro anos, e depois se encerrar melancolicamente em 2006, eliminada nas quartas por uma França que não era lá um timão, mas ainda tinha o Zidane, jogando o fino da bola, e acho que o time todo ficou parado vendo ele e o Henry jogarem, porque não fizeram nada no jogo. Foi triste, pois era a melhor seleção em anos que a gente tinha. Ronaldo, o fenômeno, Ronaldinho, o gaúcho, Adriano, o Imperador, e Kaká. Os Ronaldos já eram melhores do mundo. Kaká seria no ano seguinte, e Adriano era um monstro, provavelmente o melhor centroavante da época (os anos 2004 e 2005 pra ele foram fantásticos). Não deu. A França chegaria à final e perderia para a Itália de Pirlo, Buffon, Materazzi e companhia. Aquela geração italiana merecia o título. Em 2010 foi chato, mas era um desastre anunciado. Dunga vinha brigando com a imprensa. E depois de um bom começo, o time tomou uma virada impressionante de uma Holanda inspirada e que iria disputar a final com a Espanha, futura campeã.

E nesse ano? Não sei. Vamos ver o que acontece…

O futebol e a língua portuguesa

Nada como um tempo como esse em que estamos. Fala-se se futebol o tempo todo, no jornal da manhã, no do almoço e no da noite, e não apenas nos programas esportivos. É de encher o saco, óbvio. Mesmo assim, e você pode não se dar conta, falamos de futebol até quando não falamos de futebol. Pera lá que eu já me explico.

Em 1980 George Lakoff e Mark Johnson publicaram um livro chamado Metáforas da vida cotidiana (Metaphors we live by). O livro inaugurava uma nova área de estudos, a Semântica Cognitiva, e propunha que a metáfora era ‘o fenômeno’ por excelência para o estudo das relações entre a cognição humana e a linguagem. “Se estamos certos ao sugerir que nosso sistema conceitual é grandemente metafórico, então o modo como pensamos, as nossas experiências, e o que fazemos no cotidiano são problemas de metáfora.” (a tradução é minha) A pervasividade das metáforas demostram como as línguas humanas são plásticas e como novos conceitos são criados com facilidade através desse mecanismo pouco estudado. Embora muitos semanticistas já reconhecessem a metáfora como um dos principais motores da mudança lexical (Stephen Ullmann já falava disso no seu ‘Semântica’ lá nos anos 1950, só pra dar um exemplo), ninguém ainda tinha proposto que as metáforas eram centrais.

Nas gramáticas escolares, as metáforas são apresentadas como figuras de pensamento, um artifício retórico para ‘embelezar’ a linguagem. Na essência, dizer que “Fulano é um leão” é encontrar propriedades em comum entre o leão e Fulano. A metáfora deixa de ser percebida como tal quando o significado derivado se torna corriqueiro. “Matar tempo” é uma expressão que vemos na boca de qualquer falante de português e estamos diante de uma construção metafórica, afinal, o tempo não é algo que se ‘mate’.

Como o futebol é um elemento importante da nossa cultura, é inevitável que expressões desse domínio invadam (uma metáfora?) outros domínios de uso da linguagem. Jean Lauand, no artigo A vida como jogo (Língua Portuguesa, v. 35, 2008) mostra como o esporte costuma produzir metáforas. Um dos seus exemplos é o uso de expressões do turfe nas eleições, “a candidatura de fulano é uma barbada”, “ciclano é um azarão” etc. Em relação ao futebol o autor lista algumas locuções verbais: “estar com a bola toda” (a pessoa tem domínio da situação), “pisar na bola” (cometer uma falha grosseira), “dar um show de bola” (ter um bom desempenho), “vestir a camisa” (identifica-se com os ideais da instituição). Há outras locuções bastante populares além dessas. “Dar um bola fora” é parecido com “pisar na bola”. “Estar batendo um bolão” pode também ser usado para se referir a uma mulher bonita, como um elogio, “Fulana está batendo um bolão”. “Ser jogado pra escanteio” significa ser posto de lado ou dispensado. “Acertar na trave” é chegar próximo do objetivo, mas não atingi-lo, e pode ser usado como interjeição, “na trave!”. O verbo “driblar” é usado para se referir à habilidade de desviar dos obstáculos.

Ou seja, mesmo que o leitor não goste de futebol, não discuta o esporte, e sequer saiba o que é um 4-4-2, aposto que utiliza alguma das expressões citadas acima.

O ceticismo como religião

croodsAssisti o filme Croods com meu sobrinho durante o feriado de Páscoa. No filme, uma família de habitantes das cavernas é obrigada a deixar o seu lar com a chegada de uma catástrofe natural. Aparentemente uma erupção vulcânica colossal estava em curso. O pai, Grug, é um sujeito dogmático. O que mantém a família viva é a sua crença de que a caverna é o lugar mais seguro pra se estar. Sair da caverna e do seu entorno é ir rumo ao desconhecido e ter que enfrentar uma realidade com a qual não sabe lidar. Certa noite, a filha, Eep, ficou intrigada por uma luz que se movia no escuro e invadia a caverna por uma pequena abertura. Isso a levou para fora, ao encontro de outro humano, Guy, que dominava o fogo – algo que ela e sua família não conheciam e dominavam – e que tinha certo conhecimento sobre como o mundo funcionava e os avisou que o apocalipse se aproximava. O que salvou a família de homens das cavernas foi a curiosidade de Eep, e a desconfiança em relação às suas crenças. Por sua vez, Grug se deu conta de que as regras que ele mantinha em relação à sobrevivência da sua família estavam erradas. Inclusive, todas as noites, antes de dormir, o pai da família lhes contava histórias trágicas em que os personagens eram punidos com a morte por terem sido curiosos. O filme nos traz uma lição interessante: a curiosidade é o que faz a humanidade aprender e progredir. De fato, é o que nos tem feito se mover em direção às novas descobertas. Se fôssemos conformados, jamais teríamos cruzado o oceano para saber o que havia lá do outro lado.

Os adultos não seres esquisitos (tá é um argumento vazio, mas pere lá). Pelo menos desde os gregos sabemos que não é a fúria dos deuses que nos traz a chuva, as enchentes, os raios e trovões e as secas. Se é assim, por que ainda se acredita que devemos rezar para que chova em caso de seca, ou que devemos rezar para que pare de chover, em caso de enchente? Há uma celebração católica chamada Domingo de Ramos, que acontece um domingo antes da Páscoa. Os fiéis levam para a missa galhos e folhagens para serem benzidos. E depois os guardam. Minha mãe queimava essas folhas numa forma metálica sempre que começava a trovejar e o céu parecia desabar sobre nossas cabeças. Não me lembro se funcionava. Os governos não pensam assim, óbvio. Embora eu acredite que o governo de São Paulo esteja rezando para que chova logo. Parece que demorou um bom tempo para que as pessoas do sertão nordestino se dessem conta de que era mais simples construir uma cisterna para armazenar a pouca água que cai da chuva do que ficar rezando pra que chova durante os meses em que se sabe, via experiência, que não vai chover mesmo. O sertão nordestino sempre foi seco, por que tiveram essa ideia só há poucos anos? E eis o problema: por que mantemos crenças no fantástico quando seria mais simples buscar soluções racionais para os nossos problemas práticos?

Notemos as crianças, por outro lado. Ao chegar ao mundo elas não dispõem de muitos conhecimentos. Embora, não nos demos conta de que elas já chegam de fábrica sabendo que comida com cheiro ruim não deve ser comida, por exemplo. Esse desconhecimento faz com que elas tenham um olhar para o mundo até certo ponto “científico”. É o mesmo olhar do cientista e do filósofo: Por que chove? Por que temos o dia e a noite? Se uma árvore cai numa floresta e ninguém está lá para ouvir, ela faz barulho mesmo assim? De onde vêm os bebês? Aos poucos, nós, os adultos, vamos oferecendo respostas para essas questões, de acordo com a idade em que a criança está. Para a última questão respondemos coisas do tipo “a cegonha traz” ou “o papai colocou uma sementinha na mamãe”. Para algumas coisas, preferimos respostas fantásticas. Preferimos responder que existe um cara lá em cima que decide algumas coisas. Ele nos pune se formos maus e desobedientes. Ele nos ajuda a conseguir dinheiro, saúde, amor e felicidade se formos bons, irmos à igreja e pagarmos o dízimo. É evidente que apelamos cada vez menos a deus. No nosso estágio de desenvolvimento científico, dificilmente algum cidadão, por menos instruído que seja, escolherá ficar rezando a fazer quimioterapia em caso de diagnóstico de câncer. Também não duvido que isso ocorra em um país como o nosso e em outros parecidos. Em todo caso, por segurança, vemos as pessoas fazendo as duas coisas, rezando e tomando remédios.

iwantobelieveDe qualquer forma, penso que deveríamos todos ter um lado Mulder e outro Scully. No seriado Arquivo-X, Mulder e Scully são agentes do FBI que cuidam de casos aparentemente misteriosos e inexplicáveis. Mulder acredita piamente (ó uma palavra religiosa aí) que existem extraterrestres entre nós e que há uma conspiração no governo americano para encobrir isso. Scully duvida de Mulder, e o auxilia nas suas investigações. Algumas vezes ela tem que admitir que há coisas que parecem não ter uma explicação lógica. Em outras, ela consegue mostrar para o Mulder que as coisas não são tão fantásticas assim. E pra usar mais um exemplo da cultura pop, vou apelar para a série Cosmos, originalmente escrita e apresentada por Carl Sagan lá nos anos 80. Agora ela veio repaginada e apresentada por um discípulo de Sagan, o astrofísico Neil Tyson de Grasse. O propósito do seriado é nos explicar como não apenas como o mundo funciona, mas como nos encaixamos nesse grande espaço, ou Cosmos. Ao longo dos episódios a série tem apresentado as ideias de filósofos da antiguidade e contemporâneos que nos ajudaram a entender como o universo funciona. Só chegamos a esse estágio de conhecimento porque em algum momento da história algum indivíduo parou para olhar o mundo à sua volta e começou a se perguntar como aquilo funcionava e ao mesmo tempo, começou a duvidar das explicações fantásticas que lhe eram fornecidas.

Curiosamente, alguns americanos têm reivindicado espaço para também expor a sua visão da criação (deem uma olha aqui). A evolução é um fato, não uma teoria, como diz Neil em um dos episódios da série. Não é uma questão de acreditar ou não. Nós e os outros primatas descendemos de um ancestral comum (não somos descendentes dos macacos, como costumam dizer equivocadamente). Isso é um fato, assim como a água ferve quando atinge a temperatura de 100° Celsius. E que independe de acreditarmos nisso ou não. E por que é que preferimos acreditar no fantástico quando tudo nos leva a crer que a versão fantástica está errada? Por que Grug preferia acreditar que ficar na caverna era mais seguro quando o mundo desabava ao seu redor? Talvez por ser mais seguro psicologicamente. É mais fácil ter certezas do que não ter respostas.