Por que “fake news” funciona: a linguística da mentira

Se eu batesse na sua porta, tarde da noite e dissesse: “Me esconda, por favor! Estou sendo perseguido por agentes da KGB.” Você pensaria que eu enlouqueci. Mas como você chegaria a essa conclusão? Se eu sou seu amigo, confiei em você para me esconder, por que você não acreditaria em mim?

Se você é bem informado, deve saber que a KGB (o serviço secreto soviético) não existe mais e que a probabilidade de eu, Luisandro Mendes de Souza, um mero pai de família de classe média, professor universitário e flamenguista ser um espião também é nula. Ou seja, você se baseou nos fatos, ou melhor, nas relações que a afirmação “Estou sendo perseguido por agentes da KGB” tem com o mundo. Para que essa frase fosse verdadeira seria preciso que eu fosse um espião (ou algo parecido) e que a KGB ainda existisse. Como nenhuma dessas condições é preenchida (talvez tenha outras), você conclui que eu devo ter enlouquecido.

Mas agora, veja as afirmações seguintes:

(1) O Lula é dono da Friboi.

(2) A Dilma é dona de uma fazenda gigantesca no Mato Grosso com milhares de cabeças de gado.

(3) Jesus Cristo caminhou sobre as águas.

Considere (1). Por que tanta gente acredita nela (vai saber, né? Ou acreditou por tanto tempo), mesmo não existindo nenhuma prova material de que é esse o caso? O que nos leva a tomar como verdadeiras afirmações que carecem de base factual? O mesmo vale para (2) e (3). (3) é um dogma religioso. Por que acreditamos nesse milagre, mesmo sabendo que ele nos foi contado por alguém que escreveu essa história há quase dois mil anos, e que provavelmente não testemunhou o milagre, alguém contou a ele. Literalmente é uma fofoca: alguém contou para ele e ele está contando para a gente. Por que não tomamos (3) como ficção ou mito?

O filósofo Paul Grice (1913-1988) propôs que existe o que ele chamou de Princípio de Cooperação, uma espécie de acordo tácito entre os falantes de uma língua, que diz que todos fazemos afirmações que contribuem para os propósitos da conversa em que estamos envolvidos. Claro que esse princípio é uma idealização, mas tem um poder explicativo muito poderoso. Ele inclui ainda algumas máximas e a que nos interessa é a da Qualidade. A Máxima da Qualidade especifica que i) não afirme o que acredita/sabe ser falso e ii) não afirme algo para o qual você não possa fornecer evidências. Seria o paraíso se todos se comportassem assim.

A mentira funciona justamente porque temos uma tendência muito forte a obedecer o princípio da cooperação e acreditar que a pessoa com quem estou conversando está seguindo as máximas, principalmente a da qualidade. As conversas seriam muito complicadas e cansativas se a cada afirmação que meu interlocutor fizesse eu duvidasse da veracidade delas. Claro, talvez possam existir situações em que estamos dispostos a violar essas regras. Por exemplo, um pai pedindo explicações a um filho por algo que ele tenha feito de errado. O pai supõe que a probabilidade de o filho falar uma mentira é alta, principalmente se o filho já fez isso antes e teme alguma punição. Ou um investigador de polícia interrogando um suspeito de um crime.

É possível que outros fatores estejam envolvidos, como ideologia. Acredito em afirmações que carecem de base factual porque elas se encaixam na minha visão de mundo. Em função de toda a ajuda que o governo federal deu à JBS, alguém supôs que ela pertencesse a Lula, ou alguém mentiu mesmo só para ver se a mentira colava (e colou). Mas caras como Trump, ou Dória, ou Bolsonaro, sabem que podem afirmar o que quiserem, verdade ou não, que ninguém vai se importar. A menos, claro, que seja algo muito estúpido, tipo, “A terra é plana”, ou “Vacinas causam autismo” (uma tese menos estúpida, mas que carece de evidência, afinal, autismo não se adquire depois do nascimento).

Essa onda de se criar notícias falsas recebeu até um nome bonito “pós-verdade”. Um nome que me passa a conotação de que a era da verdade acabou, como se fosse datada. É coisa velha falar a verdade. Não deveria ser assim. Estamos, perigosamente, caminhando para a era da “não-verdade”, ou da mentira deslavada.

A mentira sempre existiu no debate político. Isso é um fato. Quando Regina Duarte afirmou que tinha medo que Lula ganhasse a eleição numa propaganda do PSDB muita gente acreditou. Um pouco em função da imagem que Lula tinha construído para si nos anos 1980-1990, a de um sindicalista radical que ia decretar a moratória da divida externa e acabar com a propriedade privada (risos). Personalidades públicas dão um ar de credibilidade ao que afirmam. Se a Fátima Bernardes diz que os produtos Seara são de boa qualidade, por que eu duvidaria, se ela todos os dias entra nos lares das pessoas falando sobre muitos assuntos?

Da mesma forma, por que eu duvidaria de uma afirmação de Bolsonaro, que eu sei que está do meu lado e não mentiria para mim (se eu estivesse do lado dele, o que não é o caso deste que vos fala)? Por que eu duvidaria de uma afirmação do Lula, que eu sei que também não mentiria para seus eleitores? Simplesmente não me dou ao trabalho de duvidar do que os políticos e jornais afirmam porque é mais fácil acreditar em afirmações que se enquadram na minha visão de mundo.

As redes sociais são pulverizadoras de mentiras. Deveríamos combater isso. Muitos grupos na nossa sociedade não estão interessados na verdade ou no bem comum. No debate político o objetivo principal é um só: o poder. É óbvio que de posse do poder grupos políticos diferentes irão tomar decisões baseadas em programas políticos, ou declarações que fizeram na campanha eleitoral. Ficar de olho no que eles afirmam deveria ser a regra. Não deveríamos aceitar generalizações, que também são falsas, como “Todos mentem”, ou “Todos são iguais”, que só ajudam os mentirosos e os canalhas.

Outro fato que me assusta: por que as pessoas acreditam que há um programa nacional de doutrinação comunista nas escolas e que isso precisa ser combatido? Por que se acredita nessa tese, vindo ela de pessoas que acreditam em afirmações como: “Jesus andou sobre as águas”, “O PT quer instalar o comunismo no Brasil”, “Os homossexuais estão destruindo a família”, “Reduzir a maioridade penal traz mais segurança”? Ora, talvez porque eu já acredite em todas estas, porque eu não acreditaria naquela também?

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Linguística para quem?

A gente lê por alguns motivos: para aprender com o texto, para tirar dele uma informação e por passatempo, prazer. O livro do Gabriel de Ávila Othero, ‘Mitos de Linguagem’ (Parábola, 2017) devia ser lido por prazer. Mas, a minha experiência me diz que os capítulos do livro serão copiados, lidos e discutidos nos cursos de Letras (talvez em outros, quem sabe) por esse país afora. É muito pouco para um livro dessa natureza, ele deveria pular os muros da universidade e ser lido nas escolas e por curiosos em geral.

Tem altos debates em congressos e publicações especializadas querendo entender por que os linguistas são tão pouco ouvidos ou consultados em debates sobre linguagem na sociedade. A razão, na minha modesta opinião, é que só se escreve introdução à linguística para servir de manual para aluno de Letras (é uma produção bibliográfica pra auto-consumo). Ninguém escreve pra ser lido por professores ou leigos em geral. (Tem poucos, muito poucos na academia que tentam fazer isso). Claro, sempre tem que vá dizer: peraí, meu, quem é que tá interessado em saber sobre pressuposição a não ser aqueles que estudam pressuposição? O problema não é escrever linguística para consumo próprio (apenas para alimentar a indústria do livro que só circula na universidade), o problema é escrever só com esse objetivo.

Voltando ao livro, o barato dele é tocar em temas que a gente não encontra facilmente em outras publicações introdutórias por aí. O livro está organizado em torno de 10 mitos, isto é, concepções equivocadas que os leigos possuem sobre a linguagem. O primeiro capítulo discute o mito “as mulheres falam demais”.

Esse mito é interessante, pois se conecta com o momento em que vivemos em que se discute tanto o papel da mulher e as violências que sofrem. A interrupção (já me peguei fazendo isso), a explicação (masplaining), ou dar mais atenção ao que os meninos falam (como professor num curso em que a maioria é mulher, é difícil diagnosticar isso, mas pode ser que aconteça). Esse tipo de discussão é importante por mostrar atitudes que temos que (nós homens) somos incapazes de perceber que são violências dissimuladas – a ministra do supremo Carmen Lúcia reclamou disso semanas atrás.

Tem outros mitos legais debatidos: ‘a gramática do português não tem lógica’; ‘ninguém fala o português correto’; ‘a língua portuguesa é uma das mais difíceis do mundo’; ‘a ortografia do português é cheia de exceções’; ‘todo mundo tem sotaque, menos eu’. Esses capítulos tratam especificamente de questões relacionadas com a nossa língua. Eu gostei particularmente do capítulo que envolve a lógica (ou a falta dela) da gramática. Os exemplos de definições problemáticas são bem ilustrativos dessa percepção. Um dos problemas é que a gramática escolar ainda se vale de uma metalinguagem que nos foi legada por gregos e romanos. Todos estamos de acordo que coisas como ‘pronomes’ existem em nossa língua. A questão é que definir a classe como ‘a palavra que substitui o nome’ talvez não seja a melhor definição; e que talvez nem tudo que esteja dentro da classe seja pronome.

Como disse o Mattoso Câmara Jr., as línguas humanas tem uma lógica diversa da lógica ordinária. E é tarefa do linguista descobrir essa lógica. Claro, vai ver a gente ainda não descobriu a lógica do funcionamento de algumas regras do português, e tem outras, claro, que são pura invencionice de gramático, como a discussão sobre os porquês, no capítulo que trata da ortografia.

O capítulo é muito bom, discutindo dois aspectos que explicam porque falamos as palavras de um jeito e escrevemos de outro: a fonologia e a etimologia. Nossa escrita é uma tentativa de representar os sons, e ao mesmo tempo quer preservar a herança lexical latina. Não dá pra respeitar 100% as duas coisas. Claro, ele ainda podia ter citado o fato de que no caso português, o Vocabulário Ortográfico elaborado pela Academia Brasileira de Letras é um guia para a grafia das palavras, e que o Acordo tem mais de político que de linguístico. Logo, tem um baita grau de arbitrariedade na decisão sobre a grafia de uma palavra.

Um segundo grupo de textos debate mitos relacionados com conhecimento linguístico geral: ‘a língua dos índios é rudimentar’; por que é difícil aprender uma língua estrangeira depois de adulto; a comunicação animal; a eficácia de tradutores automáticos. Gabriel mostra com detalhes como o mito envolvendo as línguas indígenas é infundado. Não vou entrar nos outros capítulos para não me alongar muito. Acho que os assuntos deles já mostram que são interessantes.

Carlos Alberto Faraco, na conferência de abertura do Congresso da Abralin em março deste ano na UFF, em Niterói, falou justamente da relação entre o conhecimento acadêmico e o conhecimento popular. O papel da ciência é de esclarecer o debate público e político (na medida em que decisões políticas baseadas em argumentos racionais trazem melhorias para a sociedade como um todo). No caso da linguística, livros como os do Gabriel cumprem um papel importante nesse diálogo. Ele é escrito para apresentar de maneira didática questões e resultados de pesquisas que dificilmente estariam acessíveis para um público mais amplo, mesmo para estudantes de Letras.

 

Estrutura argumental e discurso

O número de complementos de um verbo e os papéis temáticos que esse verbo atribui a esses participantes é um tema que pode ser tratado de diferentes perspectivas. Posso olhar para isso considerando o papel do léxico, o papel da sintaxe, ou o papel que essas propriedades possuem para a situação descrita e/ou seu papel composicional. Comparando (1) e (2),

(1) João abriu a porta com a chave.

(2) A porta abriu com a chave.

vemos que do ponto de vista lexical abrir é um verbo que descreve uma situação que pede pelo menos dois participantes, quem abre e o que é aberto. Do ponto de vista sintático abrir é um verbo transitivo direto, que toma como sujeito e objeto sintagmas nominais e atribui a eles um papel temático qualquer.

Na voz ativa, se o verbo possui dois argumentos, um paciente e outro agente, em 99,9% dos casos o português vai transformar o agente em sujeito e o paciente em objeto. Do ponto de vista composicional, (1) expressa que existiu uma situação de abrir em que João foi o agente, a porta o paciente, e a chave foi o instrumento usado na situação. Claro, a explicação para (2) pode ser o trabalho de um semanticista-lexicólogo quanto de um sintaticista. Afinal, o que permite que o verbo abrir construa uma estrutura com um sujeito paciente? É o fato de ele pertencer a uma classe lexical, ao que tudo indica, ou isso não interessa, temos verbos no português que permitem um uso intransitivo, e informações semânticas são secundárias?

O fato é que os verbos possuem uma estrutura que pode ser maleável. Com isso quero dizer que com um verbo como abrir eu posso criar com ele diferentes estruturas sintáticas para descrever a mesma situação:

(3) A porta foi aberta (por João).

(4) A chave abriu a porta.

(5) A abertura da porta (pelo João) (com a chave)

Veja que há construções em que posso omitir o agente, como (2), a forma ergativa,  (3), a passiva, (4), o instrumento foi alçado a sujeito, e (5), uma nominalização. A função referencial dessas estruturas é relativamente a mesma, mas a função textual/discursiva não.

Isso nos mostra que o falante possui à sua disposição, com alguns verbos, uma gama de opções linguísticas para descrever os acontecimentos que pretende comunicar. E a escolha por uma dessas alternativas pode ser regida por vários fatores discursivos: o tópico do discurso (do que estou falando), relevância comunicativa (às vezes não interessa quem foi o agente ou não se sabe) ou motivações socioideológicas (cf. A gasolina aumenta amanhã é um manchete que oculta o fato de que há um agente público, o governo federal, que realizou o aumento; e me parece que expressar ou ocultar agente públicos em notícias depende da simpatia do grupo de mídia).

Segundo reportagens, parece que armas podem disparar sozinhas. Por isso é comum vermos manchetes como:

(6) Arma dispara sozinha e acerta policial em Porto Alegre. (R7, 08/12/2010)

(7) Arma dispara e mata trabalhador autônomo em Campos. (Notícia Urbana, 21/07/2016)

Nos dois casos as armas estavam na cintura dos indivíduos atingidos. Mas temos casos em que alguém disparou a arma, tem um agente na ação, mas o redator escolhe não expressá-lo por não querer imputar culpa a esse agente, mesmo que na matéria se leia depois: “Segundo a Polícia Civil, o disparo foi feito por um amigo dele, da mesma idade”.

(8) Arma dispara e mata amigo de 12 anos. (VGNews, 21/08/2016)

Veja que isso nos dá outras estratégias de indeterminação do sujeito, além da tradicional apontada pela gramática escolar com o verbo na terceira pessoa do plural ou com pronome de indeterminação se. Quero dizer com isso que no caso de verbos como abrir ou disparar posso tranquilamente ocultar o agente da ação utilizando um recurso que o verbo me disponibiliza pela sua estrutura sintática, isto é, posso alçar o paciente a sujeito.

(9) Assaltaram a farmácia da esquina.

(10) Bandidos assaltam farmácia.

(11) Farmácia foi assaltada.

Note agora que em (10) temos um sujeito linguístico, bandidos, mas que é uma expressão que se refere a um grupo indefinido. Normalmente essas manchetes não trazem os nomes dos envolvidos porque não é relevante, mesmo que depois eles sejam presos. Uma manchete como João da Silva e Marcos Moreira assaltam farmácia só é relevante se os personagens são conhecidos do público leitor do jornal. Assim, é mais comum vermos ao invés de (10) a manchete em (11).

Eu ando meio desleixado com o blogue. Andei escrevendo mais no Medium, minhas ficções, por isso não postei mais nada aqui. Vou publicar só por lá minhas aventuras na prosa, e vou deixar o blogue só pra falar de linguística ou outras coisas que me deem na veneta. medium.com/@luisandromendes

Quem decide se uma pronúncia existe?

Um dos negócios mais difíceis de colocar na cabeça das pessoas é que não tem um valor intrínseco nas formas linguísticas. Mortadela não é mais correto que mortandela como uma verdade absoluta inquestionável. Depende, essencialmente, do valor que o grupo de falantes da língua dá praquela forma.

“Uma variedade linguística “vale” o que “valem” na sociedade os seus falantes, isto é, vale como reflexo do poder e da autoridade que eles têm nas relações econômicas e sociais”. É o que disse o italiano Maurizzio Gnerre em um livrinho clássico chamado Linguagem, escrita e poder (Martins Fontes, 1985). Isso quer dizer que quando temos opções na língua, quando vemos grupos sociais utilizando formas distintas, é inevitável que se atribuam valores sociais àquelas formas. Assim, mortandela não é errada em si mesma, é errada porque um grupo de falantes usa essa forma, e esses falantes normalmente são pouco escolarizados. Mortadela é a forma correta porque é a forma registrada nos dicionários e está associada à escrita, pois é a forma que as classes escolarizadas utilizam.

Na semana passada um médico tentou tirar um sarro de uma paciente que falou peleumonia e raôxis (se você não sabe do que eu estou falando, clica aqui). Por que tem gente que acha engraçado o falar diferente? Por que Framengo, praca e adevogado são pronúncias engraçadas?

Já se falou em preconceito linguístico e preconceito social. Rio dessas formas porque não gosto da classe social que as utiliza, e a fala é uma forma de eu criticar ou manifestar meu desprezo. Posso desprezar outros produtos culturais de uma classe social, como a sua música, a sua dança, sua produção escrita, seu vestuário etc. Falar de sexo numa letra do AC/DC não tem problema, mas num funk tem.

Isso tudo fica um pouco mascarado porque tem toda uma complexa rede de instituições que atuam para criar o que se chama de Norma Padrão. Como qualquer língua humana é intrinsecamente variável, isto é, varia na pronúncia, na forma das palavras, na aplicação das regras, no vocabulário, historicamente se cultiva uma variedade que aos poucos vai se tornando limpa, digamos assim, de regionalismos. As instituições que atuam no cultivo dessa norma são a escola, os gramáticos, os dicionários, a imprensa, os intelectuais, ou seja, a própria sociedade. São esses atores que controlam o que é e o que não é português. E esse controle se baseia principalmente na associação à escrita (se a pronúncia é mais próxima da escrita é mais correta), ou no valor do grupo social que usa a forma. É o caipira que fala poRta (usando o erre retroflexo), ou o colono do interior da região sul que usa o erre fraco (o tepe) onde o resto do Brasil usa o erre forte (o vibrante), em palavras como rato, serra etc.

Assumir que mortandela e peleumonia existem seria o mesmo que dizer que a minha língua vale tanto quanto a dele. Isso quer dizer que já não sou mais tão especial assim, que minha língua não é mais expressiva e clara que a da minha empregada. E esse pensamento assusta algumas pessoas.

A gente e as palavras

Em vários trabalhos William Labov mostrou que os falantes mudam sua expressão linguística se possuem consciência de que estão sendo monitorados. A maioria de nós tem consciência de que existe uma variedade de língua que é a correta, ou valorizada pela sociedade. Se nossa fala dista daquela em algum grau (por falta de escolarização, por morarmos longe dos centros urbanos etc.), normalmente, o falante tem uma atitude de menosprezo com sua própria fala. Quem se orgulharia de ‘falar errado’, não é mesmo?

Pois bem, não sei de onde surgiu a lista. Tomei conhecimento pelo Buzzfeed (que faz as listas mais massa da internet) e a vi chupinhada em vários lugares, inclusive no rádio, pelo Pretinho Básico (programa das 18h da Atlântida). A lista original do Buzzfeed traz uma série de palavras que exemplificam fenômenos diversos: imbigo/umbigo, tauba/tábua, zap-zap/Whatsapp, mindingo/mendigo, adevogado/advogado, pobrema/problema, guspe/cuspe, iorgute/iorgute.

O caso de imbigo é um mistério pra mim, embora, à primeira vista, temos a troca de um segmento por outro. O que difere u e i é a posição da língua em relação à boca. Na articulação do primeiro segmento a língua está avançada, e na do segundo, recuada. Mindingo é fácil. Há duas coisas acontecendo aqui. Primeiro, normalmente, nas sílabas átonas (pré ou pós-tônicas) as vogais médias são alçadas. Em outros termos. No português coloquial, em muitos lugares do país, onde temos um e ou um o, a tendência é que em posições átonas essas vogais virem u ou i. Do ponto de vista articulatório, a única diferença entre esses pares e/i, de um lado, e o/u de outro é a altura da língua. Dizemos que i e u são vogais altas, enquanto e e o são vogais médias (a figura ilustra isso). É por isso que falamos zueira e não zoeira, mininu e não menino, leitchi e não leite. Claro. Há regiões do país em que essa pronúncia não ocorre (alguns lugares do sul). Nesses lugares ouviremos menino, leite, zoeira, mendigo. E aquele n, de onde saiu? Ele surge por assimilação (fonólogos, me corrijam se eu estiver errado), a nasalidade da primeira sílaba passa pra segunda. Há dois segmentos nasais na primeira sílaba, m e en – por mais que tenhamos duas letras aqui, o som é apenas um.

Tauba e iorgute podem ser envolvidos no mesmo conjunto (acredito), pois envolvem a mudança de sílaba de um segmento. u estava na segunda sílaba e pulou para a primeira. O mesmo com o r de iogurte. Esse fenômeno, tecnicamente chamado de metátese, é bastante comum na história do português e produziu palavras que hoje nos soam naturais, mas que tinham pronúncia diversa no latim. Alguns exemplos: inter (latim)/entre (português); semper (latim)/sempre(português).

Pobrema envolve duas coisas. Talvez seja a mistura de rotacismo (a troca de l por r) e o fenômeno anterior.

Adevogado também envolve dois fenômenos. O primeiro é a epêntese, que é a inserção de uma vogal onde antes ela não existia. Como a estrutura silábica do português não admite (aqui no sentido natural da coisa, não no sentido normativo) sílaba que termine por consoante oclusiva, a tendência natural é inserirmos uma vogal, o fechamento comum de sílaba na nossa língua. Isso ocorre com peneu/pneu, pisicólogo/psicólogo, páquito/pacto etc. Como a sílaba é pretônica, o natural é que a vogal seja um i, como de fato é o caso. Mas por que, então, e? Ora, o falante erra tentando acertar (a hipercorreção, corrige onde não deve), justamente por que normalmente nas posições átonas onde pronunciamos i, essa vogal é uma variante de e.

Guspe é um caso mais complicado. Mas também envolve uma mudança comum na articulação desse tipo de consoante. A diferença articulatória entre g [g] e c [k] é somente um traço, a vibração das cordas vocais. A vibração que inexiste em [k] é acrescentada na produção do segmento, gerando [g]. Como não muda o significado da palavra, não há problema comunicativo. Esse é um processo bastante comum, e deu origem a lobo (do latim, lupum), vida (do lat., vita), água (do lat. acqua).

Bom, mas por que eu falei de atitude do falante? Vejam que a lista do Buzzfeed trata com bom humor essas pronúncias (embora também as classifique como ‘erros’). Afinal, elas fazem parte do nosso cotidiano, e são características do português coloquial falado por classes populares com baixa escolaridade em grande parte do país (logo, menos influenciáveis pela escrita). É mais gostoso falar assim porque esse é o vernáculo (é a língua que aprendemos com a família, com a mãe, com os vizinhos na rua), a língua que aprendemos sem instrução formal. O Blog do Jair Kobe (o Guri de Uruguaiana) pegou a lista e a desvirtuou: a transformou em “18 coisas faladas errado que ‘te dá nos nervo'”. Como é que um humorista que se utiliza justamente de traços típicos da fala gaúcha para construir seu personagem tem essa atitude perante tais fenômenos? Talvez por um pré-conceito, uma visão equivocada e ingênua do que seja a variação. O que é o certo é o que eu falo, ou uma variedade de língua inalcançável, a língua padrão. O que vale é a versão escrita da palavra (um dos mitos mais difíceis de desconstruir). Como assim, meu? Por que daria nos nervo de alguém a pronúncia natural de um grupo de palavras? Suponho que ela só irritaria quem fala de forma diferente.

Pra saber mais: Mário Eduardo Viaro. Etimologia. Contexto. No livro o autor apresenta uma série de fenômenos responsáveis pela mudança na forma das palavras. Muitos dos processos que produziram as mudanças no latim que originaram as línguas românicas ainda estão ativos no português.

Como a linguagem perpetua desigualdades

size_590_livrodidaticoUma apostila resolveu usar como ilustração de exemplos de atração e repulsa (conceitos da física) os desenhos de meninos e meninas. Se alguém se ofendeu com isso é porque algo tem de errado com a ilustração. A leitura é claramente autorizada, usar dois meninos como símbolo de repulsa implica em muitas coisas, mesmo que seja em um livro inocente. Aí é que está o problema, o quão inocente é o livro? O quão inocentes somos quando dizemos coisas do tipo ‘não era essa a minha intenção’? É nesse terreno que a ideologia age, no terreno das ações de linguagem que executamos, e das quais não tomamos consciência, como o pastor Feliciano, que considera a homossexualidade uma aberração e que não se considera homofóbico. Acho que ele não sabe que ofender um grupo de pessoas é praticamente a mesma coisa que alimentar o sentimento coletivo de desprezo por esse grupo. Ainda mais vindo dele, um líder religioso, capaz de influenciar o comportamento de muitas pessoas.

Foi o pensador russo Mikhail Bakhtin um dos primeiros a apontar a relevância do estudo das relações entre linguagem e ideologia, argumentando que a luta de classes se dá no terreno dos signos (cf. Marxismo e Filosofia da Linguagem). Se ele está certo, e todo o pensamento linguístico e filosófico que veio a partir dessas ideias, é justamente no nosso comportamento linguístico que se manifesta a ideologia. Malafaia, Feliciano e Bolsonaro podem não sair por aí batendo em homossexuais, mas as coisas que eles falam legitima essa prática. Lembro quando a união civil entre pessoas do mesmo sexo foi considerada legal pelo Supremo Tribunal Federal. Reinaldo Azevedo esbravejava que a constituição tinha sido rasgada. Os direitos dos cidadãos que pagam impostos, contribuem para a sociedade como qualquer outro casal, não são legítimos porque a constituição fala em ‘homem e mulher’. Vai ver a constituição precisa ser modernizada, não? As leis precisam se ajustar aos avanços da sociedade, e não a sociedade se ajustar aos desígnios de leis escritas há mais de cinquenta anos. Até bem pouco tempo o marido poderia matar a mulher e o amante para defender a sua honra, se os pegasse em flagrante.

A luta ideológica se revela no uso de expressões que os grupos usam: ‘homossexualismo’ x ‘homossexualidade’; ‘direitos’ x ‘privilégios’;  ‘a ditadura gay’; ‘orgulho hétero’ x ‘orgulho gay’; ‘gayzista’ etc.

Os termos ‘homossexualismo’ e ‘homossexualidade’ se opõem porque o primeiro denota um comportamento, uma opção ou escolha, e os grupos que usam esse termo o consideram algo ruim, que precisa ser combatido; o termo ‘homossexualidade’ é usado por grupos que consideram a relação entre pessoas do mesmo sexo algo natural. Claro que o debate entre ‘nature’ e ‘nurture’ é importante nesse caso, mas ele se estende por todo o raio de atividades humanas (linguagem, personalidade, caráter, moralidade, ética etc.). Logo, não é exclusivo em relação à sexualidade (cf. por exemplo o ótimo Tábula Rasa de Steven Pinker) Uma mesma pessoa pode acreditar no ditado ‘filho de peixe, peixinho é’ e ao mesmo tempo defender que se muda a personalidade de uma pessoa na base do cacete. Provavelmente essas coisas sejam complementares. Só que a opção por um dos termos revela muito sobre de que lado a pessoa está do debate, mesmo que ela não tenha consciência disso.

É estranho falar em ‘privilégios’ dos gays quando na prática eles são tratados como sujeitos de segunda classe na sociedade: seus parceiros não tinham direitos (até pouco tempo), não podem demonstrar afeto publicamente (se você sente nojo ao ver dois homens se beijando, talvez o problema esteja em você, não neles), e ainda correm o risco de serem espancados por grupos de jovens imbecis apenas por serem o que são. Nesse sentido, criminalizar a homofobia apenas reconhece institucionalmente (e logo, gera estatísticas) um crime bastante comum. Veja o caso da Lei Maria da Penha. Ela foi um avanço porque criou condições institucionais para que as mulheres possam ter amparo do estado quando vítimas de violência doméstica. Há inúmeros relatos de mulheres vítimas de abuso pelos companheiros ou estupro que eram maltratadas por policiais homens, que não levavam a sério suas queixas (não lembro das fontes, mas é só ler o blogue da Lola, lá tem centenas de relatos desse tipo). A tendência masculina é considerar a mulher culpada. A máxima rodriguiana, “toda mulher gosta de apanhar, só as neuróticas reagem.” é bonita na literatura, não na vida real. Assim, tornar um crime específico a violência contra homossexuais poderá mostrar pra sociedade a sua face, aquilo que ela quer esconder, que muitos filhos de família saem nas ruas para espancar pessoas que possuem um comportamento sexual diferente. Chamar o diferente de “aberração” só reforça a desumanização do objeto de desprezo, causando antipatia, o que cria condições para a violência. Não é a toa que na Alemanha nazista os judeus eram comparados aos ratos, como criaturas sujas, como uma praga (cf. o documentário Arquitetura da Destruição).

As expressões ‘orgulho gay’ x ‘orgulho hétero’ também são relevantes nesse contexto, pois trazem consigo diferentes cargas ideológicas. A necessidade dos indivíduos expressarem o seu orgulho por serem o que são é justificável por tudo que eles sofrem no cotidiano. No belo documentário “For the Bible tells me so” um dos pais dos jovens retratados diz que não pensa que a homossexualidade do seu filho seja uma escolha, afinal, ninguém escolheria passar por tudo o que ele passou e passa diariamente. Assim, ter orgulho de ser hétero é no mínimo uma redundância. Héteros, brancos, e homens não são vítimas de nada, muito pelo contrário. É justamente esse grupo que se revolta com a ‘ditadura gay’, termo geralmente usado por quem não sabe o que uma ditadura é. Não vejo como a luta por direitos e aceitação seja ditatorial. Até porque, se fosse esse o caso, sujeitos como o Reinaldo Azevedo e o Luiz Pondé, pra citar dois exemplos, não teriam o espaço na imprensa que têm se de fato vivêssemos em uma ditadura. A unidade de pensamento é que seria uma chatice. Vai ver o ego deles não suporta críticas. E aqui entra outro ponto fundamental: a aceitação. Homens brancos héteros não precisam lutar para serem aceitos, pois eles são a maioria, são eles que detêm posições de comando na sociedade, são eles que ditam as regras. Por isso a expressão ‘orgulho hétero’ é tão tosca, mas imensamente carregada de sentidos e implicações. A luta dos religiosos e outras pessoas contra a criminalização da homofobia reside justamente na não aceitação. Ao se criminalizar o ódio aos homossexuais, eles perdem a liberdade de semear o preconceito e a intolerância.

Por que pesquisar o português?

O Mario Perini explica melhor que eu o que é pesquisa em gramática

Eu tinha planejado falar de outra coisa hoje, mas como o meu professor de violão me desafiou com a pergunta  “o que se descobriu sobre o português nos últimos tempos?” resolvi pensar sobre isso já que a minha aula de violão acabou virando um debate sobre a importância da pesquisa científica, que pra ele é nenhuma. É difícil explicar para o leigo os problemas científicos em linguagem, afinal, para o cidadão comum não há nada relevante a ser estudado ali e as consequências desse estudo não possuem uma aplicação direta na sua vida (tá e daí se o português brasileiro tem objeto nulo?), não é como se estudando o solo pudéssemos melhorar a produtividade de uma plantação ou saber que tipo de planta cresce melhor naquele ambiente, ou fôssemos curar alguma doença estudando uma bactéria ou vacina nova.
Por que, mesmo com as diferenças regionais de pronúncia, nos entendemos?
Eu tentei explicar pra ele (talvez o exemplo não fosse o mais adequado, mas foi o único que me surgiu naquelemomento) que hoje sabemos melhor como funciona a comunicação e conseguimos explicar porque, apesar das diferenças regionais de pronúncia e sotaque, falamos que um gaúcho, um mineiro, um cearense, ainda falam o português. Eu perguntei a ele como ele explica que embora existam diferentes pronúncias regionais para uma mesma palavra, as pessoas ainda se entendem. Um cearense vai falar ‘mininu’, um paranaense ‘meninu’ e um gaúcho ‘menino’, essa última pronúncia é mais próxima da nossa escrita, só que isso não é relevante, estamos preocupados com a fala. Para o J. (meu professor de violão), isso é óbvio, a língua é uma convenção, e as pessoas se entendem porque convivem na mesma sociedade. Eu repliquei, mas suponha que um gaúcho dos pampas se encontre pela primeira vez com um sertanejo do ceará, e o gaúcho fale ‘menino’. Será que o sertanejo vai encontrar problemas para entender o que o gaúcho quis dizer? Ele não se convenceu, pois não entendeu o problema. Tentei ser mais específico. Vejamos o seguinte. Agora compare os seguintes pares: ‘pira/pêra’, ‘murro/morro’. O que aconteceu? Se eu troco um som pelo outro as palavras mudam de significado nesse caso, mas não mudam no outro. Será que não temos um problema científico interessante aí? Como é que o cara que nunca falou ‘mininu’, e vive em uma comunidade que só fala assim, ouve alguém falar ‘menino’ sabe que essa palavra significa o que significa e significa a mesma coisa que se ‘mininu’ significa? É, ele não viu graça e interesse nenhum em estudar isso.
O que aprendemos sobre o português nos últimos 100 anos?

Gramática de João de Barros (1560), segunda gramática sobre o português, e há quem diga que é cópia de uma gramática latina

Claro que para o leigo dizer que: descobrimos os nomes nus; que o português está passando por um processo de rearranjo do sistema pronominal (tônico e átono) e de concordância verbal; que usar o pretérito perfeito não acarreta que a ação que descrevo tenha chegado ao seu final natural no passado; que só se pode concordar em gênero e número, não em grau, porque o grau não é um processo flexional, logo não desencadeia concordância; são coisas que não farão o menor sentido. Provavelmente se ele souber algum dia que se estuda matéria escura, ou física quântica vai achar uma perda de tempo. Descobrimos que não há nada mais feio ou mais bonito ou mais certo ou mais errado entre ‘dois reais’ e ‘dois real’, entre ‘nós vamos almoçar’ ou ‘a gente vamos armoçá’ ou ‘nóis vai armoçá’. Pelo menos ninguém conseguiu provar que quem usa as opções ditas ‘corretas’ é mais inteligente e capacitado para tarefas cognitivas do que o sujeito que utiliza as opções coloquiais. O fato de que uma é considerada a correta é uma opção política, uma escolha, e escolhas envolvem juízos de valor. Não é um fato natural que as opções ditas ‘corretas’ sejam as mais adaptadas para a comunicação. Pelo contrário, o que a pesquisa nos mostra é que se uma comunidade usa uma forma linguística qualquer (gostemos disso ou não), essa forma se presta aos usos comunicativos de que aquela comunidade necessita. Acho que aprendemos também que as línguas não pioram, não deterioram, não se corrompem, e por mais que Saramago pareça uma autoridade em termos de língua, não se preocupem, jamais voltaremos a grunhir, como ele prevê no seu depoimento para o documentário ‘Língua: vidas em português’. Também tentei argumentar que, por mais que agora muita pesquisa não tenha aplicação prática, no futuro poderemos ver os resultados, e aquilo que parece sem valor agora, poderá ter amanhã, ou contribuir, mesmo que seja um pouquinho, para a compreensão da nossa realidade linguística ou para como o português funciona e com isso, entender como as línguas humanas funcionam de uma maneira geral. Uma das mais importantes descobertas do século XX (embora no funda seja uma hipótese) é a Gramática Universal. Acreditando que ela existe, quais as consequências? Nascemos aptos pra falar qualquer língua, e em decorrência disso há regras muito abstratas que todas as línguas obedecem, apesar das diferenças superficiais arbitrárias.

Se J. conhecesse os gregos mesmo diria que Aristóteles já acreditava nisso, que gramáticos de Port-Royal também defendiam isso e que o Chomsky só copiou a ideia. Só que a diferença é que hoje podemos mostrar isso, mostrar que línguas tão diferentes como o inglês, o português e o japonês obedecem aos mesmos princípios gramaticais. Mas pra ele isso não fará diferença, já que é só uma hipótese de trabalho, uma teoria, e por enquanto não temos certeza absoluta disso, e se a ciência não nos dá verdades (dá verdades, mas provisórias), pra que se dar ao trabalho? E se descobrirmos que o c-comando é uma princípio universal, que diferença isso vai fazer? Não vai mexer com o preço do petróleo, certamente, mas estudos desse tipo nos ajudaram a perceber que mesmo a língua de uma pequena tribo na amazónia é tão complexa quanto o alemão ou o japonês, que a língua que o sertanejo ou o colono da roça falam tem tanta regra quanto a língua que os nobres jornalistas da Veja e da Folha de São Paulo falam. Se a pesquisa linguística nos ajudou a ter menos preconceito em relação a povos ‘menos civilizados’ que nós ou em relação a comunidades brasileiras com menos oportunidades de educação que nós habitantes das cidades temos, isso já não é um ganho suficiente? Ou ainda, de que adianta ensinar linguística nas faculdades de letras se nunca teremos um Bloomfield, um Sapir, um Jakobson, um Chomsky. Tivemos um Mattoso Camara Jr., para o qual muitos alunos ainda torcem o nariz, infelizmente não sabemos apreciar os nossos gênios. Todo mundo na academia tem um currículo Lattes, mas quantos sabem quem foi César Lattes? Afinal, o senso comum nos diz, através da voz de J. que o estudo não importa, precisamos ter talento. Não existe novidade na ciência, só cópia. Vai ver o Mattoso descreveu o sistema vocálico do português brasileiro copiando a gramática do latim.