Daltonismo – Documentário sobre Dalton Trevisan

Anúncios

O deputado mineiro que queria proibir Guimarães Rosa nas escolas

A semana passada foi bem bagunçada e acabou que não consegui atualizar o blogue na sexta, por isso o texto saiu hoje. A ideia de publicar um post por semana (pelo menos), é para justamente me obrigar a ter uma rotina de escrita. E eis que duas coisas interessantes aconteceram na semana passada, consegui ver a palestra do Carlos Alberto Faraco no youtube e descobri o projeto de lei do deputado estadual Bruno Siqueira (PMDB). Bruno é de Juiz de Fora, e é formado em engenharia civil. O projeto do deputado quer defender a língua portuguesa (clique aqui para ver o projeto). Mas defendê-la de quem? Dos seus próprios falantes? Daqueles escritores que contrariam a norma culta com objetivos estilísticos? Se o lugar da produção cultural brasileira escrita em vernáculo não é a escola também, onde ela deve ser consumida e apreciada? Nos guetos?
O texto do projeto de lei é o seguinte, foram suprimidos os trechos que listavam os autores que estariam proibidos de serem lidos nas escolas mineiras. Pelo menos é o que está na página:
“A Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais decreta:
Art. 1º – O art. 2º da Lei nº 8.503, de 19 de dezembro de 1983, passa a vigorar acrescido do seguinte parágrafo único:
“Art. 2º – (…)
Parágrafo único – Será priorizada a adoção de livros que não contrariem a norma culta da língua portuguesa.”
Art. 2º – Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.”
Primeira coisa: qual a justificativa para isso? Com base em que tipo de estudo o autor da lei está excluindo livros que contrariem a norma culta? Por que desenterrar um projeto de 1983, que por alguma razão não foi aprovado na época em que foi elaborado. Pelo que eu entendo, as leis são propostas para melhorar a vida da população ou regular atividades sociais que precisem de regras, como o trânsito, a venda de armas e remédios, essas coisas. Por exemplo, o governo quer proibir o consumo de cigarros com sabor porque eles incentivam os jovens a fumar. Como as doenças decorrentes do fumo geram custos para a saúde pública, essa decisão tem um certo apelo, embora esteja lidando com o direito do cidadão se envenenar da maneira que julgar conveniente. Alguns fumam cigarros sabor menta, outros comem hambúrgueres e sorvetes do McDonald’s, outros preferem costela e cupim, outros ainda preferem bebidas alcóolicas. No final das contas não vejo nenhuma justificativa científica para esse projeto (o do ensino). Mas há uma, e ela é essencialmente ideológica.
Por que alguém iria proibir o português coloquial escrito de entrar nas escolas? Por que alguém acredita que ler os gibis do Chico Bento, as poesias de Patativa do Assaré, Manoel Bandeira e Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade entre muitos outros, é prejudicial ao ensino de língua portuguesa quando não há nenhuma evidência científica de que seja esse o caso? Ora, porque esses escritores justamente buscavam se expressar utilizando o português coloquial e mesmo o português culto brasileiro (não o português culto dos portugueses). Vejamos o que diz um trecho do poema “Evocação do Recife” de Manuel Bandeira: “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros/Vinha da boca do povo na língua errada do povo/Língua CERTA do povo/Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil/Ao passo que nós/O que fazemos/É macaquear/A sintaxe lusíada.” A crença de que existe uma língua correta apenas e que é preciso defendê-la de seus falantes incultos é tão ingênua que chega a ser triste uma iniciativa como essa. Se o deputado tivesse conhecimento sobre a matéria que pretende legislar teria se dado ao trabalho de ler os parâmetros curriculares nacionais, documento oficial do estado que dá embasamento ao tratamento da língua no ensino básico. Vejamos o que nos diz o documento:
“Para cumprir bem a função de ensinar a escrita e a língua padrão, a escola precisa
livrar-se de vários mitos: o de que existe uma forma correta de falar, o de que a fala de
uma região é melhor da que a de outras, o de que a fala correta é a que se aproxima da
língua escrita, o de que o brasileiro fala mal o português, o de que o português é uma língua
difícil, o de que é preciso consertar”a fala do aluno para evitar que ele escreva errado.” (BRASIL, 1998, p. 31)

Um pouco antes dessa discussão sobre o lugar da variação e da gramática no ensino, os parâmetros estabelecem o seguinte em relação ao texto literário:

“O tratamento do texto literário oral ou escrito envolve o exercício de reconhecimento
de singularidades e propriedades que matizam um tipo particular de uso da linguagem. É
possível afastar uma série de equívocos que costumam estar presentes na escola em relação
aos textos literários, ou seja, tomá-los como pretexto para o tratamento de questões outras
(valores morais, tópicos gramaticais) que não aquelas que contribuem para a formação de
leitores capazes de reconhecer as sutilezas, as particularidades, os sentidos, a extensão e a
profundidade das construções literárias.” (BRASIL, 1998, p. 27).

Bom, supondo que o deputado é um sujeito responsável, que quer fazer o bem para as pessoas e melhorar a qualidade do ensino nas escolas públicas, acho que ele não faria uma lei que proíbe as pessoas de dirigirem embriagadas, porque ele sabe que já existe uma lei que faz isso. Então porque ele está querendo fazer uma lei para dizer aos professores de língua portuguesa o que eles devem levar para seus alunos ler quando já há um documento oficial que faz esse trabalho? Por puro achismo. Justamente pelo preconceito com as variedades populares da língua portuguesa falada no Brasil. Elas não possuem nada de errado intrinsecamente. Suponha que você esteja aprendendo o português agora, como uma língua estrangeira, e na aula você aprenda que deve-se dizer coisas do tipo “Quero dez pães.”, só que quando você vai na padaria escuta as pessoas dizendo “Quero cinco pão.”, “Dois pastel de carne.” “Custa cinco real.”. Você não sabe muito bem porque essa diferença existe, e pergunta ao seu professor que responde: quem fala assim é ignorante, é errado falar assim. Essa resposta seria dada por um professor preguiçoso, ou por alguém que nunca se deu conta de que não existe nada mais feio ou mais bonito em “dois reais” e em “dois real”, o valor que atribuímos à primeira alternativa é social. É a forma correta porque é a forma usada pelas pessoas escolarizadas (as ditas cultas), por quem detêm o poder econômico, pelos advogados, pelos juízes, nossas leis são escritas utilizando-se dessa variedade da língua, nossos melhores escritores (os modernos são uns fanfarrões, querem fazer literatura com o português coloquial, veja se pode uma coisa dessas, que atrevimento!). Ou alguém acha que escolheriam a língua dos sertanejos, dos motoristas de ônibus, das empregadas domésticas e dos feirantes para redigir leis? Claro que não, porque esses falantes da língua não possuem prestígio social. O que a proposta do deputado faz é, além de menosprezar a língua das classes populares, menosprezar a produção cultural realizada com essa variedade do português. Por mais que o Chico Bento use uma versão caricata do ‘caipirês’ (isso é, ninguém fala exatamente daquele modo), por mais que Patativa e outros cordelistas, ou mesmo canções tradicionais como o cuitelinho ou alguns sambas de Adoniram Barbosa sejam parte do nosso arsenal artístico, projetos desse tipo as rebaixam ao estatuto de mero folclore (quem devem ficar confinadas aos botecos, às favelas, às feiras-livres), quando a variação (entendida como a possibilidade estrutural de se expressar a mesma informação se utilizando de estruturas linguísticas diferentes) é um fenômeno muito mais complexo que isso. A isso se acresce o fato de que o deputado sequer deve ter ouvido algum especialista no assunto. Nesse caso, deixo aqui a palestra que o prof. Carlos Alberto Faraco, da UFPR, ministrou em um seminário da Olímpiada de Língua Portuguesa. Mas nem precisava vir até aqui. Ele poderia ter dado um pulo na UFMG e batido um papo com o Mário Perini.

Considerações sobre o palavrão (parte III)


Me empolguei com esse tema e vou falar dele hoje novamente. Quanto mais você procura há mais coisa a se dizer, tô me sentindo feito pinto no lixo. Há uma série de questões interessantes envolvendo os palavrões, e cito aqui as apontadas por Steven Pinker, no capítulo “As sete palavras que não se pode dizer na televisão”, que está no livro “The Stuff of Thought”.

a)      O palavrão é universal: aparentemente todas as línguas humanas possuem esse tipo de palavra ‘tabu’;

b)      Arbitrariedade do signo: Saussure nos ensinou que a relação entre o som e o significado é arbitrária, pessoas que não gostam do palavrão parecem pensar o contrário, a palavra é a coisa, ou está no lugar dela;

c)       Palavras e tabus (ou coisas das quais não devemos falar): sexo, excrementos, ofender minorias ou a moral de alguém;

d)      As situações sociais em que usamos palavrões.

Quem estiver interessado em se aprofundar nisso pode consultar o texto de Pinker, eu, como disse no post anterior, vou me preocupar em entender porque certas palavras ofendem as pessoas, mesmo que as palavras não sejam ditas a elas, como uma ofensa. Se você não gosta de ler ou ouvir essas palavras, eu sugiro que saia daqui enquanto é tempo.

Os grupos

Separemos as palavras em grupos (o leitor pode listar muitos outros):

a)      Sexo e seus subprodutos: foder, comer, trepar, dar uma, pagar um boquete, chupar, cu, fazedor de merda, gozar, porra.

b)      Órgãos sexuais masculinos: bola, batata, caralho, pinto, pau

c)       Órgãos sexuais femininos: teta, xota, perereca, buceta, racha, xavasca

d)      Integridade moral do homem: vagabundo, filho da puta, cuzão, boqueteiro, merda, veadinho, bichona, corno, cavalo, burro, idiota

e)      Integridade moral da mulher: vadia, puta, safada, galinha, boqueteira, vagabunda, bucetuda, filha da puta.

f)       Excrementos: merda, mijo, côco, xixi, cagar, estercar.

g)       Minorias: débil mental, mongoloide, retardado, bicha, viado, preto, polaco azedo, alemão batata

Há dentro do conjunto palavras que podem ser mais ou menos ofensivas. ‘foder’ parece ser a nossa ‘f word’, já a grande maioria das outras tem usos corriqueiros. Todos comemos coisas durante o dia, mas as pessoas comem umas às outras. A criança pode dizer que está chupando um picolé que ninguém vai ver mal algum nisso ou dizer que vai jogar bola, mas se disser ‘pegue nas minhas bolas’ é provável que alguém vai achar feio.

Há ainda um grupo de palavras ofensivas que deriva dos nomes de animais: veado, cavalo, burro, anta, jegue, cobra, baleia, piranha, cachorro, elefante, galinha. Brincamos dizendo que os animais nada tem a ver com o uso do seu nome como ofensa. Talvez eles tenham no sentido que esses usos podem ser entendidos como metafóricos. Uma pessoa obesa e um elefante são grandes, embora seja complicado achar o que tem em comum entre um homossexual e um veado.

As palavras que ofendem as minorias não possuem nada de ofensivas em si mesmas. Na verdade sua carga ofensiva reside na atitude das pessoas que as usam, e é isso que é nocivo. Ao tentar mudar as palavras ou termos para novos ‘politicamente corretos’ esperamos que as atitudes das pessoas mudem.

A discussão psicológica reside no fato de haver ou não evidência que o uso de linguagem ofensiva influencie o comportamento moral ou imoral das pessoas. O ideal seria termos dois grupos, um de pessoas que admita usar palavrões e outro de pessoas que supostamente não os usem em nenhuma situação (o que é bem difícil). Daí bastaria acompanhar o cotidiano dessas pessoas e avaliar se o que elas dizem de fato ocorre (se falam ou não e quando falam) bem como do comportamento moral delas, independentemente de falarem ou não palavrão. Novamente é o problema da linguagem e do pensamento, pessoas más devem falar mais palavrões.