Lendo sobre o relativismo linguístico

Não sei por que demorei tanto pra ler a tese do Rodrigo Gonçalves. É aquela história do “amanhã certeza” e o trabalho foi indo pro fim da fila. Como acabei entrando numas de ler sobre relativismo, principalmente por ter lido o Through the language glass (G. Deutscher) e do The language hoax (J. McWhorter), resolvi ler a tese, da qual eu retiro essa citação excelente, de Cole e Scribner (1974, p. 41), que criticam a versão forte do relativismo (enxergo o mundo pelas lentes da minha língua):

Formas extremas do relativismo e determinismo lingüístico teriam implicações
sérias, não somente para o estudo da humanidade de si mesmo, mas também para
seu estudo da natureza, porque elas fechariam a porta para o conhecimento
objetivo de uma vez por todas. Se as propriedades do ambiente são conhecidas
somente através dos mecanismos infinitamente variáveis e seletivos da
linguagem, o que percebemos e experienciamos é, de certo modo, arbitrário, e
não é necessariamente relacionado com o que está “lá fora”, mas somente com
como a nossa comunidade lingüística particular concordou em falar sobre o que
está “lá fora”. Nossa exploração do universo seria restrita às características
codificadas pela nossa língua, e o trânsito do conhecimento entre as culturas seria
limitado, se não impossível. 

COLE, M. & SCRIBNER, S. Culture & Thought.: A psychological introduction. New
York: John Wiley & Sons, 1974.

GONÇALVES, Rodrigo T. Perpétua prisão órfica ou Ênio tinha três corações: o relativismo linguístico e o aspecto criativo da linguagem. Tese (Doutorado em Letras). Curitiba/PR. UFPR, 2008. (p. 24)

No link abaixo um podcast com a Lera Boroditsky, uma das principais figuras do que tem sido chamado de neo-whorfianismo. Ela, e outros, estão tentando encontrar evidências experimentais de conexão entre língua e pensamento. No mesmo programa John McWhorter fala sobre seu novo livro, sobre mudança de significado. Podiam tê-lo convidado para contestar a Lera, já que ele escreveu um livro justamente para isso, o The language hoax.

https://www.npr.org/2018/07/12/628490776/watch-your-mouth

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Resenha: Os fundamentos da teoria linguística de Chomsky

GUIMARÃES, Maximiliano. Os fundamentos da teoria linguística de Chomsky. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017. 391 p.

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Como de praxe, farei uma resenha informal de um livro que li recentemente e de que gostei muito. Os fundamentos da teoria linguística de Chomsky foi escrito, julgo eu, pelo linguista brasileiro mais capacitado para tal tarefa. Maximiliano Guimaraes – graduado pela Universidade da Bahia, com doutorado na Universidade de Maryland, e hoje professor na Universidade Federal do Paraná – é um pesquisador que tem se mostrado interessado não apenas na técnica para análise dos dados, mas também em questões, digamos, mais teóricas e epistemológicas da abordagem, como revela sua produção. O livro demonstra que ele transita tranquilamente pelas várias facetas que o modelo gerativista adotou ao longo do tempo. O que nos dá a primeira qualidade do livro: é um passeio histórico pelas preocupações teóricas de Noam Chomsky e de outros pesquisadores engajados no empreendimento gerativo, que como o autor esclarece, não é obra de um homem só. O livro faz parte de uma coleção digna de todos os louvores. Gabriel Othero e Sérgio Menuzzi estão editando uma nova geração de clássicos na linguística brasileira.

O livro está organizado em 6 capítulos. O primeiro, na realidade, é uma introdução estendida e o último é a conclusão. O segundo é uma apresentação de uma série de noções fundamentais para o gerativismo: (a)gramaticalidade, competência e desempenho, Lingua-I e Língua-E etc. O terceiro capítulo, me pareceu, é quase uma história do modelo e serve para nos mostrar como as preocupações de Chomsky sempre foram as mesmas. O quarto capítulo trata de discutir uma crítica comum ao gerativismo: o sintaticocentrismo do modelo e a relação da sintaxe com os componentes sonoro e semântico da gramática. O capítulo que encerra o livro vai discutir alguns temas sobre aquisição da linguagem, como o argumento da pobreza de estímulo (o tema mais profundamente discutido no capítulo, também chamado de o problema de Platão) e o problema que ele chamou de problema de Borges (a partir do conto de Jorge Luis Borges, Funes, el memorioso, que narra o infortúnio de um indivíduo que é capaz de memorizar todos os detalhes do que experencia), tendo como pano de fundo a natureza da Gramática Universal. O problema de Borges serve como metáfora para ilustrar o desafio que uma criança teria se não fosse guiada por algum dispositivo cognitivo para a aquisição da linguagem como a Gramática Universal.

Uma das características do livro, para além do rigor na apresentação das noções e da vasta bibliografia que o autor cita, é o diálogo com os críticos. Principalmente nos capítulos iniciais e no capítulo final. Guimarães tem a preocupação clara de rebater algumas críticas, para ele infundadas, que são feitas por alguns linguistas brasileiros. Por exemplo, na seção 2.3 responde às críticas que Marcos Bagno de que o falante-ideal chomskyano é uma figura mítica sem correspondente na realidade, já que abstrai da língua todos os fatores extralinguísticos que a constituem, com citações do próprio Chomsky, em que ele justifica essa escolha pela idealização. Embora já existam livros com esse propósito – como o excelente Curso básico de linguística gerativa, de Eduardo Kenedy (Contexto, 2013) – esse segundo capítulo é uma baita introdução ao gerativismo.

Não se engane. O livro não é uma introdução. Como o próprio autor esclarece no primeiro capítulo, seu livro não é uma introdução técnica à sintaxe, é antes um complemento, que eu diria mais epistemológico a introduções técnicas, como o Novo Manual de Sintaxe (Mioto; Figueiredo-Silva; Lopes. Contexto). Citando Guimarães (p. 16)

Meu objetivo é ajudar o leitor a compreender Chomsky num sentido complementar
a saber manipular o aparato técnico-analítico aplicável a dados. Há vários modos de se fazer teoria e análise gramatical. Por que alguém deveria adotar ou rejeitar o modo chomskyano de fazê-lo? Para tomar partido, é preciso conhecer minimamente o objeto de estudo, os objetivos, os métodos, as premissas, e as bases empíricas e conceituais nas quais o paradigma chomskyano se sustenta.

Ou seja, a leitura do livro pressupõe pelo menos familiaridade com a análise sintática gerativista e uma introdução à linguística geral. Guimarães também tem o cuidado de dar crédito às ideias (o que muitas vezes fica obliterado em livros dessa natureza) e de oferecer leituras adicionais, a todo momento indicando ao leitor referências.

*Para o leitor interessado em uma resenha mais completa e detalhada, Alessandro B. Medeiros (UFRJ) escreveu uma na revista LinguiStica (UFRJ), v. 13 (2), 2017.

“A kind of blue”: um trecho de ‘A fraude linguística’

Como na semana passada postei um pequeno comentário sobre a palestra da Lera Boroditsky, uma das pesquisadoras neo-whorfianas com mais destaque, e no comentário mencionei o livro de John McWhorter, hoje posto um trecho do livro em que ele lança algumas dúvidas sobre o experimento que o grupo dela conduziu sobre as cores no russo, língua famosa por ter duas palavras para dois tons de azul. O título, imagino, deve remeter ao disco homônimo de Miles Davis.

O trecho abaixo é do capítulo 1, Estudos mostram. [se der tudo certo eu e o Renato Basso traduziremos o livro]. A explicação que ele dá do experimento me parece um pouco confusa. De qualquer forma, inseri a figura 1, de Winawer et alii (2007) [Russian blues reveals effects of language on color discrimination. PNAS 104(19), p. 7780-7785. https://doi.org/10.1073/pnas.0701644104]

John McWhorter. The language Hoax. Oxford University Press, 2014.

* * *

[…] esqueci por que eu sei que a palavra russa para “gay” é goluboj, mas acontece que o significado básico da palavra é “azul claro”. Não apenas azul, porque há outra palavra russa para a versão mais escura, marinha, prussiana de azul, siniy. Não há nenhuma palavra que signifique apenas azul: em russo, o céu e um mirtilo são de cores diferentes.

Um elegante experimento neo-whorfiano apresentou a falantes de russo vários tableaus com três quadrados em uma tela de computador: um no topo, os outros dois logo abaixo. Os quadrados eram de vários tons do que chamaríamos de azul, aparecendo em vinte gradações, indo do azul escuro ao azul claro. Em cada tableau, um dos quadrados embaixo era do mesmo matiz que aquele do topo, enquanto o outro debaixo era de um matiz diferente. Foi dada uma tarefa aos russos: apertar um botão quando identificassem qual quadrado debaixo tinha o mesmo tom que o de cima.

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Fonte: Winawer et alli (2007, p. 7781)

Deve ter sido bem chato fazer esse pequeno teste, mas os pesquisadores estavam tentando descobrir algo: se ter diferentes termos para azul escuro e azul claro teria qualquer efeito na percepção – isto é, a língua poderia moldar o pensamento? E eles descobriram que sim. Por exemplo, se o quadrado de cima era azul escuro e o quadrado debaixo de cor diferente era um tom ou três mais à frente na sequência de azul claro, então os russos apertavam o botão rapidamente, enquanto que se o quadrado alvo era apenas um tom diferente de azul escuro, o tempo médio para se apertar o botão era maior. O mesmo se dava ao contrário: se os quadrados compatíveis fossem azul claro, então os russos apertavam o botão sem hesitar se o alvo fosse um dos tons escuros, mas demoravam se esse não era o caso.

Os falantes de inglês, por sua vez, tiveram o mesmo tempo de resposta onde quer que o quadrado alvo caísse no espectro de azul: um quadrado alvo claro não os acelerava quando os quadrados compatíveis eram escuros, e um quadrado alvo escuro não os acelerava quando os quadrados compatíveis eram claros. Isso mostra, de um modo realmente engenhoso, que ter termos diferentes para azul claro e azul escuro faz com que as pessoas diferenciem essas cores mais rapidamente do que as pessoas cujas línguas possuem um único termo para azul – e mesmo quando ninguém pergunta a elas sobre as palavras em questão ou mesmo as usa.

No caso de alguém tentar encontrar, digamos, alguma razão cultural para os russos serem mais sensíveis à diferença entre azul escuro e azul claro do que nós, os pesquisadores fizeram outra versão do experimento, mostrando que a língua não é realmente o que direciona a diferença para os russos. No segundo experimento, os sujeitos tinham de não apenas distinguir o quadrado alvo, mas ao mesmo tempo deviam recitar uma sequência aleatória de números que eles há pouco tinham sido solicitados a memorizar. A energia mental necessária para fazer isso coloca um bloqueio temporário no processamento da linguagem, e nessa versão do experimento se o quadrado alvo era de outro tipo de azul não fazia mais diferença nos tempos de resposta. Assim, sem a linguagem, os russos não estavam mais sintonizados para a diferença entre o azul escuro e o azul claro do que alguém de Campinas.

Contudo, uma tendência atual defende que esse tipo de teste mostra que como sua língua é o faz ver o mundo de um modo particular. O lusófono, intrigado, imaginará como o mundo deve parecer aos olhos de alguém a quem azul claro e azul escuro são “mais diferentes” do que são para ele. A tentativa pode ser uma reminiscência de tentar imaginar uma quarta dimensão.

Mas há um problema. Não é que esse experimento de Jonathan Winawer, Nathan Witthoft, Michael Frank, Lisa Wu, Alex Wade, e Lera Boroditsky não seja extremamente inteligente, nem que ele não mostre que a língua afeta o pensamento; mas o fato é que batemos num obstáculo quando tentamos ir para além do experimento, abraçando a noção de que ele está nos dizendo algo sobre visões de mundo, ser humano e coisas do gênero. Especificamente, quando descrevi a diferença nos tempos de reação, usei termos vagos como rapidamente e demorar. Contudo, na realidade, para avaliar seriamente o que esse experimento significa além do mundo da pesquisa em psicologia, deve ficar claro qual era a diferença média de tempo de reação, dependendo para qual lado do espectro o quadrado alvo pendia. Era – Que rufem os tambores! – 124 milissegundos.

124 milissegundos! Quando os quadrados compatíveis eram mais escuros, se o quadrado alvo também estava no matiz escuro, então os russos apertavam o botão um décimo de segundo mais rapidamente do que se o quadrado alvo fosse do matiz claro. Eles não demoravam por meio minuto, ou mesmo um segundo inteiro, ou mesmo meio segundo. Na verdade, não podemos sequer chamar um décimo de segundo de demorar.

Agora, que há um efeito é ainda, por si só, um fato. Pense: entre os falantes de inglês, apenas por conta de uma diferença linguística, não houve nenhuma alteração nos tempos. Mas, baseados em que podemos tomar uma diferença de 124 milissegundos em tempo de reação como dizendo algo sobre a forma como os russos experienciam a vida? A língua afeta o pensamento? Aparentemente sim, mas, como tudo na vida, a questão é o grau. No estado corrente de nosso conhecimento, parece que goluboj é relevante para a alma russa mais vividamente em termos de preferências sexuais do que cores!

A intuição corresponde ao resultado de 124 milissegundos ao sugerir que não estamos lidando com nada parecido com lentes diferentes. Após aprender que o russo tem termos diferentes para azul escuro e azul claro, pareceria que estaríamos dispostos a se perguntar se isso significa que os russos veem o ovo de pintarroxo e um blazer azul marinho como mais distintos em cor do que os falantes de inglês. Contudo, para muitos falantes de inglês, ou, eu fortemente suspeito, mais gente ainda, a reação é uma certa perplexidade ver que uma língua faz uma distinção como essa. “Por que uma língua precisaria fazer isso?”, podemos nos perguntar. “Certamente sabemos que a cor por detrás das estrelas na bandeira americana é nitidamente diferente do azul bebê – mas nós não precisamos de palavras diferentes para essas cores!” Certamente foi como eu me senti quando aprendi russo pela primeira vez.

Nesse aspecto, há várias línguas que não fazem distinções de cores que um falante do inglês consideraria fundamental; nesse caso, para elas, o inglês parece tão desnecessariamente obcecado quanto o russo. O povo herero da Namíbia, na África, fala uma língua em que um termo se refere tanto a verde quanto a azul. Ao descobrir que outras línguas possuem palavras separadas para verde e azul, os hereros não se perguntam se os ocidentais veem um mundo diferente do deles. Ao contrário, eles estão bem conscientes da diferença entre a cor de uma folha e a cor do céu – vivendo na terra em que vivem pareceria muito difícil evitar notá-lo uma vez ou outra. Eles acharam a ideia de uma língua ter diferentes palavras para aquelas cores, quando aprenderam que essas línguas existiam, ligeiramente boba.

Alguns ainda poderiam estar abertos a uma ideia de que, em algum nível, há uma escala de sensibilidade a cores na qual os russos estariam mais altos, os falantes de inglês no meio, e os hereros lá embaixo. Essa escala soa desagradável a muitos de nós – e veremos quão frequentemente as implicações whorfianas nos levam a nos depararmos com proposições similarmente incômodas, quando não somos nós que os estudos retratam como fascinantemente sem graça. Parece dificilmente irrelevante que os hereros, em termos de vestuário e decoração, deem todos os indicativos de revelar as cores – incluindo os verdes e os azuis – tanto quanto os ocidentais. Apesar disso tudo, pode ser que um experimento mostrasse que a língua herero liga o cérebro de alguma forma que deixa seus falantes alguns milissegundos mais lentos na distinção entre um giz de cera azul esverdeado e um verde azulado do que uma pessoa comum nas ruas de Chicago ou Stuttgart (o alemão possui grün e blau). Mas nesse caso, nós nos distanciamos de qualquer discussão significativa das diferenças nas almas.

Porém, é a alma o que nos vem à mente como resposta para declarações do tipo: “Mesmo que soe estranho, nossa experiência de um quadro de Chagall na verdade depende em alguma medida de nossa língua ter uma palavra para azul”. Essa é uma das frases mais ressoantes no editorial baseado no livro de Deutscher, que atinge quase 5 mil ocorrências no Google no momento em que escrevo isto. Como tenho atestado, a mídia (incluindo os editores) tendem a encorajar os acadêmicos a colocarem as coisas daquela forma, numa busca interminável por “olhos” (contagem de cliques). Há tantos livros por aí; um tem que fazer um pouco de auê. Editorais – e contracapas – divulgando o livro sempre terão uma retórica entusiasmada que praticamente nenhum texto conseguiria de fato incorporar.

Contudo, frases como aquela sobre o Chagall possuem mais influência do que o próprio livro, especialmente considerando o inerente frisson da hipótese de Whorf, além de elas implicarem algo que os estudos simplesmente não fazem. A falta de uma palavra para azul realmente possui impacto na forma como alguém experiencia um Chagall, mais do que a educação, a experiência, ou mesmo a mera variação entre os indivíduos na receptividade da arte? O editorial diz apenas “em alguma medida”, mas, vamos ser sinceros: uma expressão como essa se perde no meio do apelo picante da afirmação básica. A questão real é “em que medida”? 124 milissegundos?

 

Stoner falando de gramática

De Stoner, de John Williams (Rádio Londres, 2015, p. 146-147). Passagem em que o professor Stoner, um medievalista, comenta sobre o papel da gramática para o homem medieval.

É importante nos darmos conta de que essas artes da retórica, gramática e dialética tinham um significado para um homem do fim da Idade Média e do começo da renascença que nós, hoje, podemos intuir apenas vagamente sem um esforço de imaginação histórica. Para os estudiosos, a arte da gramática, por exemplo, não era meramente uma disposição mecânica das partes do discurso. Desde o fim da época helenística e ao longo da Idade Média, o estudo e a prática da gramática incluíam não só o ‘talento literário’ mencionado por Platão e Aristóteles, mas também, e isso se tornou muito importante , um estudo das técnicas poéticas, uma exegese da poesia tanto na forma quanto na substância, e da precisão estilística, na medida em que esta pode ser distinguida da retórica.

Sentiu que estava se apaixonando pelo assunto, e notou que vários dos alunos se haviam inclinado para a frente e parado de tomar notas. Ele continuou: “Além disso, se a nós do século XX perguntassem qual dessas três artes é a mais importante, poderíamos escolher a dialética, ou a retórica, mas seria muito improvável que escolhêssemos a gramática. No entanto, o acadêmico, e o poeta, romano e medieval quase com certeza consideraria a gramática a mais significativa.”

É por isso que ainda recentemente, gramáticas como a de Cunha e Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lexikon, 2008 [1. ed. 1985]), se auto-definem como “manuais de estilística”. Ou que uma gramática como a de Azeredo (Gramática Houaiss da Língua Portuguesa, Publifolha, 2014) sinta a necessidade de trazer um capítulo sobre estilística (com a boa e velha lista de exemplos de figuras de pensamento, de sintaxe etc.). A gramática, desde Dionísio Trácio (séc. II a.E.C.), é o “conhecimento empírico do comumente dito na obra dos poetas e prosadores”. Ou seja, a gramática é o estudo de uma variedade de língua para se tirar dela um ideal de expressão linguística. Logo, o critério para se decidir o que pode ou não pode é estético.

Claro, essa é uma dimensão do tema… há outros critérios: o histórico (a novidade é ruim), o social (menas é errado porque só pobre com pouca escolaridade fala assim), o escrito é molde para a fala etc.

Isso é só pra lembrar que muitos gramáticos e professores lidam com a questão do errado como se tivesse um valor inerente em certas formas linguísticas, quando não é assim na realidade.

Linguística para quem?

A gente lê por alguns motivos: para aprender com o texto, para tirar dele uma informação e por passatempo, prazer. O livro do Gabriel de Ávila Othero, ‘Mitos de Linguagem’ (Parábola, 2017) devia ser lido por prazer. Mas, a minha experiência me diz que os capítulos do livro serão copiados, lidos e discutidos nos cursos de Letras (talvez em outros, quem sabe) por esse país afora. É muito pouco para um livro dessa natureza, ele deveria pular os muros da universidade e ser lido nas escolas e por curiosos em geral.

Tem altos debates em congressos e publicações especializadas querendo entender por que os linguistas são tão pouco ouvidos ou consultados em debates sobre linguagem na sociedade. A razão, na minha modesta opinião, é que só se escreve introdução à linguística para servir de manual para aluno de Letras (é uma produção bibliográfica pra auto-consumo). Ninguém escreve pra ser lido por professores ou leigos em geral. (Tem poucos, muito poucos na academia que tentam fazer isso). Claro, sempre tem que vá dizer: peraí, meu, quem é que tá interessado em saber sobre pressuposição a não ser aqueles que estudam pressuposição? O problema não é escrever linguística para consumo próprio (apenas para alimentar a indústria do livro que só circula na universidade), o problema é escrever só com esse objetivo.

Voltando ao livro, o barato dele é tocar em temas que a gente não encontra facilmente em outras publicações introdutórias por aí. O livro está organizado em torno de 10 mitos, isto é, concepções equivocadas que os leigos possuem sobre a linguagem. O primeiro capítulo discute o mito “as mulheres falam demais”.

Esse mito é interessante, pois se conecta com o momento em que vivemos em que se discute tanto o papel da mulher e as violências que sofrem. A interrupção (já me peguei fazendo isso), a explicação (masplaining), ou dar mais atenção ao que os meninos falam (como professor num curso em que a maioria é mulher, é difícil diagnosticar isso, mas pode ser que aconteça). Esse tipo de discussão é importante por mostrar atitudes que temos que (nós homens) somos incapazes de perceber que são violências dissimuladas – a ministra do supremo Carmen Lúcia reclamou disso semanas atrás.

Tem outros mitos legais debatidos: ‘a gramática do português não tem lógica’; ‘ninguém fala o português correto’; ‘a língua portuguesa é uma das mais difíceis do mundo’; ‘a ortografia do português é cheia de exceções’; ‘todo mundo tem sotaque, menos eu’. Esses capítulos tratam especificamente de questões relacionadas com a nossa língua. Eu gostei particularmente do capítulo que envolve a lógica (ou a falta dela) da gramática. Os exemplos de definições problemáticas são bem ilustrativos dessa percepção. Um dos problemas é que a gramática escolar ainda se vale de uma metalinguagem que nos foi legada por gregos e romanos. Todos estamos de acordo que coisas como ‘pronomes’ existem em nossa língua. A questão é que definir a classe como ‘a palavra que substitui o nome’ talvez não seja a melhor definição; e que talvez nem tudo que esteja dentro da classe seja pronome.

Como disse o Mattoso Câmara Jr., as línguas humanas tem uma lógica diversa da lógica ordinária. E é tarefa do linguista descobrir essa lógica. Claro, vai ver a gente ainda não descobriu a lógica do funcionamento de algumas regras do português, e tem outras, claro, que são pura invencionice de gramático, como a discussão sobre os porquês, no capítulo que trata da ortografia.

O capítulo é muito bom, discutindo dois aspectos que explicam porque falamos as palavras de um jeito e escrevemos de outro: a fonologia e a etimologia. Nossa escrita é uma tentativa de representar os sons, e ao mesmo tempo quer preservar a herança lexical latina. Não dá pra respeitar 100% as duas coisas. Claro, ele ainda podia ter citado o fato de que no caso português, o Vocabulário Ortográfico elaborado pela Academia Brasileira de Letras é um guia para a grafia das palavras, e que o Acordo tem mais de político que de linguístico. Logo, tem um baita grau de arbitrariedade na decisão sobre a grafia de uma palavra.

Um segundo grupo de textos debate mitos relacionados com conhecimento linguístico geral: ‘a língua dos índios é rudimentar’; por que é difícil aprender uma língua estrangeira depois de adulto; a comunicação animal; a eficácia de tradutores automáticos. Gabriel mostra com detalhes como o mito envolvendo as línguas indígenas é infundado. Não vou entrar nos outros capítulos para não me alongar muito. Acho que os assuntos deles já mostram que são interessantes.

Carlos Alberto Faraco, na conferência de abertura do Congresso da Abralin em março deste ano na UFF, em Niterói, falou justamente da relação entre o conhecimento acadêmico e o conhecimento popular. O papel da ciência é de esclarecer o debate público e político (na medida em que decisões políticas baseadas em argumentos racionais trazem melhorias para a sociedade como um todo). No caso da linguística, livros como os do Gabriel cumprem um papel importante nesse diálogo. Ele é escrito para apresentar de maneira didática questões e resultados de pesquisas que dificilmente estariam acessíveis para um público mais amplo, mesmo para estudantes de Letras.

 

Rocha Lima e as qualidades da boa prosa

No capítulo XXXI de sua Gramática Normativa, Rocha Lima nos presenteia com dicas de escrita, listando as “qualidades da boa prosa”: correção, concisão, clareza, precisão, naturalidade, originalidade, nobreza e harmonia. Pois é, nada que a falta de uma boa teoria de texto/discurso não pudesse ser preenchida com o saber empírico e assistemático.

Antes de falar de correção, ele dá uma cutucada nos modernistas: “É vezo moderno – moderno e elegante – pregar o desamor da tradição gramatical. Dilapidada metodicamente por certa corrente literária deste inquieto século XX, vai a língua portuguesa decaindo, em algaravia bárbara, ao nível de caçanje miserável.” (p. 501)

(É irônico esse ‘moderno e elegante’ entre travessões, como se o adjetivo ‘elegante’ qualificasse uma moda, e como todas as modas, passageira?)

Ao entrar no tema da correção, que foi o que me chamou a atenção, lemos o seguinte, no trecho em que ele discute como as qualidades podem entrar em conflito. Neste caso, para ele, a precisão (a busca pela palavra exata) não pode colidir com a nobreza: “[…] se estivermos, por exemplo, procurando reproduzir, num romance, um diálogo entre personagens ignorantes, não nos será lícito, por amor da nobreza, fazê-las falar sem o pitoresco expressivo da sua linguagem inculta. Isto sem descer, é claro, a torpezas verbais indignas de fixação escrita. Seria confundir ‘linguagem inculta’ com o baixo ‘calão’ dos homens vis.”

Isso dizia o Rocha Lima já lá em 1962. Reforço: ‘torpezas verbais indignas de fixação escrita’. Ele deve ter tido um troço ao ler Macunaíma.

Sherlock Holmes e Watson discutem verossimilhança

Do conto ‘Um caso de identidade’ (Conan Doyle, Sherlock Holmes: obra completa, vol. 1, Nova Fronteira, 2014)

“- Meu caro amigo – disse Sherlock Holmes, quando estávamos sentados diante da lareira em seus aposentos na Baker Street -, a vida é infinitamente mais estranha do que qualquer fantasia concebida pelo homem. Não ousaríamos imaginar coisas que são meros lugares-comuns da existência. Se pudéssemos voar por aquela janela de mãos dadas, pairar sobre esta grande cidade, remover delicadamente os telhados e espiar as coisas esquisitas que estão acontecendo, as estranhas coincidências, os planos, os objetivos contrários, as maravilhosas cadeias de acontecimentos agindo através de gerações e levando aos resultados mais absurdos, isso tornaria toda a ficção, com suas convenções e conclusões óbvias, corriqueira e desinteressante.

-Não estou convencido de que isso seja verdade – respondi. – Os casos relatados nos jornais são, em geral, vulgares e desprovidos de imaginação. Nos relatórios da polícia o realismo chega a um limite extremo, mas o resultado não é, deve-se dizer, nem fascinante, nem artístico.” (p. 294)

E trago aqui Davi Arrigucci Jr. (Teoria da narrativa: posições do narrador. Jornal de Psicanálise, 31(57), 1998) só para o leitor cotejar com o que normalmente se entende por verossimilhança:

“A regra da verossimilhança é: sempre procure o impossível plausível, não o possível incrível. Isso quer dizer que uma coisa muito singular que só acontece comigo não dá boa literatura. Posso pensar: minha vida daria um romance. Não dá! O que dá um romance é uma construção das coisas que podem ser, e não necessariamente das que foram mas não têm poder de convencimento. As coisas que podem ser com tanta dificuldade pela sua singularidade são dificilmente aceitáveis como verossímeis. E a questão da literatura é o que pode ser.” (p. 37)