Linguística para quem?

A gente lê por alguns motivos: para aprender com o texto, para tirar dele uma informação e por passatempo, prazer. O livro do Gabriel de Ávila Othero, ‘Mitos de Linguagem’ (Parábola, 2017) devia ser lido por prazer. Mas, a minha experiência me diz que os capítulos do livro serão copiados, lidos e discutidos nos cursos de Letras (talvez em outros, quem sabe) por esse país afora. É muito pouco para um livro dessa natureza, ele deveria pular os muros da universidade e ser lido nas escolas e por curiosos em geral.

Tem altos debates em congressos e publicações especializadas querendo entender por que os linguistas são tão pouco ouvidos ou consultados em debates sobre linguagem na sociedade. A razão, na minha modesta opinião, é que só se escreve introdução à linguística para servir de manual para aluno de Letras (é uma produção bibliográfica pra auto-consumo). Ninguém escreve pra ser lido por professores ou leigos em geral. (Tem poucos, muito poucos na academia que tentam fazer isso). Claro, sempre tem que vá dizer: peraí, meu, quem é que tá interessado em saber sobre pressuposição a não ser aqueles que estudam pressuposição? O problema não é escrever linguística para consumo próprio (apenas para alimentar a indústria do livro que só circula na universidade), o problema é escrever só com esse objetivo.

Voltando ao livro, o barato dele é tocar em temas que a gente não encontra facilmente em outras publicações introdutórias por aí. O livro está organizado em torno de 10 mitos, isto é, concepções equivocadas que os leigos possuem sobre a linguagem. O primeiro capítulo discute o mito “as mulheres falam demais”.

Esse mito é interessante, pois se conecta com o momento em que vivemos em que se discute tanto o papel da mulher e as violências que sofrem. A interrupção (já me peguei fazendo isso), a explicação (masplaining), ou dar mais atenção ao que os meninos falam (como professor num curso em que a maioria é mulher, é difícil diagnosticar isso, mas pode ser que aconteça). Esse tipo de discussão é importante por mostrar atitudes que temos que (nós homens) somos incapazes de perceber que são violências dissimuladas – a ministra do supremo Carmen Lúcia reclamou disso semanas atrás.

Tem outros mitos legais debatidos: ‘a gramática do português não tem lógica’; ‘ninguém fala o português correto’; ‘a língua portuguesa é uma das mais difíceis do mundo’; ‘a ortografia do português é cheia de exceções’; ‘todo mundo tem sotaque, menos eu’. Esses capítulos tratam especificamente de questões relacionadas com a nossa língua. Eu gostei particularmente do capítulo que envolve a lógica (ou a falta dela) da gramática. Os exemplos de definições problemáticas são bem ilustrativos dessa percepção. Um dos problemas é que a gramática escolar ainda se vale de uma metalinguagem que nos foi legada por gregos e romanos. Todos estamos de acordo que coisas como ‘pronomes’ existem em nossa língua. A questão é que definir a classe como ‘a palavra que substitui o nome’ talvez não seja a melhor definição; e que talvez nem tudo que esteja dentro da classe seja pronome.

Como disse o Mattoso Câmara Jr., as línguas humanas tem uma lógica diversa da lógica ordinária. E é tarefa do linguista descobrir essa lógica. Claro, vai ver a gente ainda não descobriu a lógica do funcionamento de algumas regras do português, e tem outras, claro, que são pura invencionice de gramático, como a discussão sobre os porquês, no capítulo que trata da ortografia.

O capítulo é muito bom, discutindo dois aspectos que explicam porque falamos as palavras de um jeito e escrevemos de outro: a fonologia e a etimologia. Nossa escrita é uma tentativa de representar os sons, e ao mesmo tempo quer preservar a herança lexical latina. Não dá pra respeitar 100% as duas coisas. Claro, ele ainda podia ter citado o fato de que no caso português, o Vocabulário Ortográfico elaborado pela Academia Brasileira de Letras é um guia para a grafia das palavras, e que o Acordo tem mais de político que de linguístico. Logo, tem um baita grau de arbitrariedade na decisão sobre a grafia de uma palavra.

Um segundo grupo de textos debate mitos relacionados com conhecimento linguístico geral: ‘a língua dos índios é rudimentar’; por que é difícil aprender uma língua estrangeira depois de adulto; a comunicação animal; a eficácia de tradutores automáticos. Gabriel mostra com detalhes como o mito envolvendo as línguas indígenas é infundado. Não vou entrar nos outros capítulos para não me alongar muito. Acho que os assuntos deles já mostram que são interessantes.

Carlos Alberto Faraco, na conferência de abertura do Congresso da Abralin em março deste ano na UFF, em Niterói, falou justamente da relação entre o conhecimento acadêmico e o conhecimento popular. O papel da ciência é de esclarecer o debate público e político (na medida em que decisões políticas baseadas em argumentos racionais trazem melhorias para a sociedade como um todo). No caso da linguística, livros como os do Gabriel cumprem um papel importante nesse diálogo. Ele é escrito para apresentar de maneira didática questões e resultados de pesquisas que dificilmente estariam acessíveis para um público mais amplo, mesmo para estudantes de Letras.

 

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Rocha Lima e as qualidades da boa prosa

No capítulo XXXI de sua Gramática Normativa, Rocha Lima nos presenteia com dicas de escrita, listando as “qualidades da boa prosa”: correção, concisão, clareza, precisão, naturalidade, originalidade, nobreza e harmonia. Pois é, nada que a falta de uma boa teoria de texto/discurso não pudesse ser preenchida com o saber empírico e assistemático.

Antes de falar de correção, ele dá uma cutucada nos modernistas: “É vezo moderno – moderno e elegante – pregar o desamor da tradição gramatical. Dilapidada metodicamente por certa corrente literária deste inquieto século XX, vai a língua portuguesa decaindo, em algaravia bárbara, ao nível de caçanje miserável.” (p. 501)

(É irônico esse ‘moderno e elegante’ entre travessões, como se o adjetivo ‘elegante’ qualificasse uma moda, e como todas as modas, passageira?)

Ao entrar no tema da correção, que foi o que me chamou a atenção, lemos o seguinte, no trecho em que ele discute como as qualidades podem entrar em conflito. Neste caso, para ele, a precisão (a busca pela palavra exata) não pode colidir com a nobreza: “[…] se estivermos, por exemplo, procurando reproduzir, num romance, um diálogo entre personagens ignorantes, não nos será lícito, por amor da nobreza, fazê-las falar sem o pitoresco expressivo da sua linguagem inculta. Isto sem descer, é claro, a torpezas verbais indignas de fixação escrita. Seria confundir ‘linguagem inculta’ com o baixo ‘calão’ dos homens vis.”

Isso dizia o Rocha Lima já lá em 1962. Reforço: ‘torpezas verbais indignas de fixação escrita’. Ele deve ter tido um troço ao ler Macunaíma.

Sherlock Holmes e Watson discutem verossimilhança

Do conto ‘Um caso de identidade’ (Conan Doyle, Sherlock Holmes: obra completa, vol. 1, Nova Fronteira, 2014)

“- Meu caro amigo – disse Sherlock Holmes, quando estávamos sentados diante da lareira em seus aposentos na Baker Street -, a vida é infinitamente mais estranha do que qualquer fantasia concebida pelo homem. Não ousaríamos imaginar coisas que são meros lugares-comuns da existência. Se pudéssemos voar por aquela janela de mãos dadas, pairar sobre esta grande cidade, remover delicadamente os telhados e espiar as coisas esquisitas que estão acontecendo, as estranhas coincidências, os planos, os objetivos contrários, as maravilhosas cadeias de acontecimentos agindo através de gerações e levando aos resultados mais absurdos, isso tornaria toda a ficção, com suas convenções e conclusões óbvias, corriqueira e desinteressante.

-Não estou convencido de que isso seja verdade – respondi. – Os casos relatados nos jornais são, em geral, vulgares e desprovidos de imaginação. Nos relatórios da polícia o realismo chega a um limite extremo, mas o resultado não é, deve-se dizer, nem fascinante, nem artístico.” (p. 294)

E trago aqui Davi Arrigucci Jr. (Teoria da narrativa: posições do narrador. Jornal de Psicanálise, 31(57), 1998) só para o leitor cotejar com o que normalmente se entende por verossimilhança:

“A regra da verossimilhança é: sempre procure o impossível plausível, não o possível incrível. Isso quer dizer que uma coisa muito singular que só acontece comigo não dá boa literatura. Posso pensar: minha vida daria um romance. Não dá! O que dá um romance é uma construção das coisas que podem ser, e não necessariamente das que foram mas não têm poder de convencimento. As coisas que podem ser com tanta dificuldade pela sua singularidade são dificilmente aceitáveis como verossímeis. E a questão da literatura é o que pode ser.” (p. 37)

 

Ando lendo

João do Rio (A alma encantadora das ruas, Companhia das Letras, 2008) entendia das coisas.

” A obscuridade da gramática e da lei! Os dicionários só são considerados fontes fáceis de completo saber pelos que nunca os folhearam.” (p. 29)

“A rua é a transformadora das línguas. Os Cândido de Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas para enclausurar expressões; os prosadores bradam contra os Cândido. A rua continua, matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros.” (p. 29)

* * *

Lobo Antunes (via E. Vila-Matas, O mal de Montano, Cosac Naif, 2005) sobre escrever:

“…é como se drogar, começa-se por puro prazer, e acaba-se organizando a vida como os drogados, em torno do vício. E esta é a minha vida. Até quando sofro o vivo como um desdobramento: o homem está sofrendo, e o escritor está pensando em como aproveitar este sofrimento para seu trabalho”. (p. 199)

Estou bêbado desse livro.