Somos também conservadores

É comum que gente por aí acuse os linguistas de serem libertários no quesito Norma Padrão e de pregarem o vale-tudo: não existe mais certo ou errado. Tem quem nos acuse também de negar o lugar da literatura brasileira na escola. O Sírio Possenti vive reclamando disso (nesse post ele contra-argumenta Ferreira Gullar), pois quem acusa os linguistas desse tipo de posição nunca cita um autor para dar credibilidade ao que está dizendo (se cita, como aquele arrogante da Veja que lê os linguistas do jeito que quer, menciona, não cita textualmente, justamente porque sabe que está mentindo, e que o que está atacando não são as ideias, e sim o fato de o linguista x ou y ser de esquerda). Na verdade, se os linguistas que tratam de ensino de gramática fossem lidos com cuidado, se perceberia que o que eles defendem é justamente o ensino da Norma Padrão.

Coletei rapidamente algumas citações para mostrar isso:

Sírio Possenti (Por que (não) ensinar gramática na escola, 1996: 17): “Talvez deva repetir que o adoto sem qualquer dúvida o princípio (quase evidente) de que o objetivo da escola é ensinar o português padrão, ou, talvez mais exatamente, o de criar condições para que ele seja aprendido. Qualquer outra hipótese é um equívoco político e pedagógico.”

Um pouco mais adiante o autor menciona o papel da leitura de diferentes tipos de textos no ensino fundamental e “com muito destaque” de literatura. E no ensino médio, os alunos deveriam entrar em contato com a literatura contemporânea, os clássicos da língua, e os clássicos universais (mesmo que em versões adaptadas).

Carlos Alberto Faraco (Norma culta brasileira, 2006: 157):

“A crítica à gramatiquice e ao normativismo não significa, como pensam alguns desavisados, os abandono da reflexão gramatical e do ensino da norma culta/comum/standard. Refletir sobre a estrutura da língua e sobre seu funcionamento social é atividade auxiliar indispensável para o domínio fluente da fala e da escrita. E conhecer a norma culta/comum/standard é parte integrante do amadurecimento das nossas competências linguístico-culturais, em especial as que estão relacionadas à cultura escrita.”

E sobre o papel dos textos literários (: 161): “[…] a leitura de textos literários é fundamental no universo de quem pretende dominar essa norma – neles, talvez mais do que em qualquer outro tipo de texto, é visível a diferença das linguagens e dos pontos de vista que ampliam nossos horizontes.”

Marcos Bagno (texto online): “nenhum linguista está propondo a substituição das formas tradicionais pelas formas inovadoras. Nem querendo impor formas linguísticas de uma região específica ou de uma classe social específica ao resto da população brasileira. Nem desejando eliminar as inevitáveis diferenças que existem entre as modalidades linguísticas formais e informais, espontâneas e monitoradas, urbanas e rurais etc.
Tudo o que desejamos é, repito, que as formas não-normativas características do português brasileiro e há muito tempo incorporadas na atividade linguística de todos os brasileiros, inclusive dos mais letrados (inclusive dos grandes escritores!), sejam consideradas igualmente válidas e aceitáveis, para que possamos nos comunicar um pouco mais livremente, sem a patrulha gramatiqueira que pesa sobre nossas consciências o tempo todo e não nos deixa usar nossa língua materna em paz.”

Irandé Antunes (Muito além da gramática, 2007: 101) “Vale a pena insistir numa questão central: a de providenciar para o aluno oportunidades de acesso ao padrão valorizado da língua […] Longe de qualquer teoria linguística a orientação de negar a todos os falantes esse aceso. O problema é discernir sobre o que faz parte desse padrão e adotar uma visão não purista, de flexibilidade, de abertura, para incorporar as alterações que vão surgindo […]”

Magda Soares (Linguagem e escola, 1987:78) : “Um ensino da língua materna comprometido com a luta contra as desigualdades sociais e econômicas reconhece, no quadro dessas relações entre a escola e a sociedade, o direito que têm as camadas populares de apropriar-se do dialeto de prestígio, e fixa-se como objetivo levar os alunos pertencentes a essas camadas dominá-lo, não para que se adaptem às exigências de uma sociedade  que divide e discrimina, mas para que adquiram um instrumento fundamental para a participação política e a luta contra as desigualdades sociais.” (O tiozinho da Veja deve se coçar todo quando lê coisas desse tipo)

Considerando tudo isso, eu me pergunto, contra quem Ricardo Cavaliere (A gramática no Brasil, 2014: 92) argumenta, ao afirmar que: “[…] uma semelhante linha de conduta acadêmica vem atribuindo ao texto literário, nos dias atuais, um certo teor de incompatibilidade com o ensino da língua, tendo em vista as naturais peculiaridades que o espírito de literariedade lhe conferem […] (ver também a conferência aqui)

Aliás, o texto todo em que Cavaliere critica os críticos é eivado de afirmações vagas do tipo “semelhante linha de conduta acadêmica”. Como assim, nobre acadêmico? Por que não citar quem faz afirmações dessa natureza? Talvez seja porque ninguém faz.

Paulo Coimbra Guedes em ‘A formação do professor de português: que língua vamos ensinar’ (2006), advoga justamente o papel da literatura brasileira no ensino de língua materna: “É a literatura brasileira que nos ensina que dominar a língua escrita não implica escrever só o que já foi escrito nem escrever só como já se escreveu.”

Sei lá, às vezes acho que é um pouco de preguiça, outro acho que é mau caráter mesmo, pois as pessoas que fazem essas acusações não são ignorantes, sabem do que estão falando (acredito, mas talvez eu esteja sendo ingênuo e elas sejam imbecis mesmo), e sabem também que estão lutando contra um espantalho da proposta (não a proposta real). No fundo, parece aquele medo reacionário frente à diversidade sexual, interpretada pelas pessoas de alma pequena como ‘agora todo mundo tem que virar gay’.

Sobre as redações do ENEM

charge-enem-2Em outros tempos eu me surpreenderia com a celeuma que se criou em torno da correção das redações do ENEM. Hoje penso que não se poderia esperar nada diferente. A imprensa, pelo menos uma parte significativa dela, tem pecado em fornecer ao espectador uma opinião mais balizada sobre os fatos. Veja-se o caso da tragédia em Santa Maria. Nas notícias sobre o caso, o tom geral é “quem vai pra cadeia?”. No final, o que veremos, provavelmente é um pequeno retrato do jeitinho brasileiro de fazer as coisas. Em cidades pequenas todo mundo se conhece, todo mundo tem um amigo em alguma posição de poder que pode falar com outro alguém para afrouxar regras e liberar licenças, mesmo que irregularidades existam. O bom e velho “não dá nada.” Não veremos uma reflexão mais séria sobre as causas e formas de evitar esse tipo de coisa no futuro.

Não tem como esperar que os jornalistas entrevistem alguém que dê uma opinião mais gabaritada. A postura do Marcos Bagno, só dificulta isso, por exemplo. Sua arrogância só pesa contra a academia. Provavelmente ele é o linguista mais conhecido do país. Deveria mostrar mais simpatia. Não sair esbravejando que os jornalistas da Globo são imbecis e que deveriam ser os livros dele. Mesmo o Sírio Possenti (que possui um blog no portal do Terra), por vezes assume uma postura irônica. O artigo que ele escreveu sobre o assunto é uma exceção, eu diria, no seu tom costumeiro. Qual é a imagem que se passa da academia com essa atitude? De qualquer forma, a matéria sensata que saiu no G1 ninguém menciona.

Há duas questões que envolvem a correção das redações: a) houve erro, claro, em dar nota máxima para redações que apresentaram erros ortográficos; b) não há como zerar as redações que fugiram parcialmente do tema. Tentarei explicar essas duas coisas.

É claro que uma redação que apresente erro de ortografia não deveria receber nota máxima. Agora, foi um erro apenas, ou dois? O texto como um todo, como ele se apresenta? Considerando-se os outros critérios, como ele seria avaliado. Essa reportagem não diz isso. O máximo de especificidade que se lê é “uma redação apresenta dois erros de concordância”. Suponha que o problema fosse apenas esse. Que nota a redação tiraria se os pontos tivessem sido descontados? Digamos que 950 de 1000 possíveis? Como o ENEM é uma avaliação nacional, não sei até que ponto ela gera uma classificação e um ordenamento dos “candidatos” (candidatos a quê?), então minúcias não fazem diferença. Pelo menos não a diferença que fazem em um vestibular padrão em que décimos são fundamentais para classificar candidatos muito bem preparados para cursos com concorrência alta. Do meu ponto de vista a reação foi exagerada. Em quantas redações isso aconteceu? Zero vírgula tantos porcento de milhões de redações…

Agora o problema (b): as redações deveriam de fato ter sido zeradas? Segundo essa reportagem, que muito bem detalha o processo da correção, não. A fuga do tema é parcial. Se os sujeitos queriam mesmo ter zerado a prova e mostrado que os corretores não leem a prova, deveriam ser escrito apenas a receita de miojo ou apenas o hino do Palmeiras. Do modo como escreveram, o corretor irá avaliar como fuga parcial. Dará a nota mínima para o domínio do tema, para quesitos de coesão e coerência e estruturação do texto. Os corretores partem do princípio que ninguém que participa do processo está ali de brincadeira, portanto avaliam a redação da forma mais séria possível, considerando dificuldades eventuais que as pessoas possuam no trato com a linguagem escrita. O sistema seria falho se o sujeito tivesse escrito apenas a receita do miojo e tivesse tirado nota 700-800 por exemplo, o que mostraria que a nota foi aleatória.

Um parêntese: As pessoas não entendem que vestibulares existem apenas porque a demanda é maior do que a oferta. Se nos vestibulares se desse zero para toda redação que apresenta fuga parcial do tema, cursos com concorrência pequena não conseguiriam fechar turmas. O vestibular é essencialmente um processo classificatório. A conclusão do Ensino Médio habilita qualquer um a entrar em um curso universitário. Fazer vestibular para cursos que tem concorrência de 1-1, ou menor que isso é uma perda de tempo e desperdício de dinheiro.

As charges que se produziram, as reações dos jornalistas e opinionados por aí são naturais; procuradores enraivecidos moverão ações contra o MEC. Todos estão no seu direito. Nenhum sistema de correção ou avaliação é 100% seguro, pois existe sempre o elemento humano, imprevisível. Nos escandalizamos com vendas de vagas em vestibulares de medicina. Ninguém falou em punir aqueles que compraram as vagas (gente de poder aquisitivo alto, claro), apenas aqueles que fraudam o processo. Pagar por uma vaga em uma universidade não é fraudar o processo também? Já o erro humano, ou a ingenuidade de algum corretor, que acreditou não ter problema em dar nota máxima para uma redação que apresentasse apenas um ou dois erros de ortografia, é natural e sempre irá acontecer. Nossa tendência natural de generalizações irá concluir que todos os corretores são imbecis e o processo todo de avaliação é uma bosta. Um assassino que saia de um julgamento declarado inocente nos dará a impressão que todo o sistema judiciário é uma piada. Simplesmente esquecemos de todos os outros 99% dos casos em que ele funciona e condena assassinos. O objetivo dos “candidatos” que tentaram mostrar que a avaliação é falha não foi bem sucedido, como tentam mostrar certas reportagens. Na verdade, o que essa pequena experiência nos mostra é justamente o oposto. Que os critérios, por mais que o elemento de subjetividade seja inevitável, foram bem aplicados e as redações foram avaliadas com cuidado.

Fechem as escolas! Uma resposta a Ferreira Gullar

Reproduzo abaixo o artigo de Ferreira Gullar, publicado na Folha, no último domingo 25/03. O artigo recebeu uma réplica de Hélio Schwartsman, hoje. O texto do poeta segue em itálico, os negritos são meus. Eu volto depois, pra comentar.

DA FALA AO GRUNHIDO – Ferreira Gullar

DESCONFIO QUE, depois de desfrutar durante quase toda a vida da fama de rebelde, estou sendo tido, por certa gente, como conservador e reacionário. Não ligo para isso e até me divirto, lembrando a célebre frase de Millôr Fernandes, segundo o qual “todo mundo começa Rimbaud e acaba Olegário Mariano”.

Divirto-me porque sei que a coisa é mais complicada do que parece e, fiel ao que sempre fui, não aceito nada sem antes pesar e examinar. Hoje é comum ser a favor de tudo o que, ontem, era contestado. Por exemplo, quando ser de esquerda dava cadeia, só alguns poucos assumiam essa posição; já agora, quando dá até emprego, todo mundo se diz de esquerda.

De minha parte, pouco se me dá se o que afirmo merece essa ou aquela qualificação, pois o que me importa é se é correto e verdadeiro. Posso estar errado ou certo, claro, mas não por conveniência. Está, portanto, implícito que não me considero dono da verdade, que nem sempre tenho razão porque há questões complexas demais para meu entendimento. Por isso, às vezes, se não concordo, fico em dúvida, a me perguntar se estou certo ou não.

Cito um exemplo. Outro dia, ouvi um professor de português afirmar que, em matéria de idioma, não existe certo nem errado, ou seja, tudo está certo. Tanto faz dizer “nós vamos” como “nós vai”.

Ouço isso e penso: que sujeito bacana, tão modesto que é capaz de sugerir que seu saber de nada vale. Mas logo me indago: será que ele pensa isso mesmo ou está posando de bacana, de avançadinho?

E se faço essa pergunta é porque me parece incongruente alguém cuja profissão é ensinar o idioma afirmar que não há erros. Se está certo dizer “dois mais dois é cinco”, então a regra gramatical, que determina a concordância do verbo com o sujeito, não vale. E, se não vale essa nem nenhuma outra -uma vez que tudo está certo-, não há por que ensinar a língua.

A conclusão inevitável é que o professor deveria mudar de profissão porque, se acredita que as regras não valem, não há o que ensinar.

Mas esse vale-tudo é só no campo do idioma, não se adota nos demais campos do conhecimento. Não vejo um professor de medicina afirmando que a tuberculose não é doença, mas um modo diferente de saúde, e que o melhor para o pulmão é fumar charutos.

É verdade que ninguém morre por falar errado, mas, certamente, dizendo “nós vai” e desconhecendo as normas da língua, nunca entrará para a universidade, como entrou o nosso professor.

Devo concluir que gente pobre tem mesmo que falar errado, não estudar, não conhecer ciência e literatura? Ou isso é uma espécie de democratismo que confunde opinião crítica com preconceito?

As minorias, que eram injustamente discriminadas no passado, agora estão acima do bem e do mal. Discordar disso é preconceituoso e reacionário.

E, assim como para essa gente avançada não existe certo nem errado, não posso estranhar que a locutora da televisão diga “as milhares de pessoas” ou “estudou sobre as questões” ou “debateu sobre as alternativas” em vez de “os milhares de pessoas”, ” estudou as questões” e “debateu as alternativas”.

A palavra “sobre” virou uma mania dos locutores de televisão, que a usam como regência de todos os verbos e em todas as ocasiões imagináveis.

Sei muito bem que a língua muda com o passar do tempo e que, por isso mesmo, o português de hoje não é igual ao de Camões e nem mesmo ao de Machado de Assis, bem mais próximo de nós.

Uma coisa, porém, é usar certas palavras com significados diferentes, construir frases de outro modo ou mudar a regência de certos verbos. Coisa muito distinta é falar contra a lógica natural do idioma ou simplesmente cometer erros gramaticais primários.

Mas a impressão que tenho é de que estou malhando em ferro frio. De que adianta escrever essas coisas que escrevo aqui se a televisão continuará a difundir a fala errada cem vezes por hora para milhões de telespectadores?

Pode o leitor alegar que a época é outra, mais dinâmica, e que a globalização tende a misturar as línguas como nunca ocorreu antes. Isso de falar correto é coisa velha, e o que importa é que as pessoas se entendam, ainda que apenas grunhindo.

VOLTEI. Vou comentar alguns trechos específicos, que contêm alguns equívocos.
a) Outro dia, ouvi um professor de português afirmar que, em matéria de idioma, não existe certo nem errado, ou seja, tudo está certo. Tanto faz dizer “nós vamos” como “nós vai”.
Cientificamente ninguém conseguiu provarque a pessoa que diz “nós vamos” é mais inteligente ou mais competente para o que quer que seja do que a pessoa que diz “nós vai” e esteta algum consegue provar que uma é mais bonita que a outra. Critérios do tipo ‘a primeira opção soa melhor’ tampouco são justificáveis. Isso é uma coisa. Agora, as duas opções expressam exatamente a mesma informação, e é disso que se fala quando se diz que não há certo ou errado. É um equívoco imaginar que a escola não deva ensinar ao garoto que lá chega falando “nós vai” que existe a forma “nós vamos”. Para o oposto, no caso do aluno que chega falando “nós vamos”, ele precisa entender que o coleguinha que fala “nós vai”, ou “a gente vai/vamos” não é melhor ou pior que ele. Acontece que a escrita formal exige que se use uma forma apenas “nós vamos”, e essa é a considerada correta por motivos políticos. E não venham me acusar de que isso é papo de esquerda, porque não é. É um fato histórico. Escolheu-se a variedade culta em detrimento do coloquial para ser o padrão brasileiro, e se isso não é um fato político é o que então? (Sugestão de leitura: Carlos A. Faraco “Norma culta brasileira”, vai ser esclarecedor)
b) A conclusão inevitável é que o professor deveria mudar de profissão porque, se acredita que as regras não valem, não há o que ensinar.
Outro equívoco do poeta. Suponha que abolíssemos o certo e o errado no ensino de português. Há quem defenda que se substituam esses termos por ‘adequado’ e ‘inadequado’, suponho que era disso que o tal professor (quem mesmo, Gullar?) estava falando, mas provavelmente Gullar enfureceu-se só de ouvir que não existe certo e errado e nem se deu ao trabalho de ouvir o restante. Pois bem, pode-se demonstrar facilmente que há tanta concordância verbal em “nós vamos” quanto há em “nós vai”. Só que a concordância que o indivíduo (ou a comunidade de indivíduos) usa não é a considerada ‘correta’. O que faria dela a ‘errada’ por default, não por critérios científicos. Os falantes não inventam regras gramaticais, eles apenas seguem as regras que a sua comunidade segue (é disso que o Hélio S. fala). Querer que um sertanejo ou um gari fale “nós vamos” é o mesmo que pedir que eles usem terno e gravata no serviço.
c) Devo concluir que gente pobre tem mesmo que falar errado, não estudar, não conhecer ciência e literatura? Ou isso é uma espécie de democratismo que confunde opinião crítica com preconceito?
Repito aqui as palavras de Sírio Possenti em “Por que (não) ensinar gramática na escola”: “O objetivo do ensino de português na escola é ensinar o português padrão [ou a norma padrão ou o português culto], ou, o de criar condições para que ele seja aprendido. Qualquer outra hipótese é um equívoco político e pedagógico.” (p. 17). Repare que ensinar o português padrão/culto não exclui a possibilidade de se reconhecer que o português falado no Brasil possui regras variáveis do tipo discutido pelo poeta, e falar disso faz parte do trabalho do professor. Ensinar quando se pode usar uma e quando se deve usar a outra é tarefa básica.
d) Uma coisa, porém, é usar certas palavras com significados diferentes, construir frases de outro modo ou mudar a regência de certos verbos. Coisa muito distinta é falar contra a lógica natural do idioma ou simplesmente cometer erros gramaticais primários.
Acho que estamos diante de uma contradição aqui. Em parágrafo anterior o autor afirma estar consciente de que as línguas mudam. No trecho que eu destaquei ele se posiciona contra a mudança. Quem são os falantes para mudarem a língua, quem eles pensam que são! Me desculpe aí, Gullar, mas eu assisto filmes, jogos de futebol e outras coisas (espero que se ele me ler, entenda a ironia). A lógica natural do idioma é a mudança, e o que você, ou eu deveria dizer, Vossa Mercê, está chamando de ‘erros gramaticais primários’ são um simples reflexo dessa mudança.
e) Isso de falar correto é coisa velha, e o que importa é que as pessoas se entendam, ainda que apenas grunhindo.
Acho que ficou clara a minha posição sobre esse história de certo/errado. Eu só não entendi de onde ele tirou essa história de que quem fala “nós vai” ou “estudou sobre as questões” está grunhindo. Vai ver ele mudou deliberadamente o significado do verbo ‘grunhir’ e não nos contou. Epa! Quem ele pensa que é pra mudar assim o significado de uma forma da língua!
Resumindo a ópera: na verdade falar em certo/errado ou adequado/inadequado é a mesma coisa, sendo cru e rasteiro. À linguística o que é da linguística, à escola o que é da escola, dirão alguns, como o prof. Carlos Moreno (que possui um compromisso abstrato com a cultura, como se quem defendesse a valorização dos falares coloquiais fosse contra a cultura dita erudita, ou vai me dizer que Patativa do Assaré não é cultura?). O papel da linguística é justamente mostrar que há tanta gramática e concordância em “nós vamos” quanto em “nós vai” ou “a gente vai/vamos”. Por que é tão difícil compreender que é justamente esse o papel da escola, mostrar que dentre as quatro opções disponíveis no sistema da língua só uma é aceita como a correta em termos de escrita. Isso é democracia, não achar que quem fala “nós vai” é primitivo e ignorante, ou devo interpretar o verbo ‘grunhir’ aqui como um elogio?. Na fala temos outra situação. Ou vai me dizer que o Ferreira Gullar se arrepia todo quando ouve o Emílio Zurita dizer “A gente vai agora ver uma matéria que…”. “A gente vai” é sim a norma no português coloquial televisivo. É errado? Errado pra quem? Por que seria errado? Só porque é novo?

Norma Culta Brasileira

A recente polêmica envolvendo os livros didáticos que supostamente ensinavam errado mostrou o profundo fosso que há entre a academia e a sociedade. O livro de Carlos Alberto Faraco, Norma Culta Brasileira: desatando alguns nós (Parábola, 2008), tenta analisar algumas questões extremamente interessantes. A principal delas é esclarecer a diferença que há entre o que ele chama de Norma Culta/comum/standard e o que chamou de Norma Curta. Bem como, tenta entender porque tem um razoável espaço de diferença entre elas. Faraco lecionou na UFPR, onde também foi reitor, e atualmente está aposentado. É autor de inúmeros livros, entre eles Oficina de Texto, com Cristóvão Tezza, e Estrangeirismos: guerras em torno da língua, coletânea de artigos de vários linguistas brasileiros sobre o projeto de lei de autoria do deputado Aldo Rebelo, que queria regular o uso de estrangeirismos no país.

O livro é dividido em quatro capítulos. O primeiro busca caracterizar as noções de ‘norma’, e como deveríamos entender esses conceitos para que algumas coisas fiquem mais claras, quando da discussão do problema. Em seguida, Faraco busca as origens da nossa norma curta, revisitando uma polêmica que envolveu José de Alencar e outros intelectuais brasileiros no século XIX. O terceiro capítulo reconta a história da gramática no ocidente e mostra como esse tipo de pensamento é vivo ainda em nosso ensino. Por fim, o quarto capítulo propõe uma pedagogia da variação linguística, não muita distanciada do trabalho que autores como Marcos Bagno e Stela Maris Bortoni-Ricardo já vêm propondo.

A primeira questão não é tão simples, embora a maestria argumentativa de Faraco torne o tema muito mais claro para o leitor. O sentido de ‘norma’ é entendido de duas formas: o que é normal e o que é normativo. Dessa forma, ele procura distinguir a norma culta/comum/standard do que vai chamar de norma curta. A primeira é o registro do uso linguístico de fato atestado pela análise da fala e da escrita dos nossos falantes/escritores cultos, isto é, indivíduos com terceiro grau e residentes em centros urbanos. A segunda é a norma como imposta pelas nossas gramáticas. O autor dá inúmeros exemplos que mostram que em grandes áreas da nossa gramática temos duas possibilidades de se realizar uma construção linguística. Tem uma mais valorizada pela tradição e outra que é utilizada livremente. O que acontece é que os defensores da norma curta frequentemente tomam para si o dever de regular a língua e condenar formas plenamente aceitáveis e correntes no uso dos falantes cultos. O que torna a língua idealizada pela norma curta algo inalcançável, dado que mesmo os usuários cultos da língua não a utilizam.

As raízes dessa posição conservadora são resgatadas do séc. XIX, quando da redação do código civil e da polêmica envolvendo José de Alencar, frequentemente criticado por gramáticos, por usar construções do português coloquial da época. Na construção do nosso ideal de nação, da nossa identidade linguística, a nossa elite voltou os olhos para os escritores portugueses, não para a língua de fato usada pelos nossos intelectuais. A partir do momento em que nosso molde de língua passa a ser a intelectualidade portuguesa, é natural que se passe a criticar Alencar, e todos aqueles que estavam incorporando na sua escrita marcas da oralidade do português usado pelos brasileiros. Tanto é assim, que ainda hoje muitas gramáticas se recusam a listar o ‘você’ como pronome pessoal, apesar dele ser usado tanto aqui quanto em Portugal.

No terceiro capítulo, o autor conta a história do pensamento gramatical ocidental, desde o nascimento das gramáticas gregas até o surgimento das gramáticas das línguas europeias. Na raiz dessas gramáticas, estava o ideal de escrita que os usuários comuns deveriam aspirar, isto é, escrever como os bons escritores de algum período áureo da nossa história literária. As línguas, dizem os gramáticos, estão marchando para a decadência, e deveríamos nos espelhar nos bons escritores do nosso período clássico para escrevermos e falarmos melhor. Homero era o ideal dos gregos, Virgílio dos romanos, Camões, Padre Antônio Vieira e os portugueses do romantismo são os nossos. Daí a busca de exemplos nos escritores. Essa busca não é ingênua, os gramáticos tendem a buscar exemplos que ilustrem a regra que procuram defender, não o uso efetivo. Assim, eles veem o que querem ver, não o que está lá. Nisso também reside uma redução grosseira: anula-se as diferenças entre o português brasileiro e o português europeu. Se na escrita essa diferença é pequena (tanto é que lemos Saramago sem problema algum), o mesmo não acontece com a fala. E outro equívoco nasce aí, não falamos como escrevemos, e nem a escrita deve ser o guia para a pronúncia. A escrita é uma convenção. Veja o caso do acento na sílaba tônica. Apenas algumas palavras recebem acento nessa sílaba (as proparoxítonas, algumas oxítonas e algumas paroxítonas, por ex.: saúde). As palavras ‘assim’ e ‘aço’ possuem o mesmo som /s/, mas são escritas de forma diferente. A crise do ensino de língua portuguesa é diagnosticada como consequência do novo contingente de alunos que a escola pública brasileira começou a receber com a democratização do acesso à educação e do processo histórico de desvalorização do trabalho docente. Se a política pública do ensino de língua portuguesa mudou ao longo do tempo, não podemos afirmar que os conteúdos tenham mudado, tampouco a forma como eles são ensinados. O currículo é praticamente o mesmo desde o início do século XX, baseado no currículo montado para o Colégio Pedro II, que abrigou como seus professores grandes nomes da nossa tradição gramatical.

O capítulo que encerra o livro propõe que a escola discuta a variação, de modo que o aluno que chega na escola falando uma variedade do português diferente da norma culta/comum/standard seja capaz de dominá-la e usá-la com proficiência nas diferentes situações de comunicação que a sociedade demanda. Se comunicar com propriedade, modernamente, não tem sido encarado apenas como estar de acordo com a norma culta, mas também estar de acordo com a situação de comunicação. O domínio da gramática e de sua metalinguagem são condições necessárias, mas não suficientes. O problema passa também pelo fato dos nossos manuais de ensino ainda não terem incorporado os avanços da descrição do português que a linguística tem proporcionado. A incorporação desses estudos ainda é bastante limitada, quando não escolhida a dedo. Basta ver as referências das gramáticas atuais, como a de Faraco, Moura e Maruxo (Gramática, Ática) ou a do Bechara (Moderna Gramática Portuguesa, Lucerna/Nova Fronteira). Se se usam referências de trabalhos de linguistas, por que uns e não outros? E por que essas referências se encontram em notas de rodapé?

O livro possui uma série de méritos, e destaco aqui os dois primeiros capítulos como contribuição fundamental. Poucos autores discutiram o problema da norma com tanta clareza e objetividade. A coletânea de artigos organizada por Bagno, Linguística da Norma (Loyola, 2003) já foi um grande passo nesse sentido. E o livro de Faraco vem engrossar esse conjunto de estudos que procura entender porque ainda é tão forte na nossa sociedade essa crença mitológica de que os falares que não estão de acordo com a norma curta são estropiados ou errados, quando mesmo os usuários cultos da língua não a seguem. A polêmica toda em torno do livro didático fortalece ainda mais os argumentos de autores como Kanavillil Rajagopalan (Por uma linguística crítica, Parábola, 2003), que defendem que a linguística se aproxime mais da sociedade. Cada vez mais percebo que escrever livros e artigos em jornais de grande circulação não parece ser mais o suficiente. A gramática, como muitos já afirmaram, está ao lado das religiões. Tem uma verdade que ela nos traz e que é incontestável, mesmo por cientistas. A sociedade não consegue perceber que grande parte das regras ali impostas são arbitrárias, e que basta consultar duas ou três fontes para perceber que podemos encontrar facilmente divergências, principalmente em relação à regência verbal.

Nesse contexto, entendo como fundamental o papel do linguista na universidade. É ele quem forma professores. Assim, a educação linguística da sociedade passará necessariamente pela chancela dos professores que as universidades formam. Se queremos que a sociedade nos compreenda e respeite, precisamos formar professores que eduquem melhor a sociedade, que proporcionem uma educação do respeito linguístico e do uso efetivo das diferentes instâncias de uso da linguagem na sociedade. Ensinar a metalinguagem pode (e muitos diriam que deve) também ser tarefa básica. Se temos professores saindo dos nossos cursos de letras que não sabem a diferença entre ensinar a língua e ensinar sobre a língua, aí temos um problema que dificilmente será solucionado com livros de divulgação e artigos em defesa da diversidade.

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Na revista Piauí desse mês, n. 75, Clara Becker entrevistou Evanildo Bechara. Na página 50 ela escreve o seguinte: “Mas a disciplina que mais gostava era a matemática.”

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Sírio Possenti disse o seguinte na sua coluna do dia 09 de junho:

“Tem-se lido, nas últimas semanas, que a escola não deve ensinar lingüística, mas português (ou gramática). Ora, tanto as diversas teorias lingüísticas quanto as diversas gramáticas têm duas faces: adotam uma teoria sobre a linguagem e desenvolvem ou seguem métodos de descrição e explicação dos dados. As gramáticas não só ensinam como se deve falar e escrever, mas também ensinam (empurram goela abaixo) que há passivas sintéticas, sujeitos ocultos, objetos diretos pleonásticos, que os substantivos designam seres e os adjetivos, qualidades etc. (sem análise de dados, sem nenhum argumento convincente). A lingüística faz a mesma coisa: cada teoria tem sua “filosofia” da linguagem e sua abordagem descritiva e explicativa (acho que argumenta melhor). Se se pode ensinar gramática (descritiva), por que não ensinar linguística? Para sonegar conhecimento?”

Dá até pra imaginar um contra-argumento de um gramático…

O Retorno de Jedi

Apesar do título, o post não vai falar de Guerra nas Estrelas. É só pra comentar alguns fatos ocorridos recentemente:

– Ataliba Teixeira de Castilho foi entrevistado por uma TV universitária, da UNIVESP. O vídeo está ali em cima.

– Antônio Gois, que pesquisou, apresenta dados de pesquisas que mostram que “Mesmo falantes cultos não seguem a norma padrão

No site do MEC, há um conjunto de artigos de vários autores, alguns já linkados aqui, mas felizmente reunidos agora no portal do ministério.

– O CQC de ontem cometeu a estupidez de falar do assunto e o que conseguiu foi apenas repetir as mesmas idiotices, Felipe Andreoli entrevistou Juca Kfouri, pego meio de surpresa (isso quer dizer que Felipe estava em Higienópolis, área nobre de São Paulo, e provavelmente em uma escola de elite, claro), ele deveria ter recomendado ao Felipe o que ele mesmo fez, entrevistar o Sírio Possenti, ou mesmo dar um pulo até a USP e falar com quem entende do assunto;

Reinaldo Azevedo, o iluminista, com sua elegância e humor sutil, se recusa a admitir que está errado, pelo contrário, continua atacando o livro, o governo, Marcos Bagno e o MEC. Normal, arrogantes nunca admitem tal coisa;

– Tô meio cansado dessa história toda, que parece só mais um ardil dos conservadores para atacarem o governo. Não que ele não deva ser criticado, só que pelo erros que de fato comete, não pelas coisas positivas.

Juca entrevista Sírio Possenti

O programa é de 2007, mas vale (e muito) a pena dar uma olhada. Principalmente os desavisados, que acham que sabem tudo sobre como funcionam as línguas humanas, ou o português brasileiro e como ele deve ser ensinado.

O prof. Antônio Carlos Xavier (UFPE) também escreveu um texto no seu blogue comentando as declarações de um jornalista, Merval Pereira, mostrando que estão equivocadas.

O senador Paulo Bauer (PSDB-SC) propõe que o MEC recolha o livro didático. Só pra constar, o senador é formado em administração de empresas e ciências contábeis e foi secretário estadual da educação de SC (um dos estados em que o professor recebe um dos piores salários do país e que se recusa agora a pagar o piso nacional). Deve conhecer tanto de educação que nunca leu os parâmetros curriculares nacionais ou estaduais.

Abre aspas

Carlos Alberto Faraco, na Gazeta do Povo:

“O tom geral é de escândalo. A polêmica, no entanto, não tem qualquer fundamento. Quem a iniciou e quem a está sustentando pelo lado do escândalo, leu o que não está escrito, está atirando a esmo, atingindo alvos errados e revelando sua espantosa ignorância sobre a história e a realidade social e linguística do Brasil.”

Sírio Possenti, na sua coluna no site (ou saite?) Terra:

“o linguista diz que a escola deve ensinar a dizer Os livro? Não. Nenhum linguista propõe isso em lugar nenhum (desafio os que têm opinião contrária a fornecer uma referência). Aliás, isso não foi dito no tal livro, embora todos os comentaristas digam que leram isso.”

Outro texto do Sírio, lamentando a dificuldade dos linguistas de se comunicar com a sociedade:

“O que me consola (ou desconsola de vez) é que, sempre que tive ocasião de dizer a algum físico que invejava sua sorte, porque as notícias sobre o que eles fazem são fiéis, ouvi invariavelmente a mesma resposta sardônica: “você acha isso porque não sabe física”.”

Maria Marta Pereira Scherre (2005), no livro “Doa-se lindos filhotes de poodle: variação linguística, mídia e preconceito”:

“…não devemos perder de vista a possibilidade de podermos contribuir para a codificação de uma norma mais realista, mais interessante, que contemple valores diversos, que reflita um pouco mais a nossa linguística e que restitua aos nossos alunos (ou que pelo menos não retire) o prazer de estudar português, dando vez à pluralidade de normas…

não sou contra a gramática normativa (nenhum lingüista tem essa postura): sou contra, sim, sua veneração cega, que gera necessariamente seu uso equivocado, humilhando o ser humano por meio do que ele tem de mais característico: do dom de dominar a sua língua.” (SCHERRE, 2005, p. 71).

Os grifos são meus, só para esclarecer algumas coisas.

* * *

Mônica Valdvogel entrevista Cristóvão Tezza e Marcelino Freire. Ela tenta gerar polêmica e sua fala só revela o seu profundo desconhecimento do assunto. Ou seja, uma jornalista profissional não é capaz de dar uma opinião melhor fundamentada do que aquela que seu tio dá no jogo de dominó com os amigos. Esse é o padrão Globo de jornalismo, que fala que nosso aluno não entende o que lê… pois olha, 90% dos jornalistas também não entenderam nada do que leram.

Ela fala em “escolha”. Só existe escolha quando há consciência das possibilidades. Se eu falo “assisti o filme” estou seguindo uma regra, diferente daquela forçada e fictícia (ou seja, inventada, decorada) daqueles que falam (e duvido aqui que alguem fale, embora alguns escrevam) “assisti ao filme”. Espero que ela tenha aprendido alguma coisa.