Colocação pronominal: caso 1

Nesta semana falei de colocação pronominal na aula de sintaxe. Pelas leituras que fiz e por estar com o assunto na cabeça, acabei ficando com os olhos e ouvidos atentos a isso. Foi assim que encontrei o caso abaixo (tem outro, que vai ficar pra um próximo post).

Apareceu na minha timeline no Twitter a seguinte frase, uma resposta da Claro Brasil a um consumidor reclamando do serviço. “Conta pra gente por DM o que está acontecendo, ok?! Queremos lhe ajudar!” Há algumas coisas interessantes no segmento todo, mas vou focalizar apenas no pronome. Talvez ele passe despercebido para a maioria dos falantes. Mas ele é um típico caso de uso inadequado do pronome lhe (pelo menos se levarmos à risca os gramáticos normativos). Essa forma oblíqua do pronome de terceira pessoa deveria ocorrer apenas para substituir objetos indiretos. Paguei a dívida ao João/Paguei-lhe a dívida (exemplo de Cegalla, 1985). A forma que o pronome de terceira pessoa assume como objeto direto é o (e suas variantes no/lo e respectivas flexões de gênero e número – nunca entendi porque se listam as variações flexionais). O problema é que tal forma do pronome de terceira pessoa já não existe mais no português vernacular, isto é, não é português brasileiro coloquial, e isso em todas as classes sociais e rincões pelo menos é a minha impressão. Talvez lá nos corredores da ABL ainda se escute um o bem empregado. Pra aprendermos o uso de o temos que ir pra escola.

Antenor Nascentes (Letras, v. 11, 1960, clica aqui) já nos anos 60 comentava o que chamou de lheismo: a tendência de se regularizar o sistema de pronomes oblíquos com o lhe tomando o lugar de o. Notem as outras pessoas, primeira e segunda, possuem apenas uma forma para o acusativo e para o dativo: me e te. Segundo ele, essa tendência se manifestou no espanhol e não era novidade na sua época. Escritores do séc. XVI usavam alguns verbos com dupla colocação. Podia-se ler no Camões Este que socorrer-lhe não queria (Lusíadas), ou em Camilo Já tinha poucos amigos que o socorressem (Serões…). No início do séc. XIX, Francisco de Morais, em ‘Epítome da gramática portuguesa’, apontava como erro as colocações eu lhe amo, eu lhe adoro, no lugar de eu o amo, eu o adoro. Se o leitor se interessar por mais exemplos, leia o texto todo. Ele tem exemplos de Machado de Assis a Guimarães Rosa.

Vejam que a explicação para o uso de lhe no lugar de o vinha de uma analogia com o aconteceu no espanhol. Talvez ele não tenha se dado conta que o que também poderia estar interferindo era a baixa frequência do uso da forma acusativa do pronome. Com o seu desaparecimento, imagino, aí já sou eu hipotetizando (e como sempre digo, alguém mais esperto já deve ter dito isso antes e melhor que eu em algum lugar), que o lhe vem conferir formalidade a uma estrutura que normalmente seria preenchida por um pronome reto: ele (e suas variantes). Como a polícia gramatical está sempre em cima desse uso (não se usa pronome do caso reto na posição de objeto), o preenchimento por lhe é o que soa mais ‘certo’ para aqueles que não dominam o uso da forma acusativa o.

Tem gente que fica irritada com esse uso (clica aqui). O autor (ou autora) do texto atribui a disseminação do lhe pelo fato de ele ser característica de fala de uma personagem nordestina da novela das oito na época, Senhora do Destino (interpretada por Suzana Vieira). Não há motivo para destempero.

Eu jogo no time do Antenor Nascentes: “Até hoje os nossos gramáticos se tem recusado a admitir êste fato da língua. A quem conhece a mentalidade retrógrada e ultraconservadora dos gramáticos o fato não parece estranho. Os que, respeitando embora os ditames razoáveis da gramática, olham para a evolução natural da língua e aceitam os fatos consumados contra os quais é inútil lutar, pensam de outro modo e admitem lhe como objeto direto. Eu pertenço a êste número”.

Pois é, Antenor, mais de 50 anos depois e ainda nossos gramáticos ainda dizem que isso é errado. Mas é só explicar pra moçada o que está acontecendo que tá tudo certo. Erar é umano. Ainda mais quando há uma lacuna considerável entre o que falamos e o que devemos utilizar em situações monitoradas (principalmente de escrita).

N.B.: Dos gramáticos que consultei, Cegalla, Cunha & Cintra, Faraco, Moura e Maruxo, nenhum faz menção ao uso de lhe como objeto direto (pelo menos se os li corretamente ou procurei nos lugares certos).

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