Lendo Conan Doyle

Não sei por que demorei trinta anos pra ler as histórias do Sherlock Holmes. Talvez algum preconceito bobo, talvez alguma outra urgência de leitura, sei lá. Talvez tenha sido melhor assim. Acho que a gente tem que estar na idade adequada pra ler certos livros. De que me adiantaria ter lido Madame Bovary aos 18? (Li aos 28). Vai ver eu li na adolescência e não me lembro. Por isso eu tinha a sensação de que devia pra mim mesmo a leitura das aventuras da dupla saída da mente de Arthur Conan Doyle. O que segue abaixo são notas de leitura, antes de qualquer coisa (se é que posso chamar disso as frases soltas abaixo).

O narrador é sempre o Watson. Apenas em Histórias de Sherlock Holmes (1927) há duas histórias narradas por Sherlock. Isso cria efeitos interessantes, pois Watson possui uma óbvia admiração pelos talentos de Holmes e a maioria dos contos começa com o narrador dizendo que aquele é um dos casos mais esquisitos, bizarros ou interessantes/curiosos que o detetive já tinha enfrentado. A minha impressão é que Watson é sempre acessório nas histórias. Algumas poucas vezes ele é usado como instrumento ou como isca. Acho que apenas em O cão dos Baskerville o seu papel na história é mais decisivo. Na maioria delas, se Watson não estivesse lá, não faria diferença. De qualquer modo, Doyle criou um dos personagens mais cativantes da literatura universal e o fato de gostarmos dele (tá, acho que gostamos do Watson também) ainda hoje diz alguma coisa sobre a qualidade da sua literatura (embora os méritos narrativos sejam discutíveis: é sempre a mesma estrutura, clichês, Watson e Holmes não possuem grandes dilemas morais etc.).

Digamos que seja o espírito do tempo. Mas a arrogância e superioridade de Holmes e Watson é algo marcante em muitas histórias. Principalmente se dela possuem papel decisivo negros, sulamericanos ou indianos. Invariavelmente são retratados em comparação a animais, são chamados de selvagens, intempestivos e pouco racionais. Tirando as mulheres (geralmente muito bonitas e jovens), os homens são feios e grotescos.

Falando em mulheres, Watson se casa num dos primeiros livros (O sinal dos quatro? Ou Um estudo em vermelho?) e depois sua mulher raramente é mencionada. Watson destaca em vários momentos que Holmes não gosta de mulheres (os motivos são variados: pouco confiáveis, passionais, imprevisíveis, não racionais etc.). Já Watson parece se impressionar facilmente com a beleza das mulheres que cruzam o caminho deles.

Mas talvez seja impressão minha. Holmes casar só lhe traria problemas, eu acho. Como primeiro super-herói da literatura, ter que lidar com os afazeres de uma vida familiar só complicaria sua vida (por isso os super-heróis não casam). Seus inimigos poderiam usar sua mulher e filhos como alvo, por exemplo.

Há também uma série de traços que tornam Holmes pitoresco. Nos primeiros livros ele ainda usa cocaína. Depois isso desaparece. Talvez seja a influência de Watson, que reprovava o costume, ou a mudança de valor social no uso da droga. Outra coisa que notei, a famosa frase, “elementar, meu caro Watson” nunca aparece nos livros. Ela aparece uma vez, e sem o “caro Watson”. Na verdade, segundo pesquisei, ela foi criação de Edith Meiser, que escreveu The New Adventures of Sherlock Holmes entre 1939 e 1947 para um programa de rádio da BBC. O último livro que Conan Doyle publicou coligindo as histórias de Watson e Holmes foi publicado em 1927. O autor faleceu em 1930.

Não há grandes reflexões filosóficas. O narrador de Watson é objetivo e sabe criar a aura de mistério que uma boa história policial precisa. Embora, o narrador claramente narra coisas que testemunhou e cujo desfecho lhe é conhecido. Apesar disso, há trechos legais, como esse, em que falam de um homem que foi procurar Holmes, na última história de Histórias de Sherlock Holmes (1927):

“- Uma criatura patética, inútil e alquebrada.

– Exatamente, Watson. Patética e inútil. Mas a vida não é toda ela patética e inútil? A história dele não é um microcosmo do todo? Nós estendemos a mão. Nós agarramos. E, no final, o que é que fica em nossas mãos? Uma sombra. Ou pior do que uma sombra, a miséria.” (p. 405.)

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