Cordilheira (Daniel Galera)

Eu acho que tenho um problema com sinopses, porque elas me contam do que trata o livro, mas sempre parecem me enganar, pois vou ler o livro e não encontro o que a sinopse me diz. Como nessa de Cordilheira, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 2008): “Recém-saída de um relacionamento amoroso e ainda sob impacto do suicídio de uma amiga, uma escritora resolve aproveitar o lançamento da tradução argentina de seu romance, considerado pelo público e pela crítica uma das melhores surpresas da nova literatura brasileira, para passar uma temporada em Buenos Aires.” (do site da Companhia das Letras). “Impacto” lendo o romance não senti impacto algum. Na verdade, Anita, a personagem principal, não parece se impactar com muita coisa.

Depois de ter lido o ensaio sobre a personagem de ficção de Autran Dourado (no Poética do Romance), não leio mais querendo que os personagens sejam “reais” ou “verossímeis”, me basta que sejam coerentes com aquele universo criado pelo autor. Anita me parece um personagem assim, embora por vezes decidida, como na obstinação de se tornar mãe, ela se deixa levar por algumas situações, como quando transa pela primeira vez com Holden. E é esse o fio condutor da narrativa, o desejo de Anita de ser tornar mãe, algo que parece insensato aos olhos das amigas. Passar uma temporada em Buenos Aires me pareceu uma espécie de escape de tudo que ela vinha vivendo, do relacionamento chato, das amigas intrometidas mas tão confusas quanto ela.

Em Buenos Aires Anita conhece Holden. Ela aos poucos vai descobrindo que todos os amigos de Holden possuem personalidades construídas a partir de livros que eles mesmos escreveram ou que outras pessoas escreveram. Cada um tem o seu livro e precisa cumprir o destino do seu personagem, seja cometer assassinato ou suicídio. E essa talvez seja a discussão mais interessante dentro do livro, apesar de todo esse papo de “transformação” que a orelha do livro nos vende. Não vejo Anita crescendo em nenhum momento, vejo apenas uma mulher obstinada em engravidar, só; que renega o próprio livro e não parece muito preocupada com o que vai fazer depois que conseguir engravidar e o filho nascer. Ela é uma mulher do presente. Em várias cenas Holden e os amigos discutem essa relação entre a vida e a literatura. Anita, como autora, pensa que autor e personagens criados não possuem relação alguma. Já Holden e seus amigos acreditam que a literatura só faz sentido quando é vivida. E eles vivem em função disso, em função dos personagens que criaram para si mesmos ou que escolheram. Claro, podemos também nos perguntar até que ponto Anita é a Magnólia do seu livro, ou se de alguma forma inconsciente ela vai se transformando na protagonista do livro que foi para Buenos Aires lançar, ou pelo menos adquirindo os seus dramas e conflitos, que é isso que parece interessar a Holden, a personagem criada por Anita, não a mulher em si. O próprio nome ‘Holden’ aí ganha dimensões interessantes, icônicas, pois é inevitável a ligação com o herói do Apanhador no Campo de Centeio, já que Holden briga por bobagens e é descrito como ‘infantil’ algumas vezes (embora o Galera diga aqui que não há relação).

Por outro lado, tem a questão do espaço, que é fundamental também para o romance fazer sentido. Que outro lugar senão Buenos Aires para abrigar um culto secreto de leitores que levam seus personagens às últimas consequências? Há uma cena em que Anita conversa com o grupo sobre autores argentinos, ela cita os clássicos Borges, Cortázar, Casares, Piglia, e para alguém do grupo eles são mentirosos, escondem a realidade. Os bons autores seriam de fato os medianos, aqueles que, justamente por serem ruins, não conseguem disfarçar a realidade. Somos levados por cafés, ruas, parques, praças, lugares em que todo mundo parece estar lendo o tempo todo. Parece que apenas algumas poucas ações íntimas ocorrem na casa de Holden. Grande parte da ação acontece nas ruas e nos cafés.

Após o capítulo semifinal, em que Holden e os amigos vão até a Terra do Fogo para que ele possa levar a cabo seu destino de personagem, vemos Anita de volta ao Brasil e com o filho perdido. Esse capítulo final me pareceu narrado pela primeira pessoa de Danilo, o ex-namorado, que abriga Anita quando ela volta. E o fecho é bonito pois ele de repente se pega pensando nela justamente da forma que ela desejava, como aquela jovem, cuja história ela tinha lido, que admirava a cordilheira dos Andes da janela de sua casa, e essa parecia ser a sua principal característica, pelos olhos do marido e narrador da história. É a literatura cumprindo seu destino, virar realidade, mas não sabemos se Anita sabe disso.

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