Quem decide se uma pronúncia existe?

Um dos negócios mais difíceis de colocar na cabeça das pessoas é que não tem um valor intrínseco nas formas linguísticas. Mortadela não é mais correto que mortandela como uma verdade absoluta inquestionável. Depende, essencialmente, do valor que o grupo de falantes da língua dá praquela forma.

“Uma variedade linguística “vale” o que “valem” na sociedade os seus falantes, isto é, vale como reflexo do poder e da autoridade que eles têm nas relações econômicas e sociais”. É o que disse o italiano Maurizzio Gnerre em um livrinho clássico chamado Linguagem, escrita e poder (Martins Fontes, 1985). Isso quer dizer que quando temos opções na língua, quando vemos grupos sociais utilizando formas distintas, é inevitável que se atribuam valores sociais àquelas formas. Assim, mortandela não é errada em si mesma, é errada porque um grupo de falantes usa essa forma, e esses falantes normalmente são pouco escolarizados. Mortadela é a forma correta porque é a forma registrada nos dicionários e está associada à escrita, pois é a forma que as classes escolarizadas utilizam.

Na semana passada um médico tentou tirar um sarro de uma paciente que falou peleumonia e raôxis (se você não sabe do que eu estou falando, clica aqui). Por que tem gente que acha engraçado o falar diferente? Por que Framengo, praca e adevogado são pronúncias engraçadas?

Já se falou em preconceito linguístico e preconceito social. Rio dessas formas porque não gosto da classe social que as utiliza, e a fala é uma forma de eu criticar ou manifestar meu desprezo. Posso desprezar outros produtos culturais de uma classe social, como a sua música, a sua dança, sua produção escrita, seu vestuário etc. Falar de sexo numa letra do AC/DC não tem problema, mas num funk tem.

Isso tudo fica um pouco mascarado porque tem toda uma complexa rede de instituições que atuam para criar o que se chama de Norma Padrão. Como qualquer língua humana é intrinsecamente variável, isto é, varia na pronúncia, na forma das palavras, na aplicação das regras, no vocabulário, historicamente se cultiva uma variedade que aos poucos vai se tornando limpa, digamos assim, de regionalismos. As instituições que atuam no cultivo dessa norma são a escola, os gramáticos, os dicionários, a imprensa, os intelectuais, ou seja, a própria sociedade. São esses atores que controlam o que é e o que não é português. E esse controle se baseia principalmente na associação à escrita (se a pronúncia é mais próxima da escrita é mais correta), ou no valor do grupo social que usa a forma. É o caipira que fala poRta (usando o erre retroflexo), ou o colono do interior da região sul que usa o erre fraco (o tepe) onde o resto do Brasil usa o erre forte (o vibrante), em palavras como rato, serra etc.

Assumir que mortandela e peleumonia existem seria o mesmo que dizer que a minha língua vale tanto quanto a dele. Isso quer dizer que já não sou mais tão especial assim, que minha língua não é mais expressiva e clara que a da minha empregada. E esse pensamento assusta algumas pessoas.

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