Vai que…

Aqui do meu sofá vou fazer um exercício de futurologia. É uma posição cômoda e quentinha, claro. Mas nada me impede de fazer isso. O que é uma coisa boa… Vai que esse fuzuê cresça para além dos objetivos do Movimento Passe Livre (MPL)  e vire algo similar ao maio de 68 na França?

Temos objetivos para além desse descontentamento difuso, pra usar uma expressão que eu li por aí? Temos de sobra, dirão alguns. Outros dirão que tudo está errado: educação, saúde, corrupção, cristão de toda sorte querendo legislar de acordo com suas crenças, a máquina estatal colocando cimento em todo lugar (nas cidades para construir estradas, nas matas para construir barragens e expulsando indígenas de suas terras), o machismo, ______ (adicione aqui a sua reclamação). A quem devemos dirigir nossas reclamações? Vamos reclamar por reclamar, só de birra?

Mas tudo isso soa muito abstrato para mim. Por exemplo: o que quer quem protesta contra a corrupção? Quais são suas propostas? O que de prático o governo federal poderia para satisfazer as exigências desse pessoal? Um exemplo concreto é o MPL, cuja agenda de luta não deixa dúvidas do que o movimento almeja: transporte público gratuito. Vá lá, é meio utópico, embora seja legítimo. Pelo menos alguém se movimenta para reclamar quando a tarifa aumenta, organiza manifestações etc.

Existe um movimento contra a corrupção com propostas concretas, pelo menos debatíveis e com apelo popular? Não sei se tem apelo popular, mas existe um Movimento Brasil contra a Corrupção (mbcc.com.br). Há algumas propostas elencadas no site, mas há um aviso legal que impede que qualquer coisa do site seja reproduzida (mesmo que a fonte seja citada), o que é bem esquisito, acho. Mas tudo bem. Quem quiser saber o que eles defendem visitem o site. Uma das pautas é o 10% do PIB pra educação e outros 10% para a saúde. O que não é uma pauta só deles (vários deputados também defendem isso).

Mas será que temos condições para que diferentes pautas sejam reunidas em um movimento único? Acho que não. Primeiro, acredito que depois que os governos municipais resolverem o problema dos aumentos das tarifas de ônibus as manifestações irão arrefecer. Segundo, agendas da direita (combate à corrupção tem toda a cara de ser pauta da direita) e agendas da esquerda são mutuamente excludentes em pontos fundamentais (enquanto conservadores são contra o aborto e não veem problema em legislar de acordo com suas crenças, a esquerda se opõe frontalmente a isso; para a esquerda políticas sociais são primordiais, para um conservador é assistencialismo e populismo). Em maio de 68 na França a situação era muito diferente. O movimento dos estudantes que pediam reformas educacionais logo se transformou em um movimento que reclamava por transformações mais profundas na sociedade francesa como um todo (o estado era opressor, a família e a igreja eram extremamente conservadoras, os trabalhadores exigiam melhores condições de trabalho etc.). Duvido muito que o movimento consiga adesão popular mais geral de sindicatos e outros movimentos sociais. Agredir a imprensa e quem carrega bandeiras de partidos não ajuda nada nisso. Corre-se o risco de se perder a simpatia da imprensa (que mudou o discurso da água para o vinho) e de termos confrontos entre os próprios manifestantes (o que já tem acontecido em São Paulo).

A esquerda e os movimentos sociais sempre estiveram acordados. Talvez os movimentos sindicais e sociais (MST, CUT etc.) tenham se aquietado um pouco nos últimos anos, em função de pactos feitos com o PT. Mas basta dar uma olhada nas notícias dos últimos seis meses do ano para ver quantas manifestações ocorreram nesse período: marcha das vadias, contra o estatuto do nascituro, marchas de ciclistas pedindo mais ciclovias, marcha pela legalização da maconha, marcha pelos direitos dos animais… e por aí afora. Praticamente toda semana tem uma marcha qualquer.

Sou cético quando a isso tudo virar algo maior, seja parecido com maio de 68, ou com a primavera árabe. Sobre o primeiro apontei acima as razões, sobre a comparação com o segundo movimento, fica claro que não temos um governo opressor. Por mais que fique clara a sensação de que os governantes se refestelam com o dinheiro enquanto o povo passa fome, não é o povo que passa fome que está reclamando do governo, é justamente a parcela bem alimentada da população que grita #foradilma e ataca as instituições com paus, pedras e coquetéis molotov. Ainda tem o problema da confusão dos poderes. Muita gente nem sabe a quem reclamar e acha que tudo é culpa da Dilma e do PT. Confundem os poderes. Transporte público é obrigação dos municípios. A PEC37 é um projeto do legislativo. Logo, a sociedade civil interessada deveria dirigir suas manifestações ao deputado autor do projeto e à comissão da câmara que analisa a proposta.

Se virar algo maior, suprapartidário, e não apartidário, ótimo, é sempre bom uma arejada nos ânimos de quem esteve um bom tempo dormindo. Se de fato conseguir mudanças na mentalidade do brasileiro que achava que o povo era ‘acomodado’, melhor ainda.

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