Parecer de artigo e produção escrita na academia

Na semana passada recebi um e-mail de uma revista científica da área de letras me pedindo para dar um parecer em um artigo. É o segundo artigo que avalio como parecerista ad hoc (aquele que não faz parte do comitê editorial, e que é convidado por ser especilista no tema que o artigo discute). Já recebi ‘não’ em artigo que submeti e sei que não é legal. As críticas sempre são de fato reais, o que revela que pelo menos alguém leu o seu trabalho com cuidado e isso faz a gente crescer academicamente.

Por vezes, quando estava no mestrado ou no doutorado, tive a impressão de estar escrevendo coisas boas, mas que depois se revelaram simples; ou eventualmente fui descobrir que alguém já tinha chegado àquela conclusão ou discutido aquele problema. Sabe quando você lê uma tese e tem a impressão que o cara resolveu todos os problemas e que talvez seja melhor procurar outro objeto de pesquisa? Pois é, acontece muito, mas com o tempo aprendemos a lidar com isso. Voltarmos à tese do sujeito e procurar por problemas. Isso é formação fundamental do cientista: aprender a colocar questões.

Pois bem, voltemos ao artigo. Não sei quem o escreveu, mas me pareceu trabalho de aluno de graduação. Estava relativamente bem escrito, só que mal organizado, ou mal orientado eu diria. Talvez o sujeito que escreveu o artigo acreditou que seu trabalho estava bom, quando de fato parece que ninguém com experiência acadêmica leu seu artigo antes. Ou se leu, não leu com cuidado. Talvez eu tenha sido rigoroso, mas se não dá para contar a história da linguística no século XX em 20 páginas, é melhor não se propor a fazer isso.

Outro problema são as referências. Não dá pra ler tudo o que foi escrito sobre um tema, a menos que você esteja escrevendo uma tese. Um artigo supõe capacidade de síntese, organização e argumentação. No final o que percebi era que o artigo era uma revisão bibliográfica, feita a partir de outras revisões bibliográficas. Se o objetivo do artigo fosse revelar o estado atual de uma disciplina, o que não era o caso, isso seria compreensível. Se a revista fosse uma revista para publicação de artigos de alunos de graduação, a qualidade do artigo também seria compreensível, e eu tenderia a baixar minhas exigências, assim como baixo para alunos do 1° semestre de Letras e tendo a exigir mais dos alunos de 3° ano, por exemplo ou de quem está no último e escrevendo um trabalho final.

No final das contas é o problema que eu enfrentei quando entrei no mestrado e que vejo os alunos nos 3° e 4° anos de Letras: não se ensina a escrever academicamente. Ou se ensina isso de forma inadequada. A UFSC inseriu recentemente na grade curricular de vários cursos a disciplina de “Produção textual acadêmica”, objetivando ensinar os alunos a dominar os gêneros acadêmicos: artigo, resenha, fichamento, resumo. Cobra-se do aluno um conhecimento que ele não domina. É provável que isso seja fruto de currículos mal planejados ou disciplinas mal administradas.

Não é incomum vermos em livros de resumos de congressos resumos mal escritos, em que o mínimo que se espera deles (que apresentem tema, problema, objetivos, conclusões, etc.) não está lá. Isso indica que quem está ensinando a escrever possivelmente também escreva mal. Não que eu me julgue um bom escritor, pelo contrário. Tenho muita dificuldade em relação a isso, embora ache que melhorei bastante nos últimos três anos. Pelo menos sei mais ou menos como avaliar, e a partir de que critérios avaliar uma produção acadêmica, o que já é alguma coisa. Mas me preocupa ver que os alunos em geral não sabem nem por onde começar. Me preocupa também que eles irão justamente estar ensinando crianças a escrever num futuro próximo.

Claro, esse problema é particular na área de Letras, mas também é sério em outras áreas. Se o sujeito não consegue expressar suas idéias com clareza e organização, como irá ser capaz de divulgar seus trabalhos, produzir relatórios, pedir financiamento para projetos, e talvez ministrar aulas? A escrita é parte indissociável da vida acadêmica, e acho que ainda não nos demos conta de como ensinar ela melhor.

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