Essa nossa tal humanidade

Li esses dias o depoimento do Karl Ove Knausgard (taí alguém que está na minha lista de leituras) na Piauí_107 falando sobre o psicopata que perpetrou um massacre em 2011 na Noruega. O escritor citava Hannah Arendt, segundo a qual a natureza humana não é homicida. Senti uma ponta de ceticismo dele, embora alguma coisa nas suas palavras fazia com que ele se inclinasse para o lado da filósofa. Afinal, como é possível que em um país tão pacífico e ordeiro como a Noruega produza um monstra daqueles?

Na nossa realidade, ou na guerra, o pior de nós aflora como se estivesse sempre ali, só esperando uma chance pra escapar, como aquele moleque sapeca que espera sair da vista dos pais pra começar a chutar a canela dos amiguinhos no playground. Somos maus, por natureza. É o que a biologia e a história nos mostram. Edward Wilson (A conquista social da terra) ou S. Pinker (Tábula Rasa) me convenceram. Contra a biologia não há argumentos filosóficos. Perdeu, Jean-Jacques Rousseau!

E. Wilson comenta os dois instintos humanos que conflitam em cada um de nós: o altruísmo e o egoísmo. Somos capazes de dar a vida para salvar alguém do nosso grupo social ou familiar. Ou mesmo nos arriscamos a ir pra guerra, se acreditarmos que isso é para o bem do nosso povo. Por outro lado, estamos pouco nos lixando, se o cara que está passando fome na esquina não for percebido como um igual. Veja que isso vale pra política, pra religião, pros nacionalismos, pro futebol e por aí a fora. O grupo a que eu pertenço é sempre melhor que o outro. E nos colocamos à disposição para lutar em nome dele, já que o outro é visto como inimigo ou inferior (ou ambas as coisas). O processo que possibilitou o holocausto foi justamente esse: a despessoalização. Os judeus deixaram de ser vistos como humanos, passaram a ser vistos como uma doença a ser eliminada. O resto é a história triste que todos conhecemos.

Ou peguemos exemplos nacionais. Por que acontecem chacinas de moradores de rua ou de periferias? O que levou um grupo de policiais (provavelmente, segundo consta) a sair atirando em pessoas que estavam em diferentes bares na cidade de Osasco? Creio que a crença de que estavam prestando um serviço à sociedade (eliminando um mal, o bandido – “antes eles do que eu” ou “se eu não o matar antes, ele me mata” e assim por diante), além de não verem o morador da periferia como um igual. Se esses policiais, creio, também vieram de comunidades periféricas (ou de classes operárias), como é possível que percam a empatia pelo seu, até então, vizinho? Deve existir um trabalho ideológico profundo na formação do policial ou no discurso da corporação. Conheço policiais (civis e militares) e o discurso de todos é um sonoro: bandido bom é bandido morto. Sei (será que sei mesmo?) que eles jamais fariam parte de grupos de extermínio. Mas o fetiche com que exibem suas armas faz com que eu me pergunte até que ponto estamos seguros. Ou até que ponto o meu outro conjunto de amigos que pede pela liberação do porte de armas, não passa de um bando de assassinos em potencial, apenas esperando a autorização para cometer assassinato em nome da legítima defesa.

O goleiro, a maria chuteira e a natureza humana

O ser humano adora julgar os outros. Nessa altura do campeonato é certo que ninguém mais tem dúvida de que Bruno tem alguma parcela de culpa no sumiço de Eliza Samúdio. Mas não quero falar do caso, que é só uma ilustração do que nós humanos somos capazes. Psicopatia é uma doença por definição. O sujeito possui algum distúrbio que o impede de ter compaixão com o próximo, a violência é a arma mais simples para a resolução dos conflitos, para que dialogar? (não que o que eu acabei de dizer tenha alguma acuracia médica ou psicológica). O homem é mau, mentiroso e egoísta. O caminho mais fácil é o que 90% das pessoas escolhem, seja ele moral ou eticamente válido, ou não.

Talvez a nossa natureza seja essa mesma. Somos maus, a bondade é algo que nos é imposto pela religião ou pelo estado. A tese de que nascemos puros e de que é a sociedade que nos corrompe (Rousseau) está furada. No mínimo ela não explica porque nascemos bons, aprendemos a ser maus e depois temos que aprender a ser bons novamente. Há um lado no humano que é essencialmente mau, e esse lado é aquele que caça animais silvestres, que bate na esposa, que se aproveita dos estranhos e diferentes na escola, que monta em cavalos e touros bravos, que luta boxe etc. Nessas ocasiões, expurgamos nossa parcela do mau, como práticas terapêuticas. Daí lembro do Dexter Morgan: seu pai adotivo sabia que pelo que Dexter viveu ele seria um psicopata, e o ensinou a lidar com isso. Daí vem o dilema ético: matar quem faz o mal, é éticamente válido? Do ponto de vista legal não há discussão, um assassinato é sempre um assassinato.

O assassinato, ainda mais a sangue frio, sempre nos assusta. A cobertura da imprensa só é tamanha porque o acusado é um atleta, uma pessoa pública. Se os atores fossem cidadãos de segunda classe, a cobertura e apelo popular não seriam tamanhos. Embora crimes cruéis sempre despertem a ira do povo e a sede da mídia (vide Susane von Richtofen; casal Nardoni etc.).

Além disso, a reação das pessoas ‘de bem’ à essa violência é sempre emblemática. Para Luiz Carlos Prates, o bandido deve ser tratado com violência (e ainda somos tentados a ver os carcereiros dando sovas nos ladrões de galinha nos presídios catarinenses como apenas uma epifenômeno disso); e acredito que uma boa parcela da população acredite que Bruno e seus comparsas também deveriam ser esquartejados e jogados aos cães (vide a Lei de talião, uma das leis mais antigas, pelo que pesquisei, cujo equivalente bíblico é o olho por olho, dente por dente). Novamente, vale o princípio da solução mais simples: arranca-se a erva daninha pela raiz.