Colocação pronominal

Por que é que mesmo depois de tanto tempo de escola e leitura as pessoas não usam o português padrão? Isto é, por que é que mesmo depois de aprender as regras do escrever ‘certo’, continuam a escrever o ‘errado’? Essa é uma pergunta que muita gente já se fez, e que está por detrás de um pouco do insucesso do ensino de língua na escola. Se as pessoas saíssem de lá escrevendo com clareza, coesão etc., alguns pronomes mal colocados seria o de menos (mas em geral, os problemas aparecem em blocos cf. Pécora, Problemas de redação).

Vamos partir do melhor dos mundos. Em algum momento na vida de estudante, o aluno foi apresentado a uma regra do tipo: não se usa pronome do caso reto na posição de objeto direto. Ou, talvez o aluno tenha sido apresentado a uma Gramática, como a de Faraco, Moura e Maruxo (Ática, 2012), que traz exemplos de escritores do séc. XX que usam formas retas no lugar das oblíquas.

(1) Se esse homem me ferir ou me matar podem deixar ele ir embora em paz. (Érico Veríssimo).

Os autores da gramática notam que esse uso é uma infração à Norma Padrão, mas que ele está incorporado à literatura. Creio que para afirmarmos que ele está incorporado à literatura precisaríamos de um suporte estatístico. Um gramático mais conservador diria que esses exemplos são poucos, esparsos, e que na maioria dos casos os escritores usam a forma padrão. E isso ainda precisaria ser melhor especificado: estamos falando da representação da fala de um personagem ou da voz do narrador, e esse narrador é uma primeira ou terceira pessoa, e de que origem social?

Mas voltemos à pergunta inicial. Uma das respostas, suponho, é a diferença entre a Norma Culta e a Norma Padrão. Explico: a língua que os usuários cultos utilizam é diferente da língua que esses mesmos usuários cultos professam como ideal. A colocação de pronomes é só apenas uma dessas diferenças.

Vejamos alguns exemplos de oscilação entre o uso das formas tônicas (retas) e das formas átonas (oblíquas) do pronome de terceira pessoa.

O trecho abaixo foi retirado daqui, um conto de Gustavo Machado. O autor

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“Armo uma arapuca pra prender ele. […] O ratão deve estar acostumado a fuçar no lixo dali, fica zanzando sem medo e cai de primeira. Guardo-o num saco de pano. Então, passo a montar a arapuca regularmente e, sempre que consigo apanhá-lo…”

Tenho uma filha de dois anos. E como ela anda viciada em Peppa, tenho visto pelo menos uma hora desse desenho todos os dias. Na maioria dos episódios os objetos diretos pronominais são preenchidos por pronomes tônicos (por todos os personagens). Mas em alguns os pronomes escolhidos são as formas átonas. Pra um ouvido menos atento creio que isso não cause ruído algum. Só que convenhamos, soa bem estranho uma criança de cinco anos (estou supondo que seja essa a idade da Peppa) diga algo como: Vou pegá-la para você. Como comparação, a tradução de Peanuts, na edição completa da L&PM, optou por traduzir sistematicamente os pronomes pelas formas retas. Todos os personagens são crianças (menos o Snoopy e o Woodstock, claro). Logo, soaria bem estranho que essas crianças falassem um português que nem as pessoas adultas falam.

Tá. Admito que a literatura, ou pelo menos alguns autores, talvez ainda tenham um sentimento de ‘preservação do patrimônio linguístico’ (ou algo parecido). Por isso a preocupação em seguir com o ideal de expressão ditado pela gramática tradicional (autores jovens são mais permissivos ao coloquial). Os exemplos de variação nos mostram que os usuários contemporâneos são inseguros nesse uso. Nesse caso específico, a Norma Culta (o uso linguístico dos falantes com ensino superior completo) autoriza o uso de forma tônicas de terceira pessoa como objeto direto; enquanto a Norma Padrão repudia esse uso, privilegiando as formas átonas.

O fato é que o vernáculo dos falantes de português tem uma norma, enquanto o que aprenderam na escola e o que leem nos textos formais é outra norma. Não sei se o que afirmam os autores da Gramática é totalmente correto. Ainda tenho a impressão que o uso das formas padrão é mais frequente que o uso das formas não-padrão na literatura brasileira contemporânea (ou mesmo no jornalismo e na escrita técnica). O que só nos mostra que os usuários da língua não veem esse uso como erro, a menos que estejam com os ouvidos e olhos atentos a ele.

Colocação pronominal (parte II)

piaui 001Dias atrás eu comentei o uso do pronome lhe. Na ocasião prometi falar de mais um caso especial de colocação pronominal. Esse caso é interessante porque mostra discrepância entre o que dizem as gramáticas normativas e o uso coloquial brasileiro. Acredito que todos conhecem o caso típico, exemplificado abaixo. [exemplos de Cegalla, 1985]

(1a) Ele deu o livro para mim/*eu.

(1b) Ele deu o livro para eu guardar.

(1c) Ele deu o livro para mim guardar.

O que vemos nos exemplos? Em (1a) temos o pronome de primeira pessoa como complemento de preposição. Nesse caso ele assume a forma mim. Compare com a forma eu, cuja ocorrência na fala deve estar restrita às crianças em fase de aquisição, apenas. Ou seja, isso nos mostra que um falante de português brasileiro jamais vai usar a forma eu depois de uma preposição (por isso o asterisco ali). Acontece que em (1b) temos um caso especial. O pronome não é complemento da preposição, mas é sujeito do verbo guardar. Erroneamente se diz que o pronome deve assumir essa forma porque mim não conjuga verbo (de onde as pessoas tiram essas coisas?). Não é nada disso. Na verdade, a forma é essa porque o pronome é sujeito de um verbo no infinitivo, portanto, não conjugado. O que importa aqui é a função sintática que o pronome ocupa. Lutar contra (1c) me parece a mesma coisa que enxugar gelo. Podem ficar dizendo que (1c) é errado, as pessoas continuarão a falar assim. Do ponto de vista do linguista o que interessa é: por que as pessoas falam assim? Ora, justamente porque a regra (1a) parece ser mais forte que a regra de (1b): entre usar a forma do pronome como sujeito e usar a forma dele como complemento de preposição, o falante opta pela segunda. Como a forma (1b) é a prescrita pelas gramáticas, a forma padrão, cabe ao professor mostrar as duas, explicar a diferença, e considerar que as duas podem ser usadas. O que diferencia uma da outra é o registro. Enquanto uma é coloquial, a outra é formal.

Deixemos de lado esse caso e agora vejamos outro. Os pares abaixo são exemplos que eu recolhi por aí.

(2a) Acho que devia abrir a porta e deixá-los entrar. [frase que aparece no trailer do filme Enquanto Somos Jovens]

(2b) …eu me divirto vendo eles correrem de um canto pro outro. [está na charge acima, da Piauí de out/2015]

O que temos aqui é um pronome que exerce dupla função sintática. Notem que o pronome de terceira pessoa é objeto de deixar e ao mesmo tempo sujeito de entrar. Abrindo uma gramática, como a de Cunha e Cintra, por exemplo, é essa a explicação que encontramos na seção que trata do uso do pronome oblíquo como sujeito de uma oração infinitiva. Para constar, Cegalla também menciona o fato. O caso é que nenhum deles traz exemplos como (2b): a estrutura é a mesma, o pronome parece ser objeto de ver e sujeito de correr. Eu tenho lá as minhas dúvidas se de fato o pronome é objeto do verbo. Note que essa solução complica as coisas. A estrutura do verbo tem que ser algo como [ [(você)] [deixa [los entrar]], ou seja, deixar pede como complementos um sujeito (cuja categoria tem que ser um sintagma nominal) e como objeto uma oração no infinitivo (ou conjugada, cf. Ele deixou que eles entrassem/eles entrarem.). Veja o problema: como é que o danado do pronome, que é sujeito do verbo assume a forma que tomaria caso fosse objeto direto? E não é só isso. Olhem a confusão: por que cargas d’água ele pode assumir a forma oblíqua aqui (deveria assumir?) e não pode no caso de (1)? Nenhuma das gramáticas que consultei proíbe a forma (2b), isso quer dizer que ela é lícita? Bom, eu não iria tão longe. Basta olhar as diferenças de emprego. Mesmo que o contexto de um trailer de cinema possa ser visto como um uso coloquial, o fato de estar escrito pode trazer a impressão de que o registro requerido seja o padrão. Já no caso de (2b), ou da tirinha do Charlie Brown abaixo, exemplos de uso oral, fica claro, me parece, porque a forma escolhida foi a reta. As duas frases são coloquiais, portanto, usar a forma oblíqua soaria bem estranho.

charlie brown 001

Vejam que, no fundo, não é uma questão de certo-errado que está em jogo. Temos duas formas de uso do pronome nesses casos. Uma é coloquial, típica da fala, outra é restrita a usos mais formais (não necessariamente escritos, claro). A língua que falamos é diferente da que temos que escrever em certas ocasiões. Isso é um problema? Não. Problema é um professor não saber a diferença entre os dois usos e dizer que o coloquial não existe.

[Créditos das imagens: Piauí 109; Peanuts completo: 1950-1952, trad. de Alexandre Boide, L&PM, 2014.]

Colocação pronominal: caso 1

Nesta semana falei de colocação pronominal na aula de sintaxe. Pelas leituras que fiz e por estar com o assunto na cabeça, acabei ficando com os olhos e ouvidos atentos a isso. Foi assim que encontrei o caso abaixo (tem outro, que vai ficar pra um próximo post).

Apareceu na minha timeline no Twitter a seguinte frase, uma resposta da Claro Brasil a um consumidor reclamando do serviço. “Conta pra gente por DM o que está acontecendo, ok?! Queremos lhe ajudar!” Há algumas coisas interessantes no segmento todo, mas vou focalizar apenas no pronome. Talvez ele passe despercebido para a maioria dos falantes. Mas ele é um típico caso de uso inadequado do pronome lhe (pelo menos se levarmos à risca os gramáticos normativos). Essa forma oblíqua do pronome de terceira pessoa deveria ocorrer apenas para substituir objetos indiretos. Paguei a dívida ao João/Paguei-lhe a dívida (exemplo de Cegalla, 1985). A forma que o pronome de terceira pessoa assume como objeto direto é o (e suas variantes no/lo e respectivas flexões de gênero e número – nunca entendi porque se listam as variações flexionais). O problema é que tal forma do pronome de terceira pessoa já não existe mais no português vernacular, isto é, não é português brasileiro coloquial, e isso em todas as classes sociais e rincões pelo menos é a minha impressão. Talvez lá nos corredores da ABL ainda se escute um o bem empregado. Pra aprendermos o uso de o temos que ir pra escola.

Antenor Nascentes (Letras, v. 11, 1960, clica aqui) já nos anos 60 comentava o que chamou de lheismo: a tendência de se regularizar o sistema de pronomes oblíquos com o lhe tomando o lugar de o. Notem as outras pessoas, primeira e segunda, possuem apenas uma forma para o acusativo e para o dativo: me e te. Segundo ele, essa tendência se manifestou no espanhol e não era novidade na sua época. Escritores do séc. XVI usavam alguns verbos com dupla colocação. Podia-se ler no Camões Este que socorrer-lhe não queria (Lusíadas), ou em Camilo Já tinha poucos amigos que o socorressem (Serões…). No início do séc. XIX, Francisco de Morais, em ‘Epítome da gramática portuguesa’, apontava como erro as colocações eu lhe amo, eu lhe adoro, no lugar de eu o amo, eu o adoro. Se o leitor se interessar por mais exemplos, leia o texto todo. Ele tem exemplos de Machado de Assis a Guimarães Rosa.

Vejam que a explicação para o uso de lhe no lugar de o vinha de uma analogia com o aconteceu no espanhol. Talvez ele não tenha se dado conta que o que também poderia estar interferindo era a baixa frequência do uso da forma acusativa do pronome. Com o seu desaparecimento, imagino, aí já sou eu hipotetizando (e como sempre digo, alguém mais esperto já deve ter dito isso antes e melhor que eu em algum lugar), que o lhe vem conferir formalidade a uma estrutura que normalmente seria preenchida por um pronome reto: ele (e suas variantes). Como a polícia gramatical está sempre em cima desse uso (não se usa pronome do caso reto na posição de objeto), o preenchimento por lhe é o que soa mais ‘certo’ para aqueles que não dominam o uso da forma acusativa o.

Tem gente que fica irritada com esse uso (clica aqui). O autor (ou autora) do texto atribui a disseminação do lhe pelo fato de ele ser característica de fala de uma personagem nordestina da novela das oito na época, Senhora do Destino (interpretada por Suzana Vieira). Não há motivo para destempero.

Eu jogo no time do Antenor Nascentes: “Até hoje os nossos gramáticos se tem recusado a admitir êste fato da língua. A quem conhece a mentalidade retrógrada e ultraconservadora dos gramáticos o fato não parece estranho. Os que, respeitando embora os ditames razoáveis da gramática, olham para a evolução natural da língua e aceitam os fatos consumados contra os quais é inútil lutar, pensam de outro modo e admitem lhe como objeto direto. Eu pertenço a êste número”.

Pois é, Antenor, mais de 50 anos depois e ainda nossos gramáticos ainda dizem que isso é errado. Mas é só explicar pra moçada o que está acontecendo que tá tudo certo. Erar é umano. Ainda mais quando há uma lacuna considerável entre o que falamos e o que devemos utilizar em situações monitoradas (principalmente de escrita).

N.B.: Dos gramáticos que consultei, Cegalla, Cunha & Cintra, Faraco, Moura e Maruxo, nenhum faz menção ao uso de lhe como objeto direto (pelo menos se os li corretamente ou procurei nos lugares certos).