A novela: cap. IV

Ao chegar do outro lado da rua Juliano olhou em frente e reparou que não dava pra ver dali o fim do parque. Devia ser grande pra mais de metro. Não estava com pressa. Uma caminhadinha ia fazer bem, já que tinha passado o tempo todo até ali sentado e a viagem até a casa do primo ainda ia demorar mais um eito. Pegou o carreiro que ia pra direita. Ele só queria ver as coisas. E queria saber naonde que aquela vereda ia de dar. E conhecer as coisas da cidade. Que mal tinha dele chegar um pouco tarde se o primo já tinha feito ele esperar lá tipo um bobo quase a manhã inteira?

Caminhou por uma boa meia hora e o parque não terminava. Não que Juliano estivesse preocupado com a passagem do tempo. As árvores eram bem altonas, tinha que quase quebrar o pescoço pra ver a copa delas. Muitas pessoas estavam correndo, vestiam calções e tênis. Eram homens, mulheres, jovens e até uns velhinhos viçosos e cheirosos. Tinha gente de todo tipo, gordinha inclusive.

Debaixo das árvores, em lugares sombreados, uma gentarada dormia em colchões sem capa, em papelão, ou no gramado mesmo. Homens, mulheres, moços e velhos. Barbados, negros, morenos. Uns sem camisa, só de calça e chinelo. Os ossos protuberando na pele, humanos desidratados, a pele encardida e rançosa. Alguns empurravam, capengando, carrinhos de supermercado. Pombos pinicavam o chão. Aquele povo que corria nem bola dava praquele bandão esfarrapado. Também tinha um pessoal apressado, bem vestido, em perfume e corte de cabelo modernoso e tudo, levando a vida deles pra longe dali, na pressa do compromisso.

Sentou o cansaço perto do parquinho. Idosos e outras gentes brincavam em equipamentos onde se balançavam ou puxavam alavancas. Brinquedos para os grandes? E aqueles malucos com carrinho de mercado, obviamente roubados? O que tavam azedando com aquilo no meio da cidade? Pra onde iam com as coisas que carregavam? E que tralha era aquela que levavam dentro de sacos plásticos? Deviam de tá catando lixo reciclável pra vender, latinha, plástico, essas coisa. Não devia ter problema morar no parque.

Uma mulher se balançando lateralmente em um dos aparelhos de ginástica. Juliano tinha o olhar fixo nela. Estava longinho, daí que a mulher nem ia se dar conta que ele a media, mais preocupado com os gestos, a coreografia, do que com a ausência de seios ou a finura das pernas sem coxas. Talvez ele até gostasse de mulher. Ele não sabia dizer, se perguntassem. Porque nunca soube de mulher que tenha gostado dele. E ele estava ali, sentado naquele banco, admirando uma mulher anônima se exercitando, quando sentiu o fedor. Alguém tinha sentado do seu lado. Podia até gostar, se precisasse. Mas não precisava.

O homem na outra extremidade do banco estava olhando fixamente Juliano, que fumava. Em seguida pegou com as mãos tremendo um cigarro que foi oferecido pra ele.

– Tem fogo?

Juliano vasculhou o bolso e entregou o isqueiro. O fedorento agradeceu. Estava fazia dias já só na xepa.

– Como é isso? – Juliano.

O homem explicou que tinha que ir juntando bitucas. Depois abria e ia guardando num pacotinho aquele restinho de fumo que sempre ficava ali no final, quase no filtro. Era um fumo já fedido, com gosto de baba azeda e carvão, mas dava pra matar a vontade. Mas não tinha pra bater um cigarro assim, daqueles inteiros, feito de fumo novo e cheiroso. Mesmo que fosse um desses cigarros jaguaras do Paraguai.

Tirou uma garrafa plástica do saco preto que trazia. Deu uma beiçada breve, como se só molhasse o lábio, e ofereceu pra Juliano.

– Das boas.

Juliano negaceou. O perfume de esgoto insistia:

– Experimenta, rapá. Tô vendo que tu gosta do troço. Tá aí me lambendo os beiço.

Não tinha pinga naquela tarde de banho de cachoeira, porque a gurizada sabia fazer merda, mas não daquelas, daquelas forte de comprar um litro de cachaça pra tomar sem mistura doce. Nunca viu disso. Viu eles tomando vinho, licor de menta com gasosa de limão, mas cachaça pura ele nunca tinha visto não, de fé. Tomar cachaça pura era coisa de véio bêbado que vive nos boteco e que depois sai trupicando nas calçada e caindo nas valeta.

Juliano pegou. Segurou um pouquinho olhando pra garrafa. Ergueu a cabeça, olhou pros lados, como tivesse medo de alguém conhecido ver o que ele fazia. Levou na boca. Tinha um gosto de terra e feijão azedo no bico da garrafa. O homem viu que ele mal encostou a boca no líquido.

– Me tome isso aí de verdade. Parece uma bichona!

Juliano não viu jeito senão dar um gole longo praquele sarna parar de azucrinar com ele e sair logo dali.

Quanto tempo? Fazia uns quatro anos aquilo. Aquela tarde gostosa de verão que ele pegou a bicicleta e foi tomar banho de cachoeira e aprendeu a fumar com a gurizada da cidade. E depois daquele dia ele começou a fumar sempre que alguém oferecia e até começou a comprar cigarro depois de uns tempos, quando já julgou que era grande e podia fazer o que quisesse.

– Agora sim… e-e-e, também não vai me tomar tudo agora, que essa é especial.

O homem pegou o litro, guardou no saco e levantou. Deu com a mão, como quem diz um até mais, a gente se cruza.

Juliano olhou pra um lado pra ver uma coisa que desviou a atenção dele e quando voltou o rosto pro lado que o aroma de gambá tinha rumado, o tal já tinha se escafedido.

Pensando bem, Juliano podia era estar em casa numa tarde quente daquelas. O que estavam me fazendo? Deviam de estar combinando de ir tomar banho lá na cachoeira ou iam estar na praça, comendo laranja e batendo papo. E por um instante Juliano quis voltar pra casa. Esqueceu por que ele tinha vindo pra cidade, que lá onde ele morava não tinha serviço e que tinha brigado com a irmã e que ele era um encosto pro pai e pra ela. E que ele disse pro pai “eu vou embora dessa cidade”, e o pai respondeu “então se suma, pegue teu rumo, a porta da rua é serventia da casa”.

E ele ali sentado naquele banco, passando um calor desgraçado naquela cidade. E ainda não tinha visto um rosto conhecido que fosse. Ninguém tinha dado oi pra ele. E não era como se ele pudesse virar as costas e voltar pra casa. Bom. Até que ele podia. Dinheiro ele tinha, né, pra passagem de volta.

E aí veio, num crescendo. E uma preguiça foi deitando o corpo dele naquele banco sombreado. Esperava que passasse aquela dorzinha logo. E com as pálpebras pesando, fechou os olhos, acomodando a cabeça na bolsa pequena em que trazia suas roupas e o grosso do seu dinheiro, e lembrando da rede na sombra do pé de Uva do Japão do quintal de casa.

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