A novela: continuação (ou não)

Mais um trecho da novela em que venho trabalhando. Esse é um capítulo em primeira pessoa. Tem capítulo em primeira e outros, a maioria, em terceira. Vamos ver como fica no conjunto depois. Alguns trechos tiveram mais trabalho em cima, outros ainda estão em primeira versão. Por isso não tenho publicado eles em sequência (além disso o cap. IV tá bem longo, aí não sei se vai dar pra publicar aqui, e também ainda não achei jeito de segmentar a coisa). Queria ter uma dinâmica industrial de trabalho, do tipo redigir todo o texto, e só depois ir parte por parte relendo e reescrevendo. Não consigo fazer isso. Até porque não tenho uma disciplina beneditina de produzir coisa nova todo dia. Tem dia que nada sai, aí eu reviso, releio, reescrevo. Quem sabe um dia eu consiga me organizar e passar um dia, dois, uma semana escrevendo por longos períodos (nunca consegui escrever continuamente por mais de duas ou três horas). Mas pra um texto que começou com cinco páginas, e já está com sessenta e pouco, acho que cresceu um tanto.

Chega de lero-lero. Boa leitura!

Vir pra capital, olha só que ideia de jerico. A mãe tivesse viva nunca que ia de achar que isso era ideia boa de se ter. Não seje bobo, ela ia me dizer, cê não perdeu nada lá. E no final das conta ela ia tá com a razão, porque essa sempre é que tava com ela. Como daquela vez…

Dizia ela, não, não me vá acampar com a piazada. E eu dizia que ia, que eu sabia acampar e que eu ia junto com eles, que tinham me convidado mesmo, que o primo Vilson ia junto e tudo. Ele chegou a ir lá em casa e dizer pra mãe, tia, deixa o Juliano ir junto que eu cuido dele. Eu disse que sabia me cuidar sozinho. E ela acabou deixando porque o Vilson era responsável, já tinha filho e tudo e já trabalhava. Pense, ele tinha largado o colégio antes de terminar porque teve que casar com a menina, que também largou o colégio, e foram morar os dois numa meia-água que tinha atrás da casa da mãe dele e que acabou virando quarto pros dois e o nenê. Hoje ele trabalha numa agropecuária e ela só cuida das criança. De que adianta ter estudo, ele diz, se não tem emprego pra gente aqui? O cara com estudo ou sem estudo vai ganhar a mesma coisa na hora de capinar um terreno ou carregar saco de milho. O Vilson manja, eu te disse.

Eu fui. Ia dormir na barraca do Vilson. A piazada brincava que ele ia comer meu cu. Claro que não ia, porque o Vilson era o meu primo e era casado. Não era que nem o Nilton, que todo mundo dizia que dava o cu pra piazada nas pescaria e nos acampamento, e que era até por isso que convidavam ele, não porque ele fosse um bom pescador, que diziam que era também, mas porque ele dava pra todo mundo. Eu nunca tinha entendido como essas coisa funcionava. Eu meio que imaginava, porque uma vez eu tinha achado umas revista velha lá em casa, com mulher pelada, e uma outra de sacanagem, uma mulher e um homem fazendo aquelas coisa lá. Eu vi, fiquei de pau duro e larguei a revista lá. A mãe dizia que ficar de pau duro era feio e que ficar na frente dos outros era mais feio ainda. Uma vez ela me viu de pau duro por que uma filha da vizinha tinha ido lá em casa tomar chimarrão e ela tava com um shortinho bem curtinho que praticamente aparecia a polpinha da bunda e mostrava tudo aquelas coxona bonita que ela tinha. Eu nem olhei muito que eu sabia que era feio, mas a mãe viu antes que eu já tava era pronto. Daí que ela veio me explicar que era feio, e que se eu sentisse me acontecer de novo perto de uma mulher era pra eu sair de perto, desviar o olhar, se distrair, sei lá, fazer qualquer coisa, mas parar de olhar e se mexer, que logo amolecia. O pai me falou a mesma coisa, mas lá do jeito dele de falar rápido e uma vez só, que ele não era de ficar repetindo. Se meu pai precisasse repetir a mesma frase duas vez ele já ratiava. Ele não podia só repetir. Ele tinha que reclamar antes, e só depois repetia. Era um negócio curioso, pensando agora. Vou falar isso lá pra ele qualquer dia. A mãe, não, que a mãe falava quantas vez era preciso falar, três, cinco, todo dia. Por vários mês ela falava até que ela mesmo enjoava da história, ou pra ficar bem gravado na minha cabeça. Era o que ela dizia. Eu vou ficar repetindo até você entender, porque o teu pai tem preguiça até pra falar, e ele só fala uma vez e quer que você entenda. Pra você me entender as coisa a gente tem que falar quantas vez for preciso. Se eu não te ensinar as coisa, a vida vai. E a vida não tem paciência, e vida ensina com dor, filho. E o pior é que era verdade mesmo, a mãe é que sabia das coisa da vida. A vida vai ficar te dando paulada na cabeça até você entender, ela dizia. O pai dela tinha fugido com uma índia quando ela era bem pequena, e ela largou o colégio pra trabalhar, porque a vó não vencia sustentar a família sozinha. A mãe tinha sofrido e sempre lembrava essa história pra gente, porque ela queria mostrar que tinha se virado com a mãe dela e cos tio e tia e que se ninguém teve estudo foi porque não deu pra ter, não era por vagabundagem ou burrice, que vadio e tongo não tinha na família.

No acampamento foi tudo muito legal de tarde. Além de eu e do Vilson, foi o Alcemar e o irmão dele, o Vilmar, e o Zeca e o Sílvio, dois primo. O pessoal armou as barraca, esquematizou a fogueira e eu fui junto com o Alcemar catar lenha. Eu tinha levado minhas coisa de pescar também e falei que ia pegar lambari. Ia mesmo. O Nilton não tinha ido, porque o Márcio não tinha. Era o que diziam. O Márcio não foi e o Nilton também não. A gente fez um monte de lenha pra ficar pra noite toda e depois foi pra barranca do rio armar nossas varinha.

Tinha muito espaço ali, naquela ceva. Era um lugar que o pessoal da região gostava de usar e que parecia que os peixe gostava também, porque sempre dava peixe, até uns maiorzinho, tipo jundiá, bagre, saicanga, traíra, cará, tambu. Não que eu conheça esses tipo de peixe tudo só de olhar. Eu sei o que é o lambari, que é pequeno, sei que o bagre tem bigode e sei que o jundiá não tem escama. O resto é peixe. Que por mais que eu goste de ir pescar, eu nunca fui lá muito bom nisso não. Eu sei dos nome, como sei que existe canela, cedro, cerejeira, imbuia, pinus, eucalipto, mas que se você me pedir pra ir no mato e achar a árvore eu só sei qual é o pinus e o eucalipto, que qualquer coió sabe o que é essas árvore. E pensar que nem são daqui, tipo, daqui mesmo, nativa, como dizem. Alguém trouxe e agora tem por todo canto plantação dessas árvore pra reflorestamento. Os fazendeiro prefere plantar pinus e eucalipto pra vender. Você planta e deixa lá as árvore crescendo, e elas vão crescendo mesmo, até chegar, tipo uns dez, vinte ano depois, eu acho, só sei que é pra mais de ano, e na hora que vai cortar você vende e dá um dinheirão, as madeireira vem e corta e leva embora, nem com isso você precisa se preocupar. Olha só! Pra você ter uma base. Mesmo lá, naquele matão que a gente tava pescando, perto da chácara de um tio do Vilmar, tinha um pinus ou um eucalipto por perto.

Ficamos um par de tempo ali, dando banho nas minhoca e comida pras butuca. Eu peguei só uns lambarizinho. Dois, pra você não dizer que eu tô mentindo. O Vilson pegou um cará, um bagre e um punhado de lambari. O resto do pessoal só lambari. Pra você ver, pescador mesmo, ali, era só o Vilson. O Sílvio era metido a pescador, e diziam que era mesmo, mas não tava com sorte. Tomemo uma garrafa de cachaça nessa brincadeira. Tá, eu ajudei só dando uns golinho assim, umas beiçadinha, que eu não sou lá da cachaça, e fui bebendinho porque me ofereciam.

O pessoal começou se recolher. O Vilson foi fazer o fogo pra esquentar a água pra fazer o café e o carreteiro, antes que anoitecesse e daí ficava mais difícil com pouca luz. Fui junto. Ajudei ele no que precisava e fiquei ali por perto. O pessoal chegou logo que escureceu, se abancaram, tomaram um gole de café, comeram um pedaço de cuque cada um e depois ficaram de papo e falando dos peixe que eles tinha pegado. Gavaram bastante o Vilson. Pra ele também o rio tava com pouco peixe, que ia jogar uma quirera lá depois pra ver se amanhã aparecia mais. Já tinha visto tarde melhor que aquela. Dava pra nada aqueles peixe mixuruco que tinham pegado.

O carreteiro que o Vilson fez foi de lamber os beiço. Charque, bem vermelhinho e molhado, pra comer com cuque é um negócio de louco, vou te falar. Eu comi até demais pro meu tamanho. Tomei um gole de café, logo depois da janta. E o pessoal ficou ali falando que a janta do Vilson tava tão boa que comeram tudo, que ele era entendido de cozinhar, que qualquer dia ele tinha que fazer aquele pernil de ovelha dele de novo, na próxima pescaria, que ele deixava dois dias pegando o tempero. E ele disse que ia arrumar uma paca pra gente comer. Que uma paca bem temperada, dessas de caça mesmo, era dez vez melhor que qualquer carneiro que a gente já tinha comido. E o Vilson fazia mesmo essas coisa, que o cara entendia, porque ele tinha trabalhado um tempo de peão numa fazenda lá dos interior, até que aconteceu dele achar melhor voltar pra cidade, que a mulher não gostava de ter ele longe de casa, que se precisasse dele, até a notícia chegar, podia ser tarde, e com criança pequena e tudo… ele voltou e foi trabalhar na agropecuária.

Nisso começou a me dar uns revertério. Sabe quando a gente sente que alguma coisa não se ajustou como deveria no bucho da gente, e parece que a comida fica se mexendo, como se ficassem conversando lá dentro, discutindo se vai voltar por baixo ou por cima? Pois os peido começaram e eu fiquei ligado que ia era sair por baixo mesmo. E acho que foi sorte, pensando melhor, que eu não sei se eles tavam me olhando por causa da minha cara de passando mal ou se tavam com outras ideia. Porque chegou uma altura da noite que o Zeca e o Sílvio me olharam meio de enviesado. Já tavam tudo mamado no gole, então que eles já tavam pensando bobagem. Foi quando a barriga ratiou e eu corri pro mato e foi só aquela água véia. Puta merda. Ter caganeira já é ruim, no meio do mato então é a pior coisa. Ainda mais de noite, que a gente tem que cuidar com o mato que pega pra limpar a bunda, que se pegar uma urtiga aí é que a cagada tá feita.

No outro dia eu acordei meio brancote. Deu tudo certo que acabei melhorando depois que o Vilson arranjou um chá de marcela que ele achou ali pelo mato. Ele disse que o chá era bom praquilo, e que tinha que tomar amargo mesmo. Dei umas bicada na água quente e aos poucos fui melhorando. Por volta do meio-dia eu já tava bom.

O pessoal passou o dia pescando. De manhã eu fiquei deitado na barraca, e de tarde tentei pescar um pouco, mas como eu não tinha almoçado, o Vilson assou um peixe na brasa, temperado só com sal. Eu tava de estômago vazio e não me concentrei, quando pegava na varinha os peixe já tinha comido as isca tudo. Daí que eu só dei de comer pros peixe. O domingo foi melhor, e o pessoal conseguiu pegar uns peixe dos bão e um punhado de lambari.

Quando eu cheguei em casa e contei pra mãe o que tinha acontecido ela só disse: eu te avisei. Tivesse ficado em casa não tinha acontecido nada disso.

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