Novela, parte II

Abaixo segue o capítulo que dá sequência para a narrativa que iniciei na penúltima postagem. O texto ficou um pouco extenso para o formato blog, eu acho, mas quem se aventurar a ler espero que vá até o final. 

Juliano sentou num banco da rodoviária pra esperar. Era o jeito. Fosse se enfiar nesse mundão de prédio e rua era capaz de se perder e não achar o caminho de volta. Tinha já no lombo o cansaço da viagem. A noite toda afundado na poltrona, era até bom ficar um pouco de pé pra desamassar a bunda. Deu até uma dormida, daquelas que guaipeca dá em sombra de árvore em tarde de mormaço, com a orelha abanando as moscas chatas que ficam zumbindo no ouvido e fazendo cócega.

Queria um café. Olhou em volta novamente pra ver se achava o Cristiano. Numa dessa já estava por ali por perto e ele é que não tinha visto. Não. As lanchonetes tinham vista pro lugar de desembarque do povo. Podia sentar num lugar que ficasse de vista. Caso ele aparecesse, Juliano veria.

Bebericava o café. Não tomasse rápido era bem capaz do dono da bodega pedir pra ele sair pra dar lugar pra outro sentar. Mas tinha pouca gente ali naquela hora. Mesmo assim, podia ser que pensassem que ele era vagabundo, que estava ali de olho em alguma coisa querendo achar um jeito de roubar, ou calculando malandragem. Melhor era tomar o café, sem ficar esquentando com essas ideias. Não era vagabundo, não. E se o Cristiano tivesse vindo na hora que ele tinha ido no banheiro? Foi rápido, justo pra que se ele tivesse vindo desse tempo dele voltar antes do primo resolver ir embora. Não. Não era isso que tinha sucedido. Ele não tinha vindo mesmo ainda. Devia ter acontecido alguma coisa. Ele tinha falado que estava tudo certo. Que ele podia ficar sossegado que ia buscar ele na rodoviária. Alguma tinha acontecido. Não era possível.

Tanta gente indo e vindo. Como ele tinha feito inda já hoje. Mas sem ficar por ali de alugação. Todo mundo que estava no ônibus que chegou a-recém foi descendo, pegando suas tralhas e logo o rumo que tinha que seguir. Povo por ali não tinha tempo pra ficar de bobeira, comendo mosca. Ninguém tinha tempo ali não pra ficar de conversê fiado. Ele tinha feito isso, mesmo desavisado, mas foi só sair do cercadinho onde o pessoal desembarcava que olhou pros lado e não achou o primo. Daqui a pouco ele vinha, claro, pensou na hora, não ia me deixar ele ali plantado no meio daquele povo todo, sem me saber pra onde ir, nem que ônibus pegar depois e essas coisas. E que era um negócio que… mas é que ela tinha se gavado todo, não vá me gastar teu dinheiro com táxi que eu vou lá te esperar e tudo… devia de ter pedido. Mais de cinquentão uma corrida até lá. Cinquentão é dinheiro.

Tinha um pessoal que era buscado, percebeu, olhando depois ali sentado ainda no bar, o café já gelado mas ainda gostosinho porque melado de tanto açúcar que ele botou. Naquela altura Cristiano já tava atrasado pra mais de hora. As famílias ficavam ali do lado de fora, ele foi observando. Ficavam ali, olhando no relógio, procurando o destino no letreiro dos ônibus que chegavam a cada pouco. E não demorava muito, mesmo quando o ônibus tava atrasadinho, o pessoal ia chegando e indo, chegando e indo, e aquilo ia dando nele uma coisa que era meio uma vontade de ficar de pé e sair logo caminhando dali. E a cada polaco de costas que ele via de cabelo curto e baixinho já ficava vermelhando a cara de alegre e logo que via que não era o Cristiano gelava de novo. Que ele já estava ali fazia um bom tempo mesmo. Sentia os olhos do garçom sobre ele, olhos de quem queria saber qual era a dele. Sorriu pro caboclo sem mostrar o dente, meio que tencionando um olha só, amigo, tô aqui na paz, não azede. O garçom pareceu interpretar corretamente a expressão de Juliano:

– O amigo quer mais alguma coisa?

– Obrigado, tchê! Só tô esperando, minha carona, acho que ele se atrasou.

O garçom fez positivo com a mão e foi limpar duas mesas que ficaram vazias e sujas dos ciscos que o pessoal que levantou deixou pra trás, um fareledo de torrada e casquinha de massa de pastel que começava já a juntar mosca.

Tinha voltado pro banco de fora. Não tirava os olhos da porta que trazia o pessoal da rua. Podia ligar. É. Bem que podia. Tá, mas daí ia me gastar um dinheiro que não precisava gastar. Já estava com fome também. Podia ir tomar mais um café. Mas é que se fosse, vai que o primo chegasse e não achasse ele ali, então o melhor era ficar ali mais um pouco. Vai que o primo tivesse errado o ônibus, ou o dia, ou tivesse esquecido dele? Não. Ele tinha ligado uns dois dia antes pra avisar, pra deixar tudo certo, que era o que o pai tinha falado pra ele, tu me liga antes que o teu primo deve de ter os compromisso lá dele com os filho e a mulher e as coisa dele lá, então tu me liga antes pra ele saber que tu tá indo e que é pra ele se organizar, e ver direito onde é que tu vai dormir e como ele vai fazer pra ir lá te pegar na rodoviária e tudo essas coisa, que você sabe que tem gente que não gosta que as pessoa chegue sem avisar. Então ele ligou. E ficou tudo certo e o primo ficou louco de faceiro que ele estava vindo mesmo, que ia levar ele junto pra jogar bola, que tinha até um serviço já esquematizado pra ele, que ele ia gostar e ia ganhar dinheiro e que até ia arrumar uma namorada na vila e não ia mais voltar pra terra deles. Merda. Estava tudo certo. Agora ele ia de ter que gastar dinheiro com cartão pra ligar pro celular do primo e ligar pra celular custava caro. Não era aquela coisa de comprar um cartão e ainda ter crédito depois de ligar. Era ligar e ver os créditos irem sumindo como se fosse uma contagem regressiva, menos, menos, menos até chegar ali no cinco e a pessoa ter que desligar correndo e matar o assunto antes de cair a ligação e não ter mais jeito. Tinha que acertar tudo naquela cronometragem, senão era dinheiro perdido. Um dia inda ia de comprar um celular pra ele. Lá na cidade dele não precisava, que ele conhecia todo mundo e sabia onde o pessoal estava, daí que não tinha precisão de ficar ligando. Um dia ia ter um treco daquele, pois que agora ele morava na capital e tinha que ser também meio metido à besta, deixar meio que pra trás esse jeitão dele chucro e tudo. Tinha que virar gente, pra que quando fosse lá visitar o pai e os irmão mostrar que em Porto Alegre as coisas eram diferente, era mais bonito, e ele tinha aprendido as novidade. Já não era mais um colono tongo do interior.

Ele ali metido nessas ideias de comprar um celular e já indo atrás de um cartão telefônico na banca de revistas quando um sujeito se aproximou. A pestilência da catinga machucava a respiração da gente. O caboclo parecia pedir alguma coisa. Juliano não ia dar uma de tosco e se fazer de desentendido. Podia até fazer uma dessa, se fazer de louco e de conta que nem tchuns. Mais aí já era tarde, e mesmo não entendendo necas do que ele disse, soltou um: – Se suma daqui catinguento!, como se espantasse uma criança que quisesse meter a fuça no que não era dela.

O homem encardido olhou pra ele com cara de opa meu qual é e seguiu seu caminho contrariado. Deu dois passos e atacou outro passante, que também se livrou dele dizendo qualquer coisa e deixando as costas como face pra um papo que não ia continuar. Juliano notou que um polícia ou segurança vinha na direção do vivente, que pareceu dizer que já pegava o caminho da rua e ia dar o fora dali. Tá, tinha sido meio grosso com o caboclo e… o cara era só um coitado atrás de uma moeda pra tomar uma cachaça, pelo jeito.

Esperou por mais uma hora e nada do parente. Sentou numa lanchonete para preencher o vazio do estômago e tirar a secura da boca. Se sair e o Cristiano chegar? E se ficar esperando à toa? Mandou pro bucho um pastel de carne e uma coca bem gelada. A fome que estava não era aquela fome de trabalhador depois de um meio-dia de enxada, era mais só um vazio seco, um oco na barriga. O almoço foi aquilo mesmo, só pra despistar. Não queria gastar com bobagem, calculou enquanto mastigava o pastelão que, olha, pensando bem, era bem capaz de alimentar umas duas crianças. No fim se obrigou a comprar um cartão telefônico pra ligar. Estava decidido. Devia de ter cartão ali naquela banca de revista do lado.

 

Cristiano atendeu e quando Juliano se identificou ele disse:

– Cara, e eu já aqui preocupado contigo. Por que não me ligou antes?

– Sabe, eu ia… pensei até em…

– Ligasse logo, vendo que eu não aparecia.

Mentiu, pra não dizer que estava com pouco dinheiro e não queria gastar com cartão:

– Fiquei esperando e o tempo passou, tchê.

Que ele viesse de ônibus, mil desculpas, sabe como é, as crianças, não tinha quem ficasse com elas. Era ele seguir o trajeto tal e tal, não tinha erro. Perguntasse ao cobrador aonde descia, qualquer coisa. E que ligasse, chegando no ponto final, daí iria buscá-lo. O trajeto levava uma hora e pouquinho. Um pouco mais talvez se tivesse movimentado o trânsito. Ele que seguisse as indicações que não tinha enrosco.

Juliano desligou se achando um burro porque não tinha ligado antes. E olhando pros dez créditos que ainda restavam no cartão, que era pelo menos um conforto caso precisasse ligar, pensando que se chegasse lá no bairro do Cristiano e não achasse a casa dele, por mais que ele tivesse explicado que era só uma rua de entrada que ele ia seguir reto e ir até o Bar do Galego e pegar às direita e que era a quarta casa e que qualquer coisa perguntasse na rua que todo mundo sabia quem ele era ali.

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