Como dizer adeus quando se está fugindo II

Esse conto é uma variação sobre o mesmo tema, o sujeito que está fugindo de casa. Foi uma imagem que me ocorreu. O camarada dentro do ônibus, está indo embora, e quando o ônibus está na estrada ele tem um ataque de riso. E aí resolvi fazer um exercício metalinguístico com o outro conto anterior, em que ele foge de casa por ter abusado da sobrinha. Agora ele rapa as economias da família.

Sérgio olhou a lista de destinos, como se pensasse melhor na escolha que tinha feito semanas atrás. Quanto é o preço da passagem pra São Paulo? Tá, era uma cidade grande e tudo, mas lá seria fácil se entocar também. Sim, ainda tinha lugar no ônibus que saía às nove horas, o rapaz atrás do vidro respondeu. Tinha vendido o carro, tirado o dinheiro da poupança e feito um acerto na firma para pegar o Fundo de Garantia também. Toda a grana que pode arrecadar estava ali dentro daquela malinha preta que ele levava, junto com algumas mudas de roupa.

Ia ter que ficar fazendo hora ali na rodoviária, mas tudo bem, já tinha escurecido. Rejane, a esposa, não ia se ligar logo não. Era uma mulher esperta, ô se era, mesmo que ainda não tivesse descoberto o que ele tinha me aprontado. Quando descobrisse, ele já ia de-estar longe. Resolveu ficar por ali, na lanchonete. Tomava um café, comia alguma coisa pra encher o panduio antes da viagem e matava o tempo até dar a hora.

Olhou pra fora, nenhuma face conhecida. Cada um que entrava, se perguntava se vinha de-atrás dele. Não. Não conhecia aquele povo que ia entregando passagem e bagagem pro motorista lá embaixo e vinha subindo, marca de saudade já no rosto, procurando o lugar e se abancando pra enfrentar a noite de viagem até São Paulo. Sérgio fechou a cortina e reclinou a poltrona. Não conhecia ninguém, felizmente, senão já iam vir pra cima dele cheios de pergunta.

Ele tentava, meu. Ele tentava ser gente. Ele tentou fazer o que era o certo. Não que não soubesse. Não que sua mãe não tivesse ensinado pra ele, dito milhões e milhões de vezes, meu filho, não faça tal e tal coisa, é assim e é assado que a vida funciona, escute a tua mãe que já sofreu muito na vida. Talvez tentando fazer dele um homem melhor do que o pai dele era ou do que o pai dela tinha sido, melhor do que todos os lazarentos que ela conheceu e que fizeram ela sofrer. E ali estava ele, fazendo uma mulher sofrer. A Rejane ia se tocar logo que ele tava indo pra São Paulo. Ele já tinha trabalhado lá de jardineiro por uns anos, sabia como conseguir serviço. Gente do sul conseguia emprego fácil. E agora ele já conhecia as agências.

E fora o piá dele, que era pequeno demais ainda pra entender tudo que ia acontecer, e um dia ia dizer de boca cheia pra todo mundo que o pai dele era um filho de uma puta. Numa dessa era até bom ele tá indo embora. Se bem que não era coisa boa uma raiva assim, uma coisa doída dessas por causa de um pai. Mas é que… puta merda… por que ele era assim?

Tá, talvez um dia, sei lá. Quantos anos Rejane ia precisar pra perdoar ele? Bem, porque não era uma coisa assim fácil, ele chegar e dizer pra ela, olha, desculpa e tal, te amo e tudo, sei que caguei no pau, sei lá o que me deu. O motorista acionou a ignição e o ônibus inteiro chacoalhou, passando a roncar baixinho. Era um negócio que eu precisava fazer sabe, eu precisava me dar aquela aventura. A gente tinha já conversado várias vezes sobre ir embora e você nunca tinha topado. Aí eu fui sozinho. A tua mãe, você dizia, o emprego bom.

Descia agora. Voltava correndo pra casa antes da Rejane perceber que ele teve longe: olha, amor, precisamos conversar. Porra! Ele já tinha pensando mil vezes nessa solução e cada vez que pensava nela o final era sempre a cara branca de polaca da Rejane ficando vermelha e vermelha conforme ia se explicando até que ela pegava a primeira coisa que tava ao alcance da mão e jogava na cabeça dele. E ele que não era bicho de sangue frio… ia ser uma confusão danada. Daí o filho ia abria a goela com a confusão, os vizinhos iam chamar a polícia… Essa sucessão de pensamentos foi pontuada por um soco no braço da poltrona. O soco foi forte o suficiente para que a senhora que estava sentada ao seu lado o olhasse, de soslaio. Ele abriu um sorriso que dizia, desculpa, não sei o que me aconteceu, está tudo bem, não vai se repetir. A porta se fechou e o ônibus começou a ser manobrado para fora da rodoviária, tomando as ruas de Porto União, União da Vitória e o caminho da BR476. Podia ter falado a verdade… Não podia.

Agora não dava mais. Agora estava decidido. Ela ia descobrir quando? Quando ele não chegasse em casa no dia seguinte? Ele já tinha dormido fora sem avisar várias vezes, e várias vezes tinham brigado e ela tinha aceitado ele de volta na cama depois de ficar uma semana braba. Ele era um imundícia mas ela gostava desse imundícia. Que ele podia ia fazer as festa dele, mas que se ele tivesse outra ela matava ele e ele nem ia saber como é que foi. O ônibus passou a ponte.

Podia ter se despedido do filho. Do pai. O pai era um merda de um cachaceiro, nem ia sentir falta dele. E talvez ele tivesse sendo mais corajoso que o pai dele. Talvez ele era mais homem, justo porque ele, Sérgio, estava fazendo o que o pai não teve a batata roxa pra fazer. E ele começou a sorrir com isso, um sorriso que se abriu assim que as luzes do ônibus foram apagadas, ao passarem pelo Hospital Regional. Rejane devia estar lá em cima agora, cuidando daqueles doentes todos. E ele com aquele dinheiro no bolso. E o sorriso virou uma risada, como se fosse uma golfada de ar que escapasse pela boca e nariz ao mesmo tempo, assustando de novo a senhora. Sérgio olhou pra cara dela. E ela sorriu, mostrando um brilhante dente de ouro, o que desencadeou a gargalhada. Ele não entendia por que, era uma vontade que vinha lá da barriga e crescia e quando ele viu estavam já no trevo e ele estava gargalhando alto e olhando praquela senhora com um dente de ouro. E ele agora estava gargalhando tão gostoso que era melhor se controlar antes que achassem que ele tinha ficado louco e deixassem ele na porta da clínica psiquiátrica que já iam passar. E o filho?

Mas e o piá? Não tinha pensado muito nisso… e o piá? Devia ter pensado nele antes de fazer a cagada. O piá… dali a pouco a Rejane arrumava outro caboclo, que o piá logo ia aprender a chamar de pai. Todo mundo dizia que o piá era a cara dele. Sérgio já não gargalhava mais. Exibia ainda um sorriso engessado, mais pelo esforço todo da gargalhada, enrijecendo os músculos da face, mas que ninguém via direito porque estava bem escuro dentro do ônibus. A cidade já tinha ficado para trás.

O piá ia pedir por ele por quanto tempo? Um mês, dois, dali a pouco Rejane ia dizer que o pai dele tinha morrido e que o caboclo novo era o pai dele agora e o menino ia aceitar aquele pai e ia esquecer dele. Porque era assim que as crianças eram, elas esqueciam logo dos adultos que sumiam.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s