Como dizer adeus quando se está fugindo I

 

Sérgio olhou a lista de destinos. Perguntou o preço da passagem pra São Paulo. Sim. Era grande, mas lá seria fácil se esconder também. Sim, ainda tinha lugar no ônibus que saía às nove, o rapaz atrás do vidro respondeu.

Ia ter que ficar fazendo hora ali na rodoviária até a partida, mas tudo bem. Rejane, a esposa, não ia se dar conta logo não. Era uma mulher esperta, isso ela era, mesmo que ainda não tivesse descoberto o que ele tinha me aprontado. Quando descobrisse era melhor ele estar longe, que um dos dois ia sair bem feio da briga. Isso se não se matassem. Inda bem que a cunhada não era boca de gamela, senão ele já estava era lascado.

Entrou no ônibus, colocou a bolsa no bagageiro sobre o assento e se abancou. Olhou pra fora, nenhuma face conhecida. Cada um que entrava, se perguntava se vinha de atrás dele. Não. Não conhecia aquele povo que ia entregando passagem e bagagem pro motorista lá embaixo e subia, procurando o lugar e se abancando pra enfrentar a noite de viagem até São Paulo. Aquela tarde que a cunhada apareceu lá, ele devia ter saído, ido tomar uma no boteco. Mas é que chovia, a aula dela tinha acabado mais cedo. Ela chegou molhada, precisava de banho e roupa seca. Fechou a cortina e reclinou a poltrona.

A Rejane era um demônio de mulher. O que ele podia fazer? Ele também não valia lá grandes coisa. Ele tentava, meu. Ele tentava ser gente. Ele tentou fazer o que era o certo. Não que não soubesse. Não que sua mãe não tivesse ensinado pra ele, dito milhões e milhões de vezes, meu filho, não faça tal e tal coisa, é assim e é assado que a vida funciona, escute a tua mãe que já sofreu muito na vida. Talvez ela estivesse tentando fazer dele um homem melhor do que o pai dele era, do que o pai dela tinha sido, do que todos os lazarentos que ela conheceu e que fizeram ela sofrer. E ali estava ele, fazendo uma mulher sofrer. Quer dizer, duas, pelo menos, né. E fora o piá dele, que era pequeno demais ainda pra entender tudo que ia acontecer, e um dia ia dizer de boca cheia pra todo mundo que o pai dele era um filho duma puta e que numa dessa é até bom que ele esteja indo embora mesmo.

Tá, talvez um dia, sei lá. Quantos anos Rejane ia precisar pra perdoar ele? Bem, porque não era uma coisa assim fácil, ele chegar e dizer pra ela, olha, desculpa e tal, te amo e tudo, sei que caguei no pau, sei lá o que me deu naquela tarde. A tua irmã também, precisava ter ido lá em casa? O motorista acionou a ignição e o ônibus inteiro chacoalhou, passando a roncar baixinho. Não dava pra colocar a culpa na menina. Ela tem só onze anos. Ele fez o que fez porque deu vontade e pronto. Vai que ele fosse um tipo-bicho?

Podia descer agora. Sair, voltar correndo pra casa antes que Rejane percebesse que ele estava longe: olha, amor, precisamos conversar. Melhor que você saiba pela minha boca que pela da tua irmã, a culpa foi minha e tudo. Porra! Ele já tinha pensando mil vezes nessa solução e cada vez que pensava nela o final era sempre a cara branca de polaca da Rejane ficando vermelha e vermelha conforme ele ia se explicando até que ela pegava a primeira coisa que estava ao alcance da mão e jogava na cabeça dele. E ele que não era bicho de sangue frio nem nada ia ter que dar uma na cara dela pra ela calar a boca e parar de gritar e o filho ia abrir o berreiro também e ia ser uma confusão danada. Pontuou essa sequência de pensamento com um soco no braço da poltrona, forte o suficiente para que a senhora sentada ao seu lado o olhasse, de soslaio, desconfiada. Ele abriu um sorriso que dizia, desculpa, não sei o que me aconteceu, está tudo bem, não vai se repetir. A porta se fechou e o ônibus começou a ser manobrado para fora da rodoviária, em seguida tomando as ruas de Porto União e o caminho da BR476.

Agora não dava mais. Agora estava decidido. Ela ia descobrir quando? Quando ele não chegava em casa no dia seguinte? Ele já tinha dormido fora sem avisar várias vezes, e várias vezes tinham brigado e ela tinha aceitado ele de volta na cama depois de ficar uma semana braba. Ele era um imundícia mas ela gostava desse imundícia. Que ele podia fazer as festas dele, mas que se ele tinha outra ela matava ele e ele nem ia saber como é que foi. O ônibus passou a ponte. Podia ter se despedido do filho. Do pai. O pai era um merda de um cachaceiro, nem ia sentir falta dele. Mas o piá. Não tinha pensado muito nisso… e o piá? Devia ter pensado nele antes de fazer a cagada. O piá… dali a pouco a Rejane arrumava outro caboclo, que o piá logo ia aprender a chamar de pai. Todo mundo dizia que o piá era a cara dele. Ia pedir por ele por quanto tempo? Um mês, dois, dali a pouco Rejane ia dizer que o pai dele tinha morrido e que o caboclo novo era o pai dele agora e o menino ia aceitar aquele pai e ia esquecer dele. Porque era assim que as crianças eram, elas esqueciam logo dos adultos que sumiam.

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2 comentários sobre “Como dizer adeus quando se está fugindo I

  1. Gostei. Principalmente da 2a metade. Mas acho q teria mais impacto se o conflito fosse exposto todo de cara e brutalmente. Os 11 anos etc. … E se o ônibus sai de porto uniao e pega a 476 pra SP ele quase não trafega “nas ruas de porto união” pega a esquerda passa o balão, cruza a linha do trem e já é uva. Ou não é esse o caminho.

    1. Gostei dessa ideia, vou testar. Tinha pensado em deixar o motivo da fuga em segundo plano. Quanto ao trajeto, imaginei o ônibus saindo da rodoviária de Porto União e pegando a Prudente de Morais, em direção ao Clube Concórdia.

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