Na rua

O sol quente queimava a sua face. Abriu os olhos. Buzinas. Os olhos se acostumavam com a luz. Sentiu o corpo desconjuntado, a cabeça lhe caindo do pescoço. Com muito custo, levantou o corpo do chão. Tonteou. Apertou os olhos fechados com a ponta dos dedos, se curvando, faltasse músculo nas pernas. As pessoas desviavam dele. Endireitou de novo o corpo. Forçou os olhos abertos. E deu um passo, outro e outro. Até que uma quadra depois o vazio no estômago veio lhe dar bom dia.

Uma senhora caminhava lentamente, sacola de pão em uma das mãos, carrinho de feira noutra, arrastava a idade e as compras.

– Senhora…

Ela não ouviu, ou fez que não.

– Senhora…

Ela seguia o seu caminho, naquele passo. Pudesse, teria corrido?

– Senhora… um trocado… fome…

Ela ignorou e continuou caminhando. Se uma vovozinha não ia ajudar ele, quem é que ia, meu deus? E um ‘sai daqui desgraça’ foi gritado no seu ouvido por um homem barbudo. Cristiano não viu direito a cara por trás da barba fechada e negra, só a vassoura de cabo grosso e pesada que empunhava. Suas pernas continuavam dando passos e ele deixou que elas o fossem levando. A vovozinha de cabelos brancos tinha sumido pra dentro de uma daquelas lojas ou portas de prédio.

Cristiano dava passos curtos. Procurando acertar o chão. Errasse a pisada cairia de boca no piso duro de pedra da calçada. O gosto do tombo de ontem ainda vivo nos dentes e lábios.

Até que voltou ao parque. E com aquelas passadas de quem pisa em asfalto já tocado, viu que estava de novo onde tudo tinha começado. Sem querer, como se atraído para lá por alguma força, suas pernas o tinham trazido de novo para lá. Era o parque. Claro que era o parque.

Pessoas dormindo debaixo das árvores, nos cantos e bancos. O dia ainda não tinha começado pra elas. Quem sabe tenha acabado bem tarde ontem. Que horas seria aquilo? Cristiano olhou para o céu e sentiu apenas a claridade nos olhos. Já devia passar das dez. Encontrou a bica e foi até lá jogar uma água na cara. Passou a mão pelos cabelos e sentiu a casca de sangue seco. Tomou água em goles longos. Gorgolejou, se refestelando. Bucho cheio de água. Podia enganar a fome. Melhor não mexer naquela ferida, que ainda latejava, quente e pulsante. Sentou num banco. Quê que ia fazer? Esperaria um brigadiano aparecer e contaria tudo o acontecido. Claro que iam ajudar ele encontrar o parente.

Alguém sentou ao seu lado, vindo ele não enxergou de onde.

– Quer queimar um? – o catinguento disparou. Suas mãos e face tremiam, como se estivesse com muita vontade de fazer aquilo.

Não queria, aquele negócio só tinha trazido desastres. Por que perseguiam ele?

– Não! Já tô todo estoporado, meu. Não tá vendo?

Vai ver o cara não estava vendo mesmo. Porque insistiu.

O estômago roncou. Mendigar não deu certo. Ele também não sabia roubar. Só pela fome. Foram prum canto escondido.

Assistia o cara preparar o cachimbo e calculava a decisão. Tomar no cu, meu! Que negócio era aquele. Era tão simples dar o fora e se arrancar dali. Por que capeta do diabo ele tinha pensando em fumar aquele troço de novo?

– Valeu, mas não – disse de supetão e saiu corrido dali, numa disparada e sem olhar pra trás.

Não! Não e não! Não ia fazer cagada de novo! Não ia se meter fumar aquele negócio do demônio que ele nem sabia direito o nome mas sabia que fazia muito mal e que ele tinha apanhado de noite por causa daquilo e que se não fosse por isso ele tinha se defendido, pelo menos, e chamado socorro.

Correu um pouco até chegar no chafariz. Sentou por ali. Precisava decidir o que fazer. Olhou no entorno. Ninguém se preocupava dele ter corrido até ali e sentado. De que lado tinha vindo mesmo? Um grupo de cachorros brincava no gramado. Pessoas passavam. O pipoqueiro colocava mais uma panela pra estourar. Um casal lá adiante tomava seu chimarrão na sombra. Ninguém se preocupava com ele.

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