A prima

Minha mãe poderia ter me defendido. Sim. Ela poderia ter feito isso, porque ela tinha o poder pra dizer pro meu pai que não era assim que se educava uma criança, não batendo nela na frente da família como se ele fosse um cachorro que tivesse que ser educado na porrada, pra daí viver com medo e antes mesmo da cagada se formar na cabeça dele como um pensamento que vem vindo lá do fundo e a gente não se dá conta ele tivesse uma espécie de semiconsciência de que talvez é melhor não fazer a levar um tapão no ouvido com a mão pesada do pai. Ela poderia ter me defendido. Dito um “não, pai!”. Dito “escute a versão dele antes de julgar”. Mas o olhar dela – eu não via o olhar dela porque ela não saiu lá pra fora da casa pra ver o que tinha acontecido –, ou a falta do olhar dela: ela tinha certeza que o meu pai ia fazer a coisa certa. Ela ficou lá ajudando a vó a fazer o almoço, como ela sempre fazia. Mas eu sabia que o olhar dela era o mesmo do meu pai. Talvez ela duvidasse em algum momento – mas se duvidava, por que não tinha vindo saber o que aconteceu, por que não tinha me ouvido? Era o que eu desejava, mas eu sabia que o olhar dela era de quem acreditava mesmo que eu tinha dito aquilo pra minha prima.

A gente estava jogando bola. Era o que dava pra fazer na casa da vó naqueles feriados de final de ano quando a casa ficava cheia de parentes que a gente via uma ou duas vezes no ano. Era um povo que eu não conhecia direito, mas chamava de primo, prima, tio, tia e isso tudo. Tinha que chamar. Eu não me lembro exatamente desde quando aquelas festas tinham começado, de onde eles tinham vindo, mas era a família do lado do pai. E, bem, afinal de contas, era a única família que a gente tinha na cidade. A da mãe morava longe e nunca vinha visitar. E naquele final de ano era isso. Todo mundo lá na casa da vó e do vô, um mundo de gente que eu estava conhecendo meio que naqueles dias. Uns piás metidos que falavam de skate, videogame, shopping e praia. A gente, os mais fodidos da família, não víamos nem cheiro disso. O mais próximo que eu chegava de um videogame era quando a vó dava um trocado pra mim ir jogar na locadora.

E tinha a prima Carla. Eu só tinha doze anos naquela época e não estava interessado em menina. Sempre fui meio bocó pra essas coisas. Claro que achava umas lindas, outras feias e desprezava as que jogavam as tangas pra mim, enquanto secretamente arrastava um caminhão de merda por aquelas que me ignoravam, como qualquer pré-adolescente mocorongo da minha idade. Eu ainda não tinha aquele desprendimento que vim a ter depois dos dezesseis anos, de ficar com qualquer guria que desse mole pra mim – não se surpreenda, não pegava mais que uma a cada bimestre – a grande escola que me possibilitou ser um canalha depois dos vinte anos. A Carla era bonita pra caramba, sabe. Daquelas meninas de cabelo liso, de treze, catorze anos, pele caramelo, que puxou da mãe, peitinhos nascendo e tudo já. Daquelas meninas pelas quais eu me derretia e sabia que jamais iam me dar a mínima pelota. Talvez fosse isso o que elas tinham de atrativo, essa superioridade que as meninas de treze-catorze anos possuem, de sentirem seu corpo já mudando e terem consciência de que isso mexe com a piazada.

O negócio é que eu estava ali jogando com aqueles primos. O dia estava quente e bonito, e ninguém queria ficar dentro de casa. A rua da casa do vó era tão sossegada que dava pra gente jogar ali mesmo, mesmo com o vô reclamando que a gente ia sujar o muro dele de barro. Ninguém sabia de onde ele tirava aquilo, já que a rua era calçada com blocos hexagonais de cimento, não tinha chovido nos últimos dias, e não tinha o menor sinal de poça de água por perto. Ele não gostava de futebol, esse que era o caso. Eu era o único piá da minha turma que tinha um pai e um vô que não gostavam de futebol. Nunca entendi como é que meu pai preferia ver o Silvio Santos a ver um Palmeiras x Grêmio na Bandeirantes no domingo de tarde. Esses eram meus modelos de homem, pra você ter uma ideia.

Daí a Carla veio ratear que também queria jogar. Caramba. Menina não joga bola, meu. Nunca jogou. Ia só atrapalhar o jogo. E a gente já tinha feito os trios e tudo pra jogar travinha livre. Não tinha lugar pra ela. Além do mais, quem é que ia dar o lugar pra ela, fosse o caso? Outra, que time ia querer ficar com ela? Um dos primos sugeriu que ela podia entrar pra um dos lados, que não ia fazer diferença porque ela não jogava nada mesmo. Ela topou, meio ferida lá naquele ego de menina foda da capital que ela tinha e que queria mostrar pra gente que manjava do negócio. O primo que aceitou que ela jogasse passou a bola pra Carla, uma, duas, três vezes, mas em todas ela mal dominava e já chegava alguém do nosso time pra roubar a bola dela. Os piás não davam espaço e ela não tinha tempo pra dominar, pensar o que fazer, arriscar um drible ou um chute sequer. Até que mesmo ele parou de passar e não deu cinco minutos ela aloprou: “Vão se foder, seu bando de cuzão!”. Eu xinguei qualquer coisa de volta. Sabe quando a gente abre a boca e fala alguma coisa assim, no embalo do que a moçada está fazendo? Estava todo mundo lá xingando e tirando uma da cara dela. Por que eu não podia também? Claro que eu não podia. Eu é que sempre me lascava nessas horas e ia me lascar de novo.

Quando eu vi, meu pai me chamou pra dentro, com aquele tom de voz dele que eu sabia só de escutar de longe que eu ia tinha me estrepado bonito. E eu fui, ouvindo o coro dos piás atrás de mim, ih, sussurram eles, esperando pra ver no que ia dar e acho que meio felizes porque ia sobrar pra mim e porque os pais deles tinham cagado pro troço. Até imagino o tio César dizendo pro pai: “deixa a piazada se entender entre eles lá, homem, senão vão virar uns bunda-mole”. Eu fui e assim que parei na frente dele nem tive tempo de ver de onde veio, só sei que ele me embolou com um tapão na cara que me desequilibrou sem me derrubar e que eu pensei na hora que a minha cabeça ia rachar no meio e meu cérebro virar uma bola verde catarro. Não era aquela dor que eu sentia quando ele me puxava a orelha e me dava a impressão de que se ele fizesse só mais um pouquinho de força seria capaz de arrancá-la com um puxão. Foi um troço mais foda, mais profundo, que não magoou só minha carne. Nunca gostei lá muito do meu pai, porque dele o que eu tinha pra receber era aquilo ali. Mas aquela guria despertou em mim uma parada que eu ainda não sabia que podia sentir.

– Nunca mais chame ninguém de filho da puta – ele disse, bufou e virou as costas.

Me deixando lá, na frente de todo mundo, sem saber o que fazer com aquela cara vermelha latejando e uma puta vontade de chorar – que engoli a seco, né, logo depois. Foi o primeiro tapa na cara que eu levei do meu pai. Felizmente, naquela altura, eu já não mijava mais nas calças com as surras dele, e ele não me fez pedir desculpas.

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