Ela estava de galochas vermelhas

Ela estava de galochas vermelhas. Era loira e magrinha. Tinha aparelho nos dentes, seios pequenos e pernas longas e finas. Não lembro se ela já estava ali quando eu cheguei, porque eu entrei, fui no banheiro e de lá pro balcão do bar pegar uma cerveja. Não, não estava. Se estivesse eu teria reparado nela. Eu não entendia as galochas, já que não chovia. Mesmo assim… cara, a guria estava de galochas numa boate. Eu teria reparado naquilo.

Quinta-feira. Acendi um cigarro e estudei o ambiente, como sempre faço. Cumprimentei outros que batiam cartão ali toda semana: o travesti, o gay, o traficante, a estudante de moda, e a professora de francês. O gay me cantava toda semana (eu não sabia mais se ele queria me comer mesmo ou só estava tirando uma da minha cara) e a professora de francês sempre me cortava. Eu tinha um tesão por aquela mulher… mas não demorou muito pra eu perceber que ela nunca ia me dar. Eu não sabia qual era a do travesti e a do traficante, mas acho que tinha alguma coisa rolando entre eles. Eu precisava de uma cerveja e de uma foda bem dada. Foi pra buscar isso que eu tinha saído de casa.

Aquele gay era um coitado. Feio pra caralho. Era dançarino. Pelo menos era assim que se apresentava. Tinha largado a faculdade de artes (ele era bom demais pra ela), e agora trabalhava de vendedor de bugigangas medonhas de feias numa loja ‘descolada’ no shopping, dessas que vendem itens de decoração pra hipsters e roqueiros. Se gavava de suas conquistas, enumerando os héteros que apareciam. Peguei, peguei, ainda vou pegar etc.

Eu dava trela pra ele. Precisava ser entretido e queria ser apresentado pra suas amigas depressivas e desesperadas por um sexo casual. Rá. Antes fosse. Jamais comi nenhuma delas. Ele não tinha amigas. Era um desastre como gay. Só conhecia umas gurias que também faziam alguma coisa ligada às artes – pintavam, dançavam, faziam teatro ou artesanato, essas coisas todas meio artísticas que o pessoal que ia naquela boate fazia.

Naquela ele saiu, conversar com um chegado. Ia dar um oi pra ele e já voltava, me disse. Eu acendi outro cigarro e percebi que uma baixinha de coxas grossas fora deixada de lado por um casal de amigos com quem tinha chegado fazia poucos minutos. Estava entediada, não entendendo o que se passava por ali.

Me apresentei. E começamos aquela entrevista protocolar de pessoas que estão se descobrindo. Eu nunca fui muito bom nessas coisas mesmo, mas por sorte, antes que ela começasse a ficar aborrecida comigo, minha língua relaxou, e ao final da segunda cerveja fiquei interessante e conversador. Aí ela gostou de mim, eu acho. Comprei outra cerveja pra gente. Eu estava confiante e animado.

Quando percebi estávamos nos beijando, o que deve ter acontecido lá pela terceira garrafa. Sua língua era caprichosa, embora sem desejo. Trocamos contatos e ela foi embora. Puxa. Não era ainda nem duas horas da madrugada. Eu não estava bêbado, estava confiante, tinha beijado na boca, adicionado um telefone de mulher ao meu menu de contatos. A noite prometia.

Foi então que a vi. Ela estava de galochas vermelhas e minissaia preta. Sentada ao lado do gay. Nos apresentamos. E por uma dessas que as conversas de bar nos levam, a gente descobriu que tinha nascido na mesma cidade do interior, só que a gente tinha morado em bairros diferentes e as famílias ido embora em momentos diferentes também. Eu estava curtindo a guria. E tudo que me preocupava era se ela tinha me visto beijar a coxudinha. Eu mal a conhecia, o que eu ia responder se ela me perguntasse sobre aquela que eu tinha beijado e que tinha ido embora? Eu ficava antecipando os problemas mesmo. Fazer o quê? Mas pra minha sorte ela não viu, ou fez que não viu porque não me falou nada.

Eu na quarta cerveja. Quando fomos dançar, já estávamos íntimos. Eu dependurado no copo e na garrafa, me balançava e não tirava os olhos dela, que dançava, brincando de me ignorar charmosamente. Até que nossos olhos se cruzaram e ela então percebeu que eu estava na dela. Eu estava mesmo e queria era estar nela. A cerveja já estava fazendo efeito, fora a fumaça do cigarro me irritando os olhos. Mateis aquela cerveja e me soltei. Então, vi alguma coisa naqueles olhos verdes dela – sem esquecer das galochas. Porra, meu, ficava bonito aquele troço nela.

Comecei a dançar com meu corpo próximo do dela. Os corpos então se encaixaram, como se se entendessem de outras danças, e as bocas fizeram o mesmo. O corpo da gente sabia o que fazia. Nunca tinha sido tão fácil dançar com uma mulher. Era só se mexer, era como se eu sempre tivesse feito aquilo. Ela estava bebendo pra burro, mas tinha gosto de Halls de cereja. Aquilo sim era um beijo de quem estava afim de me beijar.

Naquele roça e enrosca eu fiquei excitado. Essa é a coisa boa de ter vinte e cinco anos. Dá pra beber um monte que o pau da gente endurece mesmo assim. Caramba, eu precisava comer aquela mulher pequena e que caberia inteiramente na minha cama de solteiro e de estudante de mestrado que recebia uma bolsa miserável do governo. Eu namoraria com ela se fosse preciso. Eu ia até conhecer a família dela se ela quisesse.

Mas não seria naquela noite, que ela estava de carona com amigos e precisava voltar pra casa cedo, que tinha que trabalhar na manhã seguinte, me disse, quando nos despedimos a muito custo com os amigos insistindo que precisavam ir embora também – estavam cansados e amanhã era sexta-feira. Caramba. Deixei-a ir, obrigado que fui porque o que eu queria mesmo era raptar Rosana – naquela altura eu já tinha memorizado o nome dela.

Na sexta-feira voltei na boate. Mandei uma mensagem pra ela. Resposta: não podia ir. Compromisso. Não perguntei detalhes. No sábado também não. Família. No outro final de semana eu não pude ir. Não liguei. Não mandei mensagem. Mas pensava nela, claro. Mas fazia o jogo. Não queria me mostrar vulnerável, só que também não sabia o que aquilo ia dar, via um potencial nela. Eu tinha gostado da Rosa e já imaginava a gente chegando de mão dada na boate. Precisava saber qual era o cheiro dela, queria me enroscar naquelas coxas magrelas. Porra. Não liguei e também não mandei mais mensagens.

Quinze dias depois. Encontro o amigo em comum, o gay. A Rosana? Tinha voltado pro ex-namorado, me contou. Escondi o desapontamento atrás do copo de cerveja. Acendi um cigarro. Ergui o copo e brindamos ao início dos trabalhos da noite. Caralho. Lá íamos nós outra vez.

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