1×0

O conto seria sobre um menino, um menino desses que, cabeça no travesseiro, enquanto espera o sono, pensaria sobre o jogo da final do campeonato interssalas da escola na manhã seguinte.

O menino teria treze, catorze anos e estaria na sétima série. Ele teria reprovado no quarto ano, mesmo passando no exame final, pois a professora convenceu a mãe de que ele ainda estava fraco no português: ele não acertava as concordâncias nominais. O pai, ao saber da notícia, ralhou com ele: que parasse de discordar da professora, que levasse o estudo a sério, que pobre sem estudo só sofria na vida e que de burro na família chegava ele. O menino não se abalaria por essas reprimendas. Elas o tornariam ainda mais determinado: burro ou não, ia virar jogador de futebol.

O menino teria levado o time nas costas até a final. Tá, ele admitiria, naquele momento, que o Bolacha tinha salvo o time também fazendo defesas incríveis. Não era à toa que ele era o goleiro do time da escola. Mas o nosso menino ainda era reserva do time e ia mostrar para o professor que era melhor que o Márcio da sétima B.

E ele mostraria amanhã. O pai já tinha desligado a televisão. Na casa de tábuas de madeira todos dormiam. Lá fora, os cachorros latiam para o caminhão do lixo, que passava. E o menino estaria acordado, mirando o fundo da cama de cima, na qual o irmão mais velho já roncava (ele pega cedo no serviço). O jogo da manhã seguinte, a final, seria contra a oitava série A. Eles são maiores, mas o menino, mais rápido, dribla melhor também. Ele teria que ser tão rápido quanto o Paulo Nunes, dando um drible seco no zagueiro, que ele nem ia ver por onde o nosso menino artilheiro tinha passado. Mas o menino, fosse o caso, não teria só essa jogada. Ele saberia dar elástico, lençol, drible da vaca, rolinho, o que precisasse. E o chute do menino é forte e preciso, como o do Edmundo, o Animal.

O menino visualizava o ginásio da escola atopetado, muita gente mesmo, ele iria contar depois em casa, professores e tudo. O jogo seria complicado, decisões nunca são jogos fáceis. Muitas faltas, chutes na canela, ombradas e os nervos à flor da pele. Os dois melhores goleiros da escola e os dois melhores atacantes frente a frente. Sim, porque o menino sabia que era bom, e o outro menino, o da sétima B, também era bom, isso ele não podia negar (o piá tinha feito um gol de bicicleta na semifinal). Mas o menino não quer fazer gol de firula. O nosso menino quer fazer um gol que dê o campeonato para a sala dele. Ele quer fazer um gol simples e bonito como os gols do Paulo Nunes. Um gol em que ele dá um come no zagueiro, o ângulo fica limpo para ele armar o chute de perna direita, e o chute é forte, e a bola termina sua trajetória na bochecha da rede, balançando o barbante. E o menino sai correndo para abraçar os colegas de time, enquanto Sílvio Luiz narra na sua cabeça: ééé, foi-foi-foi, foi ele, o craque da camisa número 9.

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