Primeira noite na rua

O magrelo acendeu o bagulho. Puxou a fumaça e a segurou nos pulmões o quanto pode. Depois de soltá-la, ofereceu o cachimbo a Cristiano: “Tira a fome, tchê”, comentou. Cristiano tomou a latinha nas mãos e tragou ignorando a voz dentro dele que dizia não faça isso. Depois da segunda tragada alguma coisa se remexeu dentro da sua cabeça e seus olhos se arregalaram. Alguém os observa, ao longe, entre as árvores e se esgueira entre as macegas e touceiras de plantas baixas, rindo. É um saci pulando com o litro de cachaça na mão. Uma voz o chama: “Cristiano! Tá na mesa!”

Ergueu-se num pulo e desatou a correr atrás do saci. Ouvia gargalhadas. Pessoas, cuja face ele não reconhecia, lhe apontavam o dedo. Queria sair dali, rápido. Ia correr, correr e correr até chegar de volta à segurança da sua cama. Tropeçou num toco e seu corpo se deslocou no ar por alguns metros até aterrissar, primeiro com o peito, depois com a boca aberta na terra. Sentiu os grãos de areia na língua e nos dentes, misturados com sangue ou uma baba pegajosa. Era incapaz de dizer se era sangue mesmo. Cuspiu aquele troço viscoso, sem notar naquele momento que um pedaço do dente voou junto. Cristiano não acreditava que tinha sido roubado de tarde. Cadê o filho da puta?

Ao levantar sentiu um fisgão na coxa. Procurou o machucado olhando para a calça suja de terra, mas não viu nada. Começou a caminhar, arrastando a perna doída pelas sendas do parque, indo de-atrás dos risos do saci, até que chegou a uma esquina, onde topou com um viaduto, sob o qual um homem e um cachorro assistiam uma pequena fogueira queimar. Os dois notaram a sua aproximação. O homem pegou um cabo de vassoura, e o animal ficou de pé e latiu. Era o mesmo cachorro de de-tarde? Mediam-no conforme a distância encurtava. Sentiu raiva nos olhos verdes do senhor de barba branca, que gritou: “Te arranque daqui, viciado do diabo!”

Baixou a cabeça e foi para outro lado. As pernas o levavam. Os risos continuavam. Queria a carteira de volta, ir pra casa do parente, dormir numa cama. Viu-se numa avenida larga, três pistas de cada lado, mas a calçada era mal iluminada. Enxergava as coisas fora de foco. Tentava tirar aquele turvo dos olhos com as costas das mãos, mas o gesto era inútil. Foi o saci que virou a esquina, numa dessa se ele… imagina só se o maldito…

Um grupo de rapazes vinha no sentido contrário. Se cutucaram quando viram Cristiano: “Olha só isso”, um deles.

O primeiro chute foi no peito, dado por um dos guris que voou para cima dele. Cristiano caiu de costas e antes que pudesse se defender outro chute acertou nas costelas. Protegeu o rosto e a cabeça, instintivamente. Não conseguia ver a face deles. Eram três, usavam bonés enterrados na cabeça e tinham braços grossos. Os chutes não paravam. “Craquento de merda!”, repetiam no intervalo dos pontapés. “Sua bicha!”. O gosto ferroso do sangue voltou à boca, agora volumoso. Por sorte logo cansaram e então pararam. Sente o pé do saci sobre as suas costelas. Cuspiram sobre ele e foram embora. O riso do sapeca some quando o grupo dobra a primeira esquina.

Tentou levantar. Um instante de lucidez lhe deu a dimensão da cilada. Por que tinha tomado aquela pinga à tarde? Por que tinha fumado aquele negócio? Tinha que sair dali. Juntou as forças do chão e ergueu o corpo dolorido e latejante. Uma delegacia, talvez ajudassem ele. Contava o que tinha acontecido. Mas onde polícia naquela cidade? Naquela hora que todo mundo já tinha se escondido e na rua só tinha gente ruim?

Avistou um estacionamento amplo, vazio, e a parca luz dos postes da rua o deixavam em quase penumbra. Duas pessoas conversavam no ponto de ônibus na esquina. Cristiano se aproximou.

“Amigo, como é que…”, começou a dizer, quando uma ripa quebrou na sua cabeça. E o último som que escutou foi o tuc que sua cabeça fez ao se chocar contra a pedra da calçada.

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