Aqui e lá

Assim que entraram no apartamento, Mauro disse pra Júlia ficar à vontade e foi até a cozinha buscar uma cerveja. Entregou-lhe uma garrafa e mostrou onde estavam os CDs e os discos na estante da sala, agora vazia de retratos.

“Escolhe uma música aí pra gente”, ele disse. “Já volto”.

Entrou no quarto e passou os olhos pelo ambiente. Nada. Depois entrou no banheiro e abriu o espelho. Achou um desodorante, quase no final, por isso ela não o levou. Jogou no lixo. Não sabia como Júlia leria aquilo. Melhor retirar o elemento do cenário. Vai que ela abre o espelho por curiosidade? Afinal, não tinha volta. Disso ele tinha certeza.

Júlia tinha escolhido Radiohead. Um ponto pra ela. Elogiou a escolha. Kid A era o seu disco favorito da banda.

“Larga essa caixinha e vem cá”, ela, que deu um gole na cerveja antes de beijar Mauro. “Amanhã a gente fala de música”.

Ela já estava com gosto de mulher bêbada. Adriana tinha um gosto diferente na língua quando bebia. Não era bom transar com mulher bêbada. Pelo menos se a gente não estiver também. Era a primeira vez que saía com Júlia. Queria ficar com ela desde que se conheceram, dois anos antes, num daqueles seminários que o escritório promovia pra que os departamentos se conhecessem.

O beijo de Júlia era mordido e sugado, enquanto sua língua parecia fuçar dentro da boca dele como se tivesse perdido alguma coisa lá dentro. As peças de roupa foram sendo jogadas ao chão. O corpo de Júlia era fantástico. Não malhava… tá bom! Não se nasce com um abdômen daqueles. Adriana tinha uma barriguinha de preguiça, o que nunca incomodou Mauro.

“No quarto a gente vai ficar mais confortável”, ele.

Tantas vezes se deitara naquela cama com Adriana. A cama, o primeiro móvel que compraram quando decidiram morar juntos. Esse não era o lençol de 500 fios, daquele feriado do ano passado, em Bombinhas? Eles haviam planejado passar sozinhos aqueles dias, mas acabaram encontrando os amigos no restaurante. Uma cerveja puxou outra, e o feriado romântico virou um final de semana de bebedeira com amigos. Ela deveria ter insistido mais para ele não se empolgar com Tiago.

Júlia deu um selinho nele e dormiu. Logo ressonava. Uma mulher que não Adriana dormia na cama deles. Mauro virou o rosto para aquele corpo quente e nu debaixo do lençol. Ela estava com os olhos fechados e com um sorriso de quem esconde um segredo. Adriana gostava de adormecer com a cabeça sobre o peito dele, os dedos finos da mão brincando com os pelos da sua coxa. Ela tinha dito que gostava de homens peludos na primeira vez em que dormiram juntos. Ele não esquecia isso.

Pegou o celular pra escrever uma mensagem para Adriana. Júlia abriu os olhos. Ao lado da letra V o cursor piscava. “Estou programando o despertador”, Mauro, antes que ela perguntasse. Ela pediu pra ser acordada cedo e voltou a dormir. Ele bloqueou o celular, fechou os olhos e dormiu, se aconchegando no calor de Júlia.

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