Ideia pra um conto: desdobramentos

A ideia poderia ficar naquele estado. Projeto, potencial, simples anotação no caderno de apontamentos. Frases justapostas, embrião de narrativa. Mas eu fui lá e resolvei escrever mais um pouquinho.

Quem é o personagem principal? O crítico poderia ser um homem de seus quarenta e poucos anos. Tem uma namorada, jamais foi casado. Sempre se dedicou à crítica, desde os anos 80, quando foi contratado pelo jornal, ainda cursando letras, para escrever resumos de livros, filmes e espetáculos. Promovido à seção de resenhas, com o passar do tempo ganhou uma coluna semanal, e algumas páginas no caderno especial de cultura, caso tivesse alguma ideia pra explorar com mais detalhe. Tinha liberdade de assunto. Respeitado por alguns, detestado por tantos outros escritores no seu estado. Possivelmente mora em um apartamento de dois quartos, comprado com muito sacrifício, na sua maior parte pago com uma poupança que descobriu que sua mãe tinha, falecida no início dos anos 90. Dividiu a herança com um irmão, que é professor de geografia em uma pequena cidade na Serra Gaúcha (faz bicos de guia turístico aos finais de semana). Possui um gato, não tem paciência pra levar um cachorro passear. Sempre viu os gatos como seres misteriosos e independentes, personagens muito mais interessantes que os cães, embora, Baleia, seja uma bela exceção na literatura. Não toma café, apenas chá. Não por motivos de saúde, apenas por idiossincrasia pessoal. Compra livros religiosamente em uma livraria no bairro Rio Branco. Como muitos, acredita que as mega-livrarias estão matando as livrarias de rua, com suas mega-promoções, mega-lançamentos, mega-estantes cheias de nada. Talvez pudéssemos começar o conto por esse ambiente. É final de tarde, uma quinta-feira. Ele toma seu chá inglês, come uma fatia de torta qualquer e lê Walter Benjamin quando seu telefone toca. É a secretária do editor do jornal, que quer falar com ele no dia seguinte. Não diz o assunto. Apenas que ele o espera amanhã, às dez horas. Tem dois anos já que ganhou o privilégio de trabalhar em casa. Vai para a redação nas segundas-feiras para a reunião de pauta do caderno de cultura. Dá lá os seus pitacos. E tem o tempo livre para escrever suas colunas, resenhas e ensaios. Fez mestrado dois anos depois de formado. O desejo de cursar um doutorado e seguir carreira acadêmica sempre o seduziu. Mas o projeto foi sendo deixado pra depois, ano que vem, ano que vem, se dizia, quando os colegas perguntavam para ele quando é que iria fazer um doutorado. Tinha pra si que os estudos formais poderiam destruir o seu olhar intuitivo, não queria pegar as manias dos críticos “oficiais”. Não sabia dizer de onde tinha tido essa ideia, nem quem eram propriamente os críticos oficiais, apenas era, talvez, uma desculpa, algo que dizia pra si mesmo para justificar a falta de sistematicidade nos seus estudos. Sérgio Buarque de Holanda diria, tá vendo, é disso que eu falo, o brasileiro é um aventureiro, um caçador, não um cultivador. Porra. O veado tinha razão. [e essa boca suja é dele mesmo, do personagem, que também tem que ser um cara sem frescura, porque alguma coisa nele diz lá dentro dele que escrever pra viver é frescura, que tipo de homem sustenta a família lendo e escrevendo, é capaz de ouvir ainda seu avô dizendo quando contou que arrumou o emprego no jornal]. Embora a própria existência de um Sérgio Buarque, de um Antônio Cândido, de um Lima Barreto sejam a negação dessa tese. Claro, são exceções, não a regra, o pai do Chico diria. Ele tinha consciência disso tudo. Jamais seria um Antônio Cândido. Estava velho demais pra isso, e, bom, já sabemos que não possui doutorado. Naquela altura do campeonato jamais terminaria o doutorado antes dos 50, e, começar uma carreira nova aos 50… puxa vida, quem é que faria algo assim? Ele poderia estar lá, lendo o Benjamin e pensando nessas coisas quando receberia a ligação marcando um encontro, que ele ainda não sabia, iria mudar a sua vida. Ele, naquela altura, depois de vinte anos de serviços prestados, esperava chegar à aposentadoria naquele jornal, com a sua coluna, enfim, levando aquela vidinha mais ou menos que ele levava. Embora não fosse repleta de aventuras, era a vida que um crítico literário profissional poderia levar. Cinema, café, um concerto ou uma peça teatral de vez em quando, vernissages e lançamentos de livros, participação em seminários e feiras literárias pelo país. Era essa a sua vida. Uma namorada artista plástica frustrada que ensinava pintura em tela para adolescentes, donas de casa e idosas. Era bonita, tinhas seus trinta e poucos anos, e partilhava dos seus gostos para cinema e música. Além de ser uma cozinheira daquelas que fazia a própria massa de lasanha; ou mesmo um bife acebolado básico que parecia ter saído de uma revista de culinária.

As cenas [isso fica pra outro post]

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