Cadê a nossa boa e velha crônica?

Lendo João do Rio, me pego pensando nessa coisa gostosa que é a crônica, esse texto que tá ali entre o conto e a poesia, entre a realidade e a ficção, entre a hipótese e a certeza. Tivemos Rubem Braga, Sérgio Porto (ou Stanislaw Ponte Preta), Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues (esse lazarento que escrevia de tudo e fazia tudo muito bem), Luis Fernando Veríssimo (o últimos dos grandes cronistas?); sem contar um outro time que atacava de cronista também pra pagar as contas: Drummond, Clarice, Cecília Meireles…

Devo andar lendo as pessoas erradas…

Ou vai ver que o mundo em que a gente vive seja tão maluco ao ponto de a imaginação não ter mais graça, e a graça toda esteja em inventar distopias, fantasias medievais, super-heróis com poderes inusitados e por aí afora. Ou a gente ficou careta? Vai ver que a tragédia grega que Nelson Rodrigues enxergava na violência cotidiana não comove mais ninguém.

* * *

João do Rio (um desses iluminados que sabiam colher da vida a sua graça), numa crônica sobre as tabuletas dos estabelecimentos comerciais do Rio:

“…encarregado de fazer as letras de uma casa de móveis, já pintara ‘vendem-se móveis’ quando o negociante veio a ele:

– Você está maluco ou a mangar comigo!

– Por quê?

– Que plural é esse? Vendem-se, vendem-se… Quem vende sou eu e sem sócios, ouviu? Corte o m, ande!” (A alma encantadora das ruas, p. 101).

A sabedoria popular que os gramáticos tendem em não ouvir…

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