A guerra persuasiva

Desde que a guerra é guerra, ela também se dá no plano ideológico. Nazistas, comunistas, norte-americanos, o regime militar brasileiro, a atual propaganda estatal (por que diabos o governo precisa fazer propaganda que não seja de utilidade pública? Coisas como campanhas de vacinas, alistamento militar etc. até entendo). Podem bombardear todo e qualquer vilarejo suspeito no Oriente Médio, essa guerra não pode ser vencida.

Não pode porque não se pode matar uma ideia. Hitler conseguiu mobilizar um povo em torno de uma ideia. Perdeu a guerra, mas a ideia não morreu. De tempos em tempos ela ressurge. Os alemães (ou os brancos em geral) são superiores a outras raças, destinados à grandeza, e o estrangeiro está no seu quintal para tirar dele o seu emprego, o seu dinheiro, a sua terra. É o mesmo discurso que os extremistas islâmicos usam: estão destinados à grandeza, são o povo escolhido por Deus, e o outro está lá para roubar as suas riquezas. Estou simplificando, mas acho que a ideia é essa.

Como é que esse discurso funciona? Propaganda. As imagens que nos chegam são de um bando de maltrapilhos no meio do deserto. Mas eles têm wi-fi, têm celular. Eles andam em Mitsubishis e Toyotas, falam em Iphones e S4s, conversam pelo Skype, pelo Facebook e pelo Twitter. Se duvidar suas armas são israelenses e americanas, justamente os povos que tratam como inimigos.

Vi há pouco um documentário na GloboNews. Uma jornalista se infiltra em grupos pró-estado islâmico no Facebook e entra em contato com eles como se fosse uma francesa convertida que quer se casar com um soldado. Eles a orientam a ir até a Turquia. Lá um contato a ajudaria a chegar até uma cidade Síria onde seu futuro marido estaria. A promessa é que ela teria luxos, ficaria segura em uma mansão onde as mulheres dos soldados moram. Na Turquia ela conhece uma jovem francesa (nascida na França de pais franceses) que fugiu de casa para se juntar ao Estado Islâmico. A idade da jovem: 15 anos. Isso mesmo. Ela tem 15 anos! É ingênua, está completamente iludida pelas promessas de luxo e vida boa. E se nada der certo, a jornalista pergunta: ainda posso virar uma mártir, a garota responde. 15 anos! E o pior. Ela fugiu com uma identidade falsa. Embarcou tranquilamente na França, passou tranquilamente pela alfândega na Turquia. Ninguém a parou, ninguém percebeu que a foto na sua identidade não era sua, era da sua irmã mais velha. Estava de burca, claro. Era só mais uma muçulmana saindo do país.

Discordo do Tulio Milman. A história mostra que o capitalista está pouco se lixando. O dono do banco não quer saber de onde vem o dinheiro. O fabricante de armas não se importa com o número de vítimas que elas produzem. O dono do Facebook se importa com uma foto de peitos, mas não se se criam grupos para espalhar preconceito e ódio, ou aliciar simpatizantes para qualquer causa obscura. Alguém financia a guerra. E quem a financia não está rasgando dinheiro.

O mesmo documentário mostra que a propaganda é superproduzida. Os vídeos são em HD. Neles soldados são retratados como heróis; as cidades, oásis de prosperidade. Além disso, crianças sorridentes, com fuzis empunhados, brincam nas ruas; e mulheres fazem as compras em feiras-livres com frutas e verduras frescas. Nada mais longe da realidade. Quem permanece nas cidades passa fome, é roubado, e praticamente toda atividade econômica individual é suprimida. Não há comércio, não há agricultura, não há serviços públicos. Mas o convertido não se importa, para ele a ilusão é mais importante que a realidade. Um francês, um belga ou um inglês tem acesso à informação, sabe o que acontece lá, pelo menos via noticiário. Por que escolhe acreditar na ilusão e no que diz o seu irmão de fé? Aliás, por que um cristão se converteria ao islã? Por que esses filhos de imigrantes, ou mesmo cidadãos de países europeus engrossam a lista do EI? Por que se voltam contra o seu país natal ou o país que acolheu seus pais? Propaganda. Pura e simples propaganda.

Memória do Campos é documentário que mostra alguns campos de concentração descobertos depois da derrota nazista. Muitos campos ficavam na região rural de cidades pequenas. Os habitantes dessas cidades sabiam o que acontecia lá, embora a maioria não testemunhasse. Quando americanos chegaram a essas cidades, obrigaram as pessoas a irem lá ver. Saber é uma coisa, testemunhar a olho nu é outra. Mesmo conscientes da maldade, parece que havia ainda um certo pudor. Com o EI é diferente. Eles têm orgulho da maldade, a espetacularizam (e o jornalismo internacional divulga essas imagens aos borbotões: não percebem que é isso que eles querem?). Hannah Arendt disse em algum lugar que o ser humano não é mal por natureza. Ela, Rousseau, e tantos outros que repetem essa ladainha, estavam errados. Todo ser humano é mau, basta que tenha oportunidade para mostrar isso (se não conhecem a história do experimento da prisão com estudantes universitários, vejam a palestra no TED, é bem convincente; ainda não se convenceu, leiam o Tábula Rasa do Steven Pinker). Por outro não é justamente o que os americanos fizeram após a invasão ao Iraque? Os soldados americanos não faziam piada com os prisioneiros? Não faziam filmagens humilhando os coitados? Nós, os civilizados? Não linchamos um ladrãozinho de galinha, filmamos e jogamos no Youtube? Não lincharam uma mulher em Santos no ano passado por conta de um boato de Facebook? (foi tudo filmado, não?) Não bateram em um guri até a morte há pouco tempo no interior do Rio Grande do Sul por conta de uma briga de boate por um motivo banal qualquer? Os conservadores não ficam xingando conhecidos políticos petistas em ambientes públicos simplesmente porque a narrativa construída é de que o PT é o partido mais corrupto do Brasil? Aposto que o Maluf nunca foi incomodado num jantar; muito menos Luis Estevão.

No final das contas, me parecer que o horror é só uma questão de perspectiva. Ou melhor, de propaganda. Assim como o ódio.

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