Colocação pronominal (parte II)

piaui 001Dias atrás eu comentei o uso do pronome lhe. Na ocasião prometi falar de mais um caso especial de colocação pronominal. Esse caso é interessante porque mostra discrepância entre o que dizem as gramáticas normativas e o uso coloquial brasileiro. Acredito que todos conhecem o caso típico, exemplificado abaixo. [exemplos de Cegalla, 1985]

(1a) Ele deu o livro para mim/*eu.

(1b) Ele deu o livro para eu guardar.

(1c) Ele deu o livro para mim guardar.

O que vemos nos exemplos? Em (1a) temos o pronome de primeira pessoa como complemento de preposição. Nesse caso ele assume a forma mim. Compare com a forma eu, cuja ocorrência na fala deve estar restrita às crianças em fase de aquisição, apenas. Ou seja, isso nos mostra que um falante de português brasileiro jamais vai usar a forma eu depois de uma preposição (por isso o asterisco ali). Acontece que em (1b) temos um caso especial. O pronome não é complemento da preposição, mas é sujeito do verbo guardar. Erroneamente se diz que o pronome deve assumir essa forma porque mim não conjuga verbo (de onde as pessoas tiram essas coisas?). Não é nada disso. Na verdade, a forma é essa porque o pronome é sujeito de um verbo no infinitivo, portanto, não conjugado. O que importa aqui é a função sintática que o pronome ocupa. Lutar contra (1c) me parece a mesma coisa que enxugar gelo. Podem ficar dizendo que (1c) é errado, as pessoas continuarão a falar assim. Do ponto de vista do linguista o que interessa é: por que as pessoas falam assim? Ora, justamente porque a regra (1a) parece ser mais forte que a regra de (1b): entre usar a forma do pronome como sujeito e usar a forma dele como complemento de preposição, o falante opta pela segunda. Como a forma (1b) é a prescrita pelas gramáticas, a forma padrão, cabe ao professor mostrar as duas, explicar a diferença, e considerar que as duas podem ser usadas. O que diferencia uma da outra é o registro. Enquanto uma é coloquial, a outra é formal.

Deixemos de lado esse caso e agora vejamos outro. Os pares abaixo são exemplos que eu recolhi por aí.

(2a) Acho que devia abrir a porta e deixá-los entrar. [frase que aparece no trailer do filme Enquanto Somos Jovens]

(2b) …eu me divirto vendo eles correrem de um canto pro outro. [está na charge acima, da Piauí de out/2015]

O que temos aqui é um pronome que exerce dupla função sintática. Notem que o pronome de terceira pessoa é objeto de deixar e ao mesmo tempo sujeito de entrar. Abrindo uma gramática, como a de Cunha e Cintra, por exemplo, é essa a explicação que encontramos na seção que trata do uso do pronome oblíquo como sujeito de uma oração infinitiva. Para constar, Cegalla também menciona o fato. O caso é que nenhum deles traz exemplos como (2b): a estrutura é a mesma, o pronome parece ser objeto de ver e sujeito de correr. Eu tenho lá as minhas dúvidas se de fato o pronome é objeto do verbo. Note que essa solução complica as coisas. A estrutura do verbo tem que ser algo como [ [(você)] [deixa [los entrar]], ou seja, deixar pede como complementos um sujeito (cuja categoria tem que ser um sintagma nominal) e como objeto uma oração no infinitivo (ou conjugada, cf. Ele deixou que eles entrassem/eles entrarem.). Veja o problema: como é que o danado do pronome, que é sujeito do verbo assume a forma que tomaria caso fosse objeto direto? E não é só isso. Olhem a confusão: por que cargas d’água ele pode assumir a forma oblíqua aqui (deveria assumir?) e não pode no caso de (1)? Nenhuma das gramáticas que consultei proíbe a forma (2b), isso quer dizer que ela é lícita? Bom, eu não iria tão longe. Basta olhar as diferenças de emprego. Mesmo que o contexto de um trailer de cinema possa ser visto como um uso coloquial, o fato de estar escrito pode trazer a impressão de que o registro requerido seja o padrão. Já no caso de (2b), ou da tirinha do Charlie Brown abaixo, exemplos de uso oral, fica claro, me parece, porque a forma escolhida foi a reta. As duas frases são coloquiais, portanto, usar a forma oblíqua soaria bem estranho.

charlie brown 001

Vejam que, no fundo, não é uma questão de certo-errado que está em jogo. Temos duas formas de uso do pronome nesses casos. Uma é coloquial, típica da fala, outra é restrita a usos mais formais (não necessariamente escritos, claro). A língua que falamos é diferente da que temos que escrever em certas ocasiões. Isso é um problema? Não. Problema é um professor não saber a diferença entre os dois usos e dizer que o coloquial não existe.

[Créditos das imagens: Piauí 109; Peanuts completo: 1950-1952, trad. de Alexandre Boide, L&PM, 2014.]

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