A gente e as palavras

Em vários trabalhos William Labov mostrou que os falantes mudam sua expressão linguística se possuem consciência de que estão sendo monitorados. A maioria de nós tem consciência de que existe uma variedade de língua que é a correta, ou valorizada pela sociedade. Se nossa fala dista daquela em algum grau (por falta de escolarização, por morarmos longe dos centros urbanos etc.), normalmente, o falante tem uma atitude de menosprezo com sua própria fala. Quem se orgulharia de ‘falar errado’, não é mesmo?

Pois bem, não sei de onde surgiu a lista. Tomei conhecimento pelo Buzzfeed (que faz as listas mais massa da internet) e a vi chupinhada em vários lugares, inclusive no rádio, pelo Pretinho Básico (programa das 18h da Atlântida). A lista original do Buzzfeed traz uma série de palavras que exemplificam fenômenos diversos: imbigo/umbigo, tauba/tábua, zap-zap/Whatsapp, mindingo/mendigo, adevogado/advogado, pobrema/problema, guspe/cuspe, iorgute/iorgute.

O caso de imbigo é um mistério pra mim, embora, à primeira vista, temos a troca de um segmento por outro. O que difere u e i é a posição da língua em relação à boca. Na articulação do primeiro segmento a língua está avançada, e na do segundo, recuada. Mindingo é fácil. Há duas coisas acontecendo aqui. Primeiro, normalmente, nas sílabas átonas (pré ou pós-tônicas) as vogais médias são alçadas. Em outros termos. No português coloquial, em muitos lugares do país, onde temos um e ou um o, a tendência é que em posições átonas essas vogais virem u ou i. Do ponto de vista articulatório, a única diferença entre esses pares e/i, de um lado, e o/u de outro é a altura da língua. Dizemos que i e u são vogais altas, enquanto e e o são vogais médias (a figura ilustra isso). É por isso que falamos zueira e não zoeira, mininu e não menino, leitchi e não leite. Claro. Há regiões do país em que essa pronúncia não ocorre (alguns lugares do sul). Nesses lugares ouviremos menino, leite, zoeira, mendigo. E aquele n, de onde saiu? Ele surge por assimilação (fonólogos, me corrijam se eu estiver errado), a nasalidade da primeira sílaba passa pra segunda. Há dois segmentos nasais na primeira sílaba, m e en – por mais que tenhamos duas letras aqui, o som é apenas um.

Tauba e iorgute podem ser envolvidos no mesmo conjunto (acredito), pois envolvem a mudança de sílaba de um segmento. u estava na segunda sílaba e pulou para a primeira. O mesmo com o r de iogurte. Esse fenômeno, tecnicamente chamado de metátese, é bastante comum na história do português e produziu palavras que hoje nos soam naturais, mas que tinham pronúncia diversa no latim. Alguns exemplos: inter (latim)/entre (português); semper (latim)/sempre(português).

Pobrema envolve duas coisas. Talvez seja a mistura de rotacismo (a troca de l por r) e o fenômeno anterior.

Adevogado também envolve dois fenômenos. O primeiro é a epêntese, que é a inserção de uma vogal onde antes ela não existia. Como a estrutura silábica do português não admite (aqui no sentido natural da coisa, não no sentido normativo) sílaba que termine por consoante oclusiva, a tendência natural é inserirmos uma vogal, o fechamento comum de sílaba na nossa língua. Isso ocorre com peneu/pneu, pisicólogo/psicólogo, páquito/pacto etc. Como a sílaba é pretônica, o natural é que a vogal seja um i, como de fato é o caso. Mas por que, então, e? Ora, o falante erra tentando acertar (a hipercorreção, corrige onde não deve), justamente por que normalmente nas posições átonas onde pronunciamos i, essa vogal é uma variante de e.

Guspe é um caso mais complicado. Mas também envolve uma mudança comum na articulação desse tipo de consoante. A diferença articulatória entre g [g] e c [k] é somente um traço, a vibração das cordas vocais. A vibração que inexiste em [k] é acrescentada na produção do segmento, gerando [g]. Como não muda o significado da palavra, não há problema comunicativo. Esse é um processo bastante comum, e deu origem a lobo (do latim, lupum), vida (do lat., vita), água (do lat. acqua).

Bom, mas por que eu falei de atitude do falante? Vejam que a lista do Buzzfeed trata com bom humor essas pronúncias (embora também as classifique como ‘erros’). Afinal, elas fazem parte do nosso cotidiano, e são características do português coloquial falado por classes populares com baixa escolaridade em grande parte do país (logo, menos influenciáveis pela escrita). É mais gostoso falar assim porque esse é o vernáculo (é a língua que aprendemos com a família, com a mãe, com os vizinhos na rua), a língua que aprendemos sem instrução formal. O Blog do Jair Kobe (o Guri de Uruguaiana) pegou a lista e a desvirtuou: a transformou em “18 coisas faladas errado que ‘te dá nos nervo'”. Como é que um humorista que se utiliza justamente de traços típicos da fala gaúcha para construir seu personagem tem essa atitude perante tais fenômenos? Talvez por um pré-conceito, uma visão equivocada e ingênua do que seja a variação. O que é o certo é o que eu falo, ou uma variedade de língua inalcançável, a língua padrão. O que vale é a versão escrita da palavra (um dos mitos mais difíceis de desconstruir). Como assim, meu? Por que daria nos nervo de alguém a pronúncia natural de um grupo de palavras? Suponho que ela só irritaria quem fala de forma diferente.

Pra saber mais: Mário Eduardo Viaro. Etimologia. Contexto. No livro o autor apresenta uma série de fenômenos responsáveis pela mudança na forma das palavras. Muitos dos processos que produziram as mudanças no latim que originaram as línguas românicas ainda estão ativos no português.

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