Sobre o número em português

Olhando para como o número em português funciona, vemos que a palavra muda de forma se queremos nos referir a um indivíduo ou mais de um. Se o conjunto tem apenas um indivíduo a forma deve ser a singular, menino, por exemplo. Se o conjunto possuir mais de um elemento, a forma a ser usada deve ser meninos. No caso dos nomes é mais ou menos essa a história. Ou não? Se você for um bom observador, vai notar que não usei determinante nos exemplos. Em português se pode dizer também coisas como: o menino, os meninos. Agora os nomes estão precedidos por determinantes.

Isto posto, comparemos as frases abaixo:

(1) O menino bebeu suco.

(2) Os meninos beberam suco.

(3) Menino bebeu suco. (a frase pode soar esquisitinha, mas imagine que ela é seguida por menina bebeu refrigerante, mulher bebeu cerveja etc.)

Em (1) é o que dissemos acima, o conjunto denotado por menino é unitário. Será mesmo? Não poderíamos dizer que de fato quem dá o número é o determinante e que o papel do nome é apenas me informar do que estou falando? (i.e., estou me referindo à classe dos meninos).

Veja que podemos ter então duas hipóteses (pelo menos) sobre a denotação de um nome e sua relação com o número: a) o nome sem plural designa um conjunto unitário e o papel do artigo definido é dizer que esse elemento é conhecido dos falantes; b) o nome sem plural e acompanhado do artigo definido designa um conjunto unitário e também informa que esse elemento é conhecido dos falantes.

O exemplo (3) seria um problema para a hipótese (a). Afinal, se o nome sem marcação de plural designa sempre o conjunto unitário, como explicar que menino nesse caso possa se referir a mais de um indivíduo? Uma resposta possível seria afirmar que nesse exemplo menino designa a classe toda, portanto uma entidade semanticamente plural, embora seja morfologicamente singular. Complicado?

Sim, porque precisaríamos distinguir, se é que é possível distinguir, a marcação morfológica de plural (o –s ao final das palavras) e o plural semântico, a possibilidade de a palavra se referir a um conjunto que possua mais de um indivíduo em seu domínio. Pense em casos como povo, a maioria, grupo etc., palavras que são morfologicamente singulares, mas que designam conjuntos cuja referência contém (e deve conter) mais de um elemento. Afinal, não existem maioria de um só, nem grupo de um lobo solitário (pelo menos no uso comum que fazemos dessas palavras).

Por outro lado, e se (3) for visto como uma evidência de que a hipótese (b) está correta? Essa seria uma forma diferente de entender o plural na língua portuguesa. Seria supor que ele tem como termo regente não o substantivo, mas o determinante, isto é, o termo que antecede o nome e o localiza discursivamente (se é conhecido ou não, no caso dos artigos definidos ou indefinidos), ou como se localiza no espaço do discurso/texto (no caso dos pronomes demonstrativos) [estou simplificando grosseiramente o papel dos determinantes aqui].

O leitor poderia pensar em casos como (4), em que se pode fazer o plural sem usar determinante. E agora?

(4) Meninos gostam de desenhos animados de aventura.

Temos aqui um nome que possui morfologia de plural, e que designa uma classe de indivíduos com cardinalidade maior que um. Veja que se temos morfologia de plural, necessariamente a cardinalidade do conjunto denotado pelo nome tem que ser maior que um. Note também que posso expressar a mesma ideia que (4) expressa sem usar o plural no nome:

(5) Menino gosta de desenho animado de aventura.

Aqui também me refiro a uma classe que é plural, no sentido que precisa ter mais de um elemento lá dentro (ou seja, é semanticamente plural), mas que não possui marca morfológica de plural, isto é, não possui –s no final da palavra.

Mas voltemos a (4). Até que ponto ele é uma contraevidência para a hipótese (b)? Ele parece ser um problema sério para essa hipótese. E no momento não vejo como acomodá-lo nessa visão (talvez um linguista mais esperto que eu saiba). A não ser que…

…o sistema de expressão morfológica (ou morfossintática) do plural em português funcione de outra forma (uma terceira hipótese): o plural não precisa estar nem no nome, nem no determinante, obrigatoriamente, mas ele precisa estar expresso no primeiro elemento do sintagma nominal. Ou seja, se a escolha do falante residir na forma marcada morfologicamente para expressar o plural, então essa marca precisa estar expressa no primeiro elemento do sintagma (como as pesquisas em sociolinguística parecem mostrar). Nesse sentido, nem o determinante, nem o nome são os responsáveis, per se, pela expressão do número, e sim a configuração que a estrutura do sintagma apresenta. (suponho que algum linguista por aí já tenha defendido essa hipótese).

Tradicionalmente os gramáticos tenderam a ver o nome como o elemento que determina a expressão do número, é ele quem rege a concordância. Vejamos o que diz Said Ali, por exemplo: “Número é a particularidade que têm os substantivos de indicar se se fala de uma pessoa, animal, ou cousa, ou de mais de um ser”. Veja que a expressão do número é característica do substantivo. Cunha e Cintra possuem a mesma visão. A visão de Mattoso Câmara Jr. não é muito diferente. No seu Dicionário de Linguística e Gramática, ele afirma o seguinte na entrada sobre número: “Categoria gramatical que leva em consideração o número dos indivíduos designados nos nomes” (p. 179). Claro, a intuição é exatamente essa. Usamos o singular ou o plural em função da cardinalidade do conjunto de indivíduos que queremos designar. Talvez por isso a ênfase tenha recaído sobre o nome em si, núcleo da construção (outra hipótese bem discutível).

Poderíamos tomar esse caso como um exemplo de como os dados que escolhemos podem nos levar a formular uma hipótese ou outra. O caso da marcação não-padrão do plural em português pode ser visto tanto como uma evidência para as duas últimas hipóteses, quanto como uma contraevidência para a hipótese (a). Se o plural é marcado no nome, por que podemos dizer os menino, então? Agora, se ignoramos a marcação não-padrão, e os nomes sem determinantes, tudo nos leva a crer que a opção (a) é a correta. Talvez tenha sido isso o que levou os gramáticos a considerarem que o número morfológico é expresso essencialmente no nome núcleo do sintagma nominal e não no determinante ou no primeiro elemento da construção.

Uma ressalva precisa ser feita aqui: será que poderíamos formular a hipótese (c) com o aparato conceitual da gramática tradicional? Falo ali em ‘sintagma’, ‘construção’, noções relativamente recentes no pensamento gramatical/linguístico. Por pensar o funcionamento da língua estritamente em cima da noção de palavra, não sei até que ponto também seria possível formular a terceira hipótese nesse paradigma incapaz, creio, de formular regras olhando para a estrutura interna de uma construção, já que não há a noção de construção na NGB, por exemplo, embora se fale em ‘termo’, em muitas das nossas gramáticas. Uma noção, que pra mim, abarca não só o conceito de vocábulo/palavra, como também o conceito de sintagma/construção. Embora, a noção de concordância nominal seja construída a partir da hipótese que o nome é quem rege a concordância dos seus termos satélites/determinantes. A de gênero parece ser assim, já a de número…

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