Ditadura? Como assim?

Alguns de nós se fizeram essa pergunta ao descobrir que algumas pessoas saíram às ruas ontem com cartazes em que se lia “intervenção militar já!”. Muita gente escreveu por aí: eles não conhecem a história? Não saberiam o que os militares fizeram durante o período em que governaram o país? Não sabem o que os ditadores fazem? Claro que eles sabem. Mas vou adotar um ponto de vista diferente aqui, me interessa entender por que é que mesmo assim há um grupo de indivíduos na nossa sociedade que prefere a perda da liberdade a ser governado por um governo do qual discorda.
Fazendo uma sociologia de fundo de quintal, eu diria que a política tem um quê de religião, no sentido em que as pessoas estão dispostas a acreditar em certos tipos de coisas, mesmo que as evidências as contradigam. Vejam-se os debates eleitorais, por exemplo. Não se está ali para avaliar o melhor candidato, por mais que nos digam que seja essa a sua função. Os candidatos estão muito mais preocupados em colocar o adversário em uma posição vexatória ou mostrar os seus defeitos; além, claro, de apresentarem suas propostas. Na letra fria, é um concurso de retórica.
Outro “argumento” nesse sentido. Por que o PT possui a fama de ser um partido corrupto quando não é o partido com mais membros envolvidos em casos de corrupção? Eu diria que isso se deve a uma perseguição incessante de certos veículos de comunicação. Uma denúncia de mal-feito toma uma dimensão espetacular se o político envolvido for do PT ou de alguém minimamente envolvido com o partido. Não estou defendendo os corruptos, apenas gostaria que a imprensa tratasse os políticos desonestos com a mesma medida. E além do mais, eles estão sendo processados, qual é a bronca, então?
Voltando à questão inicial, agora acho que posso arriscar uma resposta. As pessoas estão dispostas a abrir mão de sua liberdade porque acreditam que entre isso, e tirar do poder um governante que elas não aceitam, a primeira opção é melhor. Nossa ditadura recente foi civil-militar, embora apenas militares tenham sido presidentes. Os vinte e poucos anos sem eleições pra presidente só funcionaram pelo apoio civil. Ás vezes tenho a impressão que as pessoas falam do período como se os generais faziam o que bem entendiam e a sociedade assistia a tudo de braços cruzados com medo. Desculpa informar, mas tinha muita gente aplaudindo.
Além do mais, as pessoas que saíram às ruas ontem acreditam piamente que estão fazendo a coisa certa. Para elas não há uma segunda opção. Aceitar o resultado das eleições seria aceitar a derrota e compactuar com os escândalos de corrupção – na visão estreita de mundo dessas pessoas, quem votou em Dilma está sendo cúmplice da roubalheira. Não é nada disso. Tem a ver com representação, e isso vale para um bom grupo de pessoas. Arriscando uma estatística mequetrefe, eu diria que pelo menos uns 30% de cada lado jamais votaria do oposto, não importa o que acontecesse – uns 20% tendem a apelar para critérios mais racionais, e uns 20% não estão nem aí. Conservadores nunca votarão no PT, nem que o partido tivesse feito o governo mais honesto da história. Petistas jamais votarão num candidato de direita, nem que ele seja o candidato mais preparado e qualificado. Assim, se o sujeito diz que não vota no PT porque o governo é desonesto ele está apenas se enganando. Eu arriscaria a perguntar a essa pessoa por que ela não muda de religião, já que muitos padres são pedófilos, pastores abusam sexualmente de fiéis, mentem milagres, e descaradamente pedem dinheiro de pobres coitados enquanto moram em coberturas de luxo.
E justamente por pensarem estar fazendo a coisa certa, o fato de que em uma ditadura as liberdades sejam cerceadas, os opositores normalmente são presos ou calados, ou exilados, tudo isso é até justo. Afinal, quem apoia um regime desse tipo não tem com o que se preocupar, pois foi aquilo mesmo que ela pediu: a polícia tem mais é que descer o sarrafo nesses vagabundos.

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