Ao vencedor, as batatas!

“Ao vencedor, as batatas!” bradava Rubião no auge da sua insanidade pelas ruas de Barbacena em um dos capítulos finais de Quincas Borba, de Machado de Assis. Não sei se coincidentemente, Elaine Benes, personagem de Seinfeld usou uma frase parecida em um episódio da 5a. temporada que vi por esses dias: ao vencedor, o espólio. Enfim, só uma conexão que fiz.

Li a primeira vez o romance no meu ano de calouro na faculdade, em 1999. Não lembro se o li novamente depois disso. Memórias Póstumas e Dom Casmurro lembro de ter relido em 2006, quando dei aulas para o ensino médio. Mas Quincas Borba não. Decidi ler toda a obra em prosa do Machado esse ano. Já li, Esaú e Jacó, Memorial de Aires e Papéis Avulsos, e agora acabei o Quincas.

E ao acabar fui invadido por uma profunda sensação de melancolia. Claro, eu já conhecia a história, mas não lembro de ter sentido isso na primeira vez em que o li. Sabia que Rubião seria devorado pela sociedade carioca. Embora os sinais já estivessem ali, o surto que ele teve na metade final do romance é nada menos do que perturbador, pois Sofia está ao seu lado e só consegue sentir repugnância (não lembro se a palavra que Machado usa é essa, mas é algo parecido), além de estar preocupada que alguém a visse com ele dentro da carruagem. O fato de ele estar saindo da casinha não a comoveu nem um pouco, mesmo ela sendo, evidentemente, o gatilho.

Enquanto Rubião tinha dinheiro e sanidade, todos beijavam seus pés. Até perceberem que era um tolo. Não cobrava os empréstimos que fazia, e distribuía presentes como quem dava bom dia. O dinheiro foi se acabando e os amigos rarearam. A reação de Cristiano ao Sofia pedir que procurasse um médico e ajudasse Rubião a se tratar é emblemática. “Ai, que saco! o que eu tenho a ver com aquele bocó!”, ele diria, se vivesse no nosso tempo. Essa é a gratidão que ele demonstra ao sujeito que lhe emprestou o dinheiro para que seu negócio alavancasse, e do qual tratou de se livrar assim que pode.

Quem negaria que Rubião é o Brasil? perguntou um crítico. Acho que ninguém, pois a obra não deixa de ser atual. O Brasil teima em repetir seus próprios erros, insanamente parece viver em delírios de grandeza e desperdiça a sua riqueza com gente que o despreza.

E o pior é que ninguém ali se salva. Não há uma alma boa no livro. Todos são mesquinhos, aproveitadores. Mesmo o menino, que Rubião salva em um episódio da primeira metade do livro, corre atrás dele o chamando de “gira!” na cena em que ele sai falando sozinho pela cidade e logo é perseguido por uma turba de crianças que caçoam da sua condição. Não há piedade. E é esse um dos preceitos do humanitismo, a filosofia que Quincas Borba, o ricaço que lega a Rubião sua fortuna, pregava. “Ao vencido, ódio ou compaixão. Ao vencedor, as batatas!”, ensinou. Há a alternativa da ‘compaixão’, que, nesse caso, não foi escolhida. Os vencedores ficaram com o espólio, e aos perdedores, aos fracos, sobrou a sarjeta, apenas.

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