Minha copa favorita

A primeira copa de que me lembro é a de 1990, na Itália. Recordo vagamente da eliminação, do gol do Caniggia e dos copos de plástico da Pepsi. Eu tinha 9 anos, me interessava muito pouco ainda por futebol, embora já tivesse certeza, desde os 8 que eu era Flamengo. Como é que um gurizinho de São Miguel do Oeste (SC) morando a quilômetros de distância do seu time de coração tinha essa convicção? Não sei.

Eu comecei a acompanhar futebol em 1992, vendo os jogos do São Paulo na libertadores. Aquele time tinha Raí, Cafu, Zetti, Muller, Palhinha, Ronaldão, entre outros, caras que eram presença certa na seleção. O Flamengo foi campeão brasileiro nesse ano pela quinta vez (ou pela quarta, dependendo do ponto de vista). Não me perguntem a escalação. Só lembro do Júnior, que já veterano e em sua última temporada, se não me engano, e de Gilmar (reserva do Taffarel na seleção) e Zinho (também sempre convocado). O jogo da final do campeonato foi num 16 de julho, dia do meu aniversário. A grade de uma arquibancada do Maracanã cedeu e várias pessoas caíram lá de cima. Três faleceram. O jogo continuou mesmo assim. Mais um exemplo de que pra CBF o torcedor é secundário, o importante é a programação da Globo.

Em 1993 o Brasil jogava as eliminatórias da Copa. A seleção era massacrada no noticiário esportivo. Principalmente depois daquela derrota por dois a zero pra Bolívia em La Paz com o Taffarel tomando um frango histórico. Perder pra Bolívia foi humilhante. O técnico era contestado, o goleiro titular era criticado, o time todo era pouco confiável. Mas tinha um tal de Romário que diziam estar jogando o fino da bola no Barcelona. Eu não via os campeonatos europeus, nunca tinha ouvido falar dele. Até que atendendo ao coro, Parreira o convocou, e ele fez aquele estrago no jogo decisivo das eliminatórias contra o Uruguai no Maracanã. Estávamos na copa.

Mesmo assim, ninguém ainda confiava no time. Mas o legal mesmo era que não tinha aula no dia dos jogos e todo mundo sentava na frente da televisão de casa pra torcer. Meu pai nunca foi de futebol. Domingo ele só via o SBT. A mãe também, não sabia o nome dos jogadores, mas brigava com eles do mesmo jeito. Eu tinha 13 anos, meu irmão mais novo 10, e minha irmã mais velha 15. Meus outros dois irmãos mais velhos, já não moravam mais conosco. A gente torcia calado, pois lá em casa não se podia conversar com a televisão ligada, pelo menos não as crianças.

Foram jogos sofridos. Muito sofridos. Ganhamos os dois primeiros com relativa facilidade. Dois a zero contra a Rússia e três a zero contra Camarões. No último jogo, já classificados, enfrentamos a Suécia, que saiu na frente, e de novo era aquele fantasma rondando o time. Babas como a Rússia e Camarões eram fáceis, a Suécia tinha um time bem organizado e deu trabalho, e a seleção parecia não conseguir sair da marcação.

Na segunda fase, a partida contra os donos da casa foi épica, nada menos que isso. O jogo era num 4 de julho, dia da independência americana. Por mais que o time deles não fosse lá grandes coisa, eles tinham o apoio da torcida e iam dar o seu melhor em campo. O Brasil estava nervoso, e Leonardo deu uma cotovelada estúpida no seu marcador americano. Foi expulso do jogo e da copa. Isso ainda no primeiro tempo. Ricardo Rocha conta que eles entraram no intervalo no vestiário e o encontraram chorando debaixo do chuveiro. Ele sabia que tinha feito bobagem e poderia por tudo a perder. Alguém o consolou, e lhe prometeu que o jogo seria ganho. E o segundo tempo continuou naquela levada, bola pra cá, bola pra lá, sem espaço, as poucas oportunidades que surgiam iam pra fora. Até que aos trinta e poucos do segundo tempo Romário viu Bebeto entrando por trás dos zagueiros e rolou para ele. Qualquer atacante meia-boca teria isolado aquela bola ou chutado em cima do goleiro, mas Bebeto não. Bebeto teve tranquilidade e pontaria para converter a única oportunidade clara de gol do jogo todo. Foi a partida mais tensa e emocionante que eu já tinha visto na minha vida. Até ali.

E veio a Holanda nas quartas. Parecia fácil. Abrimos dois a zero com Romário e Bebeto, teve até a coreografia deste embalando o bebê Mas a Holanda tinha um time bom e empatou em dois lances de cochilo da defesa. O jogo que estava fácil ficou dramático. Será que bateríamos na trave outra vez? Até que surgiu uma falta. Não era tão perto da área, precisava ser cobrada por alguém com força no chute. Branco pegou a bola. Ele era o reserva do Leonardo, estava no final da carreira, vinha lutando contra lesões. Ele tomou distância e chutou. A bola foi voando, lenta, pesada, como se jamais fosse alcançar o alvo, Romário encolheu a bunda e ela foi morrer no cantinho da rede, como se esse fosse seu único destino possível. Fantástico! Branco saiu correndo feito um alucinado e foi abraçar Nocaute, massagista do time, que o tinha ajudado na recuperação das lesões. Ufa! Passamos mais uma fase.

Na semifinal encaramos a Suécia novamente, e depois de várias oportunidades perdidas, num jogo chato e sem muita emoção, Romário se agigantou, subiu mais alto que os zagueiros e testou a bola para o fundo das redes, aos oitenta minutos do segundo tempo. De novo no sufoco. Romário vinha sendo fundamental, com gols e passes. Vinte e quatro anos depois estávamos na final da copa novamente.

E de novo um Brasil e Itália. O estádio de Los Angeles entupido. Domingo ensolarado. Logo no começo do jogo Jorginho se machuca e entra Cafu no lugar dele. Bola pra cá, bola pra lá. E os dois tempos passaram. Poucas chances de gol. Os times se estudaram demais e não se compreendiam, se respeitavam demais, e não ousavam uma agressão mais ousada. Romário quase colocou uma pra dentro, mas parecia que o destino daquele jogo era realmente o inevitável. Viola entrou no lugar de Zinho (Isso mesmo, Viola, o folclórico atacante do Corinthians) no começo da prorrogação, que passou sem os goleiros serem vazados. Tinha um dentucinho magrelo no banco chamado Ronaldo. Tinha despontado no Cruzeiro, feito cinco gols num jogo só, era a revelação, 18 anos. Se Parreira soubesse no que ele faria depois da copa, o teria posto pra jogar naquela prorrogação? Mas o técnico não tinha bola de cristal, e por mais fanfarrão que o Viola fosse, ele tinha faro de gol, mas não deu sorte.

E veio a disputa de pênaltis. Baresi errou a primeira cobrança. Márcio Santos também, bateu mal, fraco, Pagliuca pegou com facilidade. Romário e Branco converteram os seus chutes, seguros. Dois a dois. Galvão Bueno querendo ensinar Taffarel a defender pênaltis, reclamando que ele tentava adivinhar o canto, enquanto devia esperar o jogador bater antes de pular. Massaro bateu mal e Taffarel pulou para defender. Dunga bateu firme e a bola balançou o barbante. Até que veio Baggio, na pressão de ser obrigado a converter. Tomou muita distância e chutou. Taffarel caído viu a bola subir, subir e passar logo acima do travessão, e aquela bola deve ter continuado a subir, subir e deve ter caído fora do estádio. É tetra, é tetra! Gritava Galvão Bueno alucinado abraçando Pelé, que estava comentando a copa na Globo e Arnaldo César Coelho, o comentarista de arbitragem. Soltaram a Marcha da Vitória, a música que tocava quando Senna cruzava a linha em primeiro. Nocaute entrou em campo pulando e dando cambalhotas. Em casa, todos pularam felizes. Nos abraçamos, ríamos. Fogos estalavam no céu do começo da noite de União da Vitória. Os jogadores estenderam uma faixa homenageando Airton, falecido em primeiro de maio naquele ano. O país todo tinha ficado consternado. Era o maior ídolo nacional naquele momento, um dos momentos políticos e econômicos mais difíceis da história (inflação, recessão, desemprego etc.).

Ter visto aquele time de desacreditados ganhar a copa foi um alento. Estávamos todos na merda, mas havia um Brasil que dava certo, que era vencedor. Senna tinha morrido, e parecia que a alegria de todos tinha se ido com ele. Ter ganho o mundial, daquele jeito foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Estávamos na merda sim, mas pelo menos éramos ainda bons de bola.

Outras copas vieram. Não sei por que não me marcaram tanto. Vi a geração de Ronaldo ir do desastre (1998) ao triunfo (2002) em quatro anos, e depois se encerrar melancolicamente em 2006, eliminada nas quartas por uma França que não era lá um timão, mas ainda tinha o Zidane, jogando o fino da bola, e acho que o time todo ficou parado vendo ele e o Henry jogarem, porque não fizeram nada no jogo. Foi triste, pois era a melhor seleção em anos que a gente tinha. Ronaldo, o fenômeno, Ronaldinho, o gaúcho, Adriano, o Imperador, e Kaká. Os Ronaldos já eram melhores do mundo. Kaká seria no ano seguinte, e Adriano era um monstro, provavelmente o melhor centroavante da época (os anos 2004 e 2005 pra ele foram fantásticos). Não deu. A França chegaria à final e perderia para a Itália de Pirlo, Buffon, Materazzi e companhia. Aquela geração italiana merecia o título. Em 2010 foi chato, mas era um desastre anunciado. Dunga vinha brigando com a imprensa. E depois de um bom começo, o time tomou uma virada impressionante de uma Holanda inspirada e que iria disputar a final com a Espanha, futura campeã.

E nesse ano? Não sei. Vamos ver o que acontece…

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