O futebol e a língua portuguesa

Nada como um tempo como esse em que estamos. Fala-se se futebol o tempo todo, no jornal da manhã, no do almoço e no da noite, e não apenas nos programas esportivos. É de encher o saco, óbvio. Mesmo assim, e você pode não se dar conta, falamos de futebol até quando não falamos de futebol. Pera lá que eu já me explico.

Em 1980 George Lakoff e Mark Johnson publicaram um livro chamado Metáforas da vida cotidiana (Metaphors we live by). O livro inaugurava uma nova área de estudos, a Semântica Cognitiva, e propunha que a metáfora era ‘o fenômeno’ por excelência para o estudo das relações entre a cognição humana e a linguagem. “Se estamos certos ao sugerir que nosso sistema conceitual é grandemente metafórico, então o modo como pensamos, as nossas experiências, e o que fazemos no cotidiano são problemas de metáfora.” (a tradução é minha) A pervasividade das metáforas demostram como as línguas humanas são plásticas e como novos conceitos são criados com facilidade através desse mecanismo pouco estudado. Embora muitos semanticistas já reconhecessem a metáfora como um dos principais motores da mudança lexical (Stephen Ullmann já falava disso no seu ‘Semântica’ lá nos anos 1950, só pra dar um exemplo), ninguém ainda tinha proposto que as metáforas eram centrais.

Nas gramáticas escolares, as metáforas são apresentadas como figuras de pensamento, um artifício retórico para ‘embelezar’ a linguagem. Na essência, dizer que “Fulano é um leão” é encontrar propriedades em comum entre o leão e Fulano. A metáfora deixa de ser percebida como tal quando o significado derivado se torna corriqueiro. “Matar tempo” é uma expressão que vemos na boca de qualquer falante de português e estamos diante de uma construção metafórica, afinal, o tempo não é algo que se ‘mate’.

Como o futebol é um elemento importante da nossa cultura, é inevitável que expressões desse domínio invadam (uma metáfora?) outros domínios de uso da linguagem. Jean Lauand, no artigo A vida como jogo (Língua Portuguesa, v. 35, 2008) mostra como o esporte costuma produzir metáforas. Um dos seus exemplos é o uso de expressões do turfe nas eleições, “a candidatura de fulano é uma barbada”, “ciclano é um azarão” etc. Em relação ao futebol o autor lista algumas locuções verbais: “estar com a bola toda” (a pessoa tem domínio da situação), “pisar na bola” (cometer uma falha grosseira), “dar um show de bola” (ter um bom desempenho), “vestir a camisa” (identifica-se com os ideais da instituição). Há outras locuções bastante populares além dessas. “Dar um bola fora” é parecido com “pisar na bola”. “Estar batendo um bolão” pode também ser usado para se referir a uma mulher bonita, como um elogio, “Fulana está batendo um bolão”. “Ser jogado pra escanteio” significa ser posto de lado ou dispensado. “Acertar na trave” é chegar próximo do objetivo, mas não atingi-lo, e pode ser usado como interjeição, “na trave!”. O verbo “driblar” é usado para se referir à habilidade de desviar dos obstáculos.

Ou seja, mesmo que o leitor não goste de futebol, não discuta o esporte, e sequer saiba o que é um 4-4-2, aposto que utiliza alguma das expressões citadas acima.

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