O ceticismo como religião

croodsAssisti o filme Croods com meu sobrinho durante o feriado de Páscoa. No filme, uma família de habitantes das cavernas é obrigada a deixar o seu lar com a chegada de uma catástrofe natural. Aparentemente uma erupção vulcânica colossal estava em curso. O pai, Grug, é um sujeito dogmático. O que mantém a família viva é a sua crença de que a caverna é o lugar mais seguro pra se estar. Sair da caverna e do seu entorno é ir rumo ao desconhecido e ter que enfrentar uma realidade com a qual não sabe lidar. Certa noite, a filha, Eep, ficou intrigada por uma luz que se movia no escuro e invadia a caverna por uma pequena abertura. Isso a levou para fora, ao encontro de outro humano, Guy, que dominava o fogo – algo que ela e sua família não conheciam e dominavam – e que tinha certo conhecimento sobre como o mundo funcionava e os avisou que o apocalipse se aproximava. O que salvou a família de homens das cavernas foi a curiosidade de Eep, e a desconfiança em relação às suas crenças. Por sua vez, Grug se deu conta de que as regras que ele mantinha em relação à sobrevivência da sua família estavam erradas. Inclusive, todas as noites, antes de dormir, o pai da família lhes contava histórias trágicas em que os personagens eram punidos com a morte por terem sido curiosos. O filme nos traz uma lição interessante: a curiosidade é o que faz a humanidade aprender e progredir. De fato, é o que nos tem feito se mover em direção às novas descobertas. Se fôssemos conformados, jamais teríamos cruzado o oceano para saber o que havia lá do outro lado.

Os adultos não seres esquisitos (tá é um argumento vazio, mas pere lá). Pelo menos desde os gregos sabemos que não é a fúria dos deuses que nos traz a chuva, as enchentes, os raios e trovões e as secas. Se é assim, por que ainda se acredita que devemos rezar para que chova em caso de seca, ou que devemos rezar para que pare de chover, em caso de enchente? Há uma celebração católica chamada Domingo de Ramos, que acontece um domingo antes da Páscoa. Os fiéis levam para a missa galhos e folhagens para serem benzidos. E depois os guardam. Minha mãe queimava essas folhas numa forma metálica sempre que começava a trovejar e o céu parecia desabar sobre nossas cabeças. Não me lembro se funcionava. Os governos não pensam assim, óbvio. Embora eu acredite que o governo de São Paulo esteja rezando para que chova logo. Parece que demorou um bom tempo para que as pessoas do sertão nordestino se dessem conta de que era mais simples construir uma cisterna para armazenar a pouca água que cai da chuva do que ficar rezando pra que chova durante os meses em que se sabe, via experiência, que não vai chover mesmo. O sertão nordestino sempre foi seco, por que tiveram essa ideia só há poucos anos? E eis o problema: por que mantemos crenças no fantástico quando seria mais simples buscar soluções racionais para os nossos problemas práticos?

Notemos as crianças, por outro lado. Ao chegar ao mundo elas não dispõem de muitos conhecimentos. Embora, não nos demos conta de que elas já chegam de fábrica sabendo que comida com cheiro ruim não deve ser comida, por exemplo. Esse desconhecimento faz com que elas tenham um olhar para o mundo até certo ponto “científico”. É o mesmo olhar do cientista e do filósofo: Por que chove? Por que temos o dia e a noite? Se uma árvore cai numa floresta e ninguém está lá para ouvir, ela faz barulho mesmo assim? De onde vêm os bebês? Aos poucos, nós, os adultos, vamos oferecendo respostas para essas questões, de acordo com a idade em que a criança está. Para a última questão respondemos coisas do tipo “a cegonha traz” ou “o papai colocou uma sementinha na mamãe”. Para algumas coisas, preferimos respostas fantásticas. Preferimos responder que existe um cara lá em cima que decide algumas coisas. Ele nos pune se formos maus e desobedientes. Ele nos ajuda a conseguir dinheiro, saúde, amor e felicidade se formos bons, irmos à igreja e pagarmos o dízimo. É evidente que apelamos cada vez menos a deus. No nosso estágio de desenvolvimento científico, dificilmente algum cidadão, por menos instruído que seja, escolherá ficar rezando a fazer quimioterapia em caso de diagnóstico de câncer. Também não duvido que isso ocorra em um país como o nosso e em outros parecidos. Em todo caso, por segurança, vemos as pessoas fazendo as duas coisas, rezando e tomando remédios.

iwantobelieveDe qualquer forma, penso que deveríamos todos ter um lado Mulder e outro Scully. No seriado Arquivo-X, Mulder e Scully são agentes do FBI que cuidam de casos aparentemente misteriosos e inexplicáveis. Mulder acredita piamente (ó uma palavra religiosa aí) que existem extraterrestres entre nós e que há uma conspiração no governo americano para encobrir isso. Scully duvida de Mulder, e o auxilia nas suas investigações. Algumas vezes ela tem que admitir que há coisas que parecem não ter uma explicação lógica. Em outras, ela consegue mostrar para o Mulder que as coisas não são tão fantásticas assim. E pra usar mais um exemplo da cultura pop, vou apelar para a série Cosmos, originalmente escrita e apresentada por Carl Sagan lá nos anos 80. Agora ela veio repaginada e apresentada por um discípulo de Sagan, o astrofísico Neil Tyson de Grasse. O propósito do seriado é nos explicar como não apenas como o mundo funciona, mas como nos encaixamos nesse grande espaço, ou Cosmos. Ao longo dos episódios a série tem apresentado as ideias de filósofos da antiguidade e contemporâneos que nos ajudaram a entender como o universo funciona. Só chegamos a esse estágio de conhecimento porque em algum momento da história algum indivíduo parou para olhar o mundo à sua volta e começou a se perguntar como aquilo funcionava e ao mesmo tempo, começou a duvidar das explicações fantásticas que lhe eram fornecidas.

Curiosamente, alguns americanos têm reivindicado espaço para também expor a sua visão da criação (deem uma olha aqui). A evolução é um fato, não uma teoria, como diz Neil em um dos episódios da série. Não é uma questão de acreditar ou não. Nós e os outros primatas descendemos de um ancestral comum (não somos descendentes dos macacos, como costumam dizer equivocadamente). Isso é um fato, assim como a água ferve quando atinge a temperatura de 100° Celsius. E que independe de acreditarmos nisso ou não. E por que é que preferimos acreditar no fantástico quando tudo nos leva a crer que a versão fantástica está errada? Por que Grug preferia acreditar que ficar na caverna era mais seguro quando o mundo desabava ao seu redor? Talvez por ser mais seguro psicologicamente. É mais fácil ter certezas do que não ter respostas.

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