Reality-show

Francis Bacon, Study for Crouching Nude, 1952.

Caio espiava a movimentação a poucos metros de distância. O shopping estava povoado. Uma centena de pessoas se acumulava na abertura do cercadinho, que delimitava a ilha no hall de eventos, e no seu entorno. Com braços esticados tiravam fotos. Riam. Como ela era mais linda ainda ao vivo, diziam. Algumas mulheres viam celulites nas suas coxas. Caio, mão no bolso, fingia desinteresse. Olhava a cena como se estivesse passando por ali ocasionalmente e havia parado para ver o que acontecia. Estava ali por ela. Fabiana Andrade, campeã do maior reality show do país. Ele tentou aproximar-se, mas a quantidade de pessoas parecia ter aumentado nos últimos quinze minutos em que ele esteve observando. Os seguranças do shopping pareciam preocupados. Todos queriam tirar foto com ela. As adolescentes soltavam gritinhos em júbilo, explodindo em sorrisos, como se se deparassem com alguém com propriedades divinas. Homens faziam caras e bocas e cutucavam-se.

Ele acordou com aquela imagem na cabeça. O sonho era uma mistura indistinta de imagens em preto-e-branco, e ela ali, plana e colorida, na paisagem em tons de cinza da cena. Onde ele estava? O que fazia lá? Quem ela era? Acordou. Havia sonhado com uma mulher que não conhecia. E isso era novo. Normalmente sonhava com as colegas de trabalho, com a namorada, com a Jennifer Connely, com conhecidas por quem tinha alguma atração que não durava mais do que uma semana. Não eram sonhos sexuais, como temia a namorada ciumenta, que se pudesse, o proibiria de sonhar com outras.

Ela trajava um vestido tomara-que-caia tubinho, branco, que terminava na metade das coxas e cobria os seios, deixando o colo alvo totalmente exposto, não fosse por um colar dourado discreto, com um golfinho como pingente. Fazia poses, para as fotos e trajava um sorriso escancarado e rijo, como uma máscara. Ele teve a impressão de que aquele sorriso já lhe pesava nas mandíbulas.

Nunca gostara dessas loironas. Admitia que eram bonitas, claro. Não havia como negar um fato. Loironas daquele calibre eram deslumbrantes. Pareciam ter o corpo esculpido em horas e horas de exercícios em aparelhos com nomes esquisitos na academia, litros de shakes de proteína, quilos de cremes anticelulite, e alguns mililitros de silicone. Olhando de fora, Fabiana era o clichê da maria-chuteira, da esposa de pagodeiro, da mulher capa da Sexy ou da Playboy. Não sabia em que espécie de lugar mulheres desse tipo trabalhavam, já que elas pareciam uma subespécie humana que estaria acima de qualquer atividade manual comum. Como é que se conversava com uma mulher dessas? Não sabia, não tinha sequer ideia. No curso de letras conhecera apenas mulheres normais e bichos-grilo. O que diabos ele fazia ali?

Caio conferiu a hora no relógio do celular. Ainda poderia dormir mais trinta minutos. Com a bexiga cheia levantou-se. Flagrou a própria imagem no espelho. Quem era aquela mulher? Tinha uma impressão absurda de tê-la conhecido, de que a tinha visto em algum lugar. Mas não sabia onde. Deitou-se novamente. Lembrou-se de Henrieta. Conheceu Henrieta através de um blogue indicado por um amigo. Ela tinha um blogue intitulado Solteira convicta em que narrava as suas aventuras amorosas na grande São Paulo. Como era bem humorada, ria dos coxinhas e das trapalhadas dos manés na cama. Caio acompanhava as atualizações. A mulher não tinha pudores em expor a sua intimidade. Poupava os homens substituindo os nomes deles pelas suas profissões. Não poderia ser Henrieta. Tinha visto a entrevista dela para um portal de notícias. Seu blog fora motivo de reportagem na Folha e ela fora entrevistada para o UOL. Ela tinha uma beleza clássica. Ele comentava algumas vezes no blogue. A imagem dela ficara algumas semanas em sua mente. Pegou-se no trânsito escrevendo-lhe mentalmente um e-mail. Ao chegar em casa, viu a foto da namorada sobre a escrivaninha. Desistiu. Márcia era linda. Era um idiota se fizesse aquilo. Ela o amava. Fez com que ele lesse Por que os homens não cortam as unhas dos pés? da Stella Florence. Depois disso, todo o feminismo ficou claro para ele. Embora, ele admitisse, não cortasse as unhas dos pés com a frequência que Márcia desejava. Quem era aquela mulher? Ela poderia ter um nome desses, como Henrietta, Carmen, Vanessa. Nomes fortes, que mulheres fortes portavam. Mulheres que entravam nos lugares com o peito estufado, a pose ereta, o nariz mostrando o caminho.

Ele estava no supermercado. Parecia ter pego a fila errada. Todas as filas pareciam erradas. Lembrou de Harvey Pekar, “Ordinary life is pretty complex stuff”, dizia ele, na sua simplicidade genial; o que lhe levou, como um hiperlink, a David Foster Wallace e aquela palestra memorável. Estar na fila do supermercado poderia ser visto como algo diferente. Caramba! A ideia era boa. Mas a realidade era que aquelas pessoas todas estavam entre ele e o caixa e ele apenas queria chegar logo em casa, tomar uma cerveja e ver um seriado qualquer, esperando despejar o cansaço no sofá macio e caro que havia comprado em longas dez prestações. Havia mulheres bonitas em outras filas. Mas sempre que olhava para as outras mulheres sentia o olhar da namorada sobre o ombro, beliscando sua consciência. Media-se e tornava a contemplar a paisagem, indiferente à beleza da universitária hipster com seus produtos orgânicos, sua tatuagem dos Beatles na panturrilha (era capa de Help!). Desviou o olhar para as revistas no mostruário antes do caixa. Ali estava ela, de corpo inteiro na capa de uma daquelas revistas femininas. Fabiana Andrade: tudo sobre a mulher do ano. O título da matéria era forte. A vontade de comprar a revista para ler a reportagem passou por sua mente por um instante. Não. Claro que não. Anotou mentalmente: procurar online a matéria.

Chegou em casa e googlou: “fabiana andrade + revista maria clara”. Clicou no terceiro link. A matéria toda estava disponível para leitura. Na medida em que ia lendo palavras-chave negritavam-se aos seus olhos: escola pública, Campinas, cursou história na Unicamp – por dois anos, até que trocou por nutrição, uma decepção; oquei ela não poderia ser perfeita – The Clash, feminista, não nutre crenças religiosas… inacreditável. Errou por outros links. Chamadas de revistas e blogues de fofoca, noticiando sua presença em eventos. Encontrou um que noticiava sua presença em um shopping de Porto Alegre, promoção de uma marca de shampoos.

Mentiu para a namorada que iria ao shopping comprar um livro. Felizmente ela tinha um compromisso e não foi junto. Ele não conseguia parar de olhar para ela. Lábios grossos, batom discreto, um rosa de tom claro. Pegou-se na fila. Entre pessoas que riam e comentavam detalhes da sua aparência. Um casal na sua frente discutia se ela tinha ou não silicone. “Tem sim!”, disse a garota, eu li na internet. Caio estava com o papel quente no bolso. Telefone, nome e e-mail. Ensaiara mentalmente uma frase de impacto, que a deixasse intrigada, que mexesse com ela, que fizesse com que ela se interrogasse sobre aquele homem misterioso e encantador. A quem ele queria enganar? Ele não era nada disso, não era charmoso, não tinha traços faciais de galã de novela das oito, daqueles rostos quadrados, de homens fortes como o Geoge Clooney ou o Javier Bardem. Estava mais para Andrew Brody, com seu físico de doutorando em teoria literária. Então sentiu-se terrivelmente estúpido. A fila deu mais um passo e suas bochechas esquentaram.

Como estava sozinho pediu para a jovem que estava atrás dele tirar a foto com o celular. Aproximou-se, o olhar dos seguranças sobre os seus gestos. Colocou a mão nas costas dela. Sentiu o perfume, amoras, tocando-lhe as narinas e despertando dentro dele a vontade de cravar os dentes naquela pele. Tocou o lombo dela. Era fresco, macio. Uma penugem loira cobria o antebraço, fino e rolicinho. A mão no bolso tateou o papel. O flash o cegou. “Obrigado, querido.” ela disse, na sua voz potente e rouca. “Eu é que agradeço.”, ele sussurrou. E saiu.

 

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