Fazer amor

Escrevendo um texto me peguei usando a expressão “fazer falta” e numa espécie de epifania, que nada mais é do que a intuição de um linguista treinado, comecei a pensar mais detidamente sobre ela. Daí me encontrei com “fazer amor” e essas duas expressões, de estruturas similares [fazer SN] possuem propriedades lexicais distintas, que mostram muito sobre como conceptualizamos as duas coisas.

Veja que a pessoa que ‘falta’ de fato nada ‘faz’, é justamente a ausência do fazer que dá concretude à expressão. No texto que escrevia, eu falava sobre o quanto a minha falecida mãe fazia falta na vida da nossa família. E é aí que vejo a beleza da coisa, a ausência de um ente querido que mesmo não estando mais entre nós é capaz de “fazer alguma coisa”, mas cuja ausência é sentida, simplesmente, pelo que ela deixa de fazer, que é estar entre nós. “Minha mãe faz falta” então se revela uma dessas expressões que negam a relação entre as palavras e as coisas do mundo, já que ao sujeito da oração é atribuído um predicado de estado, embora o núcleo da expressão seja o “fazer”. É impossível proferir: Faça falta!

“Fazer amor”, por sua vez, possui um grau de agentividade que é nula no caso de “fazer falta”. Eu já andava ruminando sobre o “fazer falta” e quando ouvi a fala do personagem do Joseph Gordon-Levitt em Don Jon, que era sobre como ele havia descoberto a diferença entre fazer sexo e fazer amor, percebi a semelhança estrutural entre as expressões, e a diferença conceptual/temática entre elas. E me flagrei vendo a inevitável iconicidade que há na expressão (embora eu seja um saussureano, não nego que existam expressões icônicas), essa relação linda de causa entre as palavras e as coisas. “Fazer amor” envolve transitividade “fazer amor com”; ninguém faz amor sozinho (claro, a masturbação é egoísta, e pode ser vista como uma forma de alguém fazer amor consigo mesmo, embora não prescinda do outro, mesmo que fantasiado). Quem ‘faz o amor’ é o ato em si. E veja a relação de diferença com as outras expressões: “fazer sexo, comer, transar com, foder, trepar com”… talvez “fazer sexo”, “trepar” e “transar” venham carregado com um grau de parceria (e conotam relações transitórias: é possível trepar com quem se ama?), mas a palavra “amor” na locução traz toda uma carga de simbolismo que “sexo” não traz. “Sexo é biologia” são corpos cumprindo a missão de conceder desejos mútuos. Já o “amor” é construção coletiva, é encontro de almas, é sinergia, e é uma coisa que se faz a dois! Comer é vulgar até na sua estrutura argumental. Aquele que é comido é paciente da ação (mesmo que possamos brincar dizendo que quem tem a boca é a mulher, e quem ‘come’, na verdade, é ela). E essa agentividade toda se revela na possibilidade do uso da expressão no imperativo: Faça amor comigo!

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