O inimigo

O inimigo está lá fora, de butuca, prestes a lhe atacar a qualquer momento. Quando saiu do condomínio de grades altas e cerca elétrica, onde se esconde do inimigo (ele acha que se tranca, mas na verdade está cercado por eles), entrou à direita na avenida, mas sua lentidão obrigou o bmw que vinha atrás a diminuir a velocidade e a afundar a mão na buzina. Ele afundou a mão na buzina também. Começou o duelo.

O bmw o perseguiu por alguns metros, mas teve que virar. Perdem-se de vista. Melhor assim. Temia que ele parasse ao seu lado e lhe apontasse uma arma ou o dedo do meio. Não poderia deixar isso assim. Não é homem de levar desaforo pra casa nem de engolir sapo. Por que o desgraçado não podia ter diminuído a velocidade?

Sua viagem até o trabalho seguiu, juntamente com os outros carros. Todos inimigos. Todos lutando por um espaço na avenida de quatro pistas, que parecia pequena para tantos automóveis. Uns seguiam o seu caminho a 50 km/h outros a 60km/h outros passariam por cima desses, se pudessem. Taxis e ônibus, sempre com pressa, passariam por cima dos outros carros se pudessem; os outros são inimigos, são lentos, são barbeiros, atrapalham o trânsito.

E o fluxo seguia, agora um pouco lento. Algum barbeiro devia ter batido na traseira de outro barbeiro que andava devagar, só pode ser. Um motociclista cortou a frente de um gol bola para fazer uma conversão proibida. Buzinaram-se. É uma mudança relativamente recente no tráfego da região, há quatro meses duas placas enormes avisam que é proibido virar à direita ali. Talvez o motociclista não tenha visto. Um corsa também fez a conversão proibida. Outro que não viu a placa.

A parada no sinal é como a largada de uma corrida. Os taxistas e motociclistas a queimaram. Sempre. Partiram quando notaram que amarelou no outro sinal. Os detrás, cautelosos, mas também com pressa, esperaram com a primeira engatada, o carro já levemente deslocando-se, esperando que a coleira seja solta. Quando finalmente o verde se acende, buzinas soam em coro ao fundo. Secretamente todos desejam que aqueles que estão na frente sumam logo, estão lhes atrasando.

Enfim ele chegou ao trabalho. Carros, carros e carros. Já ao passar o portão, onde o guarda olhava para todos com desconfiança, uma outra pequena corrida se inicia. Alguém sempre está atrasado e precisa se apressar para achar uma vaga, iniciar a sua tarefa, ou chegar mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada. Onde estacionar? Ele percorreu o estacionamento da empresa, que parece encolher a cada semana. Dez minutos depois uma vaga apareceu, milagrosa, mas… é estreita. Tanto o da direita como o da esquerda estacionaram não se preocupando em colocar o carro no centro da vaga. Com algumas manobras o carro entra, mas ele mal tem espaço para sair. Espreme-se e sai. Livre, enfim.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s