A morte da máquina de escrever

Eu sempre gostei daquelas máquinas. Cheias de letras e símbolos. Um deles, o §, era um mistério indecifrável para mim. Eu gostava até do barulhinho de tlac-tlac-tlac que elas faziam. Era uma coisa que me dava quando eu passava por uma delas. Eu tinha que apertar uma tecla qualquer só pra ouvir o som do braço subindo e estalando na roldana emborrachada. Na tipografia do meu tio, em São Miguel do Oeste (SC) onde eu trabalhava fazendo de tudo um pouco e aprendi rudimentos de tipografia, tinha uma Olivetti, Linea 98, cinza, um clássico dos anos 90, com fita de duas cores, preto-e-vermelho. Tinha também uma Lettera 82, portátil, verde anos 70. Nessa a tia deixava eu e meus primos brincarem de vez em quando, datilografando qualquer coisa, catando milho, como se dizia, batendo nas teclas apenas com os indicadores. Eu nunca fui de falar muito, mas eu queria escrever naquelas coisas, o que quer que fosse.

Uns dois anos depois disso, em 1995 ou 1996, quando eu estava com catorze anos, minha mãe me matriculou num curso de datilografia no Senac de União da Vitória (PR). Minha irmã tinha feito o curso também. Naquele tempo, tínhamos que fazer as coisas cada um por vez, a grana era curta. Eu não tenho o certificado do curso porque não terminei de pagar. Quando enfim consegui o dinheiro para pegar o diploma, um ano depois, o Senac havia fechado. De repente ficou inútil fazer datilografia. Acho que fiz parte da última turma.

Na sala do curso, na antiga estação ferroviária, havia umas vinte máquinas, todas daquele modelo anos 90 da Olivetti, dispostas sobre mesinhas com abas (um móvel de escritório que também deve ter desaparecido), como se fossem pequenos aviões. E eu iria aprender a pilotar uma daquelas coisas. Eu já tinha visto uma gravura no colégio, que tinha um curso técnico-médio de contabilidade, no qual os alunos tinham aulas de datilografia. A gravura mostrava os dedos das duas mãos, cada uma com uma cor diferente, e as teclas da máquina pintadas com as cores dos dedos. Na sala de aula havia uma gravura dessas, e a professora nos deu uma cópia do esquema. No primeiro dia, datilografamos por uma hora e meia asdfg çlkjh pra treinar a relação dedo-tecla. Acabara a fase de catar milho, agora cada dedo possuía uma função, inclusive o dedão, reservado para apertar a tecla de espaço. Mesmo o minguinho, esse fracote inútil, tinha uma função que demandava força, apertar a tecla de elevação do teclado, que transformava as letras minúsculas em maiúsculas, a caixa alta (uma expressão que veio da tipografia: os tipos móveis eram guardados em gavetas, cuja metade superior, a caixa alta, era reservada para se guardar os tipos maiúsculos), e as funções secundárias das outras teclas; exatamente como nos teclados de computador hoje em dia. A professora nos ensinou a fazer um breve alongamento dos braços, dos pulsos e das mãos, antes e depois da aula, recomendando que nos acostumássemos a fazer isso no trabalho também. Pelo jeito não se dá esse tipo de dica nos cursos se informática (pela quantidade de pessoas que tenho visto com dores nos pulsos ultimamente, usando aquelas munhequeiras e outros apetrechos para aliviar dores nas articulações…). Após três meses de curso, todos éramos capazes de datilografar sem olhar para o que estava acontecendo no papel da máquina. Um bom datilógrafo, dizia a professora, olhava apenas para a folha original que estava copiando. A prova final consistiu em digitar um texto previamente dado, com um certo número de toques, em 30 minutos, e com o menor número de erros possível. O som das máquinas fazendo trim! ao chegar no final da linha era música. Jerry Lewis sabia disso (Vejam isso: http://www.youtube.com/watch?v=2ozd6W1wyzo reparem no que ele fez antes de começar a datilografar e na cabeça da secretária).

Por volta de 1997, meu irmão mais velho apareceu lá em casa com uma Remington, modelo Sperry Rand, caramelo, pesadíssima, com aquela testa alta que as Remingtons clássicas tinham. Era um design todo estiloso, cheio de curvas, nada daquele riscado minimalista e sem sal que veio depois nos anos 80 e 90. Tinha até um botão para ajustar o peso das teclas, para deixá-las suaves ou mais pesadas, exigindo mais ou menos força. Ela estava com um defeitinho. Ao chegar no final da linha, apertava-se a alavanca para que a linha fosse pulada e se voltasse ao início, mas ela pulava duas linhas, ao invés de uma (independentemente de que o espaço fosse simples, um e meio ou duplo), o que te obrigava a girar manualmente a roldana para que ela se ajustasse à linha devida. Sei lá porque ele levou a máquina, que era do sogro dele, lá pra casa. Eu gostei, claro. Digitei meus primeiros poemas, cópias descaradas de Dante e Fernando Pessoa naquela máquina.

Em 1998 eu entrei na faculdade, e uma das disciplinas do primeiro ano era Metodologia do Trabalho Científico. Fiz um projeto de monografia sobre Machado de Assis. Lembro de ter lido um bocado de coisa sobre ele, principalmente biografias (eu mal tinha 18 anos, o que vocês queriam, que eu fosse ler direto o Roberto Schwarz?). Apaixonei-me por ele principalmente porque a leitura de Quincas Borba e Memórias Póstumas, que eu fizera nesse ano, foram extremamente inquietantes. De alguma forma aquilo tudo tinha mexido comigo, devia ser o pessimismo. Eu já andava tomando Fernando Pessoa na veia, principalmente o Álvaro de Campos, e me embebi daquela melancolia do Brás Cubas. E o Machadinho tinha sido um tipógrafo, profissão que eu exercia nesse primeiro ano da faculdade. Passei alguma madrugada datilografando o projeto (eu trabalhava o dia todo, e estudava à noite). O tlac-tlac fazia coro com o ronco do meu pai. Por isso a mãe só ia pedir pra eu ir dormir lá pelas duas da manhã, quando ele já tinha parado de roncar e o barulho das teclas ecoavam na casa toda. Esse foi o último trabalho de fôlego que eu datilografei na vida (deveria ter no máximo umas 20 páginas em espaço um-e-meio, meia dúzia de obras consultadas, se isso).

Ainda nesse ano surgiu o Napster. O Caio Ricardo, numa noite depois da aula, convidou eu e o Gerson para irmos até a casa dele conhecer a novidade. Eu tinha ouvido alguma coisa na televisão, porque foi um rebuliço enorme aquilo. A internet mal tinha chegado na casa das pessoas, e um sujeito já tinha inventado um jeito de permitir que as pessoas compartilhassem arquivos de música através de um formato de arquivo novo, o mp3. Pra baixar uma música demorava um tempão, e era impossível movimentá-la depois, já que aqueles disquetes clássicos de 3.5 polegadas só tinham 1.44mb de memória. Blowin’ in the wind do Bob Dylan tem 3.2mb (na versão que eu tenho aqui), para vocês terem uma ideia. Chegamos lá e ele conectou o computador. Digitou o login e a senha. Surgiu na tela um computadorzinho ligado a uma linha e um barulhinho esquisito soou. O computador fez o barulho que os telefones fazem quando se disca um número e de repente alguma coisa se perdeu no caminho, e era como se ele tivesse sido possuído por um robô com uma voz metálica que estivesse gripado. Quando o barulho parou e o ícone começou a piscar na linha da barra de tarefas do Windows, era sinal de que se estava conectado. Ele abriu a página do UOL, mostrou a página com estações de rádio, que permitia que você pudesse montar a sua própria programação, com suas canções preferidas. E o mais legal: o bate-papo, ou o chat.

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