A escrita criativa

Li dois ensaios na Serrote 13 sobre escrita criativa, “O segredinho inconfessável da América” de F. Jameson e “Processos infalíveis” de K. Goldsmith. O primeiro critica esse papo todo dos cursos de escrita criativa de “achar a sua própria voz” e clichês do gênero, e se baseia em um livro chamado “The program era: postwar fiction and the rise of creative writing”; enquanto o segundo fala que a literatura tem posturas criativas muito diferentes de outras artes, das quais poderia se beneficiar, e pega o caso de Andy Warhol como exemplo.

Não sei que curso de escrita criativa o Jameson frequentou, mas na oficina do Assis Brasil ainda não ouvi dicas do tipo “escreva sobre o que você sabe”, “não diga, mostre” e “encontre sua própria voz”, na verdade, a única dica real é “escreva”. Claro que a cena americana é outra, e é bem provável que o único curso de escrita literária, longo e bem sucedido, do Brasil é o do Assis, o que pode explicar o sucesso dos seus alunos. Todos os anos saem dali pelo menos vinte escritores com formação teórica e prática. A quantidade deve fazer alguma diferença também. No caso americano o problema seja outro. Lá a vida de escritor pode ser muito mais profissional e que não se prende apenas à escrita de ficção na forma de romance; há empregos para roteiristas no cinema e na televisão, por exemplo, coisa que por esses lados ainda engatinha.  Além disso, há todo um público consumidor por obras populares. Os americanos leem muito. Muito lixo, dirão alguns, mas leem. O livro circula. Sejam livros da Nora Roberts ou do Kafka.

O que isso tem a ver com processo criativo? Muito, creio, pois revela a capacidade de os escritores produzirem coisas pelas quais o público se interessa, sem se repetir. O sucesso se séries de fantasia não é por acaso. Séries para o público adulto, idem. A literatura pós-moderna pode ter se encarcerado numa bolha de metalinguagem. Não se fazem mais romances “sérios” apenas para se contar uma história, é preciso fazer uma história que fale sobre o próprio ato de contar uma história. Recentemente li o Juventude do Coetzee e havia uma nota explicativa dizendo que o livro era ficcional. Claro que o livro é inspirado na juventude do autor, mas o ato de colocar essa nota explicativa parte do pressuposto que as pessoas não lerão o livro como ficção se forem levadas a crer que o livro é baseado em fatos reais. Grande engodo. O inverso, filmes ou livro “baseados em fatos reais” são tão ficcionais quanto um livro de ficção que se baseia na realidade e se assume ficção. Esse quer falsificar a realidade o segundo a falsifica com a pretensão de capturá-la, e os dois falham miseravelmente. Poderíamos fazer um experimento mental. Dar um livro de cada tipo para um grupo de leitores, sem qualquer informação adicional sobre a origem dos fatos (se reais ou ficcionais), que diferença isso faria? O livro seria melhor, mais crível, mais verossimilhante, mais interessante se antes da leitura se soubesse de onde surgiu aquilo? Acho que não.

Uma escultura, uma pintura é um objeto para ser contemplado em público, em conjunto, e na maioria das vezes faz isso mesmo, desloca objetos dos seus usos comuns e os coloca em situações inusitadas para que possamos olhá-los por outro ângulo. No fundo é isso que a literatura faz, mas ela é essencialmente uma experiência íntima, dificilmente fruída em conjunto. Acho que todo livro que precisa de outro livro que o explique fracassou enquanto obra. Isso talvez seja válido para a arte em geral, em que cada vez mais precisamos que o guia do museu nos explique o que estamos vendo. Mas eu seriamente duvido que um dia chegaremos a esse ponto.

Também ouvi certa vez alguém dizer que Picasso poderia pintar como Monet ou Cezanne se quisesse. Joyce poderia escrever narrativas comuns, como fez em “Dublinenses”. Mas por que ele escreveu “Ulisses” ou “Fineggans Wake”? Outra citação de ouvido disse-me certa vez que a nossa vida não interessa a ninguém. Penso se tivessem dito isso ao Proust… Claro que provavelmente precisemos comer ainda muito arroz e feijão ou aprender a bater um escanteio direito como dizia o Nelson Rodrigues. Mas esse tipo de coisa a gente só consegue com conhecimento formal (construção de personagem, foco narrativo, noções de envolvimento do leitor, uso de descrição etc.). Ninguém fala mal de pianistas que vão estudar em conservatórios; de pintores e escultores que vão fazer cursos em institutos de artes por aí afora. Qual é o problema de um pretenso escritor fazer um curso de escrita criativa para aprender algumas coisinhas?

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